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segunda-feira, novembro 23, 2009

A delicada questão do dinheiro...


                                               (Dario Castillejos, «Cagle Cartoons»)

  Já no final de um discurso extremamente importante
  O grande homem de Estado
  numa bela frase oca
  escorrega
  e desamparado de boca escancarada
  sem fôlego
  mostrando os dentes
  e a cárie dentária dos seus pacíficos raciocínios
  deixa exposto o nervo da guerra:
  a delicada questão do dinheiro.


(Jacques Prévert- Paroles- trad. de Manuela Torres)

terça-feira, outubro 27, 2009

A quem dás a beber à boca...



Falas de sol e lá fora chove.
A quem falas quando
iluminas de uma luz tão quente
cada palavra? A quem dás
a beber a boca, a respirar
o aroma do feno por entre a chuva?

(Eugénio de Andrade- O Peso da Sombra)

terça-feira, outubro 13, 2009

É dentro do olhar...


O Olhar

É dentro do olhar que principia
essa penumbra que, expulsando o dia,
pouco a pouco enevoa tudo em volta
e onde era luz semeia escuridão.
E é dentro do olhar que a solidão
origina a tristeza e a revolta.
Mas é também por dentro do olhar
que a manhã se ergue nua e anda à solta
e brilha intenso o verde-azul do mar.

(Torquato da Luz- Por Amor e Outros Poemas)

quarta-feira, outubro 22, 2008

Se a não vejo imagino-a...

(Velasquez)
O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos.
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.

Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

(Alberto Caeiro)

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Contar-te o mar ardente.....

(Aguarelas de Turner)

Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.

Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como doi

desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.

(Manuel Alegre)

sábado, dezembro 29, 2007

Tudo cabe dentro das palavras....

(Ingres)
As lágrimas do poeta

Um poeta barroco disse:
as palavras são
as línguas dos olhos

Mas o que é um poema
senão
um telescópio do desejo
fixado pela língua?

O voo sinuoso das aves
as altas ondas do mar
a calmaria do vento:
Tudo
tudo cabe dentro das palavras
e o poeta que vê
chora lágrimas de tinta

Ana Hatherly in "O Pavão Negro".2003