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domingo, junho 07, 2009

Eu era eureka para aqueles olhos...

(Botticelli)

Aconteceu-me

Eu vinha de comprar fósforos
e uns olhos de mulher feita
olhos de menos idade que a sua
não deixavam acender-me o cigarro.
Eu era eureka para aqueles olhos.
Entre mim e ela passava gente como se não passasse
e ela não podia ficar parada
nem eu vê-la sumir-se.
Retive a sua silhueta
para não perder-me daqueles olhos que me levavam espetado.
E eu tenho visto olhos!
Mas nenhuns que me vissem
nenhuns para quem eu fosse um achado existir
para quem eu lhes acertasse lá na sua ideia
olhos como agulhas de despertar
como íman de atrair-me vivo
olhos para mim!
Quando havia mais luz
a luz tornava-me quase real o seu corpo
e apagavam-se-me os seus olhos
o mistério suspenso por um cabelo
pelo hábito deste real injusto
tinha de pôr mais distância entre ela e mim
para acender outra vez aqueles olhos
que talvez fossem como eu os vi
e ainda que não o fossem, que importa?
Vi o mistério!
Obrigado a ti mulher que não conheço.

(Almada Negreiros -Poemas)

sábado, janeiro 17, 2009

Cuando el dulce Cazador



SOBRE AQUELAS PALABRAS
«DILECTUS MEUS MIHI»


Yo toda me entregué y di,
y de tal suerte he trocado,
ques mi Amado para mí,
Y yo soy para mí Amado




Cuando el dulce Cazador
me tiró y dejó rendida
en los brazos del amor,
me alma quedó caída.
Y cobrando nueva vida,
de tal manera he trocado
ques mi Amado para mí
y yo soy para mí Amado

Tiróme con una flecha
enherbolada de amor,
y mi alma quedó hecha
una con su Criador.
Yo Ya no quiero otro amor,
pues a mi Dios me he entregado,
y mi Amado es per mi
y yo soy para mi Amado.

(Santa Teresa de Ávila- Seta de Fogo)

terça-feira, dezembro 30, 2008

Será feita de aves......

(Picasso)
Será feita de aves a primeira sensação da manhã
ser-nos-ão concedidos os dons do voo e do sonho permanente
juntos descobriremos a fonte do nocturno bosque
e a sabedoria do estritamente necessário
despojar-nos-emos dos corpos
dos objectos acumulados na memória

do sonho e do ouro utópico chegará a metamorfose
o tempo será rigorosamente prolongado a cada enxertia dos pomares
da mesma árvore derramar-se-ão frutos diferentes
quando os dias se tornarem mais nítidos

o regresso é demorado
avança manhã adiante
com o crescimento das mãos e da sageza.

(Al Berto- Vigílias)

sábado, dezembro 06, 2008

No meio está uma fogueira...


V

Esta linguagem é pura. No meio está uma fogueira
e a eternidade das mãos.
Esta linguagem é colocada e extrema e cobre com suas
lâmpadas todas as coisas.
As coisas que são uma só no plural dos nomes.
-E nós estamos dentro, subtis, e tensos
na música.
[....]

(Herberto Helder- As Musas Cegas)

sábado, novembro 29, 2008

É outra coisa intercalada...

(Aguinaldo Vera Cruz-serra da Estrela)


Deixa-me ouvir o que não ouço...
Não é a brisa, ou o arvoredo;
É outra coisa intercalada...
É qualquer coisa que não posso
Ouvir senão em segredo,
E que talvez não seja nada...

Deixa-me ouvir...Não fales alto!
Um momento!...Depois o amor,
Se quiseres...Agora cala!
Ténue, longínquo sobressalto
Que substitui a dor
Que inquieta e embala...

O quê?Só a brisa entre a folhagem?
Talvez...Só o canto pressentido?

Não sei, mas custa amar depois...
Sim, torna a mim, e a paisagem
E a verdadeira brisa, ruído...
Que pena sermos dois!

Fernando Pessoa- 12-08-1930)

sábado, novembro 22, 2008

Meu coração enche-se de água...



(Bouguereau)
A Natalita Jiménez
Trouxeram-me um búzio.

Dentro dele canta
um mar de mapa.
Meu coração
enche-se de água
com peixinhos
de sombra e prata.

Trouxeram-me um búzio.

(Federico García Lorca- trad. José Bento)

sexta-feira, novembro 07, 2008

no côncavo da mão o sol nascia...

(Ingres)
E agora: a tua pele.
Revejo: é manso o mar.
E sei que o vento corre e que por ele
se colam no teu corpo lembranças de luar.

Descanso: os teus cabelos.
Entrego: já é dia.
Os caules são serenos, e ao vê-los
no côncavo da mão o sol nascia.

(Pedro Támen- Primeiro Livro de Lapinova)

quarta-feira, novembro 05, 2008

que a chama no chamar se incendeia...


« Uma chama não chama a mesma chama...»

uma chama não chama a mesma chama
há uma outra chama que se chama
em cada chama que chama pela chama
que a chama no chamar se incendeia.

um nome não nome o mesmo nome
um outro nome nome que nomeia
em cada nome o meio pelo nome
que o nome no nome se incendeia

uma chama um nome a mesma chama
há um outro nome nome que se chama
em cada nome o chama pelo nome
que a chama no nome se incendeia

um nome uma chama o mesmo nome
há uma outra chama que nomeia
em cada chama o nome que se chama
o nome que na chama se incendeia

(E.M. de Melo e Castro- Versus-in-Versus)

sexta-feira, outubro 17, 2008

E só se ouvia o que não se ouvia...

(Redon)
Naquele dia

Havia dentro das palavras
multidões a correr em cada imagem
praças cheias de versos e versos cheios de
gente. Havia uma rua pela página acima
e folhas e folhas pela rua. Ou talvez letras.
Ou talvez rimas. Havia o teu rosto
na cidade. Ou talvez a cidade no teu rosto.
Havia naquele dia o que
se via e não se via. E só se ouvia
o que não se
ouvia.
Era uma surda obsessiva
litania. Ou talvez
poesia.

Foz do Arelho, Julho de 2001

( Manuel Alegre- Doze Naus )

segunda-feira, outubro 06, 2008

Vulto da Primavera em pleno Outono...

(Courbet)

Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?

E o ventre, inconscientemente como o lodo?...
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo...

É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

Vulto da Primavera em pleno Outono...
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!


(David Mourão Ferreira in «Obra Poética - 1948-1988»)

sábado, outubro 04, 2008

Amanhã voltarei ao ritmo solar...

(Aguarelas de Turner)


A V I Õ E S

Amanhã voltarei ao ritmo solar
No céu azul os aviões passarão
Quasi devagar

( Sophia de Mello Breyner)

sábado, junho 21, 2008

...e à volta entreteci um pouco de musgo


Vi uma azinheira que crescia na Louisiana

Vi uma azinheira que crescia na Louisiana,
Aí estava só, e o musgo pendia dos seus ramos,
Aí crescia, sem um companheiro, e oferecia alegres folhas verde-escuro,
E o seu aspecto rude, inflexível, robusto, fez-me pensar em mim,
Mas admirei-me que fosse capaz de dar folhas como essas, tão só que
estava, sem um amigo junto a si: eu sabia que não podia fazer o
mesmo,
Arranquei um pequeno ramo com algumas folhas e à volta entreteci um
pouco de musgo,
E levei-o e coloquei-o bem à vista no meu quarto,
Não preciso dele para lembrar-me os amigos queridos,
(Pois sei que ultimamente quase só penso neles,)
Mas é para mim um símbolo curioso, faz-me pensar no amor viril;
Apesar disso, e embora a azinheira resplandeça na Louisiana, solitária na
grande planície,
Oferecendo sempre alegres folhas, longe de um amigo ou de um amante,
Eu sei muito bem que não podia fazer o mesmo.


(Walt Whitman-Cálamo-trad de José Agostinho Baptista)

segunda-feira, junho 02, 2008

Era a nudez da inteligência...

(Klimt)

ADÃO e EVA


Feliz era nudez. Vinha diurna
de dentro de si mesma. Porque o dia
ressumbrava recente desde a sua
novidade de pasmo. E de pupila
apta à evidência. E, por isso, arguta,
sem deduzir-se duma argúcia activa.
Onde fossem seus passos a espessura
entregava o seu fervor de enigma
para, depois, se recolher. Ter junta
e pronta a ordem de nova epifania.
Era a nudez da inteligência. Abrupta
e, ao mesmo tempo, de precisão tão íntima
que até os recantos justos da penumbra
recrutavam a luz da perspectiva.

(Fernando Echevarría)

quinta-feira, maio 29, 2008

Só elas são ...

(Caravaggio)

Só as tuas mãos trazem frutos.
Só elas despem a mágoa
destes olhos, e dos choupos,
carregados de sombra e rasos de água.

Só elas são
estrelas penduradas nos meus dedos.
- Ó mãos da minha alma,
flores abertas aos meus segredos.


(Eugénio de Andrade- As Mãos e os Frutos)

terça-feira, maio 27, 2008

Atravessar o rio sem lhe tocar...


Epígrafe


As pontes multiplicam o cansaço. Porém, há duas margens para o deslumbramento
nas cidades felizes, é costume atravessar o rio sem lhe tocar.

(Manuela Parreira da Silva- O Album de Vishnu)

segunda-feira, maio 26, 2008

É por outro real em ti presente...

(Quimera)
Se nas palavras vou um pouco sempre
adiantado, como uma quimera
daquelas bem reais que têm bico
e corpo de lagarto? e rosto humano?
é que também não vivo neste instante
mas noutro, inteiramente coincidente.
Jamais aceitarei que o mundo seja
vago manto enrugado de montanhas,
alguns bichos na água, outros em terra,
outros voando em fútil incerteza.
Se me prendo ao teu rumor ausente
não é que me consuma numa imagem
ou deseje real o imaginado;
é por outro real em ti presente.

(António Franco Alexandre- Duende)

segunda-feira, maio 19, 2008

Amor é olhar total...

Aguarelas de Turner
Amor é o olhar total, que nunca pode
ser cantado nos poemas ou na música,
porque é tão-só próprio e bastante,
em si mesmo absoluto táctil,
que me cega, como a chuva cai
na minha cara, de faces nuas,
oferecidas sempre à água.

(Fiama Hasse de Pais Brandão)

sexta-feira, maio 16, 2008

E ela resiste, no isolamento,,,

(fotografia de Filipe Alves)
Epigrama nº 5

Gosto da gota d'água que se equilibra
na folha rasa, tremendo ao vento.

Todo o universo, no oceano do ar, secreto vibra:
e ela resiste, no isolamento.

Seu cristal simples reprime a forma, no instante incerto:
pronto a cair, pronto a ficar-límpido e exacto.

E a folha é um pequeno deserto
para a imensidade do acto.

(Cecília Meireles- Antologia Poética)