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sexta-feira, outubro 03, 2008

O meu pai previu tudo isso...

(Time-1965)
PUREDETOMATES.COM

O meu pai sonhava que um dia as pessoas de todo o mundo estariam ligadas umas às outras através de uma rede de robustos computadores do tamanho de frigoríficos, do género dos que ele tinha ajudado a fabricar na IBM. Visualizava as famílias do futuro juntas à volta de terminais enormes como mamutes a encomendar as compras do supermercado e a pagar os impostos comodamente sentadas nos seus lares. Uma pessoa podia compor música, desenhar uma casota de cão e...algo mais, algo ainda melhor.« Uma pessoa podia...podia...».
Ao prever esta utopia, o meu pai chegava a um ponto em que as palavras lhe faltavam. Os olhos ficavam muito abertos e brilhantes quando pensava nesse inefável algo mais.«Quer dizer...meu Deus!-dizia ele.-Imaginem só».
As minhas irmãs e eu preferíamos não imaginar. Não sei como era com elas, mas eu esperava que as pessoas de todo o mundo pudessem unir-se através de algo mais interessante, como as drogas ou a luta armada contra os mortos-vivos. Infelizmente, foi a equipa do meu pai que ganhou e, portanto, é mesmo computadores. Só tenho pena que tivesse que acontecer enquanto sou vivo.
Lá no fundo das minhas memórias existe uma vaga lembrança de ter ficado uma vez de pé numa fila com um cartão perfurado na mão. Guardo a memória da sensação, um pouco cínica, que tive e que se tratava de coisa sem importância e lembro-me de ter pensado que o computador nunca iria muito para além daquilo. Podem dizer que sou ingénuo, mas acho que subestimei o desejo universal de se estar numa cadeira de plástico rija a olhar para um ecrã até os olhos ficarem vesgos. O meu pai previu tudo isso, mas trata-se de um futuro que me apanhou de surpresa(...) Não me apercebi realmente da presença dos computadores até meados dos anos oitenta. Por qualquer motivo, eu conhecia uma série de desenhadores gráficos em cujas casas havia sempre um agradável cheirete a cola em spray.O chão estava sempre decorado com colagens de bocados soltos de papel e havia fichas de acenar, pedindo socorro, porque tinham ficado presas na superfície pegajosa do tampo do estirador. Semprei contei com estes meus amigos para me emprestarem a minha cola ou fita adesiva preferidas, mas da noite para o dia, a fita adesiva e a cola de borracha desapareceram, substituídas por computadores sem cheiro e tapetes de rato esponjosos .(...)

(David Sedaris- eu falar bonito um dia)

quinta-feira, outubro 02, 2008

Não queria que os ricos desaparecessem....


Quando fui viver para Nova Yorque, partilhava um apartamento de dois quartos e de renda acessível que ficava a meio quarteirão do rio Hudson. Não tinha emprego nessa altura e vivia da piada cruel a que dava o nome de poupanças. Ao final da tarde, à falta de melhor fazer, costumava andar a pé em direcção à zona leste e ficar a olhar especado pelas janelas das moradias de luxo, a imaginar o que acontecia naquelas salas tão bem mobiladas. Como seria ter não só um apartamento próprio, mas um edifício inteiro onde se podia fazer o que muito se quizesse? Via um homem de cabelo branco a tirar o seu colete ortopédico e perguntava-me o que teria ele feito para merecer uma vida tão privilegiada. Se eu pudesse ter trocado de lugar com ele, tê-lo-ia feito imediatamente.
Nunca perdera muito tempo com invejas enquanto vivia em Chicago, mas aí era possível alugar um apartamento de bom tamanho e ter ainda dinheiro suficiente para ir ao cinema ou para comprar uma peça de carne apresentável. Estar nas lonas em Nova Yorque era ter uma constante sensação dolorosa de falhanço, já que era regularmente confrontado com pessoas que não só tinham mais, mas muitíssimo mais. O meu orçamento diário consistia em doze dólares que rapidamente desapareciam, e toda e qualquer extravagância exigia um sacrifício correspondente. Se eu comprasse um cachorro quente na rua, tinha de compensar o gasto comendo apenas ovos ao jantar ou andar cinquenta quarteirões a pé para chegar à biblioteca em vez de ir de metro. O jornal, pescava-o, caderno a caderno, dos caixotes do lixo, e andava sempre a ver se encontrava receitas boas de asas de frango. Do outro lado da cidade, em East Village, os graffiti os ricos fossem comidos, postos na cadeia ou extreminados por meio de aumentos de impostos. Embora às vezes me parecesse uma boa ideia, eu esperava que a revolução não acontecesse enquanto eu fosse vivo. Não queria que os ricos desaparecessem antes de eu ter oportunidade de, pelo menos durante algum tempo, ingressar nas suas fileiras. O dinheiro era tentador. Eu só não sabia era como arranjá-lo.
(cont.)

(David Sedaris -eu falar bonito um dia)

quarta-feira, outubro 01, 2008

Como é que lhe surgiu uma personagem destas?

(A.Durer)

Tratava-se de uma escola de artes e a oficina da escrita era conhecida no geral como sendo a maneira mais fácil de obter os créditos necessários em inglês. Os meus alunos estavam lá porque sabiam pintar ou exculpir admiravelmente, ou então filmar os seus próprios corpos até à exaustão. Então e isso não era suficiente ? Contavam histórias engraçadas e interessantes sobre as suas vidas, mas pegar na caneta e escrever os pormenores era para eles mais uma obrigação do que uma ambição. A meu ver, se os alunos estavam dispostos a fingir que eu era professor, o mínimo que eu podia fazer era retribuir-lhes o favor e fingir que eles eram escritores. Mesmo se alguém usasse o nome verdadeiro e contasse, por exemplo, o que tinha acontecido na última consulta do dentista, eu considerava a história como pura ficção e perguntava:« Então, Dean, como é que lhe surgiu uma personagem destas»?
O aluno podia resmungar e apontar para o pedaço de algodão ensanguentado que lhe comprimia a gengiva inchada, mas eu dizia:« Quando é que dicidiste que a personagem devia procurar tratar o molar inflamado?» Este tipo de questões possibilitava que os autores se sentissem criativos e protegia aqueles que tinham opiniões políticas pouco aceitáveis.
-Ora deixe-me ver se percebo-disse-me um aluno. - O sotôr está-me a dizer que se eu disser uma coisa em voz alta, sou eu a dizer, mas se escrever exactamente a mesma coisa numa folha de papel, já é outra pessoa. É isso?
-É - respondi.- E chamamos a isso ficção.
O aluno sacou do caderno, escreveu qualquer coisa e depois entregou-me um papel em que se lia:« Isso é a coisa mais estúpidamente merdosa que eu ouvi na vida».
Eram miúdos espertos.
(cont.)

(David Sedaris- eu falar bonito um dia)



David Sedaris- http://en.wikipedia.org/wiki/David_Sedaris

http://www.youtube.com/watch?v=YBdymtyXt8Y