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quinta-feira, dezembro 31, 2015

São as formas sem forma que passam sem que a dor as possa conhecer...

Addiragram

O que me dói não é...

O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão...

São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor.

São como se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"


domingo, dezembro 27, 2015

Ah! Elas às vezes bolem...

Addiragram

Crónica de Natal


Todos os anos, por esta altura, quando me pedem que escreva alguma coisa sobre o Natal, reajo de mau modo. «Outra vez, uma história de Natal! Que chatice!» — digo. As pessoas ficam muito chocadas quando eu falo assim. Acham que abuso dos direitos que me são conferidos. Os meus direitos são falar bem, assim como para outros não falar mal. Uma vez, em Paris, um chauffeur de táxi, desses que se fazem castiços e dizem palavrões para corresponder à fama que têm, aborreceu-me tanto que lhe respondi com palavrões. Ditos em francês, a mim não me impressionavam, mas ele levou muito a mal e ficou amuado. Como se eu pisasse um terreno que não era o meu e cometesse um abuso. Ele era malcriado mas eu - eu era injusta. Cada situação tem a sua justiça própria, é isto é duma complexidade que o código civil não alcança.
Mas dizia eu: «Outra vez o Natal, e toda essa boa vontade de encomenda!» Ponho-me a percorrer as imagens que são de praxe, anjos trombeteiros, pastores com capotes de burel e meninos pobres do tempo da Revolução Industrial inglesa. Pobres e explorados, mas, entretanto, não excluídos do trato social através dos seus conflitos próprios, como se pode observar nos livros de Dickens. Actualmente as crianças estão mais isoladas dum processo de libertação adequada à sua normalidade. Não há qualquer lógica entre o pensamento que elas sugerem e a acção que lhes é imposta. Mas isto são considerações de Natal? Confessem que preferem uma história, uma coisa leve, talvez um pouco insensata e graciosa. Pois bem, falemos de pastores.

Um amigo meu passou uns dias na serra da Estrela para se curar duma depressão, uma dessas doenças que são produzidas pela sociedade burocrática onde todos se destroem em boa paz. Cuidou ele que a solidão e a vida rude o haviam de transformar. Mas o sofrimento, que não é disciplina nem necessidade, torna-se em crítica mesquinha. Ele andava pelos montes, com ar de censura e escândalo, perguntando às pessoas como podiam viver sem ir ao teatro e sem comer costelas panadas. Alumiando-se com azeite e deitando-se ao sol-pôr para não o gastar. Sobressaltava-o muito aquela imobilidade da serra com os rebanhos que pareciam pedras e os pastores com o cão de pêlo assanhado. Sentava-se ao lado deles e travava conversa.
— Olhe lá: você nunca sai daqui? — perguntava. E o pastor respondia:
— Eu, não senhor.
— E então, não se aborrece?
— Eu, não senhor — tornava o homem.
— Mas não se aborrece mesmo, sempre sozinho, a ver só ovelhas, aqui no cimo da serra? — insistia o meu amigo.
Então o pastor, apertado naquele inquérito, fez um esforço para compreender a desordem que provocava no espírito do homem da cidade, e disse, apontando, com um ligeiro movimento do queixo, as ovelhas:
— Ah! Elas às vezes bolem...
Queria desculpar-se, se o conseguiu ou não, não sei. O meu amigo não andou muito tempo por lá. Deu um jeito a um tornozelo e tiveram que o levar de padiola até à localidade, onde arranjou melhor transporte para o hospital. Disse daquilo cobras e lagartos. Também é preciso ver que não era homem para grandes descobertas. Até acha que as descobertas foram um erro histórico. Mas que tem o Natal a ver com isto? – direis. Descubram.

Agustina Bessa-Luís, in 'Crónica da Manhã, 06 Dez 1978'


sábado, dezembro 05, 2015

O que não daria eu...

Addiragram

Elegia da Lembrança Impossível

O que não daria eu pela memória 
De uma rua de terra com baixos taipais 
E de um alto ginete enchendo a alba 
(Com o poncho grande e coçado) 
Num dos dias da planície, 
Num dia sem data. 
O que não daria eu pela memória 
Da minha mãe a olhar a manhã 
Na fazenda de Santa Irene, 
Sem saber que o seu nome ia ser Borges. 
O que não daria eu pela memória 
De ter lutado em Cepeda 
E de ter visto Estanislao del Campo 
Saudando a primeira bala 
Com a alegria da coragem. 
O que não daria eu pela memória 
Dos barcos de Hengisto, 
Zarpando do areal da Dinamarca 
Para devastar uma ilha 
Que ainda não era a Inglaterra. 
O que não daria eu pela memória 
(Tive-a e já a perdi) 
De uma tela de ouro de Turner, 
Tão vasta como a música. 
O que não daria eu pela memória 
De ter sido um ouvinte daquele Sócrates 
Que, na tarde da cicuta, 
Examinou serenamente o problema 
Da imortalidade, 
Alternando os mitos e as razões 
Enquanto a morte azul ia subindo 
Dos seus pés já tão frios. 
O que não daria eu pela memória 
De que tu me dissesses que me amavas 
E de não ter dormido até à aurora, 
Dissoluto e feliz. 

Jorge Luis Borges, in "A Moeda de Ferro" 

segunda-feira, novembro 30, 2015

Tudo é orgulho e inconsciência..



Addiragram
      


A Guerra

A guerra que aflige com os seus esquadrões o Mundo,
É o tipo perfeito do erro da filosofia.

A guerra, como todo humano, quer alterar.
Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito
E alterar depressa.

Mas a guerra inflige a morte.
E a morte é o desprezo do Universo por nós.
Tendo por conseqüência a morte, a guerra prova que é falsa.
Sendo falsa, prova que é falso todo o querer alterar.

Deixemos o universo exterior e os outros homens onde a Natureza os pôs.

Tudo é orgulho e inconsciência.
Tudo é querer mexer-se, fazer cousas, deixar rasto.
Para o coração e o comandante dos esquadrões
Regressa aos bocados o universo exterior.

A química direta da Natureza
Não deixa lugar vago para o pensamento.

A humanidade é uma revolta de escravos.
A humanidade é um governo usurpado pelo povo. 

Existe porque usurpou, mas erra porque usurpar é não ter direito.

Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural!
Paz a todas as cousas pré-humanas, mesmo no homem!
Paz à essência inteiramente exterior do Universo!


Alberto Caeiro

domingo, novembro 22, 2015

...a verdade é a coisa mais poética do mundo...

Addiragram

A Verdade Está à Frente do Nosso Nariz

Nós já esquecemos completamente o axioma de que que a verdade é a coisa mais poética no mundo, especialmente no seu estado puro. Mais do que isso: é ainda mais fantástica que aquilo que a mente humana é capaz de fabricar ou conceber... de facto, os homens conseguiram finalmente ser bem sucedidos em converter tudo o que a mente humana é capaz de mentir e acreditar em algo mais compreensível que a verdade, e é isso que prevalece por todo o mundo. Durante séculos a verdade irá continuar à frente do nariz das pessoas mas estas não a tomarão: irão persegui-la através da fabricação, precisamente porque procuram algo fantástico e utópico.

Fiodor Dostoievski, in 'Diário de um Escitor'

sábado, novembro 14, 2015

domingo, novembro 08, 2015

Sabe o significado desta palavra branca?

Addiragram

Saudade
Saudade - O que será... não sei... procurei sabê-lo 
em dicionários antigos e poeirentos 
e noutros livros onde não achei o sentido 
desta doce palavra de perfis ambíguos. 

Dizem que azuis são as montanhas como ela, 
que nela se obscurecem os amores longínquos, 
e um bom e nobre amigo meu (e das estrelas) 
a nomeia num tremor de cabelos e mãos. 

Hoje em Eça de Queiroz sem cuidar a descubro, 
seu segredo se evade, sua doçura me obceca 
como uma mariposa de estranho e fino corpo 
sempre longe - tão longe! - de minhas redes tranquilas. 

Saudade... Oiça, vizinho, sabe o significado 
desta palavra branca que se evade como um peixe? 
Não... e me treme na boca seu tremor delicado... 
Saudade... 

Pablo Neruda

quinta-feira, outubro 29, 2015

Elas não conhecem ainda os dois inimigos da alma...


 

 ( Foto Addiragram)

Em Louvor das Crianças

Se há na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simultaneamente sem fronteiras, esse reino é o da infância. A esse país inocente, donde se é expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos privilegiados — a tais regressos se chama, às vezes, poesia. Essa espécie de terra mítica é habitada por seres de uma tão grande formosura que os anjos tiveram neles o seu modelo, e foi às crianças, como todos sabem pelos evangelhos, que foi prometido o Paraíso. 
A sedução das crianças provém, antes de mais, da sua proximidade com os animais — a sua relação com o mundo não é a da utilidade, mas a do prazer. Elas não conhecem ainda os dois grandes inimigos da alma, que são, como disse Saint-Exupéry, o dinheiro e a vaidade. Estas frágeis criaturas, as únicas desde a origem destinadas à imortalidade, são também as mais vulneráveis — elas têm o peito aberto às maravilhas do mundo, mas estão sem defesa para a bestialidade humana que, apesar de tanta tecnologia de ponta, não diminui nem se extingue. 
O sofrimento de uma criança é de uma ordem tão monstruosa que, frequentemente, é usado como argumento para a negação da bondade divina. Não, não há salvação para quem faça sofrer uma criança, que isto se grave indelevelmente nos vossos espíritos. O simples facto de consentirmos que milhões e milhões de crianças padeçam fome, e reguem com as suas lágrimas a terra onde terão ainda de lutar um dia pela justiça e pela liberdade, prova bem que não somos filhos de Deus. 

Eugénio de Andrade, in 'Rosto Precário' 

sexta-feira, outubro 23, 2015

O solitário gesto de viver...

Addiragram

A Coragem no Gesto de Viver

solitário gesto de viver 
não demanda a coragem que há na faca, 
na ponta do punhal e até no grito 
de quem fala mais alto e está coberto 
de razões, de certezas, de verdades. 
O gesto de viver se oculta em dobras 
tão íntimas do ser, que o desfazê-las 
é mais que indelicado, é violência 
que nem sequer se pode conceber. 
O gesto de viver é só coragem, 
mas, de tal forma próprio e incomparável, 
que não se exprime em verbo, imagem, mímica 
ou qualquer outra forma conhecida 
de contar, definir ou explicar. 
A coragem no gesto de viver 
está em coisas simples, por exemplo, 
na diária decisão de levantar. 
E mais, em se vestir e trabalhar 
por entre espadas, punhos e navalhas, 
peito aberto, sem armas, passo firme, 
e à noite, ainda intacto, regressar. 


Reynaldo Valinho Alvarez, in 'O Solitário Gesto de Viver' 



domingo, outubro 18, 2015

Parece-vos que se pode dizer mais ?

Addiragram

Não se Diz ao Triste que se Alegre


Pouco sabe da tristeza quem, sem remédio para ela, diz ao triste que se alegre; pois não vê que alheios contentamentos a um coração descontente, não lhe remediando o que sente, lhe dobram o que padece. Vós, se vem à mão, esperáreis de mim palavrinhas joeiradas, enforcadas de bons propósitos. Pois desenganai-vos, que, desde que professei tristeza, nunca mais soube jogar a outro fito. E, porque não digais que sou gente fora do meu bairro, vedes, vai uma volta feita a este mote, que escolhi na manada dos enjeitados; e cuido que não é tão dedo queimado que não seja dos que el-rei mandou chamar; o qual fala assim:

Não quero e não quero jubão amarelo.

Se de negro for
também me parece
quanto me aborrece
toda a alegre cor:
cor que mostra dor,
quero e não quero jubão amarelo.

Parece-vos que se pode dizer mais ? Não me respondais: «Quem gabará a noiva?» Porque assentai que foi comendo e fazendo, ou assoprando, que não é tão pequena habilidade. E, porque vos não pareça que foi mais acertar que querê-lo fazer, vedes, vai outra do mesmo jaez, contanto que se não vá a pasmar:


Perdigão perdeu a pena,
não há mal que lhe não venha.

Em um mal outro começa,
que nunca vem só nenhum;
e o triste que tem um
a sofrer outro se ofereça;
e só pelo ver, conheça
que basta um só que tenha
para que outro lhe venha.


Luís Vaz de Camões, in "Cartas"

terça-feira, outubro 13, 2015

Como um adolescente tropeço de ternura...


 
 
Addiragram
 
Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.
 
Alexandre O´Neill

segunda-feira, outubro 12, 2015

Educação para a Independência do Pensamento...

Addiragram

O rumo que a Educação e o ensino têm seguido não é seguramente estranho à forma actual de discernir e de ser capaz de avaliar o que nos rodeia, de conseguir identificar o que é fruto da manipulação dos media, das mentiras mil vezes repetidas que "verdades" se tornam... 

 Educação para a Independência do Pensamento

Não basta preparar o homem para o domínio de uma especialidade qualquer. Passará a ser então uma espécie de máquina utilizável, mas não uma personalidade perfeita. O que importa é que venha a ter um sentido atento para o que for digno de esforço, e que for belo e moralmente bom. De contrário, virá a parecer-se mais com um cão amestrado do que com um ser harmonicamente desenvolvido, pois só tem os conhecimentos da sua especialização. Deve aprender a compreender os motivos dos homens, as suas ilusões e as suas paixões, para tomar uma atitude perante cada um dos seus semelhantes e perante a comunidade.
Estes valores são transmitidos à jovem geração pelo contacto pessoal com os professores, e não — ou pelos menos não primordialmente — pelos livros de ensino. São os professores, antes de mais nada, que desenvolvem e conservam a cultura. São ainda esses valores que tenho em mente, quando recomendo, como algo de importante, as «humanidades» e não o mero tecnicismo árido, no campo histórico e filosófico.
A importância dada ao sistema de competição e a especialização precoce, sob pretexto da utilidade imediata, é o que mata o espírito de que depende toda a actividade cultural e até mesmo o próprio florescimento das ciências de especialização.
Faz também parte da essência de uma boa educação desenvolver nos jovens o pensamento crítico independente, desenvolvimento esse que é prejudicado, em grande parte, pela sobrecarga de disciplinas em que o indivíduo, segundo o sistema adoptado, tem de obter nota de passagem. A sobrecarga conduz necessariamente à superficialidade e à falta de verdadeira cultura. O ensino deve ser de modo a fazer sentir aos alunos que aquilo que se lhes ensina é uma dádiva preciosa e não uma amarga obrigação. 


Albert Einstein, in 'Como Vejo o Mundo'

quarta-feira, outubro 07, 2015

Continua vivendo entre nós, do nosso lado...

 

 
Addiragram

A Esperança é o mais Frágil dos Sentimentos

Vivemos em Moçambique anos terríveis de guerra e de desespero. Quando me perguntam como sobrevivemos a esse tempo, as pessoas se apressam a falar da esperança. E dizem: pois é, a esperança é a última a morrer. É isso que se diz. Contudo, não é verdade. A esperança é o mais frágil dos sentimentos, um dos primeiros a desvanecer. Ela morre, porém, no sentido que os africanos têm da morte. Quer dizer, ela morre mas não fica morta. Continua vivendo entre nós, do nosso lado. E vai comandando, secreta e subtilmente, processos e destinos. A esperança não é a última a morrer ainda que possa ser a primeira a matar-nos. E estaremos mortos se aceitarmos conviver, com cinismo, num mundo em que fazemos de conta acreditar.

Mia Couto, in 'Pensatempos'

segunda-feira, outubro 05, 2015

Mas o teu rosto está para além do tempo opaco...


Addiragram


Eis-me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face

Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo
                        [em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio

Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente


Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Livro Sexto'


domingo, setembro 27, 2015

As sombras têm exaustiva vida própria...


Addiragram
 FAZ-SE LUZ

Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes    loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina    realmente    os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos    e na boca


Mário Cesariny, in "Pena Capital"

quinta-feira, setembro 24, 2015

Não é por respirar que estamos vivos, mas é por não amar que estamos mortos...

Addiragram
Amar é arriscar. Tudo.

O amor é algo extraordinário e muito raro. Ao contrário do que se pensa não é universal, não está ao alcance de todos, muito poucos o mantêm aqui. Chama-se amor a muita coisa, desde todos os seus fingimentos até ao seu contrário: o egoísmo.

A banalidade do gosto de ti porque gostas de mim é uma aberração intelectual e um sentimento mesquinho. Negócio estranho de contabilidade organizada. Amar na verdade, amar, é algo que poucos aguentam, prefere-se mudar o conceito de amor a trocar as voltas à vida quando esta parece tão confortável.

Amar é dar a vida a um outro. A sua. A única. Arriscar tudo. Tudo. A magnífica beleza do amor reside na total ausência de planos de contingência. Quando se ama, entrega-se a vida toda, ali, desprotegido, correndo o tremendo risco de ficar completamente só, assumindo-o com coragem e dando um passo adiante. Por isso a morte pode tão pouco diante do amor. Quase nada. Ama-se por cima da morte, porquanto o fim não é o momento em que as coisas se separam, mas o ponto em que acabam.

Não é por respirar que estamos vivos, mas é por não amar que estamos mortos.

De pouco vale viver uma vida inteira se não sentirmos que o mais valioso que temos, o que somos, não é para nós, serve precisamente para oferecermos. Sim, sem porquê nem para quê. Sim, de mãos abertas. Sim... porque, ainda além de tudo o que aqui existe, há um mundo onde vivem para sempre todos os que ousaram amar...


José Luís Nunes Martins in "Filosofias-79 reflexões"


sábado, setembro 19, 2015

O amor é esse contacto sem tempo...

 

 

Addiragram

Definição

Quem esquece o amor, e o dissipa, saberá
que sentimento corrompe, ou apenas se o coração
se encontra no vazio da memória? O vento
não percorre a tarde com o seu canto alucinado,
que só os loucos pressentem, para que tu
o ignores; nem a sabedoria melancólica das árvores
te oferece uma sombra para que lhe
fujas com um riso ágil de quem crê
na superfície da vida. Esses são alguns limites
que a natureza põe a quem resiste à convicção
da noite. O caminho está aberto, porém,
para quem se decida a reconhecê-los; e os própri
os
passos encontram a direcção fácil nos sulcos
que o poema abriu na erva gasta da linguagem. Então,
entra nesse campo; não receies o horizonte
que a tempestade habita, à tarde, nem o vulto inquieto
cujos braços te chamam. Apropria-te do calor
seco dos vestíbulos. Bebe o licor
das conchas residuais do sexo. Assim, os teus lábios
imprimem nos meus uma marca de sangue, manchando
o verso. Ambos cedemos à promiscuidade do poente,
ignorando as nuvens e os astros. O amor
é esse contacto sem espaço,
o quarto fechado das sensações,
a respiração que a terra ouve
pelos ouvidos da treva.

Nuno Júdice, in "Um Canto na Espessura do Tempo"


quarta-feira, setembro 16, 2015

Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado..

Addiragram

A Noite Abre Meus Olhos

 

Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado
na constelação onde os tremoceiros estendem
rondas de aço e charcos
no seu extremo azulado

Ferrugens cintilam no mundo,
atravessei a corrente
unicamente às escuras
construí minha casa na duração
de obscuras línguas de fogo, de lianas, de líquenes

A aurora para a qual todos se voltam
leva meu barco da porta entreaberta

o amor é uma noite a que se chega só

José Tolentino Mendonça, in 'A Estrada Branca'

terça-feira, setembro 15, 2015

domingo, setembro 13, 2015

A Vida é Bela? - um post para este domingo



O Sonho (rêverie) é quantas vezes usado como forma de sobrevivência a uma dor impensável. Se pode sê-lo, é também um modo de alienação quando impede o contacto com a Realidade dolorosa, mas para a qual se torna urgente acordar. 
As situações extremas exemplificam radicalmente aquilo que o nosso dia  a dia permanentemente nos faz tropeçar. Nem todas as pessoas são predominantemente boas e honestas... Há-as capazes de provocar  sofrimento do outro, virando depois  as costas para não se sentirem incomodadas...
Tendo em mãos o livro de David Grossman : Ver: Amor, deixo-vos esta passagem que tão bem nos fala das duas faces da mesma moeda.

" À noite na cama, Momik fica acordado a pensar. O país de Lá devia ser muito bonito, cheio de florestas e carris de ferro pequeninos e reluzentes, lindas paisagens coloridas, paradas militares e um imperador valente, um caçador real, e um Kloiz, a feira de gado, e animais transparentes a cintilarem nas montanhas como passas num bolo. O problema é que sobre esse país paira um feitiço. E é aqui que as coisas se complicam. Uma espécie de maldição que caiu sobre as crianças, os adultos e os animais transformando-os em gelo. Deve ter sido a Besta nazi que fez isso.Passou pelo país e o seu bafo congelou tudo, como na história da Rainha das Neves. Deitado na cama, Momik inventa histórias, enquanto a mãe costura na entrada. A perna dela sobe e desce. Schimek ajustou-lhe o pedal de maneira a ela poder chegar lá com o pé. Desde então, no país de Lá, estão todos cobertos por uma película de vidro muito fina que os impede de se mexerem, e não se lhes pode tocar, é como se estivessem vivos sem estarem, e há uma única pessoa no mundo capaz de os salvar, que é Momik".

Grossman, David. VER:AMOR. D.Quixote.


sexta-feira, setembro 04, 2015

Relembrando o já publicado...( pelo momento de drama e dor...e insensibilidade absolutas)





     (Escher)
XV Uma civilização de compartimentos estanques
(...)
Oscar Wilde escreveu em qualquer parte que o pior crime é a falta de imaginação: o ser humano não se compadece com os males que não experimenta directamente ou a que não assiste. Pensei muitas vezes que as carruagens blindadas e os muros bem construídos dos campos de concentração asseguraram a extensão e a duração dos crimes contra a humanidade, que teriam acabado bem mais cedo se tivessem sido efectuados ao ar livre e à vista de todos. O hábito, nas praças públicas da Idade Média e do Grande Século, entorpecia talvez certos espectadores; mas sempre restavam alguns para se comoverem, ou até para protestar, e o seu murmúrio acabou por ser ouvido. Os executantes de tais obras hoje em dia são mais cuidadosos nas suas precauções.(...)
(Marguerite Yourcenar-1972-O Tempo esse grande escultor)

quinta-feira, setembro 03, 2015

Esclarecimento




O Aguarelas" iniciou um lento processo de reparação, desconhecendo o tempo que irá demorar. Neste primeiro tempo gostaria de repor todas aquelas imagens que desapareceram um dia...Julgo ser capaz de as reaver. Aquelas que me tiverem fugido definitivamente serão substituídas por outras. 
É como se procurasse costurar pedaços perdidos, procurando recompor  a unidade deste já longo " lençol".
Na minha infância,certos tecidos mais delicados quando sofriam quaisquer danos acidentais ou provocados eram objecto do trabalho  minucioso da cerzideira que unia o que se tinha rasgado.
Esse é, de momento, o que desejo ser capaz de fazer, até encontrar a maneira de continuar a dar voz ao " Aguarelas de Turner".

Um abraço.
Addiragram


terça-feira, setembro 01, 2015

" Aguarelas" em reparação...

(W. Turner) A Wreck, Possibly Related to ‘Longships Lighthouse, Land’s End’ c.1834