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segunda-feira, junho 08, 2009

Será alguém um dia...


Variação sobre o mesmo tema

Será alguém um dia
levado a pensar em mim
pelo cheiro de laranjeiras
quando eu também já for
«alguém há muito tempo»?

Shunzei (1114-1204) in Rosa do Mundo- 2001 Poemas para o Futuro

quinta-feira, maio 28, 2009

Na poesia procuro...

(Monet)

Na poesia procuro uma casa onde o eco
existe sem o grito que todavia gera

(Gastão Cruz-Rua de Portugal)

terça-feira, janeiro 27, 2009

Faltar é positivamente estar no campo

(Lucian Freud)

Ah a frescura na face de não cumprir um dever!
Faltar é positivamente estar no campo!
Que refúgio o não se poder ter confiança em nós!
Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros.
Falei a todos, com uma deliberação do desleixo,
Fiquei esperando a vontade de ir para lá, que eu saberia que não vinha.


Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida.
Estou nu, e mergulho na água da minha imaginação.
É tarde para eu estar em qualquer dos dois pontos onde estaria à mesma hora,

Deliberadamente à mesma hora...
Está bem, ficarei aqui sonhando versos e sorrindo em itálico.
É tão engraçada esta parte assistente da vida!
Até não consigo acender o cigarro seguinte...Se é um gesto,
Fique com os outros, que me esperam, no desencontro que é a vida.

(Álvaro de Campos-17/06/1929

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Se o vento sopra e rasga as velas...

(Aguarelas de Turner)
Cantiga

Deixa-te estar na minha vida
Como um navio sobre o mar.

Se o vento sopra e rasga as velas
E a noite é gélida e comprida
E a voz ecoa das procelas,
Deixa-te estar na minha vida.

Se erguem as ondas mãos de espuma
Aos céus , em cólera incontida,
E o ar se tolda e cresce a bruma,
Deixa-te estar na minha vida.

à praia, um dia, erma e esquecida,
Hei com amor, de te levar.
Deixa-te estar na minha vida,
Como um navio sobre o mar.

(Cabral do Nascimento)

domingo, novembro 16, 2008

A um passarinho...

( Aguarelas de Turner)

A um passarinho


Para que vieste
Na minha janela
Meter o nariz?
Se foi por um verso
Não sou mais poeta
Ando tão feliz!
Se é para uma prosa
Não sou Anchieta
Nem venho de Assis.


Deixa-te de histórias
Some-te daqui!

(Vinicius de Morais)

sexta-feira, outubro 31, 2008

Uma casa grande como um país pequeno...

(Cezanne)
A Casa

Uma casa grande como
um país pequeno
um país que não possa
fazer a guerra

Uma casa de resina
no limbo da terra

A terra que moldo ao longo
dos músculos
uma terra que não se pague
com usura

Suave como um dorso
ou um pouco de água
por entre os escombros

Uma casa invisível
um barco que se aperte
entre os seios

Mais do que por dentro
da mão fechada


Mais do que por dentro
do próprio corpo.

(Casimiro de Brito- Jardins de Guerra)

quarta-feira, outubro 08, 2008

À beira d'água moro...

(Alma-Tadema)
À beira d'água moro,
à beira d'água,
da água que choro.

Em verdes mares olho,
em verdes mares,
flor que desfolho.

Tudo o que sonho posso,
tudo o que sonho.
E me alvoroço.

Que flor nas águas solto,
e em flor me perco
mas em saudade volto.

(Cacília Meireles-Antologia Poética)

domingo, outubro 05, 2008

Nasço alegre em toda a parte...

(Aguarelas de Turner)
Lírio Roxo



Viajei por toda a Terra
desde o norte até ao sul;
em toda a parte do mundo
vi mar e céu azul

Em toda a parte vi flores
romperem do pó do chão,
universais, como as dores
do mundo
que em toda a parte se dão.

Vi sempre estrelas serenas
e as ondas morrendo em espuma.
Todo o Sol um Sol apenas,
e a Lua sempre só uma.

Diferente de quanto existe
só a dor que me reparte.
Enquanto em mim morro triste,
nasço alegre em toda a parte.

(António Gedeão -Poesias Completas(1956-1967)

segunda-feira, julho 07, 2008

O poema conta como tudo é feito...menos ele próprio


Génese

Todo o poema começa de manhã, com o sol. Mesmo
que o sol não esteja à vista (isto é, céu de chuva)
o poema é o que explica tudo, o que dá luz
à terra, ao céu, e com nuvens à mistura- a luz incomoda,
quando excessiva. Depois, o poema sobe
com as névoas que o dia arrasta; mete-se pelas copas das
árvores, canta com os pássaros, e corre com os ribeiros
que vêm não se sabe de onde e vão para onde
não se sabe. O poema conta como tudo é feito:
menos ele próprio, que começa por um acaso cinzento,
como esta manhã, e acaba também por acaso,
com o sol a querer romper.

(Nuno Júdice- Poemas em voz alta)

segunda-feira, junho 30, 2008

Portas, imensas e nocturnas portas...

(Dali)

Nocturnas Portas

Portas, imensas e nocturnas portas, quando o que desejamos é um rasgão luminoso.

(Mário Rui de Oliveira- O vento da Noite)

terça-feira, junho 24, 2008

Que quer a alma?

(Renoir)
O arco

Que quer o anjo? Chamá-la.
Que quer a alma? perder-se.
Perder-se em rudes guianas
para jamais encontrar-se.

Que quer a voz? encantá-lo.
Que quer o ouvido? embeber-se
de gritos blasfematórios
até quedar aturdido.

Que quer a nuvem? raptá-lo.
Que quer o corpo? solver-se,
delir memória de vida
e quanto seja memória.

Que quer a paixão? detê-lo.
Que quer o peito? fechar-se
contra os poderes do mundo
para na treva fundir-se.

Que quer a canção? erguer-se
em arco sobre os abismos.
Que quer o homem? salvar-se,
ao prémio de uma canção.


(Carlos Drummond de Andrade-Tentativa de Exploração e de Interpretação do Estar-no-Mundo)

terça-feira, junho 10, 2008

Com o tempo...

(Alma-Tadema)

Com o Tempo o Prado Seco Reverdece

Com o tempo o prado seco reverdece,
Com o tempo cai a folha ao bosque umbroso,
Com o tempo para o rio caudaloso,
Com o tempo o campo pobre se enriquece,

Com o tempo um louro morre, outro floresce,
Com o tempo um é sereno, outro invernoso,
Com o tempo foge o mal duro e penoso,
Com o tempo torna o bem já quando esquece,

Com o tempo faz mudança a sorte avara,
Com o tempo se aniquila um grande estado,
Com o tempo torna a ser mais eminente.

Com o tempo tudo anda, e tudo pára,
Mas só aquele tempo que é passado
Com o tempo se não faz tempo presente.

(atribuído a Luís Vaz de Camões)

Nota: Extracto da carta da amiga e esclarecida Amélia Pais que partilho com todos:

Amiga: este é um dos muitíssimos sonetos muitas vezes atribuído a Camões, mas de autoria que se considera muito duvidosa.O problema está em que a 1ªedição das Rimas é póstuma a Camões (1595)e, como teve enorme êxito de imediato, editores sucessivos iam acrescentando mais sonetos e redondilhas, porque era êxito assegurado em Portugal e Espanha, sobretudo...Assim, ainda não há certezas sobre grande parte dos sonetos ditos de Camões - e a edição, por enquanto, considerada mais fidedigna é a de Costa Pimpão - da Almedina. Aguiar e Silva anda a tentar estabelecer em definitivo o cânone da lírica camoniana- mas é tarefa que vai levar bastante tempo.Este soneto é, pois, ainda de autoria duvidosa - eu considero-o nos escritos atribuídos a Camões...na pasta que tenho ligada a Camões.
Obs.: Na edição da Imprensa nacional está incluído com a seguinte nota:publicado por Juromenha. Figura no Cancioneiro de Fernandes Tomás como sendo da autoria de Baltazar Estaço.Foi editado entre as poesias deste autor em 1604, motivo que levou Carolina Michaelis a rejeitar a introdução no corpus camoniano. Nenhum dos editores modernos o inclui.Tema e forma levam a inseri-lo entre os lugares comuns da época.Nada no poema permite atribui-lo a Camões, e em nota: Juromenha publica, em nota, um soneto espanhol de tema e estrutura idênticos, que encontrou num manuscrito do século XVII, e que tem como incipit «Con tiempo passa el año,mes y horas»
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segunda-feira, junho 09, 2008

A Flor


A Flor

Entre a erva dos nervos camuflada,
emboscada no túnel de uma veia,
a flor apenas rompe, deslumbrada,
quando o pinhal à noite se incendeia...

Virá a converter-se em depressão,
enfarte do miocárdio, ou embolia,
no dia em que se apague esse clarão
com que a sua presença se anuncia...?

Mas numa artéria já sem movimento,
ou na erva dos nervos recolhida,
descobrirão a flor feita de vento
que em vida me deu morte e me deu vida...

Hão-de enterrar então a flor e o vaso.
E nunca ninguém mais alude ao caso.

(David Mourão-Ferreira- Infinito Pessoal)

sábado, maio 31, 2008

Pequenas coisas



Pequenas coisas

Falar do trigo e não dizer
o joio. Percorrer
em voo raso os campos
sem pousar
os pés no chão. Abrir
um fruto e sentir
no ar o cheiro
a alfazema. Pequenas coisas,
dirás, que nada
significam perante
esta outra, maior: dizer
o indizível. Ou esta:
entrar sem bússola
na floresta e não perder
o rumo. Ou essa outra, maior
que todas e cujo
nome por precaução
omites. Que é preciso,
às vezes,
não acordar o silêncio.



Albano Martins
Escrito a vermelho
Campo das Letras
1999

quarta-feira, maio 21, 2008

Addiragram
Descobrimento


Saudavam com alvoroço as coisas
Novas
O mundo parecia criado nessa mesma
Manhã


(Sophia de Mello Breyner Andresen-Ilhas)

sábado, março 08, 2008

Tendem para a claridade as coisas escuras...


(Van Gogh)

Traz-me o girassol para que eu o transplante
para o meu terreno mordido pelo ar salgado,
e mostre todo o dia ao céu azul espelhante
a ansiedade do seu rosto amarelado.

Tendem para a claridade as coisas escuras,
esgotam-se os corpos num fluir
de tintas: e estas em música. Esvair
é assim a ventura das venturas.

Traz-me tu a planta que conduz
ao lugar onde surge a loura transparência
evapora a vida qual essência;
traz-me o girassol enlouquecido de luz.

(Eugenio Montale- Poesia)

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Não param a escutar o coração da terra...



Poema quase triste

Os homens passam sem darem por nada
carregados assim como eles vão
com suas sombras a ganharem gibas,
com os seus olhos a ficarem baços,
cheios de presbitia e astigmáticos.
Não lhes importa que nos frutos estejam
confissões de poetas e de heróis.
Os homens passam e não vêem nada,
olham apenas para as suas vidas,
para a filha doente ou para os filhos mortos.
Não se apercebem das árvores e das rochas,
sangue e nervos da terra.
Seguem tristes e com os seus olhares
voltados para dentro,
para os seus crimes ou para os seus sonhos.
Não param a escutar o coração da terra
que bate, tranquilo, sob o chão.
Tristemente aguardam os eléctricos
que os hão-de levar a suas casas
de paredes forradas pelos retratos
dos fantasmas antigos e até próximos.
É sem amor que trincam os frutos
coloridos no sangue de todos os mortos
e nem pensam que a terra se abrirá
a seus corpos alheios, certo dia.
Procuram suas chaves
e, de cabeça baixa, penetram em casa,
sentam-se à mesa e choram
com suas mulheres, livros, diários íntimos,
mas não falam sequer à Natureza
que lhes oferece, em vão,
todos os seus segredos e mistérios.
Deitam-se sonolentos,
fecham a luz e dão-se aos pesadelos
ou aos sonhos de quando eram meninos. . .
Embriagam-se ou matam-se
e entregam-se aos vícios ou às lágrimas. . .
Tristes os homens passam
sem verem que a terra lhes oferece
juntamente com frutos e canções.



António Rebordão Navarro
A Condição Reflexa
Poemas (1952 - 1982)