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quinta-feira, novembro 26, 2009

...apressamo-nos a destruí-las...


(René Magritte)
Quando queremos arrombar com êxito as portas abertas, não nos devemos esquecer de que elas têm sólidas ombreiras; este princípio, que o velho professor sempre seguira, não é mais do que uma exigência do sentido do real. Mas se existe  um sentido do real e temos de admitir que ele tem direito à existência, deve também haver qualquer coisa a que se possa chamar sentido do possível.
O homem que o possui, por exemplo, nunca dirá: isto aconteceu, deve acontecer, vai acontecer isto ou aquilo; antes imagina: poderia ou deveria acontecer isto ou aquilo; e quando lhe dizem que uma coisa é como é, ele pensa que também poderia ser de outra maneira. Assim podemos definir o sentido do possível como sendo a faculdade de pensar tudo o que « também» poderia ter acontecido  e não conceder  mais importância àquilo que é do que àquilo que não é. Vemos que as consequências desta disposição criadora podem ser notáveis; infelizmente, não é raro que façam aparecer como falso o que os homens admiram e como lícito aquilo que els proíbem, ou que tanto faz uma coisa como outra...Esses homens do possível vivem, como aqui se diz, numa trama mais fina, uma trama de fumo, de imaginações, de divagações, de conjuntivos; quando se descobrem numa criança tendências desse tipo apressamo-nos a destruí-las, dizemos-lhe que esses indivíduos tão sonhadores, extravagantes, fracos, eternos descontentes, que sabem tudo melhor que os outros.

(Robert Musil- O homem sem qualidades)

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