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segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Eram dele ou eram minhas?

(Brauner)
UM CRUZAMENTO

«Tenho um animal curioso, metade gatinho, metade cordeiro.É uma herança de meu pai. Em meu poder, desenvolveu-se bastante; antes era mais cordeiro que gato. Agora é metade por metade. Do gato tem a cabeça e as unhas, do cordeiro o tamanho e a forma; de ambos os olhos que são insociáveis e reluzentes, a pele ajustada ao corpo, os movimentos ao mesmo tempo saltitantes e furtivos. Deitado ao sol, no parapeito da janela, parece um novelo e ronroneia; no campo corre como um louco e ninguém o apanha. Receia os gatos e quer atacar os cordeiros. Nas noites de luar o seu passeio favorito é o algeroz do telhado. Não sabe miar e abomina os ratos. Passa horas e horas à espreita diante do galinheiro, mas nunca cometeu nenhum crime.
Alimento-o com leite e é o que lhe sabe melhor. Bebe-o em grandes tragos por entre os seus dentes de animal de rapina. Naturalmente é um grande espectáculo para as crianças. A hora da visita é aos domingos pela manhã. Sento-me com o animal sobre os joelhos e rodeiam-me todas as crianças da vizinhança.
Põem-me então as mais extraordinárias perguntas, a que nenhum ser humano pode responder. Porque só existe um animal assim, porque sou eu o dono e não um outro, se antes houve um animal semelhante e que aconteceu depois da sua morte, se ele não se sente sózinho, porque não tem filhos, como se chama, etc. Não me dou ao trabalho de responder e limito-me a exibir a minha propriedade, sem explicações. Por vezes as pessoas trazem gatos e uma altura chegaram a trazer cordeiros. Contra as suas expectativas, não se deram cenas de reconhecimento. Os animais olham-se com mansidão nos seus olhos animalescos e aceitaram-se mutuamente como um facto divino. Nos meus joelhos o animal ignora o medo e o impulso de perseguir. Acocorado contra mim, é como se sente melhor. Apega-se à família que o criou. mas essa fidelidade não é extraordinária, é o natural instinto de um animal, que embora possua na terra inúmeros laços políticos, não possui um só consanguíneo e para quem é sagrado o apoio que encontrou em nós.
Por vezes tenho de me rir quando rodopia à minha volta, se enreda entre as pernas e não se quer afastar de mim. Como se não lhe bastasse ser gato e cordeiro também quer ser cão. Uma vez-isso sucede a qualquer um- eu não via forma de sair de dificuldades económicas, estava já para acabar com tudo. A pensar nisso, afundava-me na poltrona do meu quarto, com o animal sobre os joelhos, e ocorreu-me baixar os olhos e vi lágrimas que gotejavam nos seus grandes bigodes. Eram dele ou eram minhas? Terá este gato com alma de cordeiro o orgulho de um homem? Não herdei muito de meu pai, mas vale a pena cuidar deste legado.
Tem a inquietude dos dois, a do gato e a do cordeiro, embora sejam muito diferentes. Por isso, fica-lhe bonito o pêlo. Por vezes, salta para a poltrona, apoia as patas dianteiras contra o meu ombro e aproxima o focinho do meu ouvido. É como se falasse e de facto move a cabeça e olha-me com atenção para observar o efeito da sua comunicação. Para lhe agradar procedo como se o tivesse entendido e movimento a cabeça. Salta então para o chão e brinca à minha volta.
Talvez a faca do carniceiro fosse a redenção para este animal, mas ele é uma herança e não devo fazer isso. Portanto, deverá esperar até que se lhe acabe o alento, embora por vezes me observe com razoáveis olhos humanos que me instigam a ser razoável.»

(Franz Kafka)

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Há quem diga que olha com todo o corpo....


A BAO A QU

Para contemplar a paisagem mais maravilhosa do mundo, é preciso chegar ao último piso da Torre Vitória, em Chitor. Existe aí um terraço circular que permite dominar todo o horizonte. Uma escada de caracol conduz ao terraço , mas só se atrevem a subir os que não acreditam na fábula, que diz assim:
Na escada da Torre da Vitória, vive desde o princípio do tempo o A Bao A Qu, sensível aos valores das almas humans. Vive em estado letárgico, no primeiro degrau, e apenas goza de vida consciente quando alguém sobe a escada. A vibração da pessoa que se aproxima infunde-lhe vida e uma luz interior insinua-se nele. Ao mesmo tempo, o seu corpo e a sua pele quase translúcida começam a mover-se. Quando alguém sobe a escada, o A Bao A Qu coloca-se quase nos calcanhares do visitante e sobe agarrado na borda dos degraus curvos e gastos pelos pés de gerações de peregrinos. Em cada degrau intensifica-se a cor, a sua forma aperfeiçoa-se e a luz que irradia é cada vez mais brilhante. Um testemunho da sua sensibilidade é o facto de que só obt~em a sua forma perfeita no último degrau, quando o que sobe é um ser evoluído espiritualmente. Se assim não for, o A Bao A Qu fica paralisado antes de chegar, o seu corpo incompleto, a sua cor indefinida e a luz vacilante. O A Bao A Qu sofre quando não consegue formar totalmente e a sua queixa é um rumor apenas perceptível, semelhante ao roçar da seda. Mas quando o homem ou a mulher que o revivem estão cheios de pureza, o A Bao A Qu pode chegar ao último degrau já completamente formado e irradiando uma viva luz azul. O seu regresso à vida é muito breve, pois ao descer o peregrino, o A Bao A Qu roda e cai até ao degrau inicial, onde já apagado e semelhante a uma lâmina de contornos vagos espera pelo próximo visitante. Só é possível vê-lo bem quando chega a meio da escada, onde o prolongamento do seu corpo, que uma espécie de bracinhos ajudam a subir, se definem com clareza. Há quem diga que olha com todo o corpo e que o tacto recorda a pele do pêssego, No decorrer dos séculos, o A Bao A Qu chegou uma só vez à perfeição.
O capitão Burton regista a lenda do A Bao A Qu numa das notas da sua versão d'As Mil e Uma Noites.

(Jorge Luis Borges e Margarita Guerrero - O Livro dos Seres Imaginários. 1967)