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terça-feira, dezembro 30, 2008

Será feita de aves......

(Picasso)
Será feita de aves a primeira sensação da manhã
ser-nos-ão concedidos os dons do voo e do sonho permanente
juntos descobriremos a fonte do nocturno bosque
e a sabedoria do estritamente necessário
despojar-nos-emos dos corpos
dos objectos acumulados na memória

do sonho e do ouro utópico chegará a metamorfose
o tempo será rigorosamente prolongado a cada enxertia dos pomares
da mesma árvore derramar-se-ão frutos diferentes
quando os dias se tornarem mais nítidos

o regresso é demorado
avança manhã adiante
com o crescimento das mãos e da sageza.

(Al Berto- Vigílias)

domingo, dezembro 28, 2008

Ele é um dos eternos mensageiros...


(Munch)

Celebrar, sim! Eleito a celebrar
surgiu como o minério do silêncio
da pedra. Ó coração, mortal lagar
de um vinho inesgotável para os homens.

A nenhum pó a sua voz falhou
se o exemplo divino dele se apossa
Tudo se faz vinhedo e se faz uva
amadurada no seu Sul sensível.

Nem nas criptas dos reis a podridão
poderá desmentir seu celebrar,
ou sombra que dos deuses caír possa.

Ele é um dos eternos mensageiros
que ainda pra lá dos umbrais dos mortos
erguem taças de frutos gloriosos.

(Rainer Maria Rilke-Sonetos a Orfeu)

Bach. Cantata BWV 147. 1

O ser humano não se compadece com os males a que não assiste

(Escher)
XV Uma civilização de compartimentos estanques

(...)
Oscar Wilde escreveu em qualquer parte que o pior crime é a falta de imaginação: o ser humano não se compadece com os males que não experimenta directamente ou a que não assiste. Pensei muitas vezes que as carruagens blindadas e os muros bem construídos dos campos de concentração asseguraram a extensão e a duração dos crimes contra a humanidade, que teriam acabado bem mais cedo se tivessem sido efectuados ao ar livre e à vista de todos. O hábito, nas praças públicas da Idade Média e do Grande Século, entorpecia talvez certos espectadores; mas sempre restavam alguns para se comoverem, ou até para protestar, e o seu murmúrio acabou por ser ouvido. Os executantes de tais obras hoje em dia são mais cuidadosos nas suas precauções.(...)

(Marguerite Yourcenar-1972-O Tempo esse grande escultor)

sábado, dezembro 27, 2008

Da consciência-perdoem-me- mas desconfio...

(Magritte)

ESPERAR O INESPERADO

Esperar o inesperado é uma expectativa que se abre sem limites definidos, sem trajectória, sem apostar seja no que for. A esperança não tem nada a ver com este exercício permanente de disponibilidade. Nem, propriamente, a surpresa. Esperança e surpresa estão demasiado contaminadas de humano para poderem participar nesta disponibilidade para o que vier de um lá que nem sabemos onde se situa, onde terá vigência. E, no entanto, a busca do inesperado impõe-se, não pode reduzir-se àquela expectativa que eu tentei traduzir num texto poético: «Amadonada vitralesca, a Noiva do Bairro morreu de doce expectoração à janela.» Foi Heraclito quem muito bem formulou essa imposição: «Se não buscas o inesperado não o encontrarás, que é penoso e difícil encontrá-lo.» Portanto, não esperar mas buscar, o que implica, por parte do agente, um moto próprio. E como buscar o inesperado, ir ao encontro dele, conseguir que ele aceda a nós? Praticando uma estratégia, por assim dizer, do vazio? Não ter e não esperar nada para buscar tudo? Estar aberto, vácuo, livre? Aceitar o que nos chega como se de inesperado sempre se tratasse? Explorar o chamado acaso objectivo, essa forma de manifestação da necessidade exterior que abre um caminho até ao inconsciente humano, como alguém o definiu?
Usando de um prudente relativismo, penso que todas estas interrogações se podem reduzir a uma: que fazer do desejo?
Hoje a maioria de nós vive presa a formas martelantes de vida ( família, trabalho, consumo, cultura), como preservar o nosso desejo naquilo que ele tem de mais imperativo? Porque é através desse potente motor que nós, para nos salvarmos da rotina no que ela tem de mortal, poderemos avançar para mais liberdade.

Da consciência-perdoem-me-mas desconfio. Ela está tão ocidentalmente conformada que não raro, se confunde com a culpa, o remorso, a espiação ou então, com a vaidade, o orgulho, a prepotência. Através do desejo, poderemos buscar o inesperado e encontrá-lo. Parece-me ser a única forma autêntica de libertação. Mas que, nestas filosofâncias, fique bem claro que, quando penso em desejo, não estou a pensar em termos exclusivamente sexuais. O desejo é mais que o apetite. É como o amor: uma forma de sexualidade alargada. Não há comportamento humano que lhe escape.

(Alexandre O'Neill- Uma coisa em forma de assim)

sexta-feira, dezembro 26, 2008

Agora sim...agora não....Os Deolinda




 Estou deliciada com este disco. Se ainda não o conhecem não percam a oportunidade. Um grupo, radicalmente original, capaz de inovar no plano musical/instrumental e no plano da letra. Esta canção caracteriza, genialmente, a nossa resistência à mudança.

quinta-feira, dezembro 25, 2008

quarta-feira, dezembro 24, 2008

Hoje é Noite de Natal

(Aguarelas de Turner)

Esta noite a lareira vai estar sempre acesa. Se a família tem o seu lugar cativo, os amigos, qualquer que seja a hora, podem sempre entrar... Sei que também estão à volta da mesa, que os risos se redobram no reencontro com os imprescindíveis bacalhau e couves, que só neste jantar especial sabem tão bem. Mas se lá pela madrugada ou no acordar da manhã quiserem dar aqui uma saltada (ainda que virtual) vão encontrar por aqui as brasas que nunca deixaram de ser atiçadas para vos receber. E agora uma palavra especial para o meu querido mano, que já não sei há quantos anos, foi recriar a magia do outro lado do Oceano. Sentimos sempre a tua falta!

terça-feira, dezembro 23, 2008

A pena não acode ao gesto seu...


Soneto de natal

Um homem, — era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno, —
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto . . . A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
"Mudaria o Natal ou mudei eu?"

(Machado de Assis)

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Não podemos ignorar...

(Henri Rousseau)

Cantata da Paz


Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar

Vemos, ouvimos e lemos
Relatórios da fome
O caminho da injustiça
A linguagem do terror

A bomba de Hiroshima
Vergonha de nós todos
Reduziu a cinzas
A carne das crianças

D'África e Vietname
Sobe a lamentação
Dos povos destruídos
Dos povos destroçados

Nada pode apagar
O concerto dos gritos
O nosso tempo é
Pecado organizado.

(Sophia de Mello Breyner Andersen)

domingo, dezembro 21, 2008

quinta-feira, dezembro 18, 2008

Nada do que é convencional...


Esta árvore foi encontrada acidentalmente numa missão abandonada e semi-destruida pela guerra e pelo abandono dos homens - MISSÃO DE BOROMA- perto de Tete. Achei-a como quem acha um tesouro. Olhei-a e, ainda hoje a olho, como símbolo da vitória da vida sobre a morte. É esta,pois, a Árvore de Natal que trago para todos.(19/12/2005-Addiragram)


Não há pinheiros nem há neve,

Nada do que é convencional,

Nada daquilo que se escreve

Ou que se diz... Mas é Natal.

Que ar abafado! A chuva banha

A terra, morna e vertical.

Plantas da flora mais estranha,

Aves da fauna tropical.

Nem luz, nem cores, nem lembranças

Da hora única e imortal.

Somente o riso das crianças

Que em toda a parte é sempre igual.

Não há pastores nem ovelhas,

Nada do que é tradicional.

As orações, porém, são velhas

E a noite é Noite de Natal.


(Cabral do Nascimento)



quarta-feira, dezembro 17, 2008

Se fosses mágico...

(Eastman)

Versos de Natal

Espelho, amigo verdadeiro,
Tu reflectes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exacto e minucioso,
Obrigado, obrigado!

Mas se fosses mágico,
Penetrarias até ao fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera do Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.

Manuel Bandeira ( Lira dos cinquent' anos)


terça-feira, dezembro 16, 2008

Conta uma história de Natal do teu país...


(Les Halles-vista de noite)
(....)
Mais tarde, muito mais tarde, eu estava no exílio. Na noite de Natal os revolucionários ficavam tristes e nostálgicos. Talvez recordassem outras avós, outros presépios, outros lugares. Reuniam-se em casa deste ou daquele, improvisava-se uma árvore de Natal, trocavam-se presentes. Mas ninguém, nem mesmo os mais duros, os que faziam gala em dizer que o Natal para eles não significava nada, nem mesmo esses conseguiam disfarçar uma sombra no olhar. Saudade, dir-se-á. Mas talvez fosse mais do que saudade e solidão e o pior de todos os exílios que é o de se sentir estrangeiro no mundo. Talvez fosse a consciência de que, para lá de todas as crenças ou não crenças, havia um irremediável sentimento de perda. Muitas vezes me perguntei o que seria. Mas não conseguia responder. Sentia o mesmo aperto, o mesmo buraco por dentro, o mesmo sentimento de algo para sempre perdido.
Uma noite de Natal, em Paris, eu estava sozinho. Comprei uma garrafa de vinho do Porto, mas não fui capaz de bebê-la assim, completamente só, num quarto de criada de um sexto andar numa velha rua do Quartier Latin. Peguei na garrafa e fui até aos Halles. Procurei o bistrot onde costumava comer uma omelete de fiambre. Felizmente estava aberto. Pedi a omelete e abri a garrafa. Havia mais três solitários no bistrot, um velho de grandes barbas, um tipo com cara de eslavo, um africano. Convidei-os para partilharem comigo a garrafa de Porto, que não resistiu muito tempo. Encomendámos outras bebidas.
- Conta uma história de Natal do teu país, pediu o velho.
- Só se for a do presépio da minha avó.
- Então conta.
Eu contei. Era já muito tarde e o patrão disse-nos que queria fechar. Chegados à rua o africano apontou o céu e disse-me: Olha.
E eu vi. Uma estrela que brilhava mais que as outras estrelas. Era uma estrela de prata. A estrela da avó. Brilhava no céu, brilhava outra vez dentro de mim, quase posso jurar que brilhava dentro dos outros três.
Então eu perguntei ao africano como se chamava. E ele respondeu:
- Baltazar.
Perguntei ao velho e ele disse:
- Melchior.
E sem que sequer eu lhe perguntasse o eslavo disse:
- O meu nome é Gaspar.
Era noite de Natal e talvez ainda por magia da avó eu estava na rua, em Les Halles, com os três reis do Oriente, Magos, diria o meu pai.
- E agora? perguntei a Baltazar.
- Agora, respondeu o africano apontando a estrela, agora vamos para Belém.

(Manuel Alegre)



segunda-feira, dezembro 15, 2008

Balthazar na Barbearia

(Aguarelas de Turner)
A Barbearia do Senhor Luís abriu, uma vez mais, um importante concurso neste Natal de 2008, dedicado, desta vez, a Balthazar, que merece as honras de quase primeira página. Sabemos que nenhum dos concorrentes conseguirá transpor a difícil barreira posta logo à partida:-"o-cheio-de-magia-Balthazar" trazido de tempos imemoriais e tão acarinhado pela sua progenitora. Contudo, como a vida é feita de acasos, poder-se-á dar o caso de a Sorte bafejar um dos correntes. Eis a razão porque "Aguarelas de Turner" não quis deixar de apresentar a sua obra a concurso. Ela foi realizada a partir da "prata da casa", reunindo as luzes de um Natal em Lisboa com o Balthazar, tão acarinhado pelo filhote.
"Aguarelas de Turner" apresenta votos de uma escolha lúcida, apaixonada, e independente.

(Addiragram)

Para isso fomos feitos...

(Elsheimer) http://en.wikipedia.org/wiki/Adam_Elsheimer#Life_and_work


Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos-
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos-
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai-
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte-
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos imensamente.

(Vinicius de Morais- Antologia Poética)

domingo, dezembro 14, 2008

A minha estrelinha de Natal

(Aguarelas de Turner)



Wild Child - Enya

sábado, dezembro 13, 2008

Só bonito na lembrança...

( Daumier)
Coimbra, Natal de 1974


Soa a palavra nos sinos,
E que tropel nos sentidos,
Que vendaval de emoções!
Natal de quantos meninos
Em nudez foram paridos
Num presépio de ilusões.

Natal na fraternidade
Solenemente jurada
Num contraponto em surdina.
A imagem da humanidade
Terrenamente nevada
Dum halo de luz divina.

Natal do que prometeu,
Só bonito na lembrança.
Natal que aos poucos morreu
No coração da criança,
Porque a vida aconteceu
Sem nenhuma semelhança.

(Miguel Torga- Diário XII-Antologia Poética)

sexta-feira, dezembro 12, 2008

Olho, já não vejo nada...

(Georgia O'Keefe)
Natal das Ilhas. Aonde
O prato de trigo novo,
A camélia imaculada,
o gosto no pão do povo?
Olho, já não vejo nada.
Chamo, ninguém me responde.


Natal das Ilhas. Serão
Ilhas de gente sem telha,
Jesus nascido no chão
Sobre alguma colcha velha?


Burra de cigano às palhas,
Vaca com língua de pneu,
Presépio girando em calhas
Como o eléctrico, tu e eu.


Natal das Ilhas. Já brilha
Nas ondas do mar de inverno
O menino bem lembrado,
Que trouxe da sua ilha
O gosto do peixe eterno
Em perdão do seu passado.

( Vitorino Nemésio- Antologia Poética)

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Todos estes pastores são jovens tecnocratas...


(Manet)

Em vez da consoada há um baile de máscaras
Na filial do Banco erigiu-se um Presépio
Todos estes pastores são jovens tecnocratas
que usarão dominó na próxima década


Chega o rei do petróleo a fingir de Rei Mago
Chega o rei do barulho e conserva-se mudo
enquanto se não sabe ao certo o resultado
dos que vêm sondar a reacção do público

Nas palhas do curral ocultam microfones
O lagedo em redor é de pedras da Lua
Rainhas de beleza hão-de vir de helicóptero
e é provável até que se apresentem nuas

Eis que surge no céu a estrela prometida
Mas é para apontar mais um supermercado
onde se vende pão já transformado em cinza
para que o ritual seja muito mais rápido

Assim a noite passa. E passa tão depressa
que a meia-noite em vós nem se demora um pouco
Só Jesus no entanto é que não comparece
Só Jesus afinal não quer nada convosco.

(David Mourão-Ferreira- Cancioneiro de Natal -1969)

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Mas o natal da minha mãe é ainda o meu natal

(Rei Mago de Barcelos)

A abstracção não precisa de mãe nem pai
nem tão pouco de tão tolo infante

mas o natal de minha mãe é ainda o meu natal
com restos de Beira Alta

ano após ano via surgir figura nova nesse
presépio de vaca burro banda de música


ribeiro com patos farrapos de algodão muito
musgo percorrido por ovelhas e pastores


multidão de gente judaizante estremenha pela
mão de meu pai descendo de montes contando


moedas azenhas movendo água levada pela estrela
de Belém

(João Miguel Fernandes Jorge)


Como habitualmente, dedico estes dias aos poetas e escritores que, inspirando-se no Natal, também o pensaram ou questionaram através da lente dos seus afectos.
Uma maneira de O festejar...à minha maneira.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

O meu Natal


(Aguarelas de Turner)

Não escapo ao colectivo desta época, ainda que ambicione não me deixar devorar pela fúria consumista que nos assola, e acaba por nos deprimir, naqueles derradeiros dias em que nos vemos a entrar desesperada e furiosamente na última loja para comprar o último presente...mais um, aquele que ainda faltava. Sem uma tradição católica pessoal entro neste período do ano, como quem regressa ao mágico da infância e procura continuar a recriar para filhos e netos momentos de encantamento e encontro.
Em pequena, os ruídos simulados pelos meus pais, na chegada atribulada do Pai Natal, que tinha de conseguir, antes da descida, o "milagre do emagrecimento", procurando pôr à prova a lógica infantil (mamã se o Pai Natal é tão gordo como é que consegue descer?), deixavam-me quase sem sono, e numa imensa e misteriosa alegria. As primeiras madrugadas que fiz foram seguramente estas. Corria para a chaminé da cozinha, que fora cuidadosamente preparada para este dia tão nosso, ainda a luz mal se via. Os sapatinhos, meus e do meu irmão, engraxados a preceito, lá tinham sido postos de véspera, na esperança de que as nossas cartas, escritas com antecipação bastante, dando conta do nosso bom comportamento e das nossas preocupações com a saúde do Pai Natal ( que tinha de desenvolver tão árduos esforços para continuar a assegurar a tempo e horas esta imensa distribuição) tivessem chegado ao seu destino e fossem reconhecidas como sinceras.
Essas cartas incluíam sempre o pedido de livros, jogos, brincadeiras com as bonecas, construções e, muito raramente, qualquer peça de vestuário. Lembro-me, no entanto, de ter descoberto numa das minhas investigações, olhando o topo superior dos armários, um chapéu de chuva azul, de cabo de metal dourado fosco, espreitando para fora do seu embrulho. Era um verdadeiro chapéu de princesa! Como me senti orgulhosa de o poder abrir junto das minhas amigas!
Foi, contudo, esse chapéu que quebrou o encantamento e que revelou, de um forma tangível, a terrível verdade. O Pai Natal não mais transporia de trenó milhares de kilómetros numa só noite, não mais se mascararia a descer a estreita chaminé, não mais receberia aquelas cartas escritas e decoradas com tanto cuidado. A descoberta, contudo, se trouxera a realidade, fizera-me sentir guardiã de um segredo. Só eu sabia. O meu irmão continuava a ouvir os ruídos da chegada do Pai Natal e a lutar com os colegas da escola que se atreviam a dizer que o Pai Natal não existia.
A partir do ano seguinte já nada ficou como era, mas em nós ficou, para sempre, o encantamento que se vivia em casa naqueles dias. Os presentes nunca eram muitos, mas eram o bastante para nos levar a sonhar. Nas manhãs do dia vinte cinco o relógio quase parava, esperando que mostrássemos aos nossos pais todas aquelas maravilhas!
Ainda hoje o prazer de oferecer está ligado ao encantamento que procuro criar naqueles para quem escolho os presentes. Entretenho-me a imaginar o prazer que poderão encontrar no desembrulhar, ora cuidadoso ora precipitado, dos maravilhosos embrulhos. No que a mim diz respeito, alegro-me muito, quando descubro, através de um presente, por mais minúsculo que seja, como me souberam adivinhar...

domingo, dezembro 07, 2008

MANOEL DE OLIVEIRA - Aniki Bóbó

"A única coisa eterna é o presente, o passado é memória"( Manoel de Oliveira em entrevista à revista Visão)




Admiro em Manoel Oliveira a imensa capacidade de viver com prazer. A existência de permanentes projectos é disso a prova. Vejam-no a filmar por aí e a sonhar novos filmes. A poucos dias dos seus magníficos cem anos apetece-me dizer: Obrigada Manoel!


sábado, dezembro 06, 2008

No meio está uma fogueira...


V

Esta linguagem é pura. No meio está uma fogueira
e a eternidade das mãos.
Esta linguagem é colocada e extrema e cobre com suas
lâmpadas todas as coisas.
As coisas que são uma só no plural dos nomes.
-E nós estamos dentro, subtis, e tensos
na música.
[....]

(Herberto Helder- As Musas Cegas)

sexta-feira, dezembro 05, 2008

...é trabalho de séculos...




"Criar uma pequena flor é trabalho de séculos"

(William Blake -50 provérbios do Inferno, The Marriage of Heaven and Hell
)

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Acompanhamos a ficção como acontece ...no sonho

(Vieira da Silva)

[Em Toda a Biblioteca há Espíritos ]
Penso que em toda a biblioteca há espíritos. Esses são os espíritos dos mortos que só despertam quando o leitor os busca. Assim, o acto estético não corresponde a um livro. Um livro é um cubo de papel, uma coisa entre coisas. O acto estético ocorre muito poucas vezes, e cada vez em situações inteiramente diferentes e sempre de modo preciso. (...) Detenhamo-nos nesta ideia: onde está a fé do leitor? Porque, para ler um livro, devemos acreditar nele? Se não acreditamos no livro, não acreditamos no prazer da leitura. (...) Acompanhamos a ficção como acontece, de alguma maneira, no sonho.


(Jorge Luís Borges, in "Camões, por Jorge Luis Borges", jornal O Estado de São Paulo)

in http://barcosflores.blogspot.com/

segunda-feira, dezembro 01, 2008

...é sempre uma novidade ver a pessoa amada...


Quando amamos fortemente, é sempre uma novidade ver a pessoa amada; após um momento de ausência, damos pela sua falta no coração. Que alegria, a de a reencontrarmos! Sentimos de imediato um cessar de inquietações. É necessário todavia que esse amor esteja já muito avançado; porque quando é nascente e não fizemos progresso algum, sentimos com efeito um cessar de inquietações, mas outras sobrevêm.
Ainda que os males se sucedam assim uns aos outros, não deixamos de desejar a presença da amada na esperança de sofrermos menos; contudo quando a vemos, cremos sofrer mais do que antes. Os males passados já não ferem, os presentes tocam-nos, e é pelo que toca que ajuizamos. Um amante neste estado não é digno de compaixão?

(Blaise Pascal- Discurso sobre as Paixões do Amor-Ed. Fenda)

domingo, novembro 30, 2008

sábado, novembro 29, 2008

É outra coisa intercalada...

(Aguinaldo Vera Cruz-serra da Estrela)


Deixa-me ouvir o que não ouço...
Não é a brisa, ou o arvoredo;
É outra coisa intercalada...
É qualquer coisa que não posso
Ouvir senão em segredo,
E que talvez não seja nada...

Deixa-me ouvir...Não fales alto!
Um momento!...Depois o amor,
Se quiseres...Agora cala!
Ténue, longínquo sobressalto
Que substitui a dor
Que inquieta e embala...

O quê?Só a brisa entre a folhagem?
Talvez...Só o canto pressentido?

Não sei, mas custa amar depois...
Sim, torna a mim, e a paisagem
E a verdadeira brisa, ruído...
Que pena sermos dois!

Fernando Pessoa- 12-08-1930)

quinta-feira, novembro 27, 2008

...a sua personalidade permaneceu obscura...


Lou Andreas-Salomé


A 5 de Fevereiro deste ano, Frau Lou Andreas-Salomé faleceu pacíficamente em sua casinha de Gottingen, com quase 76 anos de idade. Durante os últimos 25 anos da sua vida, essa notável mulher esteve ligada à psicanálise, à qual contribuiu com trabalhos valiosos e que também praticou. Não estarei dizendo demais se reconhecer que todos nós sentimos como uma honra quando ela se juntou às fileiras de nossos colaboradores e companheiros de armas, e, ao mesmo tempo, como uma nova garantia da verdade das teorias da análise.
Sabia-se que, quando jovem, manteve intensa amizade com Friedrich Nietzsche, baseada em sua profunda compreensão das audazes ideias do filósofo. Esse relacionamento teve um fim abrupto quando ela recusou a proposta de casamento que lhe fez. Era bem sabido, também, que muitos anos depois, ela actuou como Musa e mãe protectora para Rainer Maria Rilke, o grande poeta, que era um pouco desamparado em enfrentar a vida. Além disso, porém a sua personalidade permaneceu obscura. Sua modéstia e discrição eram mais do que comuns. Ela nunca falou das suas próprias obras poéticas e literárias. Claramente sabia onde devem ser procurados os verdadeiros valores da vida. Aqueles que lhe foram mais íntimos tiveram a mais forte impressão da genuinidade e da harmonia da sua natureza, e puderam descobrir com espanto que todas as fraquezas femininas e talvez a maioria das fraquezas humanas lhe eram estranhas ou tinham sido por ela vencidas no decorrer da sua vida.
Foi em Viena que, há muito tempo atrás, o mais comovente episódio do seu destino feminino fora representado. Em 1912, ela retornou a Viena, a fim de ser iniciada na psicanálise.
Minha filha, que foi sua amiga íntima, ouviu-a um dia lamentar não ter conhecido a psicanálise em sua juventude. Mas, afinal, naqueles dias não existia tal coisa.

(Sigmund Freud-Fevereiro de 1937)

Não há um tempo único...

O Tempo e os Tempos

Não há um tempo único:existem muitas fitas
que paralelas deslizam
muitas vezes em sentido contrário e raramente
se cruzam. E quando se revela
a única verdade que, desvelada,
é logo suprimida por quem vigia
as engrenagens e os desvios. E mergulha-se
depois no tempo único. Mas nesse instante
só os poucos viventes se reconheceram
para dizer adeus, e não até à vista.

(Eugenio Montale- poesia)

segunda-feira, novembro 24, 2008

Eu ia-os seguindo em silêncio...


Eu fiquei a atender ao balcão da loja enquanto Fermín, com as suas habituais manobras de equilibrista, se empenhou em encarripitar-se na escada e arrumar a última estante de livros que ficava apenas a um palmo do tecto. Pouco antes de fechar, quando o sol se pusera, a silhueta de Bernarda recortou-se atrás do balcão. Estava vestida de quinta-feira, o seu dia livre, e cumprimentou-me com a mão. Iluminou-se-me a alma só de a ver e fiz-lhe sinal para entrar.
-Ai, que grande que o menino está!-disse ela do umbral.-É que quase nem o conhecia...Já está um homem!
Abraçou-me, soltando umas lagrimazinhas e apalpando-me a cabeça, os ombros e a cara, para ver se eu me teria desfeito na sua ausência.
-Sente-se a sua falta lá em casa, menino-disse, baixando o olhar.
-E eu senti a tua falta, Bernarda. Anda, dá-me um beijo.
Beijou-me timidamente e eu preguei-lhe um par de sonoros beijos em cada face. Riu-se. Vi nos seus olhos que estava à espera de que lhe perguntasse por Clara, mas eu não pensava em fazê-lo.
-Estás hoje muito bonita e muito elegante. Como foi que decidiste a vir-nos visitar?
-Bem, a verdade é que já há tempos que queria vir vê-lo, mas bem sabe como as coisas são, e eu cá ando sempre muito ocupada, que o senhor Barceló, embora seja muito sábio, é como uma criança, e eu cá tenho de fazer das tripas coração. Mas o que me traz é que, já vê,amanhã é dia de aniversário da minha sobrinha, a de San Adrián, e eu gostaria de lhe dar uma prenda. Tinha pensado em oferecer-lhe um livro, com muita letra e poucos bonecos, mas como sou burra e não percebo...
Antes que eu pudesse responder, a loja foi sacudida por um estrondo balístico ao precipitarem-se das alturas umas obras completas de Blasco Ibañez de capa dura. Bernarda e eu erguemos a vista, sobressaltados. Fermín escorregava pelas escadas abaixo como um trapezista, um sorriso florentino estampado no rosto e os olhos impregnados de luxúria e arrebatamento.
- Bernarda, este é...
-Fermín Romero de Torres, assessor bibliográfico de Sempere e filho, aos seus pés, minha senhora-proclamou Fermín, pegando na mão de Bernarda e beijando-a cerimoniosamente.
Em questão de segundos, Bernarda ficou um pimentão.
-Ai, que o senhor está enganado, eu de senhora...
-No mínimo marquesa - atalhou Fermín.-Eu tenho obrigação de saber, que calcorreio o mais fino da Avenida Pearson. Permita-me a honra de a escoltar até esta nossa secção de clássicos juvenis e infantis onde providencialmente observo que temos um compêndio com o melhor de Emilio Salgari e da épica narração de Sandokan.
- Ai, não sei, vidas de santos faz-me espécie, porque o pai da menina era muito CNT, sabe?
- Não se preocupe, porque tenho aqui nada mais, nada menos que A Ilha Misteriosa de Júlio Verne, relato de alta aventura e grande conteúdo educativo, devido aos avanços tecnológicos.
- Se o senhor acha bem...
Eu ia-os seguindo em silêncio, observando como Fermín se babava e como Bernarda se perturbava com as atenções daquele homenzinho com pinta de charutanga e lábia de feirante que a olhava com o ímpeto que reservava para as tabletes de chocolate Nestlé.(cont.)

(Carlos Ruiz Zafón- A Sombra do Vento)


Tudo é repousado: o escuro, o claro...

(Tissot)
Somos pressurosos
Mas o andar do tempo
tende-o por cousa pouca
no que permanece.

Tudo o que se apressa
passará em breve;
pois só o que fica
nos iniciará.

Não lanceis o ânimo,
moços, no que é rápido,
no tentar do voo.

Tudo é repousado:
o escuro, o claro,
a flor e o livro.

Rainer Maria Rilke- Sonetos a Orfeu)

domingo, novembro 23, 2008

sábado, novembro 22, 2008

Meu coração enche-se de água...



(Bouguereau)
A Natalita Jiménez
Trouxeram-me um búzio.

Dentro dele canta
um mar de mapa.
Meu coração
enche-se de água
com peixinhos
de sombra e prata.

Trouxeram-me um búzio.

(Federico García Lorca- trad. José Bento)

sexta-feira, novembro 21, 2008

Isto foi-lhe concedido depois das eleições de 1821...

(Magritte)

Assim é o presidente da Câmara de Verrières, senhor de Rênal. Depois de atravessar a rua com passo grave, entra na Câmara e desaparece da vista do viajante. Porém, se este continua o seu passeio, depara-se-lhe, cem passos acima uma casa de bela aparência e, através de um gradeamento de ferro pertencente à dita casa, uns jardins magníficos. Para além é a linha do horizonte formada pelas colinas de Bolonha e que parece feita de propósito para deliciar os olhos. Aquela vista faz esquecer ao viajante a atmosfera empestada da ganância pelo dinheiro que começa a asfixiá-lo.
Contam-lhe que aquela propriedade pertence ao senhor de Rênal. É aos ganhos que teve na sua grande fábrica de pregos que é presidente deve esta bela residência de pedra talhada, que está agora a ser terminada. Dizem que a sua família é antiga, de origem espanhola, estabelecida no país antes da conquista por Luís XIV.
Desde 1815 envergonha-se de ser industrial: 1815 fê-lo presidente da Câmara de Verrières. Os muros em terraço que sustêm as diversas partes deste magnífico jardim, que, de socalco em socalco, desce até ao Doubs, são também a recompensa do senhor de Rênal como comerciante de ferro.
Não espereis encontrar em França aqueles pitorescos jardins que rodeiam as cidades industriais da Alemanha: Leipzig, Francfort, Nuremberga, etc. No Franco Condado, quanto mais paredes se constroem, quanto mais se eriça a propriedade de pedras, umas sobre as outras, mais direitos adquirem à admiração dos vizinhos. Os jardins do senhor de Rênal, cheios de muros, são também admirados por ele ter comprado a peso de ouro certas parcelas de terreno que ocupam(...)
Quanto ao ribeiro público que movia a serra, o senhor de Rênal, com a influência que tinha em Paris, conseguiu que fosse desviado. isto foi-lhe concedido depois das eleições de 1821.

(Stendhal- O Vermelho e o Negro)

quinta-feira, novembro 20, 2008

quarta-feira, novembro 19, 2008

Reflexos do Olhar-cem fotos

Addiragram

Leves, efémeras, luminosas, as folhas da cerejeira dão-me a alegria de as captar, ora verdes, ora já acastanhadas, ora deixando os ramos todos a descoberto. Suspendem-se, ao sabor do acaso, tantas vezes, pérolas de chuva, ao lado de passaritos que se balançam de ramo em ramo. O vale desce até aos olhos, fazendo a travessia das transparências e inundando a casa com o cheiro da terra, das árvores fruteiras e dos eucaliptos. O acordar aqui é benfasejo e, pela porta semi-aberta entra todo o vale.
Reflexos do Olhar, sem dar por isso, chegou à centésima fotografia. Resolveu festejar iluminando também este lugar com este simples ramo de cerejeira.

terça-feira, novembro 18, 2008

Um Quadro de Brauner

(Brauner)
Brauner põe-se a pintar
a procura o fundo apego
do homem à pele do medo

Desfaz as linhas do corpo
como se linhas da mão
dá ao sexo o lugar
que dá à flor

Brauner pinta com a língua
ou outro orgão de amor
o que o braço não podia

tanto é a cor mais dura
como o peso da sabedoria

Mostrar um pássaro na mão
é o que Brauner consegue
mas tão-sòmente essa mão
pica no pássaro que a fere

Mostrar o orifício oco
da orelha colocada
no lado onde a sentimos
ouvir e morrer calada

sobre o veneno do bico
tentando beijá-lo abri-lo
tentando ouvi-lo escutá-lo

O ser que pode ser
aquilo que Brauner não quer
move-se na tela com medo

de quem perdeu a sombra
num deserto ao meio-dia
uma claustrofobia
do espírito dentro da luz.

(Luíza Neto Jorge- Terra Imóvel)

segunda-feira, novembro 17, 2008

como nos anúncios do elixir para fazer crescer o cabelo na paredes dos eléctricos...

(Bazille)
Com o seu primeiro ordenado, Fermín Romero de Torres comprou um chapéu cinéfilo, uns sapatos de chuva e empenhou-se em oferecer-nos ao meu pai e a mim um prato de rabo de touro, que preparavam às segundas-feiras num restaurante a um par de ruas da Praça Monumental. O meu pai tinha-lhe arranjado um quarto numa pensão da rua Joaquín Costa onde, graças à amizade da nossa vizinha Merceditas com a patroa, se pôde obviar a formalidade de preencher a folha de informações sobre o hóspede para a polícia e assim manter Fermín Romero de Torres longe do olfacto do inspector Fumero e dos seus sequazes. Às vezes vinha-me à memória a imagem das tremendas cicatrizes que lhe cobriam o corpo. Sentia-me tentado a perguntar-lhe por elas, receando talvez que o inspector Fumero tivesse alguma cois a ver com o assunto, mas havia qualquer coisa no olhar do pobre homem que sugeria que era melhor não mencionar o assunto. Ele no-lo contaria um dia, quando lhe parecesse oportuno. Todas as manhãs, às sete em ponto, Fermín esperava-nos à porta da livraria, com um aspecto impecável e sempre com um sorriso nos lábios, disposto a trabalhar uma jornada de doze ou mais horas sem descanso. Tinha descoberto uma paixão pelo chocolate e pelos brazos de gitano que não ficava atrás do seu entusiasmo pelos grandes da tragédia grega, com o que tinha ganho algum peso. Usava um escanhoado de menino bem, penteava o cabelo para trás com brilhantina e andava a deixar crescer o bigode fininho para estar à moda. Trinta dias depois de emergir daquela banheira, o ex-mendigo estava irreconhecível. Porém, apesar da espectacularidade da sua transformação, onde realmente Fermín Romero de Torres nos tinha deixado boquiabertos era no campo de batalha. Os seus instintos detectivescos que eu tinha atribuído a efabulações febris, eram de uma precisão cirúrgica. Nas suas mãos, as encomendas mais estranhas solucionavam-se em dias, quando não em horas. Não havia título que não conhecesse, nem argúcia para o conseguir que não lhe ocorresse para o adquirir a um bom preço. Introduzia-se nas bibliotecas particulares de duquesas da Avenida Pearson e diletantes do círculo equestre a golpe de lábia, assumindo sempre identidades fictícias, e conseguia que lhe oferecessem os livros ou os vendessem por tuta e meia.
A transformação do mendigo em cidadão exemplar parecia milagrosa, uma daquelas histórias que os padres de paróquia se compraziam em contar para ilustrar a infinita misericórdia do Senhor, mas que se afiguravam sempre demasiado perfeitas para serem verdadeiras, como nos anúncios de elixir para fazer crescer o cabelo nas paredes dos eléctricos. (cont.)

(Carlos Ruiz Zafón- A Sombra do Vento)

domingo, novembro 16, 2008

A um passarinho...

( Aguarelas de Turner)

A um passarinho


Para que vieste
Na minha janela
Meter o nariz?
Se foi por um verso
Não sou mais poeta
Ando tão feliz!
Se é para uma prosa
Não sou Anchieta
Nem venho de Assis.


Deixa-te de histórias
Some-te daqui!

(Vinicius de Morais)

sexta-feira, novembro 14, 2008

Porém se nos distraímos no calendário...


Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios.
(Nuno Júdice)

quinta-feira, novembro 13, 2008

quarta-feira, novembro 12, 2008

Não, Tempo não te gabes de que eu mudo...


Não, Tempo, não te gabes de que eu mudo;
pirâmides com nova força erguidas
nem me são novas, nem estranhas, tudo
são coisas antes vistas, guarnecidas.
Nossas datas são breves e no ensejo
de o velho em nós lançares, nos espantes,
que as fazes mais nascer-nos ao desejo
do que nos lembras que as ouvimos antes,
E, enfrento o teu arquivo, onde não temos
nem surpresa presente nem pregressa;
mentem os teus registos e o que vemos,
que aumenta ou diminui em tua pressa.
Faço voto de ser sempre fiel,
mau grado a foice e a sua mão cruel.

(Os Sonetos de Shakespeare-Vasco Graça Moura)

segunda-feira, novembro 10, 2008

Desfiz o cuidadoso envoltório...



-Pregaste-me um susto de morte.
Não havia cólera na sua voz, nem praticamente censura, apenas cansaço.
-Bem sei. E lamento-o-respondi.
-Que foi que fizeste na cara?
-Escorreguei na chuva e caí.
-Essa chuva devia ter uma boa direita. Põe qualquer coisa.
-Não é nada. Nem noto-menti.- Do que preciso é de ir dormir. Não me tenho em pé.
-Pelo menos abre o teu presente antes de ires para a cama-disse o meu pai.
Apontou para o embrulho envolvido em papel celofane que me tinha depositado na noite anterior em cima da mesa da casa de jantar. Hesitei um instante. O meu pai assentiu. Peguei no embrulho e sopesei-o. Estendi-o ao meu pai sem abrir.
- O melhor é que o devolvas. Não mereço nenhum presente.
- Os presentes dão-se pelo prazer de quem oferece, não pelo mérito de quem recebe- disse o meu pai.- Além disso, já não se pode devolver. Abre-o.
Desfiz o cuidadoso envoltório na penumbra do alvorecer. O embrulho continha uma caixa de madeira trabalhada, reluzente, debruada com rebites dourados. Iluminou-se-me o sorriso antes de a abrir. O som do fecho a abrir-se era requintado, de mecanismo de relojoaria. O interior do estojo era forrado de veludo azul-escuro. A famosa caneta Montblanc Meisterstuck de Victor Hugo repousava no centro, deslumbrante. Tomei-a nas mãos e contemplei-a à luz da varanda. Sobre a mola de ouro da tampa estava gravada a inscrição

Daniel Sempere 1953

Olhei o meu pai, boquiaberto.Acho que nunca o vi tão feliz como me pareceu naquele instante. Sem uma palavra, levantou-se da poltrona e abraçou-me com força. Senti que se me apertava a garganta e, à falta de palavras, mordi a voz.

(Carlos Ruiz Zafón- A Sombra do Vento)

domingo, novembro 09, 2008

Ter folhas como vinhas

Aguarelas de Turner

OUTONO

Tarde pintada
Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo,
Eu, simplesmente, digo
Que há tanta fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como vinhas.

Almalaguez, 16 de Outubro de 1966

Miguel Torga

sábado, novembro 08, 2008

sexta-feira, novembro 07, 2008

no côncavo da mão o sol nascia...

(Ingres)
E agora: a tua pele.
Revejo: é manso o mar.
E sei que o vento corre e que por ele
se colam no teu corpo lembranças de luar.

Descanso: os teus cabelos.
Entrego: já é dia.
Os caules são serenos, e ao vê-los
no côncavo da mão o sol nascia.

(Pedro Támen- Primeiro Livro de Lapinova)

quarta-feira, novembro 05, 2008

que a chama no chamar se incendeia...


« Uma chama não chama a mesma chama...»

uma chama não chama a mesma chama
há uma outra chama que se chama
em cada chama que chama pela chama
que a chama no chamar se incendeia.

um nome não nome o mesmo nome
um outro nome nome que nomeia
em cada nome o meio pelo nome
que o nome no nome se incendeia

uma chama um nome a mesma chama
há um outro nome nome que se chama
em cada nome o chama pelo nome
que a chama no nome se incendeia

um nome uma chama o mesmo nome
há uma outra chama que nomeia
em cada chama o nome que se chama
o nome que na chama se incendeia

(E.M. de Melo e Castro- Versus-in-Versus)

terça-feira, novembro 04, 2008

Suster o peso da hora...

(Lucien Freud-auto-retrato)
« Não fugir...»

ao Nuno


Não fugir. Suster o peso da hora
Sem palavras minhas e sem os sonhos,
Fáceis e sem as outras falsidades.
Numa espécie de morte mais terrível
Ser de mim todo despojado, ser
Abandonado aos pés como um vestido.
Sem pressa atravessar a asfixia.
Não vergar. Suster o peso da hora
Até soltar sua canção intacta.

(Cristovam Pavia -35 Poemas)

segunda-feira, novembro 03, 2008

O advogado...sabia que o futuro se lia nas ruas....


Naquela tarde de brumas e chuva míuda, Clara Barceló roubou-me o coração, a respiração e o sono. Ao abrigo da luz enfeitiçada do Ateneo, as suas mãos escreveram na minha pele uma maldição que havia de me perseguir durante anos. Enquanto eu a contemplava arrebatado, a sobrinha do livreiro explicou-me a sua história e como ela tinha tropeçado, também por casualidade, nas páginas de Julián Carax. O seu pai, advogado de prestígio ligado ao gabinete do presidente Companys, tinha tido a clarividência de mandar filha e mulher para casa da irmã do outro lado da fronteira no início da guerra civil. Não faltou quem opinasse que aquilo era um exagero, que em Barcelona não ia acontecer nada e que em Espanha, berço e pináculo da civilização cristã, a barbárie era coisa dos anarquistas, e estes, de bicicleta e com remendos nas peúgas, não podiam ir muito longe. Os povos nunca se vêem ao espelho, dizia sempre o pai de Clara, e muito menos com uma guerra à frente do nariz. O advogado era um bom leitor da história e sabia que o futuro se lia nas ruas, nas fábricas e nos quarteis com mais clareza do que na imprensa da manhã. Durante meses escreveu-lhes todas as semanas. Ao princípio fazia-o do escritório da Rua Diputación, mais tarde sem remetente e, finalmente, ás escondidas, de uma cela no castelo de Montjuic onde, como tantos, ninguém o viu entrar e de onde nunca voltou a sair. (cont.)

(Carlos Ruiz Zafón- A Sombra do Vento)

domingo, novembro 02, 2008

Pegado aos outros como musgo...



Ao Vasco da Costa Marques


Agarro um gesto, uma presença, um duro
olhar de espanto. Aqui, entre as serenas
angústias tristes, é que audaz perduro.
Abro o caminho sem remorso ou pena.

Espaço em branco destes dias, muro
frágil de sonhos, onde encosto apenas
o corpo exausto, donde dependuro
esperanças breves, pobres e pequenas.

Lírica paz, renego-a em sofrimento.
Dobrado vivo para fora, arrasto
as mãos vazias sobre arestas, rugas.

Pegado aos outros, como musgo, tento
crescer à míngua, verme só, de rastos,
entre desejos, lutas, mortes, fugas.

(José Augusto Seabra - A Vida Toda. 1939-2004 )

Conheci pessoalmente, muito tardiamente, José Augusto Seabra. Ouvi-o falar, com paixão, sobre Pessoa e, deixei-me apaixonar pelas suas palavras e por todo o seu vigor. Jantámos depois, mais tarde, e o prazer da sua companhia foi enorme. A noite tornou-se curta, e desejo de continuar a ouvi-lo a discorrer ficou em mim. Estava cá de passagem. No dia seguinte partiria, de novo, rumo a Paris, se não me engano. Foi com uma tristeza imensa que, um ano e tal depois, soube da sua morte fulminante. Só o conheci naquele dia mas soube que era um homem bom.
Fica aqui a minha lembrança.

sexta-feira, outubro 31, 2008

Uma casa grande como um país pequeno...

(Cezanne)
A Casa

Uma casa grande como
um país pequeno
um país que não possa
fazer a guerra

Uma casa de resina
no limbo da terra

A terra que moldo ao longo
dos músculos
uma terra que não se pague
com usura

Suave como um dorso
ou um pouco de água
por entre os escombros

Uma casa invisível
um barco que se aperte
entre os seios

Mais do que por dentro
da mão fechada


Mais do que por dentro
do próprio corpo.

(Casimiro de Brito- Jardins de Guerra)

quinta-feira, outubro 30, 2008

Acontece, não acontece?

(Turner)
Acontece por vezes que um dia amanhece estupendo e que persiste maravilhoso e constante até ao pôr-do-sol e que segue ainda triunfante pela noite fora. Não acontece?
Segurando a memória com as duas mãos, tornam a vir aqueles verdadeiros dias de sol, majestosos, imponentes, autêntica ditadura da Beleza, e em que nenhum outro acontecimento histórico ou particular conseguiu ofuscar a data, a um tempo memorável e simples, de um dia lindo!
Também sei que não são precisamente estas datas da alegria particular e íntima do Sol, as que se anotam e se fixam, a não ser que venham porventura coincidir com os segredos da nossa imaginação; um encontro feliz em tal dia, por acaso que era um dia colossal!...ou uma conversa bem resultada, ou uma promessa generosa e magnânima, ou uma combinação nobre e heróica, etc., ou outras destas coisas que ficam pegadas para sempre na recordação , muito mais, sem comparação nenhuma, do que o dia mais lindo de sol que possa imaginar-se.
Isto é como quem diz: o sol para estar lindo necessita de cada um de nós! Ora não sei se já repararam, um dia lindo nunca vem logo a seguir a um dia lindo. Como se fosse demasiado e impossível dois dias lindos a seguir. De tal maneira que ficam menos custosos os dias terríveis, com a esperança e a certeza de que estamos sem dúvida em vésperas de dias extraordinariamente melhores.
E quando se dá o caso de uma pessoa não estar pelos ajustes de se sujeitar às veleidades do tempo, faz por ter os seus dias, ao seu gosto, e se possível for todos os dias. (...)

(Almada Negreiros- Ficções-Banhos de Mar)