Sexta-feira, Maio 16, 2008

E ela resiste, no isolamento,,,

(fotografia de Filipe Alves)
Epigrama nº 5

Gosto da gota d'água que se equilibra
na folha rasa, tremendo ao vento.

Todo o universo, no oceano do ar, secreto vibra:
e ela resiste, no isolamento.

Seu cristal simples reprime a forma, no instante incerto:
pronto a cair, pronto a ficar-límpido e exacto.

E a folha é um pequeno deserto
para a imensidade do acto.

(Cecília Meireles- Antologia Poética)

Etiquetas:

Quinta-feira, Maio 15, 2008

Entre estes dois extremos existe o ruído interrupto do mundo


(Gaugin)
Vimos do silêncio e para o silêncio. Depois do fim e antes do princípio estamos reduzidos à utopia absoluta da sonoridade zero, daí as suas naturezas mortas. Mas entre estes dois extremos existe o ruído ininterrupto do mundo. Até na ruralidade mais profunda de uma ilha do Pacífico zumbem insectos, piam aves nocturnas, há latidos esparsos de cães.O vento agita levemente as folhas, os troncos rangem devagar e o fresco rumor dos ribeiros só tem repouso quando, hipótese improvável, secam. Daí que o silêncio seja sempre mais um estado afectivo do que uma constatação objectiva. (...) Quando entramos na imobilidade sonora dos grandes espaços utópicos- o mar, a montanha ou o deserto- é como se entrássemos num templo a céu aberto com vitrais imaginários. A qualidade sonora do lugar mede-se pela cumplicidade silenciosa que permite, pelo recolhimento que suscita, pelo sentimento de distante presença que induz. É a este propósito que se fala de"genius loci" e de "química do instante" que são dois modos de dizer que está provisoriamente suspenso o que nos separa dos outros, da natureza e de nós próprios.
Foi desse refúgio insonorizado do Pacífico, dessa utopia muda, que Gauguin nos remeteu o brilho triste e prodigioso das suas telas. Admiramo-las com a respiração suspensa, contribuindo deste modo para que o silêncio seja, agora sim, o mais possível absoluto.

(Fernando Gandra- O Sossego como problema(peregrinatio ad loca utopica). Fenda

Lançamento do livro de Fernando Gandra na Casa Fernando Pessoa, amanhã ,16 de Maio pelas 18h e 30m apresentado pelo Prof. Doutor Diogo Pires Aurélio
http://mundopessoa.blogs.sapo.pt/



Etiquetas:

Quarta-feira, Maio 14, 2008

Chopin- Estude op 10 , nº 3 -Valentina Igoshina

Terça-feira, Maio 13, 2008

3 ANOS, já !




A melhor maneira de festejar estes três anos é fazê-lo, homenageando o grande pintor Turner, a quem fui roubar o nome para o blog. Hoje é dia de Festa! Sentem-se e vejam comigo este documentário. Os parabéns ficam para o fim. Um beijinho a todos os amigos.


gateau1 (55K)
vela (6K)
vela (6K)
vela (6K)

Etiquetas: ,

Segunda-feira, Maio 12, 2008

É uma sombra ....imaginada sobre a mesa...

(Seurat)
a sombra, o gato

vejo atrás dos vidros
no jardim o gato
siamês que passa
entre girassóis.

na mesa da sala
há mais girassóis
num pote azul
de faiança

às cinco da tarde
a janela,
a porta,
estão fechadas, mas

agora o gato
vai passar na penumbra,
entre os girassóis
e a parede.

é uma sombra
rapidamente
imaginada
sobre a mesa,

que fita em ponto,
de olhos límpidos,
e percebe o jogo
de espaços e que

já regressou ágil
de salto felino
ao corpo do gato
repentino lá fora.

(Vasco Graça Moura- a sombra das figuras-1985)

Etiquetas:

Domingo, Maio 11, 2008

Manhã de Domingo- Villaret e Pessoa




Agarrada ao computador para pôr de pé um trabalho não resisti a publicar esta maravilhosa leitura de Pessoa. Façam o que eu não posso fazer...

De Sábado para Domingo...um filme (Amacord- Fellini)

Sábado, Maio 10, 2008

Um projecto que vai até à extremidade do possível...

(Cassat)
(...)
Aqui reside a diferença entre desejar e querer. Querer é mais vasto que desejar. Desejar é mais antigo e primordial. Querer é mais complexo e exigente. Além disso desejar é passivo e irresponsável- não responde pelas consequências. Querer é activo e assume-as. É por isso que o desejo pode sobreviver ao querer quando este já se declarou incapaz. Um indeciso pode manifestar desejos, mas não pode sustentar o querer. Quando quero dirijo-me a circunstâncias exteriores desconhecidas ou aleatórias, tantas vezes rudes e hostis. Quando desejo penso em mim, no máximo em ti. É por isso que uma grande parte dos desejos se esgota antes de poderem ser formulados. E é por isso, mais que não seja por isso, que pelo menos esses, são irrealizáveis. Querer é dizer ao instante vivido: espero-te mais à frente, tenho um projecto que vai até à extremidade do possível. Desejar é dizer-lhe: fiquemos por aqui,nesta espécie de "relâmpago íntimo"(F.Pessoa).

Fernando Gandra- O Sossego como Problema (peregrinatio ad loca utopica). Fenda

Etiquetas:

Quinta-feira, Maio 08, 2008

Mas por um vago florir...

Queria dizer a alguém
Como quem já lhe falou
Não o que penso, nem bem
O que sinto, mas o que sou.

Não por palavras- até
Poucas palavras é vão,
E um sorriso ou olhar é
Como fala a canção-,

Mas por um vago florir
Da alma à flor do dizer,
Que não chegasse a abrir
Em voz, em símbolo, ou ser...

Um intervalo ou olvido
Do gesto ou da expressão
Que fique no olhar ou no ouvido
Como sendo do coração.

(Fernando Pessoa- 21-3-1928)

Quarta-feira, Maio 07, 2008

Longe, Perto: o Horizonte


A linha do horizonte situa-se no ponto indefinido onde o céu e a terra se unem. É indefinido porque recua à medida que avançamos. A linha do horizonte só é fixa e acessível à distância.

Na verdade, nunca temos o que queremos. Nem teremos. É o não-ter ou o não-ter-ainda que alimenta o desejo. É o vazio que sustenta a avidez. O já-ter extingue o desejo. A vivência do ainda-não-ter ensina-nos a esperar, a ter esperança, categoria mental em que o tempo é simultâneamente castigo e recompensa. Não-ter coloca-nos num estado de tensão que nos desestabiliza e nos obriga a dirigir para o exterior de nós mesmos, a partir à aventura sem objecto ou com objectos provisórios e frustrantes, nada pacificadores do desejo inicial que assim muda de direcção em pleno movimento. Isto, quer se dirija ao pão, à mulher ou ao poder.

É assim que nenhum desejo permanece igual a si próprio, nem se pode considerar definitivo: tem um carácter errático, inconstante e múltiplo.

Fernando Gandra- O Sossego como problema (peregrinatio ad loca utopica). Fenda, Edições.

Etiquetas:

Terça-feira, Maio 06, 2008

Maio, Maduro Maio - Madredeus