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segunda-feira, maio 21, 2007

A obra...é símbolo.

(Van Gogh)

Se olharmos as obras considerando a sua realidade efectiva intocada e não nos iludirmos a nós próprios a seu respeito, então torna-se manifesto que as obras que estão perante de modo tão natural como qualquer outra coisa. O quadro está pendurado na parede do mesmo modo que uma caçadeira ou um chapéu. Uma pintura, por exemplo, a de Van Gogh que apresenta um par de sapatos de camponês, anda de exposição em exposição. As obras são expedidas como o carvão da bacia de Ruhr ou como os troncos de árvore da Floresta Negra. Durante a campanha, os hinos de Hoderlin estavam enpacotados na mochila do mesmo modo que um utensílio de limpeza. Os quartetos de Beethovan jazem no armazém da editora como batatas numa cave. Todas as obras têm este carácter de coisa(...).O que seriam sem ele?(...)
O carácter de coisa está de modo tão inamovível na obra de arte que até teríamos de dizer antes ao contrário: a obra arquitectónica é em pedra. A obra de talha é em madeira. A pintura é na cor. A obra linguística é na voz. A obra músical é no som. Obviamente-replicar-se-á. É certo que sim. Todavia, o que é, na obra de arte este óbvio carácter de coisa?(...) Na obra de arte, há ainda algo de outro que é posto em conjunto com a coisa confeiçoada. (...) A obra é símbolo.

(Martin Heidegger- Caminhos da Floresta)

segunda-feira, abril 16, 2007

Porque há em nós algo ...incomunicável...



"A poesia tem sido para mim uma forma de libertação. Não se pode dizer que seja uma expressão simples, fácil, o que a poesia procura é algo que de certa maneira ela não consegue admitir. Quer dizer, a finalidade do poeta é escrever, criar um texto que tenha uma certa coerência, que tenha a coerência da incoerência (como diz um crítico francês). Mas é o que está para além das palavras, é o horizonte das palavras e é realmente o que é fundamental. Não só as palavras poéticas me fascinam mas aquilo para que elas apontam, o horizonte para que apontam, o espaço para que elas se dirigem é que é realmente a realidade imaginária e real; essa é que é a finalidade porque há em nós algo que é indefinível, incomunicável e indescritível. O poeta pode suscitar a possibilidade de tornar actual (no sentido real) certas virtualiades, que se concentram no desejo do homem, numa espécie de corpo que ele quer encontrar, como que penetrar nesse corpo /uma criação, mas também uma realidade exterior, cósmica)."

António R. Rosa, in entrevista concedida a Patrícia Valinho

domingo, fevereiro 18, 2007

UM DOMINGO COM HERBERTO HELDER


(Elisabeth Gardner)

Sobre o Poema

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo.
Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
— a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

— Embaixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.

— E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

(Herberto Helder)

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Quem disse que a pintura deve parecer-se com a realidade?

(Wassily Kandinsky)


Sobre a pintura de um ramo florido

"Primavera Precoce", de Wang

Quem disse que a pintura deve parecer-se com a realidade?
Quem o disse vê com olhos de não entendimento
Quem disse que o poema deve ter um tema?
Quem o disse perde a poesia do poema
Pintura e poesia têm o mesmo fim:
Frescura límpida, arte para além da arte
Os pardais de Bain Lun piam no papel
As flores de Zhao Chang palpitam
Porém o que são ao lado destes rolos
Pensamentos-linhas, manchas-espíritos?
Quem teria pensado que um pontinho vermelho
Provocaria o desabrochar da primavera?



Su Dong Po