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domingo, outubro 16, 2016

Uma pequena explicação.



Uma pequena explicação 

Já vão largos meses em interrompi a segunda fase de publicação de " Aguarelas de Turner". Coincidiu com um período em que estive adoentada e sem disponibilidade para publicar. Sempre pensei que, apesar do intervalo, retomaria, pelo que deixei o blog " em aberto".
Os meses foram passando, sem que tivesse vontade de o fazer. A verdade é que no passado este espaço teve um sentido e um valor que hoje já não é válido. 
Chegou o momento de pôr um ponto final definitivo, agradecendo a simpatia de todos aqueles que algum dia passaram por aqui, com um grande abraço.



sábado, fevereiro 27, 2016

Cresce em mim como um distúrbio da paixão...

                                        
Addiragram

A Minha Saudade Tem o Mar Aprisionado

A minha saudade tem o mar aprisionado
na sua teia de datas e lugares.
É uma matéria vibrátil e nostálgica
que não consigo tocar sem receio,
porque queima os dedos,
porque fere os lábios,
porque dilacera os olhos.
E não me venham dizer que é inocente,
passiva e benigna porque não posso acreditar.
A minha saudade tem mulheres
agarradas ao pescoço dos que partem,
crianças a brincarem nos passeios,
amantes ocultando-se nas sebes,
soldados execrando guerras.
Pode ser uma casa ou uma rede
das que não prendem pássaros nem peixes,
das que têm malhas largas
para deixar passar o vento e a pressa
das ondas no corpo da areia.
Seria hipócrita se dissesse
que esta saudade não me vem à boca
com o sabor a fogo das coisas incumpridas.
Imagino-a distante e extinta, e contudo
cresce em mim como um distúrbio da paixão.

José Jorge Letria, in "A Metade Iluminada e Outros Poemas"

domingo, fevereiro 14, 2016

Tira-me o pão, se quiseres...




Addiragram
O Teu Riso

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas
não me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a flor de espiga que desfias,
a água que de súbito
jorra na tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
por vezes com os olhos
cansados de terem visto
a terra que não muda,
mas quando o teu riso entra
sobe ao céu à minha procura
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, na hora
mais obscura desfia
o teu riso, e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

Perto do mar no outono,
o teu riso deve erguer
a sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero o teu riso como
a flor que eu esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
curvas da ilha,
ri-te deste rapaz
desajeitado que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando os meus passos se forem,
quando os meus passos voltarem,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas o teu riso nunca
porque sem ele morreria. 



Pablo Neruda, in "Poemas de Amor de Pablo Neruda

terça-feira, fevereiro 09, 2016

Dar definição é dizer a última palavra sobre o assunto...

Addiragram
 
Direito, esquerdo e algumas definições


- mas voltemos às questões importantes.
- O importante ...quer uma definição? Aquilo a que dou atenção, eis o importante. Quer outra definição?
- Sim, Excelência.
- A definição de definição. Definição significa de- finir. Finir, acabar. Dar uma definição é dizer a última palavra sobre o assunto .
- É, pois, terminar a conversa.
- Exacto. Conversa finita com a definição .
- Quem define diz ao outro: nada mais tens a dizer sobre este assunto, pois acabei de dizer a última e definitiva palavra sobre a questão.
- Uma conversa entre surdos é uma conversa em que os dois trocam definições.
- Uma definição é definitiva, eis uma redundância bem redonda, se assim me posso exprimir.
- E etc.e etc.e tal.
- Muito bem, Vossa Excelência está a ver bem o assunto.
- Seria interessante pensar em definições que iniciam a conversa.
- Uma definição inicial, inaugural. Uma de-iniciação.
- Ou uma pré- definição. Uma não- definição. E assim sucessivamente.
- Bem...como eu estava a dizer: gosto de um pé que não se preocupa apenas em avançar. Gosto de um pé que descobre o caminho..que cada vez que toca o chão abre uma nova hipótese. Um pé que afasta a floresta para os lados e que faz uma estrada à medida que avança, uma estrada humana.
-...para mim, os pés são um assunto menor, um assunto, como dizer...
- É essa a grande função do pé, fazer uma estrada humana no meio da floresta desumana...floresta animalesca e até botânica !
- E até!
- Que a floresta, no fundo, se reparar bem, é botânica selvagem.
- Uma floresta botânica, que surpreendente! Mas falava do pé, não continua?
-...um jardim botânico é compreensível, mas uma floresta botânica...Uma floresta mansa, digamos, eis o que surpreende.
- E o pé, é o pé?
- porque à floresta associamos terríveis animais carnívoros capazes de nos arrancar a cabeça com uma dentada involuntária. Com uma dentada mansa...
-Os animais selvagens são capazes de nos engolir com um apetite manso, um apetite tranquilo, muito bem!
- Eles são selvagens e cruéis de uma forma natural. Sem esforço, Excelência.
-Praticam a crueldade como quem pratica  fitness ao domingo. São mais, cruéis para manter a forma, para não ganhar barriga...para não se aburguesarem, no fundo. A crueldade animalesca como actividade de laser.
- Pois bem, sim, mas voltemos aos pés.
- Ok.
-... o que me interessa agora é pensar como é que alguém , só com um pé, abre caminho humano para os dois lados, o esquerdo e o direito...
- ...no fundo, é uma questão de lateralidade.
- Sim, mas estou a pensar em alguémque atravessa a floresta ao pé - cochicho.
- Ao pé -cochicho?
- Sim...é difícil pensarmos no lado esquerdo e direito de um pé, poisestamos habituados a pensar em pé direito e pé esquerdo, os dois juntos..
- Isso.
-... o que está ao lado direitodo pé direito e o que está ao lado esquerdo do pé esquerdo...Se pensarmos num único pé, por exemplo no pé esquerdo..se for assim, o lado esquerdo da floresta está do lado esquerdo do pé esquerdo, tal é normal...agora , já é muito estranho pensarmos que o lado direito da floresta está à direita desse pé esquerdo. Porque o lado direito da floresta costuma estar do lado direitodo pé direito. Percebe o problema de quem anda na floresta só com um pé?
-Percebo, embora um desenho ajudasse...De qualquer maneira, o problema que põe é muito relevante, sem dúvida, mas estou atrasado. Vou comprar sapatos.
- Sapatos?
- Dois.
- Aperto-lhe a mão com extrema reverência e digo adeus a Vossa Excelência. Vou para o lado direito do pé direito.
- Muito bem. É uma boa hipótese, sem dúvida!
Adeus, meu caro.

Gonçalo M. Tavares - O torcicologologista, excelência.

terça-feira, fevereiro 02, 2016

Para recitar antes de adormecer...



Addiragram
Eu queria cantar para dentro de alguém,
sentar-me junto de alguém e estar aí.
Eu queria embalar-te e cantar-te mansamente
e acompanhar-te ao despertares e ao adormeceres.
Queria ser o único na casa
a saber: a noite estava fria.
E queria escutar dentro e fora
de ti, do mundo, da floresta.
Os relógios chamam-se anunciando as horas
e vê-se o fundo o tempo.
E em baixo ainda passa um estranho
e acirra um cão desconhecido.
Depois regressa o silêncio. Os meus olhos,
muito abertos, pousaram em ti;
e prendem-te docemente e libertam-te
quando algo se move na escuridão.
Rainer Maria Rilke

terça-feira, janeiro 26, 2016

Estas coisas são materialmente impossíveis de serem ditas...

Addiragram

As Coisas Secretas da Alma


Em todas as almas há coisas secretas cujo segredo é guardado até à morte delas. E são guardadas, mesmo nos momentos mais sinceros, quando nos abismos nos expomos, todos doloridos, num lance de angústia, em face dos amigos mais queridos - porque as palavras que as poderiam traduzir seriam ridículas, mesquinhas, incompreensíveis ao mais perspicaz. Estas coisas são materialmente impossíveis de serem ditas. A própria Natureza as encerrou - não permitindo que a garganta humana pudesse arranjar sons para as exprimir - apenas sons para as caricaturar. E como essas ideias-entranha são as coisas que mais estimamos, falta-nos sempre a coragem de as caricaturar. Daqui os «isolados» que todos nós, os homens, somos. Duas almas que se compreendam inteiramente, que se conheçam, que saibam mutuamente tudo quanto nelas vive - não existem. Nem poderiam existir. No dia em que se compreendessem totalmente - ó ideal dos amorosos! - eu tenho a certeza que se fundiriam numa só. E os corpos morreriam.
Mário de Sá-Carneiro, in 'Cartas a Fernando Pessoa'

domingo, janeiro 17, 2016

O meu amor tem duas vidas para amar-te...


Addiragram
                                  

 Para não deixar de amar-te nunca..

Saberás que não te amo e que te amo
pois que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem a sua metade de frio.

Amo-te para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Amo-te e não te amo como se tivesse
nas minhas mãos a chave da felicidade
e um incerto destino infeliz.

O meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.


Pablo Neruda in " Cem Sonetos de Amor"
            

segunda-feira, janeiro 11, 2016

A sabedoria do romance é difícil de aceitar e compreender...

Addiragram

A Sabedoria do Romance


O homem deseja um mundo em que o bem e o mal sejam nitidamente discerníveis, porque nele há o desejo, inato e indomável, de julgar antes de compreender. Sobre esse desejo são fundadas as religiões e as ideologias. Estas não se podem conciliar com o romance a não ser que traduzam a linguagem de relatividade e de ambiguidade dele para o seu discurso apodítico e dogmático. Exigem que alguém tenha razão: ou Anna Karenina é vítima de um déspota limitado, ou Karenine é vítima de uma mulher imoral; ou então K., inocente, é esmagado por um tribunal injusto, ou então, por trás do tribunal, está escondida a justiça divina e K. é culpado.
Neste «ou então-ou então» está contida a incapacidade de suportar a relatividade essencial das coisas humanas, a incapacidade de olhar de frente a ausência do Juiz supremo. Por causa desta incapacidade, a sabedoria do romance (a sabedoria da incerteza) é difícil de aceitar e de compreender.

Milan Kundera, in "A Arte do Romance"

quinta-feira, dezembro 31, 2015

São as formas sem forma que passam sem que a dor as possa conhecer...

Addiragram

O que me dói não é...

O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão...

São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor.

São como se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"


domingo, dezembro 27, 2015

Ah! Elas às vezes bolem...

Addiragram

Crónica de Natal


Todos os anos, por esta altura, quando me pedem que escreva alguma coisa sobre o Natal, reajo de mau modo. «Outra vez, uma história de Natal! Que chatice!» — digo. As pessoas ficam muito chocadas quando eu falo assim. Acham que abuso dos direitos que me são conferidos. Os meus direitos são falar bem, assim como para outros não falar mal. Uma vez, em Paris, um chauffeur de táxi, desses que se fazem castiços e dizem palavrões para corresponder à fama que têm, aborreceu-me tanto que lhe respondi com palavrões. Ditos em francês, a mim não me impressionavam, mas ele levou muito a mal e ficou amuado. Como se eu pisasse um terreno que não era o meu e cometesse um abuso. Ele era malcriado mas eu - eu era injusta. Cada situação tem a sua justiça própria, é isto é duma complexidade que o código civil não alcança.
Mas dizia eu: «Outra vez o Natal, e toda essa boa vontade de encomenda!» Ponho-me a percorrer as imagens que são de praxe, anjos trombeteiros, pastores com capotes de burel e meninos pobres do tempo da Revolução Industrial inglesa. Pobres e explorados, mas, entretanto, não excluídos do trato social através dos seus conflitos próprios, como se pode observar nos livros de Dickens. Actualmente as crianças estão mais isoladas dum processo de libertação adequada à sua normalidade. Não há qualquer lógica entre o pensamento que elas sugerem e a acção que lhes é imposta. Mas isto são considerações de Natal? Confessem que preferem uma história, uma coisa leve, talvez um pouco insensata e graciosa. Pois bem, falemos de pastores.

Um amigo meu passou uns dias na serra da Estrela para se curar duma depressão, uma dessas doenças que são produzidas pela sociedade burocrática onde todos se destroem em boa paz. Cuidou ele que a solidão e a vida rude o haviam de transformar. Mas o sofrimento, que não é disciplina nem necessidade, torna-se em crítica mesquinha. Ele andava pelos montes, com ar de censura e escândalo, perguntando às pessoas como podiam viver sem ir ao teatro e sem comer costelas panadas. Alumiando-se com azeite e deitando-se ao sol-pôr para não o gastar. Sobressaltava-o muito aquela imobilidade da serra com os rebanhos que pareciam pedras e os pastores com o cão de pêlo assanhado. Sentava-se ao lado deles e travava conversa.
— Olhe lá: você nunca sai daqui? — perguntava. E o pastor respondia:
— Eu, não senhor.
— E então, não se aborrece?
— Eu, não senhor — tornava o homem.
— Mas não se aborrece mesmo, sempre sozinho, a ver só ovelhas, aqui no cimo da serra? — insistia o meu amigo.
Então o pastor, apertado naquele inquérito, fez um esforço para compreender a desordem que provocava no espírito do homem da cidade, e disse, apontando, com um ligeiro movimento do queixo, as ovelhas:
— Ah! Elas às vezes bolem...
Queria desculpar-se, se o conseguiu ou não, não sei. O meu amigo não andou muito tempo por lá. Deu um jeito a um tornozelo e tiveram que o levar de padiola até à localidade, onde arranjou melhor transporte para o hospital. Disse daquilo cobras e lagartos. Também é preciso ver que não era homem para grandes descobertas. Até acha que as descobertas foram um erro histórico. Mas que tem o Natal a ver com isto? – direis. Descubram.

Agustina Bessa-Luís, in 'Crónica da Manhã, 06 Dez 1978'