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segunda-feira, novembro 17, 2008

como nos anúncios do elixir para fazer crescer o cabelo na paredes dos eléctricos...

(Bazille)
Com o seu primeiro ordenado, Fermín Romero de Torres comprou um chapéu cinéfilo, uns sapatos de chuva e empenhou-se em oferecer-nos ao meu pai e a mim um prato de rabo de touro, que preparavam às segundas-feiras num restaurante a um par de ruas da Praça Monumental. O meu pai tinha-lhe arranjado um quarto numa pensão da rua Joaquín Costa onde, graças à amizade da nossa vizinha Merceditas com a patroa, se pôde obviar a formalidade de preencher a folha de informações sobre o hóspede para a polícia e assim manter Fermín Romero de Torres longe do olfacto do inspector Fumero e dos seus sequazes. Às vezes vinha-me à memória a imagem das tremendas cicatrizes que lhe cobriam o corpo. Sentia-me tentado a perguntar-lhe por elas, receando talvez que o inspector Fumero tivesse alguma cois a ver com o assunto, mas havia qualquer coisa no olhar do pobre homem que sugeria que era melhor não mencionar o assunto. Ele no-lo contaria um dia, quando lhe parecesse oportuno. Todas as manhãs, às sete em ponto, Fermín esperava-nos à porta da livraria, com um aspecto impecável e sempre com um sorriso nos lábios, disposto a trabalhar uma jornada de doze ou mais horas sem descanso. Tinha descoberto uma paixão pelo chocolate e pelos brazos de gitano que não ficava atrás do seu entusiasmo pelos grandes da tragédia grega, com o que tinha ganho algum peso. Usava um escanhoado de menino bem, penteava o cabelo para trás com brilhantina e andava a deixar crescer o bigode fininho para estar à moda. Trinta dias depois de emergir daquela banheira, o ex-mendigo estava irreconhecível. Porém, apesar da espectacularidade da sua transformação, onde realmente Fermín Romero de Torres nos tinha deixado boquiabertos era no campo de batalha. Os seus instintos detectivescos que eu tinha atribuído a efabulações febris, eram de uma precisão cirúrgica. Nas suas mãos, as encomendas mais estranhas solucionavam-se em dias, quando não em horas. Não havia título que não conhecesse, nem argúcia para o conseguir que não lhe ocorresse para o adquirir a um bom preço. Introduzia-se nas bibliotecas particulares de duquesas da Avenida Pearson e diletantes do círculo equestre a golpe de lábia, assumindo sempre identidades fictícias, e conseguia que lhe oferecessem os livros ou os vendessem por tuta e meia.
A transformação do mendigo em cidadão exemplar parecia milagrosa, uma daquelas histórias que os padres de paróquia se compraziam em contar para ilustrar a infinita misericórdia do Senhor, mas que se afiguravam sempre demasiado perfeitas para serem verdadeiras, como nos anúncios de elixir para fazer crescer o cabelo nas paredes dos eléctricos. (cont.)

(Carlos Ruiz Zafón- A Sombra do Vento)

3 comentários:

  1. Como se estivesse a ler pela primeira vez...

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  2. Ou o fascínio da boa leitura, com ou sem derivas capilares.

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  3. estou a ler.
    há muito que um livro não me prendia assim...

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