Terça-feira, Fevereiro 09, 2010

Lausanne emergia na sua memória...

                                     (Turner- Funeral at Lausanne)
               As poucas poucas figuras de preto, o grupo de choupos, a luz a derramar-se na água o ma-
ciço de Cader Idris do lado direito, tais eram os elementos de um cenário de despedida que, e isto é curioso, redescobri um par de semanas depois num dos esboços rápidos a aguarela que Turner fazia muitas vezes para registar um lugar que tivesse diante dos olhos ou, mais tarde, como retrospectiva do passado. Esse quadro quase sem substância, que tem por título Funeral at Lausanne, data de 1841, portanto de uma época em que Turner já quase não podia viajar, remoía cada vez mais ideias sobre a sua própria mortalidade, e talvez por essa razão, quando uma coisa como esse pequeno cortejo em Lausanne emergia na sua memória, ele procurava com algumas pinceladas captar essas visões que podiam desvanecer-se no momento seguinte. o que me atraiu especialmente na aguarela de Turner, disse Austertitz, não foi apenas a semelhança entre a cena de Lausanne e a de Cutiau, mas a recordação que despertou em mim do último  passeio com Gerald, no princípio do Verão de 1966, pelos vinhedos de Morges, na margem do lago Genebra. No decurso dos meus estudos posteriores dos cadernos de esquissos de Turner, deparei com o facto, em si de todo insignificante mas que no entanto achei profundamente comovente, de ele, Turner, no ano de 1798, durante uma viagem pelo País de Gales, ter estado também na foz do Mawddach e ter nessa altura exactamente a mesma idade que eu no funeral em Cutiau. Quando falo nisso agora, disse Austerlitz, é como se ainda ontem tivesse estado na drawing-room virada a sul de Andromeda Logde entre as pessoas de luto, como ainda as ouvisse falar em voz baixa e Adele a dizer, como então disse, que não sabia para onde se virar, agora que estava sozinha naquela grande casa.(...)
   
(W.G. Sebald- Austerlitz)

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Domingo, Fevereiro 07, 2010

e em lisboa é o único a subir na vertical...



podes caber à larga e não à justa no elevador de
                                                   [ santa justa,
não te leva a parte nenhuma no sentido utilitário
                                                         [normal,
mas é a nossa torre eiffel. faz a experiência. por sinal
é um caso em que não custa aprender à nossa custa:
variamente na vida e na ascese se flibusta,
e aprender à nossa custa é muito mais ascencional.
podes subir até ao miradouro se a altura não te
                                                   [ assusta:
lisboa é cor de rosa e branco, o céu azul ferrete é 
                                                    [tridimensional,
podes subir sozinho, há muito espaço experimental.
noutros elevadores há sempre alguém que barafusta,
mas não aqui: não fica muito longe a rua augusta,
e em lisboa é o único a subir na vertical.

(Vasco Graça Moura)

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Recordando Leo Ferré

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Sábado, Fevereiro 06, 2010

Os amigos amei...


Os amigos amei                         (Valloton)
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria —
por mais amarga.

Eugénio de Andrade, in "Coração do Dia"

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Quarta-feira, Fevereiro 03, 2010

For me formidable...Azanavour

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Quando eu sonhava...

                                                 (Steichen- Matisse) 
       Quando Eu Sonhava
 
Quando eu sonhava, era assim
Que nos meus sonhos a via;
E era assim que me fugia,
Apenas eu despertava,
Essa imagem fugidia
Que nunca pude alcançar.
Agora, que estou desperto,
Agora a vejo fixar...
Para quê? - Quando era vaga,
Uma ideia, um pensamento,
Um raio de estrela incerto
No imenso firmamento,
Uma quimera, um vão sonho,
Eu sonhava - mas vivia:
Prazer não sabia o que era,
Mas dor, não na conhecia ...

Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas'

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Segunda-feira, Fevereiro 01, 2010

De Sábado para Domingo um filme-Invictus- Clint Eastwood

 

Vivemos diariamente nos nossos círculos mais restritos ou alargados, manifestações de intolerância, por vezes, convenientemente camufladas por polimentos classistas  de natureza vária. O sentimento de superioridade  leva a que se olhe o diferente como não-pertença do nosso género, sendo  portanto um elemento a excluir de forma subtil ou radical. Engenhosamente construímos maneiras de deixarmos ocultos os nossos lados negros, estúpidos ou  disformes, projectando-os nos écrans que são os outros, conseguindo assim continuar a olharmo-nos acima de qualquer suspeita.
Vem isto a propósito do filme Invicius, visto na tarde de ontem. Clint EastWood trouxe-nos, uma vez mais, uma obra notável. A história de um homem que depois de trinta anos de cativeiro, soube olhar os que foram responsáveis ou subscreveram um sistema violento e discriminatório, como iguais. Tudo isto, transformando um jogo considerado como coutada dos brancos num corpo de união de toda a nação sul-africana. Um hino ao Homem que Mandela incarna.

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Sábado, Janeiro 30, 2010

Uma Noite na Ópera

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Quinta-feira, Janeiro 28, 2010

Que é feito dos verdadeiros piqueniques?



                                 (James Tissot)
Quem me habituou à prática dos piqueniques foi um avô que eu tive, depois substituído, ao longo dos anos por um grande amigo que, por essas alturas, nos meus vinte e poucos, sabia de piqueniques como ninguém e tinha uma companheira fazedora de sanduíches de vários andares e de outras comidas portáteis que eram autênticos pitéus.
Calcorreei muitos caminhos, deitei-me na caruma, sesteei à sombra de olorosas árvores, trepei a rochas das quais se descobriam horizontes de deixar sem ar o mais indiferente à magnificência de certas paisagens, juntei pedras que eram esculturas «encontradas», como eu lhes chamava, carreei para casa plantas, pedras, conchas, enfim, tudo o que podia ajudar a relembrar esses excelentes passeios e aligeirar um pouco estas muralhas de livros que me rodeiam. E tudo isto se fazia- com excepção dos percursos ferroviários sem interesse- a pé!
Outro dia, com uma amiga, quase repeti um piquenique dos tempos que era jovem. Soube-me tão bem! O nosso combustível era a excelente conversa que muitas vezes mantemos. E, como sabeis, não há nada melhor que ar puro, sol, andamento à vontade do corpo e uma boa conversa para levantar a moral. Chegados ao sítio que nos propúnhamos atingir- porque havia, naquele passeio, um sítio a atingir- sentávamo-nos nuns banquinhos de pedra, daqueles em que as pessoas ficam frente a frente, olhámos uns painéis de azulejos que a minha amiga conhecia e eu não, levantámo-nos, contornámos um vasto tanque de pedra e por ali ficámos um pouco, a mirar e remirar a bela construção. Depois, voltámos paulatinamente ao ponto de partida e, com excepção do lixo esparso (plástico, latas de refrigerantes vazias, etc.) que, a um canto ou a outro, sempre aparece, sentimos  que tínhamos ganho a tarde. Claro que exprobámos aos humanos-em-geral o seu desleixo, a sua falta de respeito pelos outros, a sua incivilidade. Abandonar em qualquer lado o lixo? Um piqueniqueiro que se preza jamais o fará. Longe, ao fundo, passavam enlatados por uma estrada. Quando nos aproximámos, vimos as caras das pessoas e foi terrível. Eram como lixo dentro dos contentores, um lixo que pensasse de si próprio que era um luxo.
Então percebemos que a nossa boa disposição - se não tivéssemos inteligência -acabaria logo ali. Olhámos um para o outro e conseguimos salvar o resto da tarde largando duas bem estaladas gargalhadas.
Sim, que é feito dos verdadeiros piqueniques?

(Alexandre O'Neill- Uma coisa em forma de assim)

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Quarta-feira, Janeiro 27, 2010

...como crianças implorando por luas nesta Terra


                                              (Miró)
Converter em realidades os nossos sentimentos e propensões individuais, transformar as nossas disposições de ânimo em medidas do universo, acreditar que, porque desejamos justiça ou amamos a justiça, a Natureza terá necessariamente de ter o mesmo desejo ou o mesmo amor, supor que, porque uma coisa é má, ela pode ser tornada melhor sem piorar, estas são atitudes românticas e definem todos os espíritos que se revelam incapazes de conceber a realidade como algo situado fora deles próprios, como crianças implorando por luas nesta Terra.
Quase todas as modernas reformas sociais são concepções românticas, um esforço para acomodar a realidade aos nossos desejos. O aviltante conceito da perfectibilidade humana 


(Barão de Teive- A Educação do Estóico)
 

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Terça-feira, Janeiro 26, 2010

Tive este sonho...


                                              (Stieglitz )

Como estava a dizer, passei dias muito agitados e mil vezes voltaram ideias obscuras que me atormentavam desde a visita à Rua Posadas. Tive este sonho: visitava de noite uma velha casa solitária. Era de certo modo uma casa conhecida e infinitamente ansiada por mim desde a infância, de maneira que entrei nela guiado por algumas recordações. Mas às vezes encontrava-me perdido na obscuridade ou tinha a sensação de tinha inimigos ocultos que poderiam assaltar-me pelas costas ou de que existiam pessoas que cochichavam e se riam de mim, da minha ingenuidade. Quem eram essas pessoas e que queriam? E, no entanto, apesar de tudo, senti que nessa casa renasciam dentro de mim os antigos amores da adolescência, com os mesmos temores e essa sensação de suave loucura, de temor e alegria. Quando despertei, compreendi que a casa do sonho era María.


(O Túnel- Ernesto Sabato)

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Segunda-feira, Janeiro 25, 2010

As sílabas de cedro, de papel...


                                        (Aguarelas de Turner)

Vocábulos de sílica, aspereza,
Chuva nas dunas, tojos, animais
Caçados entre névoas matinais,
a beleza que têm se é beleza.

O trabalho da plaina portuguesa,
As ondas de madeira artesanais
Deixando o seu fulgor nos areais,
A solidão coalhada sobre a mesa.

As sílabas de cedro, de papel,
A espuma vegetal, o selo de água,
Caindo-me nas mãos desde o início.

O abat-jour, o seu luar fiel,
Insinuando sem amor nem mágoa
A noite que cercou o meu ofício.


(Carlos Oliveira)

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Tremores de Terra