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segunda-feira, dezembro 28, 2009

Até 2010!


                             (Aguarelas de Turner)
Estarei ausente deste canto até aos primeiros dias do novo ano. Os tempos que atravessamos não nos têm trazido grandes motivos de júbilo. Poder-se-á, no entanto, questionar se a existência, vista à escala microscópica do nosso dia-a-dia, terá em alguma época trazido motivos de júbilo. Ao longo da minha vida olho as transformações operadas  como mudanças lentas que se vão dando ao longo do tempo e que se tornam pouco visíveis se as olhamos de perto. No entanto, se pensarmos nos últimos cinquenta anos, quase todos nós nos sentimos satisfeitos por termos percorrido já este caminho que nos afasta dos tempos "medievais" da nossa infância, que a única coisa que tinha de maravilhosa era o de ser a" nossa infância". Também hoje, o pessimismo que nos atravessa não se deve exclusivamente a causas externas mas à realidade de sentirmos curto o tempo para todo o nosso sonho. Esquecemo-nos então de darmos uns passos atrás, para termos uma visão de conjunto, e olhamos o que nos rodeia com os olhos da tristeza de não sermos imortais. Este olhar "microscópico" não é, todavia, um olhar vão. É um olhar que grita o desejo que temos de fazer melhor, de vermos todos os humanos, por igual, com condições de dignidade e de desenvolvimento. É aqui que todos não 
podemos deixar  de continuar a dizer. Se cada um de nós fizesse o exercício, simples, de pensar que o acaso poderia tê-lo feito nascer num desses países esquecidos onde a rudimentar alimentação é uma guerra diária, se cada um de nós ( e em especial, os que detêm o poder) suportasse, por instantes, a dor de se imaginar no limiar da sobrevivência, talvez cada acto, cada iniciativa, tivesse de ter, permanentemente em conta os esquecidos da sorte.
    Quero despedir-me dos meus amigos fazendo votos para  que todos os que nos encontramos por "estas paragens" não deixemos de  manter as duas visões da existência: a que "grita" o que está mal e a que "vê" o que vai podendo evoluir. Viver, inteiramente, o presente, transformando-o sempre que possível, parece-me ser a única maneira de nos sentirmos Vivos.
Até 2010, queridos amigos!

Só a rajada de vento dá o som lírico às pás do moinho..


                                           (Leighton)

Da Voz das Coisas


Só a rajada de vento
dá o som lírico
às pás do moinho.

Somente as coisas tocadas
pelo amor das outras
têm voz.


(Fiama Hasse de Pais Brandão- As Fábulas,2002)

domingo, dezembro 27, 2009

As nuvens não passam de convidados...


Corro, só isso. Corro no vazio. Dito de outro modo: corro para atingir o vazio. No entanto, há sempre um pensamento ou outro que acaba por se introduzir nesse vazio. O espírito humano  não pode ser um vazio completo. As emoções dos homens não se revelam suficientemente fortes ou consistentes, ao ponto de albergarem o vazio. Quero com isto dizer que os pensamentos e ideias que invadem o meu espírito  enquanto corro permanecem subordinados a esse espaço oco. Na medida em que lhe falta conteúdo, mais não são do que pensamentos ao correr da pena que têm como eixo a natureza do próprio vazio.
As coisas que me vêm à cabeça enquanto corro são como nuvens no céu. Nuvens nas diferentes formas e de diferentes tamanhos, que vão e vêm enquanto o céu permanece o mesmo de sempre. As nuvens não passam de convidados. Aproximam-se a passo, para depois se afastarem e desaparecerem no horizonte. Fica apenas o céu. Existe, ao mesmo tempo que não existe, o céu. Tem substância e ao mesmo tempo não tem. E nós limitamo-nos a aceitar a existência desse recipiente incomensurável tal como é e deixamo-nos envolver por ele.

(Haruki Murakami- Auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo)

quinta-feira, dezembro 24, 2009

quarta-feira, dezembro 23, 2009

Em jeito de mote a " O Vazio do Presépio" de "Ponteiros Parados"


Lá em minha casa foi um pouco diferente. O meu lado conservador está na árvore de Natal e o meu lado revolucionário está no presépio. Ora vejamos porquê.Os meus pais, num acto revolucionário, tinham relegado o presépio para os confins do nenhures. Faziam, contudo, da preparação da árvore de Natal um momento mágico. Cada bola, desembrulhada cuidadosamente, era colocada com todo o cuidado. Nós conhecíamos os enfeites, um a um, e tínhamos por eles o maior dos carinhos. E cada ano comprava-se sempre mais uma ou outra bola que vinha enriquecer o nosso "tesouro". Depois vinham as velas a sério( qual, luzes eléctricas...) que eram acesas num momento especial, sempre com muito cuidado, para que nenhuma pegasse ao pinheiro. Era tão bom aquele momento que chegámos a fazer uma cama junto à árvore para não perdermos nenhum momento. O vazio que mais tarde se gerou foi a dificuldade que senti de voltar a sentir o que sentia nesses tempos.A Árvore, continua a estar  presente cá em casa por esta altura, mas algures a chama apagou-se. A ela veio juntar-se há uns anos valentes um presépio. E porquê? Porque os filhos resolveram introduzir esse cunho humanizado ao Natal- um bebé, um pai e uma mãe e uma família alargada  com muitos bichinhos. A apanha do musgo passou a fazer parte dos novos rituais da casa. Perguntava-me sempre se não estaria a trair a minha tradição, mas encontrava sempre alguma consolação ao descobrir a alegria dos miúdos com a feitura do presépio. Assim, quando se quando fala de " o vazio do presépio" eu leio-o mais como o "vazio da magia". Julgo ser esse o melhor testemunho que poderemos transmitir aos nossos filhos e netos, e essa pode acontecer das mais variadas maneiras, ou então de maneira nenhuma.

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Um velho livro de quadradinhos..



RECEITA PARA UM NATAL

Primeiro, ficar parado
durante um momento, de pé
ou sentado, numa sala ou mesmo
noutra dependência do lar.
Depois preparar
os olhos, as mãos, a memória
e outros utensílios indispensáveis. A seguir
começar a reunir
coisas, por ordem bem do interior
do coração e do pensamento:
a ternura dos avós, uma mancheia;
rostos de primos distantes, uma pitada;
sons de sinos ao longe, quanto baste;
a recordação duma rua, uns bocadinhos
um velho livro de quadradinhos
duas angústias mais tardias, alguns restos de azevias,
a lembrança de vizinhos ainda vivos mas ausentes
e de uns já passados.
Quatro beijos de seres amados ou de parentes
um cachecol de boa lã cinzenta aos quadrados
e um pouco de azeite puro e fresco
igual ao que a mãe usava noutro tempo saudoso.
Mexe-se bem, leva-se ao forno
e fica pronto e saboroso
- mesmo que, nostálgica, se solte uma pequena lágrima.

Nicolau Saião


(publicado no "Aguarelas de Turner" no 1º Natal do blog -2005-e oferecido por "Ao longe barco de flores")

domingo, dezembro 20, 2009

Tudo começava pela cúmplice neblina


                                 (Turner)                
 
                                            PRELÚDIO DE NATAL  
                                                                 

Tudo principiava
pela cúmplice neblina
que vinha perfumada
de lenha e tangerinas

Só depois se rasgava
a primeira cortina
E dispersa e dourada
no palco das vitrinas

a festa começava
entre odor a resina
e gosto a noz-moscada
e vozes femininas

A cidade ficava
sob a luz vespertina
pelas montras cercada
de paisagens alpinas


David Mourão-Ferreira

sábado, dezembro 19, 2009

sexta-feira, dezembro 18, 2009

Natal à volta da lareira


                             (Aguarelas de Turner)

O Natal este ano aqui"abre-se", acendendo a lareira. Ela estará acesa enquanto durar esta época. Do Natal gosto, acima de tudo, da possibilidade de nos reunirmos em torno da família e dos amigos. Sentarmo-nos em torno de um fogo bem esperto e ateado, acende-nos o apetite para um convívio partilhado. Venham daí sempre que vos apetecer. Vamos conversar à volta da lareira.

quarta-feira, dezembro 16, 2009

segunda-feira, dezembro 14, 2009

"Ágora" em debate



 Acabei de sair deste filme, não tendo tido ainda a distância suficiente para uma análise um pouco mais reflectida. Não me sentindo preparada para o analisar do ponto de vista da sua exatidão histórica, vi-o como um libelo contra todas as formas de violência presentes no dogmatismo das religiões e das ideologias. Contra a destruição da ciência, da cultura, do pensamento,  da independência e, em última instância, da vida,  é vital  e urgente continuarmos a erguermo-nos. Penso que seria um filme importante a ser visto e debatido nas aulas de história, filosofia e, porque não, de física e matemática. Temos o dever de continuar a denunciar e desmontar todas as formas de violência, "devidamente justificadas" por ideias ou por uma qualquer fé.

sábado, dezembro 12, 2009

Burros do Presépio- A Barbearia no seu melhor!


                                         (transformação de "Aguarelas de Turner")
Este nosso amigo ( "O jumento é nosso irmão/ quer queiram/ quer não"-Gonzagão) percorreu um árduo e doloroso caminho para se apresentar, a tempo e horas, no presépio da Barbearia. Assim, poderão melhor perceber esta sua expressão carente, esperando que a chuva que o encharcou durante a viagem, não o impossibilite de poder emitir os seus bafos, sempre tão desejados e necessários... Vai daqui um apelo  ao  dono do Presépio para que lhe proporcione um rápido aquecimento.                    

As estrelas acordavam do fundo do mar...



                             (Aivazovsky)

A UMA ESTRANGEIRA
Lembrança de uma noite no mar

Sens-tu mom coeur, comme il palpite?
Le tien comme il battait gaiement!
Je m'en vais pourtant, ma petite,
Bien loin, bien vite,
Toujours t'aimantChanson

Inês! nas terras distantes,
Aonde vives talvez,
Inda lembram-te os instantes
Daquela noite divina?...
Estrangeira, peregrina,
Quem sabes?- Lembras-te, Inês?

Branda noite! A noite imensa
Não era um ninho? - Talvez!...
Do Atlântico a vaga extensa
Não era um berço?- Oh Se o era...
Berço e ninho...ai primavera!
O ninho, o berço de Inês.

Às vezes estremecias...
Era de febre? Talvez...
Eu pegava-te as mãos frias
P´ra aquentá-las em meus beijos...
Oh! palidez! Oh! desejos!
Oh! longos cílios de Inês.

Na proa os nautas cantavam;
Eram saudades?...Talvez!
Nossos beijos estalavam
Como estala a castanhola...
Lembras-te acaso, espanhola?
Acaso lembras-te, Inês?

Meus olhos nos teus morriam...
Seria vida?- Talvez!
E meus prantos te diziam:
" Tu levas minh'alma , ó filha,
Nas rendas desta mantilha...
Na tua mantilha, Inês!"

De Cadiz o aroma ainda
Tinhas no seio...- Talvez!
De Buenos Aires a linda,
Volvendo aos lares, trazia
As rosas de Andaluzia
Nas lisas faces de Inês!

E volvia  a Americana
Do Plata às vagas...Talvez?
E a brisa amorosa, insana
Misturava os meus cabelos
Aos cachos escuros, belos,
Aos negros cachos de Inês!

As estrelas acordavam
Do fundo do mar...Talvez!
Na proa as ondas cantavam,
E a serenata divina
Tu, tu com a ponta da botina,
Marcavas no chão...Inês!

Não era cumplicidade
Do céu, dos mares? Talvez!
Dir-se-ia que a imensidade
- Conspiradora mimosa-
Dizia à vaga amorosa:
"Segreda amores a Inês!"

E como um véu transparente,
Um véu de noiva...talvez,
Da lua o raio tremente
Te enchia de casto brilho...
E a rastos no tombadilho
Caía a teus pés...Inês!

E essa noite delirante
Pudeste esquecer?- Talvez...
Ou talvez que neste instante,
Lembrando-te inda saudosa,
Suspires, moça formosa!...
Talvez te lembres ...Inês.

(Castro Alves- Lêdo Ivo selecção)

Pelos meus 13 anos, talvez, vibrei com a peça de teatro de Jorge Amado - O Amor do Soldado- escrita para celebrar o centenário do nascimento de Castro Alves, que morrera apenas com 24 anos, vítima de um desgosto amoroso que veio a culminar numa tuberculose. Esta peça foi-me trazida por uma amigo mais velho, sendo por nós lida e ensaiada vezes sem conta. Como memória esbatida recordo uma mescla entre um clima amoroso forte e intenso, aliado a uma "incendiada" luta política. O que um poema nos traz à ré....


quarta-feira, dezembro 09, 2009

terça-feira, dezembro 08, 2009

Pequena janela


                            Addiragram
Nota póstuma:

Houve uma migração acidental de um blog para outro.  Esta era uma foto que começara por pensar publicar no "Reflexos do Olhar", tendo acabado por a "pôr na prateleira". Como descobri que me enganei no lugar  resolvi deixá-la ficar, olhando-a mais como a foto que não conseguiu ser aquilo que sonhei, mas que busca novas oportunidades de se poder abrir a um novo olhar...
São sobretudo os erros que nos ensinam a querer continuar a procurar.

E depois os lapsos são sempre produtivos para o próprio, já que nos fazem discorrer sobre os caminhos que os traçaram.

Ela irá estender a sua larga saia...

                                     
                                        

                         (Keith Gantos)                    
                                          Devias ir
                                          de lugar em lugar
                                          para recuperar os poemas
                                          que foram escritos para ti,
                                          as quais poderias afixar a tua assinatura.
                                          Não fales destes assuntos
                                          com ninguém.
                                          Resgata, resgata.
                                          Quando o cesto estiver cheio
                                          há-de aparecer alguém
                                          a quem possas oferecer
                                          Ela irá estender a sua larga saia
                                          e sentar-se
                                          numa pedra preta
                                          e o teu cesto há-de ressaltar
                                          como uma mancha à luz do sol
                                          na imensa paisagem do teu regaço.


                                  (Leonard Cohen- Livro do Desejo)

segunda-feira, dezembro 07, 2009

Seus caturras duma figa...

                                           


                                (Salvador Dali)              

                                                 Existe em Camarate,
                                                 Terreola suburbana
                                                 Uma quinta que encanta
                                                 Toda a alma...sendo humana!
                                                   
                                                 Ela é mesmo um paraíso!
                                                 Essa quinta que é minha
                                                 Chama-lhe a gente do sítio
                                                 Da Victória ou Ribeirinha.

                                                 Em essa bela vivenda
                                                 Em a qual eu fui criado,
                                                 Existe tudo o que existe
                                                 Desde a capela ao cerrado.

                                                Querem vender essa terra
                                                Porque faz muita despesa.
                                                Mas quando se fala disto
                                                Digo eu assim com aspreza:

                                               « Não vêem que esta quinta
                                               Dá uma fruta tão bela?
                                               Seus caturras duma figa
                                               Sejam gratos pra com ela».

             (Mário de Sá- Carneiro- 30 de Julho de 1903)

sábado, dezembro 05, 2009

Ouçamos .......

Cultura a desenvolver-se dentro de nós como um novo orgão...


Antes de prosseguir nas minha considerações sobre cultura não posso deixar de observar que o mundo enferma de fome e ignora a cultura e que a tentativa de reconduzir à cultura um pensamento ocupado apenas pela fome é um recurso por completo artificial.
O que acima de tudo importa, assim me parece, é não tanto defender uma cultura cuja existência jamais excluiu a fome e libertou o homem da preocupação de uma vida melhor, como extrair daquilo que se denomina cultura umas quantas ideias vectoriais cuja energia motriz equivalesse à da fome.
Antes de mais nada, necessitamos de viver, necessitamos de acreditar que não estamos condenados a que esse indefinido produto do misterioso íntimo de todos nós para sempre nos obceque com uma ansiedade exclusivamente gástrica. O que pretendo frisar é que, se o que mais nos importa é comer, de maior importância será ainda não desperdiçar unicamente nessa única preocupação  todo o nosso mero potencial de fome. Se o traço característico da nossa época é a confusão, distingo perfeitamente na raiz desta confusão uma ruptura entre as coisas e as palavras, entre as coisas e as ideias e os signos que as representam.
E a causa de tudo isto não é decerto a carência de sistemas filosóficos, pelo contrário, o facto de serem inúmeros e contraditórios caracteriza a nossa velha cultura francesa e europeia. Todavia em que é que estes sistemas afectaram jamais a vida, a nossa vida? Não pretendo afirmar que os sistemas filosóficos devam ser postos em prática directa e imediatamente, mas das alternativas que passo a expor uma terá de ser verdadeira: Ou estes sistemas estão dentro de nós e impregnam  o nosso ser a ponto de servirem de manutenção à própria vida ( e se é este o caso, de que servem os livros?) ou então não penetram em nós e não têm, por consequência, possibilidade de prover à subsistência da vida (que importa nesse caso a sua desaparição?).
Temos de insistir numa ideia de cultura-em-acção, cultura a desenvolver-se dentro de nós como um novo orgão, uma espécie de segundo hálito; e na de civilização como uma cultura aplicada, a controlar até às nossas acções mais subtis, uma presença de espírito. (...)

(Antonin Artaud- O teatro e o seu duplo)

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Feliz só será...




                                                           (Chagall)

Feliz só será
A alma que amar.

'Star alegre
E triste,
Perder-se a pensar,
Desejar
E recear
Suspensa em penar,
Saltar de prazer,
De aflição morrer —
Feliz só será
A alma que amar.

(Johann Wolfgang von Goethe, in "Canções"
Tradução de Paulo Quintela)

terça-feira, dezembro 01, 2009

A dificuldade de pensar o tempo ...


É portanto através de uma figura do excesso - o excesso de tempo- que começaremos por definir a situação de sobremodernidade, sugerindo que, devido às suas próprias contradições, ela oferece um magnífico terreno de observação e, no sentido pleno do termo, um objecto à investigação antropológica. Da sobremodernidade, poderíamos dizer que é a face de uma moeda da qual a pós-modernidade nos apresenta apenas o reverso- o positivo de um negativo. Do ponto de vista da sobremodernidade, a dificuldade de pensar o tempo está ligada à superabundância de acontecimentos do mundo contemporâneo, e não à derrocada de uma ideia de progresso de há muito posta em xeque, pelo menos sob as formas caricaturais que tornam a sua denúncia particularmente cómoda; o tema da história iminente, da história que não nos larga os calcanhares (quase imanente a cada uma das nossas existências quotidianas) surge como um preliminar ao tema do sentido ou do não-sentido da história: porque é da nossa exigência de compreender todo o presenteque decorre a nossa dificuldade de dar um sentido a um passado próximo; a busca positiva de sentido ( da qual o ideal democrático é, decerto, um aspecto essencial), que se manifesta entre os indivíduos das sociedades contemporâneas, pode explicar, paradoxalmente, os fenómenos que são por vezes interpretados como os sinais como uma crise de sentido, e entre outras coisas as decepções de todos os desiludidos da terra: desiludidso do socialismo, desiludidos do liberalismo, desiludidos do pos-comunismo, dentro em breve.

Marc Augé - Não-lugares. Introdução a uma Antropologia da Sobremodernidade)

segunda-feira, novembro 30, 2009

sábado, novembro 28, 2009

A ruiva rosa sonora...

                            

                                            Com sua agulha sonora
                                             borda o pássaro o cipreste:
                                             rosa ruiva da aurora,
                                             folha celeste.

                                             E com tesoura sonora
                                             termina o bordado aéreo.
                                             Silêncio. E agora
                                             parte para o mistério.

                                             A ruiva rosa sonora
                                             com sua folha celeste
                                             imperecível mora
                                             no cipreste.
                             
       (Cecília Meireles)

                   

quinta-feira, novembro 26, 2009

...apressamo-nos a destruí-las...


(René Magritte)
Quando queremos arrombar com êxito as portas abertas, não nos devemos esquecer de que elas têm sólidas ombreiras; este princípio, que o velho professor sempre seguira, não é mais do que uma exigência do sentido do real. Mas se existe  um sentido do real e temos de admitir que ele tem direito à existência, deve também haver qualquer coisa a que se possa chamar sentido do possível.
O homem que o possui, por exemplo, nunca dirá: isto aconteceu, deve acontecer, vai acontecer isto ou aquilo; antes imagina: poderia ou deveria acontecer isto ou aquilo; e quando lhe dizem que uma coisa é como é, ele pensa que também poderia ser de outra maneira. Assim podemos definir o sentido do possível como sendo a faculdade de pensar tudo o que « também» poderia ter acontecido  e não conceder  mais importância àquilo que é do que àquilo que não é. Vemos que as consequências desta disposição criadora podem ser notáveis; infelizmente, não é raro que façam aparecer como falso o que os homens admiram e como lícito aquilo que els proíbem, ou que tanto faz uma coisa como outra...Esses homens do possível vivem, como aqui se diz, numa trama mais fina, uma trama de fumo, de imaginações, de divagações, de conjuntivos; quando se descobrem numa criança tendências desse tipo apressamo-nos a destruí-las, dizemos-lhe que esses indivíduos tão sonhadores, extravagantes, fracos, eternos descontentes, que sabem tudo melhor que os outros.

(Robert Musil- O homem sem qualidades)

quarta-feira, novembro 25, 2009

Olhar o rio que é de tempo e água...

                           


                              Olhar o rio que é de tempo e água
                              E recordar que o tempo é outro rio,
                              Saber que nos perdemos como o rio
                              E que os rostos passam como a água.

                             Sentir que a vigília é outro sono
                             Que sonha não sonhar e que a morte
                              Que teme a nossa carne é essa morte
                              De cada noite, que se chama sono.

                              Ver no dia ou até no ano um símbolo
                               Quer dos dias do homem quer dos anos,
                              Converter a perseguição dos anos
                               Numa música, um rumor e um símbolo,

                               Ver só na morte o sono, no ocaso
                               Um triste ouro, assim é a poesia
                               Que é imortal e pobre. A poesia
                                Volta como a aurora e o ocaso.

(Jorge Luis Borges)
                    

segunda-feira, novembro 23, 2009

A delicada questão do dinheiro...


                                               (Dario Castillejos, «Cagle Cartoons»)

  Já no final de um discurso extremamente importante
  O grande homem de Estado
  numa bela frase oca
  escorrega
  e desamparado de boca escancarada
  sem fôlego
  mostrando os dentes
  e a cárie dentária dos seus pacíficos raciocínios
  deixa exposto o nervo da guerra:
  a delicada questão do dinheiro.


(Jacques Prévert- Paroles- trad. de Manuela Torres)

domingo, novembro 22, 2009

Porquê?



...Descobrir que todos abrigamos nos nossos corações o selvagem, o criminoso e o animal não nos torna mais alegres.
- Qual è a sua objecção aos animais? replicou Freud- Eu prefiro infinitamente a companhia dos animais à companhia humana.
- Porquê?
- Porque são mais simples. Não sofrem de uma personalidade dividida, da desintegração do Ego, que resulta da tentativa do homem de se adaptar a padrões de civilização demasiado elevados para o seu mecanismo intelectual e psíquico. O selvagem, tal como o animal, é cruel, mas não tem a maldade do homem civilizado. A maldade é a vingança do homem contra a sociedade pelas restrições que ela impõe. Este desejo de vingança anima o reformador profissional e o intrometido. O selvagem pode cortar-lhe a cabeça, pode comê-lo, pode torturá-lo, mas irá poupar-lhe as contínuas alfinetadas que tornam a vida numa comunidade civilizada por vezes quase intolerável. Os mais desagradáveis hábitos e idiossincrasias do homem, a sua dissimulação, a sua cobardia, a sua falta de reverência, são gerados pelo seu ajustamento incompleto a uma civilização complicada. É o resultado do conflito entre os nossos instintos e a nossa cultura. Como são mais agradáveis as emoções simples, directas e intensas de um cão, quando abana a cauda ou ladra o seu desprazer! As emoções de um cão- acrescentou Freud pensativamente- lembram-nos os heróis da Antiguidade. Talvez seja essa razão pela qual inconscientemente damos aos nossos cães nome de heróis antigos como Aquiles e Heitor.
- O meu próprio cão- disse eu-é um doberman pincher chamado Ajax.
Freud sorriu.
(...)

(Entrevista dada por Freud a George Sylvester Viereck.))

sexta-feira, novembro 20, 2009

quarta-feira, novembro 18, 2009

Desfalecem, na sombra, as suas asas...



                  Fragmentos

                      I

Quando arrefece o coração das pombas
desfalecem, na sombra, as suas asas...

(Safo-secVII-VI a.C. Fragmento 42 Lobel-Page)

segunda-feira, novembro 16, 2009

Será dos meninos o tempo e a casa



                                             (Maluda)
 Cidade Branca

Dorme já, plenamente, a cidade!
O silêncio é de ouro e os homens
todos o procuram de mãos dadas.
Os velhos, de olhos semicerrados,
amparam-se ao bordão da memória;
emudeceram, no solar dos senhores,
o chicote, o ódio sem disfarce.

Dorme já, plenamente, a cidade!
Aproxima-se o dia. As mulheres,
amadas e repousadas, cantam
em seu sono. Abre-se, em concha,
a mão da madrugada. Lábios e rosas.
Amanhã, ao acordar, a cidade renovada
será dos meninos o tempo e a casa.


(Casimiro de Brito)

sábado, novembro 14, 2009

Com elas nos pensamos...


Das Palavras

As palavras mais simples
foram as que te dei;
o amor não sabe outras,
só estas fazem lei.
As palavras de uso
mais comum e vulgar
são as que amor conhece.
Com elas nos pensamos;
é nelas que tememos
desacertos, enganos;
se nelas triunfamos,
já delas nos perdemos.
Com palavras vulgares
se diz o mal de amor,
seu riso, seu espelho,
o que fica da dor.
E todos os mistérios
que se fazem promessa
e se perdem nos versos
e dos corpos nasceram
são aqui cerimónia
evidente e secreta
nas mais simples palavras
que conhece o poeta.

Luis Filipe Castro Mendes, in "Os Amantes Obscuros"

"Aguarelas de Turner", "sempre"...



                        ( Turner- Norhan Castle Sunrise)

Enquanto a solução não chega, só me resta evocar, uma vez mais, este espantoso quadro- Norhan Castle Sunrise .

sexta-feira, novembro 13, 2009

Como isto aconteceu?



Sinto-me como me tivessem "despejado" da minha casa e tivessem decidido mudar a chave sem o meu conhecimento ou consentimento. No lugar do título e da belíssima aguarela de Turner surgiu essa  coisa que se apropriou indevidamente de um lugar e de um espaço. Desconheço o que é e como isto acontece. Sei só que estou muito zangada e não descansarei  enquanto não resolver o problema.
Quero, além de mais perceber, como estas coisas acontecem.
Uma surpresa francamente desagradável.

quinta-feira, novembro 12, 2009

No Largo das Necessidades havia um terraço...



                               (Palácio da Necessidades)
No Largo das Necessidades havia um terraço, todo em vermelho de tijolo, como se o colorisse uma inquietação transparente. Daquele terraço, via a praça toda à volta, o Palácio das Necessidades com as suas arcadas amarelas, colunas de pássaros regulares como as janelas, e por de trás das janelas homens desejando vitórias e derrotas. Do palácio amarelo, de um lado da praça, escadas longas e ligeiras, feitas de fragmentos cinzentos mesclados de azul em desenhos de verão, de navios e bandeiras, degraus de um patchwork de sereias, como se por debaixo estivesse o mar. Em vez do mar, um jardim, mínimo, porque o Largo das Necessidades é afinal estreito, um pátio com laivos de praça. No jardim, pequeno, há ao abrigo das árvores um banco e outro, mais alguns jogos  montados para crianças. Uma rotunda ao meio, onde podes escrever o que quiseres, e a sombra às seis da tarde. Todo o resto é chuva, nichos, um estrado de madeira do lado de fora de um café, uma cabina telefónica à inglesa, flores de buganvília, fotografias.
O que encontras aqui são os rumores de um mundo que inventa as suas cores, enquanto as pinta. Um realizador que procura a deixa para a protagonista de um filme mudo, um motorista de táxi bêbado que te pergunta o caminho para voltar a casa, uma rapariga que se enfurece porque está apaixonada e ao lado um homem que tem medo dela. Pombos, voo de pássaros e vento quando cai o sol, um jardineiro vestido de Inverno e uma rapariguinha que finge ser Primavera. Na rotunda, alguns velhos jogam um velho jogo de cartas.
Depois chega a noite, a Primavera volta para casa juntamente com todos os demais, excepto nós.
Uma das costelas do jardim, na esquina com a Travessa dos Prazeres, era um prédio cor de morango e mirtilo. Juntos. E a seguir, ao alto, um terraço que parecia feito de inquietação. De um vermelho amargo, forte, obstinado. Excessivo.
Número 22: no terceiro andar ficava a nossa casa. Muito antes de ser a Beirabismo. E na casa havia um corredor, longo como uma memória tenaz.

(Paola D' Agostino- Largo das Necessidades- Fenda Edições)

quarta-feira, novembro 11, 2009

terça-feira, novembro 10, 2009

A Morte é a companheira do Amor. Juntos regem o mundo.


 (...)
É possível- respondeu Freud, que a morte em si não seja uma necessidade biológica. Talvez morramos porque desejamos morrer. Tal como o amor e o ódio por uma pessoa habitam o nosso peito ao mesmo tempo, assim também toda a vida conjuga o desejo de se manter e um desejo ambivalente da sua própria destruição- Tal como um pequeno elástico esticado tende a assumir a sua forma original, assim também toda a matéria viva, consciente ou inconscientemente, anseia por recuperar a completa e absoluta inércia da existência inorgânica. A pulsão de vida e a pulsão de morte habitam lado a lado dentro de nós. A Morte é companheira do Amor. Juntos regem o mundo. É esta a mensagem do meu livro Para Além do Princípio do Prazer. No início a psicanálise supôs que o Amor tinha toda a importância. Hoje sabemos que a Morte é igualmente importante.(...)

(Entrevista dada por Freud a George Sylvester Viereck.)

segunda-feira, novembro 09, 2009

...estremecendo como as letras nas folhas de outra cor



                     (Carlos Helder Leitão Macedo)


Em silêncio descobri essa cidade no mapa
a toda a velocidade: gota
sombria. Descobri as poeiras que batiam
como peixes no sangue
A toda a velocidade, em silêncio, no mapa-
como se descobre uma letra
de outra cor no meio das folhas,
estremecendo nos ulmos, em silêncio. Gota
sombria num girassol-
essa letra, essa cidade em silêncio,
batendo como sangue.

Era a minha cidade ao norte do mapa,
numa velocidade chamada
mundo sombrio. Seus peixes estremeciam
como letras no alto das folhas,
poeiras de outra cor: girassol que se descobre
como uma gota no mundo
Descobri essa cidade, aplainando tábuas
lentas como rosas vigiadas
pelas letras dos espinhos. Era em silêncio
como uma gota
de seiva lenta numa tábua aplainada.

Descobri que tinha asas como uma pêra
que desce. E a essa velocidade
voava para mim aquela cidade do mapa
Eu batia como os peixes batendo
dentro do sangue-peixes
em silêncio, cheios de folhas. Eu escrevia,
aplainando na tábua
todo o meu silêncio. E a seiva
sombria, vinha escorrendo do mapa
desse girassol, no mapa
do mundo. Na sombra do sangue, estremecendo
como as letras nas folhas
de outra cor.

Cidade que aperto, batendo as asas-ela-
no ar do mapa. E que aperto
contra quanto, estremecendo em mim com folhas,
escrevo no mundo.
Que aperto com o amor sombrio contra
mim: peixes de grande velocidade,
letra monumental descoberta entre poeiras.
E que eu amo lentamente até ao fim
da tábua por onde escorre
em silêncio aplainado noutra cor;
como uma pêra voando,
um girassol do mundo.

(Herberto Helder)

sexta-feira, novembro 06, 2009

Uma vez ou outra encontrei um ser humano que quase me compreendeu



O cenário da nossa conversa foi a casa de Verão de Freud no Semmering, uma montanha nos Alpes austríacos onde Viena elegante gosta de se encontrar. Eu vira o pai da  psicanálise pela última vez na sua casa despertenciosa na capital austríaca. Os poucos anos decorridos entre a minha última visita e a actual tinham multiplicado as rugas na sua fronte. Tinham intensificado a sua palidez escolástica. A sua face estava tensa, como se sentisse dor. A sua mente estava alerta, o seu espírito firme, a sua cortesia impecável como sempre, mas um ligeiro impedimento da fala alarmou-me.
Parece que um tumor maligno no maxilar superior necessitara de ser operado. Desde então, Freud usa uma prótese para facilitar a fala. Isso não é em si pior do que usar óculos. A presença do aparelho metálico embaraça mais Freud do que os seus visitantes. Ao fim de algum tempo, é quase imperceptível para quem conversa com ele. Nos seus dias bons, não é sequer detectável. Mas para Freud é motivo de permanente irritação.
- Detesto o meu maxilar mecânico, porque a luta com o aparelho consome tanta energia preciosa. No entanto, prefiro um maxilar mecânico a maxilar nenhum. Ainda prefiro a existência à extinção.
- Talvez os deuses sejam gentis connosco-prosseguiu o pai da psicanálise- tornando a vida mais desagradável à medida que envelhecemos. Por fim, a morte parece menos intolerável do que os múltiplos fardos que carregamos.
Freud recusa-se a admitir que o destino lhe reserva algum mal especial.
- Por que razão- disse calmamente- deveria eu esperar um tratamento especial? A velhice, com os seus desconfortos manifestos, chega a todos. Atinge uma pessoa aqui, outra ali. O seu golpe atinge sempre um ponto vital. A vitória final pertence sempre ao Verme conquistador.
Apagam-se, apagam-se as luzes- todas se apagam!
E sobre cada forma trémula
O pano, uma mortalha fúnebre
Cai, com o ímpeto de uma tempestade.
E os anjos, pálidos e exangues,
Erguendo-se, desvelando-se, afirmam
Que a peça é a tragédia 'Homem'
E o seu herói, o Verme Conquistador. (1)
- Eu não me rebelo contra a ordem universal. Afinal- continuou o mais importante analista do cérebro humano- vivi mais de setenta anos. Tive comida suficiente. Apreciei muitas coisas- a companhia da minha mulher, os meus filhos e os poentes. Vi as plantas crescerem na primavera. De vez em quando tive uma mão amiga para apertar. Uma vez ou outra encontrei um ser humano que quase me compreendeu. Que mais posso pedir?
- O senhor teve fama- disse eu. - A sua obra influi na literatura de todos os países. Por sua causa o homem olha para a vida e para si mesmo com outros olhos. E recentemente, no seu septuagésimo aniversário, o mundo uniu-se para o homenagear- à excepção da sua própria Universidade!- Se a Universidade de Viena me tivesse demonstrado reconhecimento, teria acabado apenas por envergonhar-me. Não há razão para que me aceitem a mim ou à minha doutrina, pelo facto de eu ter setenta anos. Eu não atribuo qualquer importância insensata aos decimais. A fama chega apenas quando morremos e, francamente, o que vem depois não me interessa. Não aspiro à glória póstuma. A minha modéstia não é uma virtude.
- Para si não tem qualquer significado o facto do seu nome sobreviver?
- Absolutamente nenhum, mesmo que sobreviva, o que não é de modo algum uma certeza. Estou bastante mais interessado no destino dos meus filhos. Espero que a vida deles não seja tão difícil. Não posso torná-la muito mais fácil. A guerra liquidou praticamente a minha modesta fortuna, a poupança de uma vida inteira. No entanto, felizmente, a idade ainda não é um fardo demasiado pesado. Posso continuar! O meu trabalho ainda me dá prazer.(cont.)
(1) -Poe, Edgar Allan in " The Conqueror Worm", 1843)
( O original desta entrevista foi publicada no livro de George Sylvester Viereck. "Glimpses of de Great", 1930, editado simultâneamente em Nova Yorque, Londres e Berlim, e reeditada em "Psychonalysis and the future. A centenary commemoration of birth of Sigmund Freud". New York; National Psychological Assotiation for Psychoanalysis, Inc., 1957. pag 1-11- trad. Vasco Tavares dos Santos e Sofia Castro Rodrigues)

terça-feira, novembro 03, 2009

Só necessito que tu existas


                                            (Fantin-Latour)
Afogo no teu ombro
tudo o que não te digo
o pânico do sonho
o resplendor do risco

É de ti que me escondo
Em ti é que me firmo
Antes de já ser ontem
sentir que estamos vivos

Nada garante que tu existas
Não acredito que tu existas

Só necessito que tu existas


(David Mourão-Ferreira- O Corpo Iluminado)

domingo, novembro 01, 2009

Alguma coisa ali já se tinha iniciado........



A minha intenção era só dar uma vista de olhos às crias, e depois ir para casa pensar com calma e ponderação se estava preparado para assumir a responsabilidade de ter um lobo, e por aí adiante. Mas quando vi as crias, soube logo que ia levar uma delas para casa-nesse mesmo dia. Na verdade não podia ter sido mais rápido a tirar o livro de cheques. E quando o criador disse que não aceitava cheques, não podia ter conduzido mais depressa para chegar ao Multibanco mais próximo.
Escolher a cria foi mais fácil do que eu pensava. Primeiro de tudo, eu queria um macho. Havia três. O macho maior- a maior de todas as crias, aliás-era um cinzendo, e eu tinha a certeza de que ia ser igualzinho ao pai. Já sabia o suficiente para perceber que aquele ia ser problemático. Completamente destemido, enérgico e a precisar de algumas rédeas. Com imagens do Blue a passarem-me diante dos olhos e, uma vez que  era este o meu primeiro lobo, achei melhor ser prudente. E assim escolhi a segunda maior cria da ninhada. Era castanho e a cor fazia-me lembra um leão recém-nascido. Por isso dei-lhe o nome de Brenin, que significa rei em galês. Sem dúvida teria ficado mortificado se soubesse que o seu nome vinha de um felino.
E de facto não se parecia de todo com um felino. Antes fazia lembrar uma daquelas crias, de cor acinzentada no Discovery Channel, a seguir a mãe pelo Parque nacional Denali, no Alasca. Com seis semanas, era castanho com manchas pretas, mas tinha um ventre creme que ia desde a ponta da cauda até à parte debaixo do focinho.E tal como um urso bebé, era encorpado: patas grandes, umas pernas largas e uma cabeça grande. Os olhos eram de um amarelo muito escuro, quase cor de mel- e isso foi uma coisa que nunca mudou. Não diria que era "meigo"- pelo menos não à maneira dos cachorrinhos. Não se podia dizer, nem com muita imaginação, que fosse um lobo caloroso, efusivo ou desejoso de agradar. Muito pelo contrário, a desconfiança era a sua principal característica - e,mais uma vez, isso foi uma coisa que não mudou, excepto em relação a mim. Estranho. Consigo lembrar-me destas coisas todas sobre Brenin, Yukon e Sitka. Lembro-me de pegar em Brenin e olhá-lo nos seus olhos de lobo amarelos. Lembro-me da sensação que tive ao agarrá-lo, do pelo macio de bebé nas minhas mãos. Consigo lembrar-me com nitidez de Yukon, erguido sobre as patas traseiras, a olhar para mim de cima , as grandes patas penduradas na porta do estábulo. Lembro-me claramente dos irmãos e irmãs de Brenim a correr em volta do redil, a caírem uns por cima dos outros, e voltando a pôr-se de pé num ápice , felizes da vida. Mas da pessoa que me vendeu Brenin não me lembro rigorosamente nada. Alguma coisa ali já se tinha iniciado; um processo que se tornou cada vez mais evidente à medida que os anos foram passando.

(Mark Rowlands- O filósofo e o lobo)

sábado, outubro 31, 2009

Nathalie Joly canta Yvette Guilbert



Esta noite no Instituto Franco- Portuguais

"Freud ouviu Yvette Guilbert(1867-1944) logo no início da sua carreira no Cabaret, quando assistia às consultas de Charcot em 1890, época da sua primeira estadia em Paris. Ela representava para ele a Paris da sua juventude. Tocado pelo espírito da intérprete, que captava na sua interpretação a alma humana com humor e crueza, compaixão e ternura, Freud dá-lhe conta da sua admiração. Ambos procuravam nas "terras desconhecidas" da sexualidade o que alimenta a vida do espírito. A sua Arte de autenticidade seduz Freud, que se corresponde com ela e mantém uma relação de amizade baseada na admiração recíproca, pendurando o seu retrato na parede do seu consultório, ao lado do da Lou Andreas Salomé.(...)"

(retirado do texto montado e e editado pela Comissão Organizadora do XXII Colóquio da S.P.P)

quinta-feira, outubro 29, 2009

quarta-feira, outubro 28, 2009

Alguns humanos são mais primatas que outros...


                               (Aguarelas de Turner)
Estou a usar o primata como uma metáfora para uma tendência que existe, em maior ou menor grau, em todos nós. Nesse sentido, alguns humanos são mais primatas que outros. O "primata" é a tendência para compreender o mundo em termos materiais: o valor das coisas medido por aquilo que são capazes de fazer pelo primata. O primata é a tendência para ver a vida como um processo de calcular probabilidades e de avaliar possibilidades e usar os resultados desses cálculos a seu favor. É a tendência para ver o mundo como uma colecção de recursos; coisas que podem ser usadas para os seus objectivos. O primata aplica este princípio a outros primatas tanto quanto, ou mais ainda, o aplica ao resto do mundo natural. O primata é a tendência para não ter amigos mas aliados. O primata não vê os seus colegas primatas; obseva-os. E enquanto o faz, aguarda a oportunidade de se aproveitar deles. para o primata estar vivo é estar à espera de atacar. O primata é a tend~encia para basear as relações com os outros num único princípio invariável e implacável: o que podes fazer por mim e quanto isso me vai custar? Essa percepção dos outros primatas acaba por se virar contra o próprio, contagiando e comunicando a visão que o primata tem de si próprio. Consequentemente ele considera a felicidade como algo que pode ser medido, pesado, quantificado e calculado. E encara o amor da mesma forma. O primata é a tend~encia para pensar que as coisas mais importantes da vida se resumem à análise de custo-benefício.
Tudo isto é, reitero, uma metáfora a que recorro para descrever uma tendência humana. Todos conhecemos pessoas assim. Conhecemo-las no trabalho e na vida social; sentámo-nos à frente deles em mesas de conferências, e mesas de restaurantes. Mas essas pessoas não passam de exageros do género humano básico. desconfio que grande parte de nós é mais assim do que pensa ou do que quer acreditar. mas porque é que caracterizo esta tendência de símia? Os seres humanos não são a única espécie de primatas que consegue sofrer e saborear toda a gama de relações humanas. Como vamos ver, há outros primatas que conseguem senti amor; que conseguem sentir a dor tão intensamente que morrem por isso. Conseguem ter amigos e não apenas aliados. No entanto, esta tendência símia no sentido em que é tornada possível pelos primatas; mais precisamente, por um certo tipo de desenvolvimento cognitivo que se deu nos primatas e, tanto quanto sabemos, em mais nenhum animal. A tendência para encarar o mundo e os que estão no mundo em termos de custo-benefício; para encarar a nossa vida e as coisas importantes que nos acontecem como algo que pode ser qualificado e calculado: esta tendência é possível apenas porque os primatas existem. E de todos os primatas, é entre nós, humanos, que esta tendência se revela mais apurada. Mas há também uma parte da nossa alma que já existia muito antes de nos tornarmos primatas- antes desta tendência nos ter agarrado- e tal esconde-se nas histórias que contamos sobre nós próprios. Esconde-se, mas pode ser encontrado.

(Mark Rowlands- O filósofo e o lobo. o que a selva nos pode ensinar sobre o amor, a morte e a feli-
                           dade)

terça-feira, outubro 27, 2009

A quem dás a beber à boca...



Falas de sol e lá fora chove.
A quem falas quando
iluminas de uma luz tão quente
cada palavra? A quem dás
a beber a boca, a respirar
o aroma do feno por entre a chuva?

(Eugénio de Andrade- O Peso da Sombra)

domingo, outubro 25, 2009

Brassens, um cantor para sempre




Para o meu irmão que, tal como eu, permanece ligado a Brassens, descoberto na nossa casa e na nossa infância.

De Sábado para Domingo um filme- Aruitemo aruitemo- Hirokazu Koreeda



http://search.japantimes.co.jp/cgi-bin/ff20080627a1.html

 Todo o filme decorre, na sua quase totalidade, no espaço de dois dias, no seio de uma família tradicional japonesa ,reunida no dia do aniversário da morte do filho mais velho. Ao longo deste tempo todos os presentes vão evidenciando os conflitos subjacentes a  toda a sua vida,  e que se polarizavam em torno da "presença" ausente do filho morto, totalmente idealizado pelos pais. 
Assistimos, através dos diálogos carregados de tensões, ironias, e silêncios, à revolta do filho preterido, que aproveita esta reunião familiar para pôr em  ordem o seu "deve e haver", sem nunca deixar de nos fazer sentir as suas decepções e afectos.
Se os encontros reactivam o desejo de acabar o que ficou em suspenso, eles também demonstram e confirmam  todas as impossibilidades.

É um filme que ultrapassa a sedução fácil  das diferenças culturais para nos mostrar a universalidade da ambivalência humana, que tantas vezes bloqueia a total expressão do que nos vai na alma. Como mensagem final  o realizador mostra-nos como acaba por prevalecer nos personagens a capacidade para conservarem no seu interior  tudo o que de bom acabou por acontecer. Uma síntese desta ideia é evidenciada no diálogo da jovem mãe com o filho  explicando lhe  como a memória dos que partem passa a fazer parte de cada um de nós.
Um belo filme que valeu bem a pena e que aconselho, vivamente, a todos os que ainda não o viram.

sábado, outubro 24, 2009

Arre, estou farto de semideuses!


    (Brueghel)

Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita.
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho.
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos de moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncepe- todos els príncepes- na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente neste mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos-mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubiar?
Eu que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

(Álvaro de Campos)