Quinta-feira, Novembro 26, 2009

...apressamo-nos a destruí-las...


(René Magritte)
Quando queremos arrombar com êxito as portas abertas, não nos devemos esquecer de que elas têm sólidas ombreiras; este princípio, que o velho professor sempre seguira, não é mais do que uma exigência do sentido do real. Mas se existe  um sentido do real e temos de admitir que ele tem direito à existência, deve também haver qualquer coisa a que se possa chamar sentido do possível.
O homem que o possui, por exemplo, nunca dirá: isto aconteceu, deve acontecer, vai acontecer isto ou aquilo; antes imagina: poderia ou deveria acontecer isto ou aquilo; e quando lhe dizem que uma coisa é como é, ele pensa que também poderia ser de outra maneira. Assim podemos definir o sentido do possível como sendo a faculdade de pensar tudo o que « também» poderia ter acontecido  e não conceder  mais importância àquilo que é do que àquilo que não é. Vemos que as consequências desta disposição criadora podem ser notáveis; infelizmente, não é raro que façam aparecer como falso o que os homens admiram e como lícito aquilo que els proíbem, ou que tanto faz uma coisa como outra...Esses homens do possível vivem, como aqui se diz, numa trama mais fina, uma trama de fumo, de imaginações, de divagações, de conjuntivos; quando se descobrem numa criança tendências desse tipo apressamo-nos a destruí-las, dizemos-lhe que esses indivíduos tão sonhadores, extravagantes, fracos, eternos descontentes, que sabem tudo melhor que os outros.

(Robert Musil- O homem sem qualidades)

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Quarta-feira, Novembro 25, 2009

Olhar o rio que é de tempo e água...

                           


                              Olhar o rio que é de tempo e água
                              E recordar que o tempo é outro rio,
                              Saber que nos perdemos como o rio
                              E que os rostos passam como a água.

                             Sentir que a vigília é outro sono
                             Que sonha não sonhar e que a morte
                              Que teme a nossa carne é essa morte
                              De cada noite, que se chama sono.

                              Ver no dia ou até no ano um símbolo
                               Quer dos dias do homem quer dos anos,
                              Converter a perseguição dos anos
                               Numa música, um rumor e um símbolo,

                               Ver só na morte o sono, no ocaso
                               Um triste ouro, assim é a poesia
                               Que é imortal e pobre. A poesia
                                Volta como a aurora e o ocaso.

(Jorge Luis Borges)
                    

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Segunda-feira, Novembro 23, 2009

A delicada questão do dinheiro...


                                               (Dario Castillejos, «Cagle Cartoons»)

  Já no final de um discurso extremamente importante
  O grande homem de Estado
  numa bela frase oca
  escorrega
  e desamparado de boca escancarada
  sem fôlego
  mostrando os dentes
  e a cárie dentária dos seus pacíficos raciocínios
  deixa exposto o nervo da guerra:
  a delicada questão do dinheiro.


(Jacques Prévert- Paroles- trad. de Manuela Torres)

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Domingo, Novembro 22, 2009

Porquê?



...Descobrir que todos abrigamos nos nossos corações o selvagem, o criminoso e o animal não nos torna mais alegres.
- Qual è a sua objecção aos animais? replicou Freud- Eu prefiro infinitamente a companhia dos animais à companhia humana.
- Porquê?
- Porque são mais simples. Não sofrem de uma personalidade dividida, da desintegração do Ego, que resulta da tentativa do homem de se adaptar a padrões de civilização demasiado elevados para o seu mecanismo intelectual e psíquico. O selvagem, tal como o animal, é cruel, mas não tem a maldade do homem civilizado. A maldade é a vingança do homem contra a sociedade pelas restrições que ela impõe. Este desejo de vingança anima o reformador profissional e o intrometido. O selvagem pode cortar-lhe a cabeça, pode comê-lo, pode torturá-lo, mas irá poupar-lhe as contínuas alfinetadas que tornam a vida numa comunidade civilizada por vezes quase intolerável. Os mais desagradáveis hábitos e idiossincrasias do homem, a sua dissimulação, a sua cobardia, a sua falta de reverência, são gerados pelo seu ajustamento incompleto a uma civilização complicada. É o resultado do conflito entre os nossos instintos e a nossa cultura. Como são mais agradáveis as emoções simples, directas e intensas de um cão, quando abana a cauda ou ladra o seu desprazer! As emoções de um cão- acrescentou Freud pensativamente- lembram-nos os heróis da Antiguidade. Talvez seja essa razão pela qual inconscientemente damos aos nossos cães nome de heróis antigos como Aquiles e Heitor.
- O meu próprio cão- disse eu-é um doberman pincher chamado Ajax.
Freud sorriu.
(...)

(Entrevista dada por Freud a George Sylvester Viereck.))

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Sexta-feira, Novembro 20, 2009

Brel, sempre...

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Quarta-feira, Novembro 18, 2009

Desfalecem, na sombra, as suas asas...



                  Fragmentos

                      I

Quando arrefece o coração das pombas
desfalecem, na sombra, as suas asas...

(Safo-secVII-VI a.C. Fragmento 42 Lobel-Page)

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Segunda-feira, Novembro 16, 2009

Será dos meninos o tempo e a casa



                                             (Maluda)
 Cidade Branca

Dorme já, plenamente, a cidade!
O silêncio é de ouro e os homens
todos o procuram de mãos dadas.
Os velhos, de olhos semicerrados,
amparam-se ao bordão da memória;
emudeceram, no solar dos senhores,
o chicote, o ódio sem disfarce.

Dorme já, plenamente, a cidade!
Aproxima-se o dia. As mulheres,
amadas e repousadas, cantam
em seu sono. Abre-se, em concha,
a mão da madrugada. Lábios e rosas.
Amanhã, ao acordar, a cidade renovada
será dos meninos o tempo e a casa.


(Casimiro de Brito)

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Sábado, Novembro 14, 2009

Com elas nos pensamos...


Das Palavras

As palavras mais simples
foram as que te dei;
o amor não sabe outras,
só estas fazem lei.
As palavras de uso
mais comum e vulgar
são as que amor conhece.
Com elas nos pensamos;
é nelas que tememos
desacertos, enganos;
se nelas triunfamos,
já delas nos perdemos.
Com palavras vulgares
se diz o mal de amor,
seu riso, seu espelho,
o que fica da dor.
E todos os mistérios
que se fazem promessa
e se perdem nos versos
e dos corpos nasceram
são aqui cerimónia
evidente e secreta
nas mais simples palavras
que conhece o poeta.

Luis Filipe Castro Mendes, in "Os Amantes Obscuros"

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"Aguarelas de Turner", "sempre"...



                        ( Turner- Norhan Castle Sunrise)

Enquanto a solução não chega, só me resta evocar, uma vez mais, este espantoso quadro- Norhan Castle Sunrise .

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Sexta-feira, Novembro 13, 2009

Como isto aconteceu?



Sinto-me como me tivessem "despejado" da minha casa e tivessem decidido mudar a chave sem o meu conhecimento ou consentimento. No lugar do título e da belíssima aguarela de Turner surgiu essa  coisa que se apropriou indevidamente de um lugar e de um espaço. Desconheço o que é e como isto acontece. Sei só que estou muito zangada e não descansarei  enquanto não resolver o problema.
Quero, além de mais perceber, como estas coisas acontecem.
Uma surpresa francamente desagradável.

Quinta-feira, Novembro 12, 2009

No Largo das Necessidades havia um terraço...



                               (Palácio da Necessidades)
No Largo das Necessidades havia um terraço, todo em vermelho de tijolo, como se o colorisse uma inquietação transparente. Daquele terraço, via a praça toda à volta, o Palácio das Necessidades com as suas arcadas amarelas, colunas de pássaros regulares como as janelas, e por de trás das janelas homens desejando vitórias e derrotas. Do palácio amarelo, de um lado da praça, escadas longas e ligeiras, feitas de fragmentos cinzentos mesclados de azul em desenhos de verão, de navios e bandeiras, degraus de um patchwork de sereias, como se por debaixo estivesse o mar. Em vez do mar, um jardim, mínimo, porque o Largo das Necessidades é afinal estreito, um pátio com laivos de praça. No jardim, pequeno, há ao abrigo das árvores um banco e outro, mais alguns jogos  montados para crianças. Uma rotunda ao meio, onde podes escrever o que quiseres, e a sombra às seis da tarde. Todo o resto é chuva, nichos, um estrado de madeira do lado de fora de um café, uma cabina telefónica à inglesa, flores de buganvília, fotografias.
O que encontras aqui são os rumores de um mundo que inventa as suas cores, enquanto as pinta. Um realizador que procura a deixa para a protagonista de um filme mudo, um motorista de táxi bêbado que te pergunta o caminho para voltar a casa, uma rapariga que se enfurece porque está apaixonada e ao lado um homem que tem medo dela. Pombos, voo de pássaros e vento quando cai o sol, um jardineiro vestido de Inverno e uma rapariguinha que finge ser Primavera. Na rotunda, alguns velhos jogam um velho jogo de cartas.
Depois chega a noite, a Primavera volta para casa juntamente com todos os demais, excepto nós.
Uma das costelas do jardim, na esquina com a Travessa dos Prazeres, era um prédio cor de morango e mirtilo. Juntos. E a seguir, ao alto, um terraço que parecia feito de inquietação. De um vermelho amargo, forte, obstinado. Excessivo.
Número 22: no terceiro andar ficava a nossa casa. Muito antes de ser a Beirabismo. E na casa havia um corredor, longo como uma memória tenaz.

(Paola D' Agostino- Largo das Necessidades- Fenda Edições)





Tremores de Terra