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sábado, junho 19, 2010

Imagine-se o tamanho que terão as orelhas das estrelas..

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Costuma-se dizer que as paredes têm ouvidos, imagine-se o tamanho que terão as orelhas das estrelas. Fosse como fosse, eram horas de ir para a cama, os lençóis e as mantas dela as roupas que tinham vestidas, o importante era que não lhes chovesse em cima, e isso tinha-o conseguido o comandante indo de casa em casa a pedir que dessem abrigo, por esta noite, a dois ou três dos seus homens, que por ali tinham andado, atraídos pela novidade do elefante, do qual, por medo, não conseguiriam aproximar-se a menos de vinte passos. Enrolando com a tromba uma porção de forragem que bastaria para satisfazer o primeiro apetite de um esquadrão de vacas, salomão, apesar da sua vista curta, lançou-lhes um olhar severo, dando claramente a entender que não era um animal de concurso, mas sim um trabalhador honrado a quem certos infortúnios, que seria demasiado longo relatar aqui, haviam deixado sem trabalho e, por assim dizer, entregue à caridade pública. Ao princípio, um dos homens da aldeia, por bravata, ainda deu uns quantos passos para além da linha invisível que logo iria tornar-se em fronteira cerrada, mas salomão despachou-lhe um coice de aviso que, embora não atingindo o alvo, deu lugar a um interessante debate entre eles sobre famílias ou clãs de animais. Mulas, mulos, burros, burras, cavalos, éguas, são quadrúpedes que, como toda a gente sabe, e alguns por dolorosa experiência, dão coices, o que bem se compreende, uma vez que não dispõem de outras armas, quer ofensivas quer defensivas, mas um elefante, com aquela tromba e aqueles dentes, com aquelas patorras enormes que lembram martelos-pilões, ainda por cima, como se fosse pouco o que tem, é capaz de escoicear. Sugere a mansidão em figura quando se olha para ele, porém, caso seja necessário, poderá tornar-se uma fera. De estranhar é que, pertencendo à família dos animais acima mencionados, isto é à família dos animais que dão coices, não leve ferraduras. Afinal, disse um dos camponeses, um elefante não tem muito que ver, dá-se-lhe uma volta e já está. Os outros concordaram. Dá-se-lhe uma volta e fica tudo visto.(...)

(José Saramago- A Viagem do Elefante)

sexta-feira, março 20, 2009

O elefante não joga, não é deste mundo

(Rembrandt)
Não havia dúvida, a sorte parecia decidida a favorecer as armas de portugal.
Ainda demoraram quase uma hora a entrar na vila, uma caravana de homens e animais perdidos de cansaço, que mal tinham forças para levantar o braço ou acenar com as orelhas em agradecimento aos aplausos com que os vizinhos de castelo rodrigo a recebiam. Um representante do alcaide guiou-os até à praça de armas da fortificação, onde podiam caber pelo menos dez caravanas como aquela. Aí esperavam-nos três membros da família dos castelões, que depois acompanharam o comandante a inspeccionar os espaços disponíveis para abrigar os homens, sem esquecer os que os espanhóis viriam a necessitar no caso de não bivacarem fora do castelo. O alcaide, a quem o comandante foi apresentar os seus respeitos depois da inspecção, disse, O mais provável é que instalem o acampamento fora das muralhas do castelo, o que, além do resto, teria grande vantagem de reduzir a possibilidade de confrontações. Por que pensa vossa senhoria que poderá haver confrontações, perguntou o comandante. Com estes espanhóis nunca se sabe, desde que têm um imperador parece que andam com o rei na barriga, e muito pior ainda seria se em vez de virem os espanhóis viessem os austríacos. É má gente, perguntou o comandante, Julgam-se superiores aos mais, Isso é pecado geral, eu, por exemplo, julgo-me superior aos meus soldados, os meus soldados julgam-se superiores aos homens que vieram para trabalho pesado, E o elefante, perguntou o alcaide, sorrindo. O elefante não joga, não é deste mundo, respondeu o comandante, Vi-o chegar de uma janela, de facto é um animal soberbo, gostaria de olhá-lo de perto, É todo seu quando quizer, Não saberia que fazer com ele, a não ser alimentá-lo, Previno vossa senhoria de que este bicho requer muito alimento, Assim tenho ouvido dizer, e não me apresento para ser proprietário de um elefante, sou um simples alcaide do interior, Isto é, nem rei nem arquiduque. tal qual, nem rei nem arquiduque, só disponho do que posso chamar meu. O comandante levantou-se, Não lhe ocupo mais tempo, senhor, muito obrigado pela atenção com que me recebeu.

(José Saramago-A Viagem do Elefante)