O meu pai sonhava que um dia as pessoas de todo o mundo estariam ligadas umas às outras através de uma rede de robustos computadores do tamanho de frigoríficos, do género dos que ele tinha ajudado a fabricar na IBM. Visualizava as famílias do futuro juntas à volta de terminais enormes como mamutes a encomendar as compras do supermercado e a pagar os impostos comodamente sentadas nos seus lares. Uma pessoa podia compor música, desenhar uma casota de cão e...algo mais, algo ainda melhor.« Uma pessoa podia...podia...».
Ao prever esta utopia, o meu pai chegava a um ponto em que as palavras lhe faltavam. Os olhos ficavam muito abertos e brilhantes quando pensava nesse inefável algo mais.«Quer dizer...meu Deus!-dizia ele.-Imaginem só».
As minhas irmãs e eu preferíamos não imaginar. Não sei como era com elas, mas eu esperava que as pessoas de todo o mundo pudessem unir-se através de algo mais interessante, como as drogas ou a luta armada contra os mortos-vivos. Infelizmente, foi a equipa do meu pai que ganhou e, portanto, é mesmo computadores. Só tenho pena que tivesse que acontecer enquanto sou vivo.
Lá no fundo das minhas memórias existe uma vaga lembrança de ter ficado uma vez de pé numa fila com um cartão perfurado na mão. Guardo a memória da sensação, um pouco cínica, que tive e que se tratava de coisa sem importância e lembro-me de ter pensado que o computador nunca iria muito para além daquilo. Podem dizer que sou ingénuo, mas acho que subestimei o desejo universal de se estar numa cadeira de plástico rija a olhar para um ecrã até os olhos ficarem vesgos. O meu pai previu tudo isso, mas trata-se de um futuro que me apanhou de surpresa(...) Não me apercebi realmente da presença dos computadores até meados dos anos oitenta. Por qualquer motivo, eu conhecia uma série de desenhadores gráficos em cujas casas havia sempre um agradável cheirete a cola em spray.O chão estava sempre decorado com colagens de bocados soltos de papel e havia fichas de acenar, pedindo socorro, porque tinham ficado presas na superfície pegajosa do tampo do estirador. Semprei contei com estes meus amigos para me emprestarem a minha cola ou fita adesiva preferidas, mas da noite para o dia, a fita adesiva e a cola de borracha desapareceram, substituídas por computadores sem cheiro e tapetes de rato esponjosos .(...)
(David Sedaris- eu falar bonito um dia)
Ao prever esta utopia, o meu pai chegava a um ponto em que as palavras lhe faltavam. Os olhos ficavam muito abertos e brilhantes quando pensava nesse inefável algo mais.«Quer dizer...meu Deus!-dizia ele.-Imaginem só».
As minhas irmãs e eu preferíamos não imaginar. Não sei como era com elas, mas eu esperava que as pessoas de todo o mundo pudessem unir-se através de algo mais interessante, como as drogas ou a luta armada contra os mortos-vivos. Infelizmente, foi a equipa do meu pai que ganhou e, portanto, é mesmo computadores. Só tenho pena que tivesse que acontecer enquanto sou vivo.
Lá no fundo das minhas memórias existe uma vaga lembrança de ter ficado uma vez de pé numa fila com um cartão perfurado na mão. Guardo a memória da sensação, um pouco cínica, que tive e que se tratava de coisa sem importância e lembro-me de ter pensado que o computador nunca iria muito para além daquilo. Podem dizer que sou ingénuo, mas acho que subestimei o desejo universal de se estar numa cadeira de plástico rija a olhar para um ecrã até os olhos ficarem vesgos. O meu pai previu tudo isso, mas trata-se de um futuro que me apanhou de surpresa(...) Não me apercebi realmente da presença dos computadores até meados dos anos oitenta. Por qualquer motivo, eu conhecia uma série de desenhadores gráficos em cujas casas havia sempre um agradável cheirete a cola em spray.O chão estava sempre decorado com colagens de bocados soltos de papel e havia fichas de acenar, pedindo socorro, porque tinham ficado presas na superfície pegajosa do tampo do estirador. Semprei contei com estes meus amigos para me emprestarem a minha cola ou fita adesiva preferidas, mas da noite para o dia, a fita adesiva e a cola de borracha desapareceram, substituídas por computadores sem cheiro e tapetes de rato esponjosos .(...)
(David Sedaris- eu falar bonito um dia)


