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quarta-feira, outubro 28, 2009

Alguns humanos são mais primatas que outros...


                               (Aguarelas de Turner)
Estou a usar o primata como uma metáfora para uma tendência que existe, em maior ou menor grau, em todos nós. Nesse sentido, alguns humanos são mais primatas que outros. O "primata" é a tendência para compreender o mundo em termos materiais: o valor das coisas medido por aquilo que são capazes de fazer pelo primata. O primata é a tendência para ver a vida como um processo de calcular probabilidades e de avaliar possibilidades e usar os resultados desses cálculos a seu favor. É a tendência para ver o mundo como uma colecção de recursos; coisas que podem ser usadas para os seus objectivos. O primata aplica este princípio a outros primatas tanto quanto, ou mais ainda, o aplica ao resto do mundo natural. O primata é a tendência para não ter amigos mas aliados. O primata não vê os seus colegas primatas; obseva-os. E enquanto o faz, aguarda a oportunidade de se aproveitar deles. para o primata estar vivo é estar à espera de atacar. O primata é a tend~encia para basear as relações com os outros num único princípio invariável e implacável: o que podes fazer por mim e quanto isso me vai custar? Essa percepção dos outros primatas acaba por se virar contra o próprio, contagiando e comunicando a visão que o primata tem de si próprio. Consequentemente ele considera a felicidade como algo que pode ser medido, pesado, quantificado e calculado. E encara o amor da mesma forma. O primata é a tend~encia para pensar que as coisas mais importantes da vida se resumem à análise de custo-benefício.
Tudo isto é, reitero, uma metáfora a que recorro para descrever uma tendência humana. Todos conhecemos pessoas assim. Conhecemo-las no trabalho e na vida social; sentámo-nos à frente deles em mesas de conferências, e mesas de restaurantes. Mas essas pessoas não passam de exageros do género humano básico. desconfio que grande parte de nós é mais assim do que pensa ou do que quer acreditar. mas porque é que caracterizo esta tendência de símia? Os seres humanos não são a única espécie de primatas que consegue sofrer e saborear toda a gama de relações humanas. Como vamos ver, há outros primatas que conseguem senti amor; que conseguem sentir a dor tão intensamente que morrem por isso. Conseguem ter amigos e não apenas aliados. No entanto, esta tendência símia no sentido em que é tornada possível pelos primatas; mais precisamente, por um certo tipo de desenvolvimento cognitivo que se deu nos primatas e, tanto quanto sabemos, em mais nenhum animal. A tendência para encarar o mundo e os que estão no mundo em termos de custo-benefício; para encarar a nossa vida e as coisas importantes que nos acontecem como algo que pode ser qualificado e calculado: esta tendência é possível apenas porque os primatas existem. E de todos os primatas, é entre nós, humanos, que esta tendência se revela mais apurada. Mas há também uma parte da nossa alma que já existia muito antes de nos tornarmos primatas- antes desta tendência nos ter agarrado- e tal esconde-se nas histórias que contamos sobre nós próprios. Esconde-se, mas pode ser encontrado.

(Mark Rowlands- O filósofo e o lobo. o que a selva nos pode ensinar sobre o amor, a morte e a feli-
                           dade)

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