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domingo, novembro 01, 2009

Alguma coisa ali já se tinha iniciado........



A minha intenção era só dar uma vista de olhos às crias, e depois ir para casa pensar com calma e ponderação se estava preparado para assumir a responsabilidade de ter um lobo, e por aí adiante. Mas quando vi as crias, soube logo que ia levar uma delas para casa-nesse mesmo dia. Na verdade não podia ter sido mais rápido a tirar o livro de cheques. E quando o criador disse que não aceitava cheques, não podia ter conduzido mais depressa para chegar ao Multibanco mais próximo.
Escolher a cria foi mais fácil do que eu pensava. Primeiro de tudo, eu queria um macho. Havia três. O macho maior- a maior de todas as crias, aliás-era um cinzendo, e eu tinha a certeza de que ia ser igualzinho ao pai. Já sabia o suficiente para perceber que aquele ia ser problemático. Completamente destemido, enérgico e a precisar de algumas rédeas. Com imagens do Blue a passarem-me diante dos olhos e, uma vez que  era este o meu primeiro lobo, achei melhor ser prudente. E assim escolhi a segunda maior cria da ninhada. Era castanho e a cor fazia-me lembra um leão recém-nascido. Por isso dei-lhe o nome de Brenin, que significa rei em galês. Sem dúvida teria ficado mortificado se soubesse que o seu nome vinha de um felino.
E de facto não se parecia de todo com um felino. Antes fazia lembrar uma daquelas crias, de cor acinzentada no Discovery Channel, a seguir a mãe pelo Parque nacional Denali, no Alasca. Com seis semanas, era castanho com manchas pretas, mas tinha um ventre creme que ia desde a ponta da cauda até à parte debaixo do focinho.E tal como um urso bebé, era encorpado: patas grandes, umas pernas largas e uma cabeça grande. Os olhos eram de um amarelo muito escuro, quase cor de mel- e isso foi uma coisa que nunca mudou. Não diria que era "meigo"- pelo menos não à maneira dos cachorrinhos. Não se podia dizer, nem com muita imaginação, que fosse um lobo caloroso, efusivo ou desejoso de agradar. Muito pelo contrário, a desconfiança era a sua principal característica - e,mais uma vez, isso foi uma coisa que não mudou, excepto em relação a mim. Estranho. Consigo lembrar-me destas coisas todas sobre Brenin, Yukon e Sitka. Lembro-me de pegar em Brenin e olhá-lo nos seus olhos de lobo amarelos. Lembro-me da sensação que tive ao agarrá-lo, do pelo macio de bebé nas minhas mãos. Consigo lembrar-me com nitidez de Yukon, erguido sobre as patas traseiras, a olhar para mim de cima , as grandes patas penduradas na porta do estábulo. Lembro-me claramente dos irmãos e irmãs de Brenim a correr em volta do redil, a caírem uns por cima dos outros, e voltando a pôr-se de pé num ápice , felizes da vida. Mas da pessoa que me vendeu Brenin não me lembro rigorosamente nada. Alguma coisa ali já se tinha iniciado; um processo que se tornou cada vez mais evidente à medida que os anos foram passando.

(Mark Rowlands- O filósofo e o lobo)

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