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sexta-feira, outubro 31, 2008

Uma casa grande como um país pequeno...

(Cezanne)
A Casa

Uma casa grande como
um país pequeno
um país que não possa
fazer a guerra

Uma casa de resina
no limbo da terra

A terra que moldo ao longo
dos músculos
uma terra que não se pague
com usura

Suave como um dorso
ou um pouco de água
por entre os escombros

Uma casa invisível
um barco que se aperte
entre os seios

Mais do que por dentro
da mão fechada


Mais do que por dentro
do próprio corpo.

(Casimiro de Brito- Jardins de Guerra)

quinta-feira, outubro 30, 2008

Acontece, não acontece?

(Turner)
Acontece por vezes que um dia amanhece estupendo e que persiste maravilhoso e constante até ao pôr-do-sol e que segue ainda triunfante pela noite fora. Não acontece?
Segurando a memória com as duas mãos, tornam a vir aqueles verdadeiros dias de sol, majestosos, imponentes, autêntica ditadura da Beleza, e em que nenhum outro acontecimento histórico ou particular conseguiu ofuscar a data, a um tempo memorável e simples, de um dia lindo!
Também sei que não são precisamente estas datas da alegria particular e íntima do Sol, as que se anotam e se fixam, a não ser que venham porventura coincidir com os segredos da nossa imaginação; um encontro feliz em tal dia, por acaso que era um dia colossal!...ou uma conversa bem resultada, ou uma promessa generosa e magnânima, ou uma combinação nobre e heróica, etc., ou outras destas coisas que ficam pegadas para sempre na recordação , muito mais, sem comparação nenhuma, do que o dia mais lindo de sol que possa imaginar-se.
Isto é como quem diz: o sol para estar lindo necessita de cada um de nós! Ora não sei se já repararam, um dia lindo nunca vem logo a seguir a um dia lindo. Como se fosse demasiado e impossível dois dias lindos a seguir. De tal maneira que ficam menos custosos os dias terríveis, com a esperança e a certeza de que estamos sem dúvida em vésperas de dias extraordinariamente melhores.
E quando se dá o caso de uma pessoa não estar pelos ajustes de se sujeitar às veleidades do tempo, faz por ter os seus dias, ao seu gosto, e se possível for todos os dias. (...)

(Almada Negreiros- Ficções-Banhos de Mar)

segunda-feira, outubro 27, 2008

domingo, outubro 26, 2008

Uma noite diferente...


-Ena, Sempere- proclamou Barceló ao ver entrar o meu pai-, o filho pródigo. A que se deve a honra?
- A honra deve-a ao meu filho Daniel, don Gustavo, que acaba de fazer uma descoberta.
- Então venham sentar-se ao pé de nós, que há que celebrar esta efeméride-proclamou Barceló.
- Efeméride? sussurrei ao meu pai.
- O Barceló só se expressa em esdrúxulas-respondeu o meu pai a meia voz. -Tu não digas nada, que ele ganha coragem.
Os companheiros de tertúlia abriram lugar para nós no seu círculo e Barceló, que gostava de se mostrar liberal em público, insistiu em convidar-nos.
-Que idade tem o moço? -inquiriu Barceló, olhando-me de soslaio.
- Quase onze anos-declarei.
Barceló sorriu-me, velhaco.
-Ou seja, dez. Não ponhas anos a mais, mariola, que a vida lá tos porá.
Vários companheiros da tertúlia murmuraram o seu assentimento. Barceló fez sinais a um criado com aspecto iminente de ser declarado monumento histórico para que se aproximasse a fim de tomar nota.
- Um conhaque para o meu amigo Sempere, do bom, e para o rebento um batido de leite, que tem de crescer. Ah, e traga umas lasquinhas de presunto, mas que sejam como as de antes, hem?, que para borracha já temos a casa Pirelli-rugiu o livreiro.
O criado assentiu e partiu, arrastando os pés e a alma.
-É o que eu digo - comentou o livreiro.- Como é que há-de haver trabalho, se neste país as pessoas não se reformam nem depois de mortas? Veja o Cid. É que não há remédio.
Barceló saboreou o seu cachimbo apagado, com o olhar aquilino a prescrutar com interesse o livro que eu segurava nas mãos. Apesar da sua fachada brincalhona e de tanto palavreado, Barceló era capaz de farejar uma boa presa como um lobo que fareja o sangue.
- Ora vejamos- disse Barceló, fingindo desinteresse.-Que me trazem vocês?
Dirigi o olhar para o meu pai.Ele assentiu. Sem mais preâmbulos, estendi o livro a Barceló. O livreiro pegou-lhe com mão conhecedora. Os seus dedos de pianista exploraram rapidamente textura, consistência, e estado. Exibindo o seu sorriso florentino, Barceló localizou a página de edição e inspeccionou-a com intensidade policial pelo espaço de um minuto. Os outros observaram-no em silêncio, como se esperassem o milagre ou autorização para respirar de novo.
-Carax. Interessante-murmurou num tom impenetrável.
Estendi de novo a mão para recuperar o livro. Barceló arqueou as sobrancelhas, mas devolveu-mo com um sorriso glacial.
-Onde é que o encontraste garoto?
-É um segredo-repliquei, sabendo que o meu pai devia estar a sorrir por dentro.
Barceló franziu o cenho e desviou o olhar para o meu pai.
-Amigo Sempere, porque é o senhor e por todo o apreço que lhe tenho e em honra à amizade que nos une como a dois irmãos, fiquemo-nos por quarenta duros e não se fala mais nisso.
- Isso vai ter de discutir com o meu filho-aduziu o meu pai. O livro é dele.
Barceló ofereceu-me um sorriso lupino.
- Que dizes pequenote? Quarenta duros não é mau para uma primeira venda...Sempere, este seu míudo há-de fazer carreira neste negócio.(...)
Recusei de novo. Barceló lançou um olhar irado ao meu ao meu pai através do monóculo.(...)
Vamos lá ver, menino; mas o que é que tu queres?
-O que eu quero é saber quem é Julién Carax, e onde posso encontrar outros livros que tenha escrito.
Barceló riu dissimuladamente e meteu de novo a carteira ao bolso.
-Ena, um académico. Mas o que dá você comer a este míudo, Sempere?- gracejou.
(cont.)

(Carlos Ruiz Zafón- A Sombra do Vento)

A noite de ontem foi diferente. Partira em direcção ao meu refúgio campestre, antecipando uma bela tarde de sol e um fim de dia onde apenas conseguiria escutar o maravilhoso silêncio que, por lá, consigo sempre encontrar. Com a chegada, descobrimos que a luz eléctrica resolvera assinalar a sua ausência. Por quanto tempo não sabíamos...À medida que a tarde escorria e que os sucessivos telefonemas para a E.D.P. adiavam para a hora seguinte a chegada da luz , o silêncio da casa acompanhado pela luz das velas tomava outras tonalidades. Dizia -me o rapaz com uns olhos sorridentes: parece mesmo um ambiente medieval! Como a televisão naquela noite não teria qualquer chance a oportunidade de lermos em voz alta uma história no lugar da casa mais iluminado tornou-se um maravilhoso "acontecimento". Trouxera comigo a "Sombra do Vento". A sua leitura em conjunto com o meu filho deu aos dois momentos de partilha e satisfação . Soubemos mais tarde que a prolongada falta de luz que se estendeu pela noite dentro se devera ao roubo de cabos eléctricos na região(!!!!)Eu, revivera momentos da infância em que leitura em voz alta ocupava muitos dos nossos serões em família, o rapaz , deliciara-se com aquela noite e com a história a que tivera acesso. -Tens de fazer um post amanhã sobre "isto", mãe!
Aqui está ele, pois!


sábado, outubro 25, 2008

Visível projecção dum transcendente ....

(Daumier)

Às vezes, quando acordo, fico a olhar
As paredes do quarto; e extasiado,
Nelas, vejo, confusa, divagar
Uma sombra que vem no sol doirado;

Sol, que através das frinchas, ao passar,
E sendo pelas ervas assaltado,
Perde o sangue, desmaia, e faz lembrar,
Por uma lança, um corpo trespassado!

E a sombra esvoaça, na parede nua,
Onde a cal branca evoca a luz da lua;
Luz que molda em penumbra um mundo ignoto...

E tu, criatura humana, és igualmente
Visível projecção dum transcendente
E invisível espírito remoto...

(Teixeira de Pascoais)

quarta-feira, outubro 22, 2008

O sono e a fadiga batiam à minha porta...

(Courbet)
Naquela tarde, de volta ao andar da Rua Santa Ana, refugiei-me no meu quarto e decidi ler as primeiras linhas do meu novo amigo. Antes que me apercebesse, tinha caído dentro dele sem remédio. O romance relatava a história de um homem em busca do seu verdadeiro pai , que nunca tinha chegado a conhecer cuja existência só descobriria graças às últimas palavras que a mãe pronunciava no seu leito de morte. A história daquela brusca transformava-se numa odisseia fantasmagórica na qual o protagonista lutava para recuperar uma infância e juventude perdidas, e na qual, lentamente, descobríamos a sombra de um amor maldito cuja lembrança o havia de perseguir até ao fim dos seus dias.
À medida que avançava, a estrutura do relato começou a lembrar-me uma daquelas bonecas russas que contêm inumeráveis miniaturas de si mesmas no interior. Passo a passo, a narração decompunha-se em mil histórias, como se o relato tivesse mergulhado numa galeria de espelhos e a sua identidade se cindisse en dúzias de reflexos diferentes e ao mesmo tempo um só. Os minutos e as horas deslizaram como uma miragem. Horas mais tarde, aprisionado pelo relato, mal dei pelas badaladas da meia-noite na catedral a repicar ao longe. Enterrado na luz de cobre que o candeeiro flexível projectava, mergulhei num mundo de imagens e sensações como nunca tinha conhecido. Personagens que se me afiguraram tão reais como o ar que respirava arrastaram-me para um túnel de aventura e mistério do qual não queria escapar. Página a página deixei-me envolver pelo sortilégio da história e pelo meu mundo até que o sopro do amanhecer acariciou a minha janela e os meus olhos cansados deslizaram pela última página. Deitei-me na penumbra azulada do alvorecer com o livro sobre o peito e escutei o rumor da cidade adormecida a gotejar sobre os telhados salpicados de púrpura. O sonho e a fadiga batiam à minha porta, mas resisti render-me. Não queria perder o feitiço da história nem dizer adeus ainda às personagens.(cont.)

(Carlos Ruiz Zafón- A Sombra do Vento)

Se a não vejo imagino-a...

(Velasquez)
O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos.
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.

Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

(Alberto Caeiro)

segunda-feira, outubro 20, 2008

Bem-vindo ao cemitério dos Livros Esquecidos...

(Maria Helena Vieira da Silva- biblioteca- 1955)

-Daniel, não podes contar a ninguém o que vais ver hoje. Nem ao teu amigo Tomás. A ninguém.
Um homenzinho com traços de ave de rapina e cabeleira prateada abriu-nos a porta. O seu olhar aquilino poisou sobre mim, impenetrável.
-Bom dia Isaac. Este é o meu filho Daniel- anunciou o meu pai.-Está quase a fazer onze anos, e um dia ficará a tomar conta da loja. Já tem idade para conhecer este lugar.
O tal Isaac convidou-nos a entrar com um leve gesto de assentimento. Uma penumbra azulada cobria tudo, insinuando apenas traços de uma escadaria de mármore e uma galeria de frescos povoados de figuras de anjos e criaturas fabulosas. Seguimos o guardião através daquele corredor palaciano e chegámos a uma grande sala circular onde uma autêntica basílica de trevas jazia sob uma cúpula retalhada por feixes de luz que pendiam lá do alto. Um labirinto de corredores e estantes refletas de livros subia da base até à cúspide, desenhando uma colmeia tecida de túneis, escadarias, plataformas e pontes que deixavam adivinhar uma gigantesca biblioteca de geometria impossível. Olhei para o meu pai, boquiaberto. Ele sorriu-me, piscadando-me o olho.
-Bem-vindo ao cemitério dos Livros Esquecidos, Daniel.(...) O meu pai ajoelhou-se ao pé de mim e, sustendo-me o olhar, falou-me com aquela voz leve das promessas e das confidências.
- Este lugar é um mistério, Daniel, um santuário. cada livro, cada volume que vês, tem alma. A alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram e viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro muda de mãos, cada vez que alguém desliza o olhar pelas suas páginas, o seu espírito cresce e torna-se forte. Há muitos anos quando o meu pai me trouxe pela primeira vez aqui, este lugar já era velho. Talvez tão velho como a própria cidade. Ninguém sabe de ciência certa desde quando existe ou quem o criou. Dir-te-ei o que o meu pai me disse a mim. Quando uma biblioteca desaparece, quando uma livraria fecha as suas portas, quando um livro se perde no esquecimento, os que conhecemos este lugar, os guardiães, asseguramo-nos de que chegue aqui. Neste lugar, os livros de que ninguém já se lembra, os livros que se perderam no tempo, vivem para sempre, esperando chegar um dia às mãos de um novo leitor, de um novo espírito. Na loja nós vendemo-los e compramo-los, mas na realidade os livros não têm dono. Cada livro que aqui vês foi o melhor amigo de alguém. Agora só nos têm a nós,Daniel. Achas que vais poder guardar este segredo?
O meu olhar perdeu-se na imensidade daquele lugar, na sua luz encantada. Fiz um sinal de assentimento e o meu pai sorriu.
- E sabes o melhor? -Perguntou.
Abanei a cabeça em silêncio.
- O costume é que a primeira vez que alguém visita este lugar tem de escolher um livro, aquele que preferir, e adoptá-lo, assegurando-se de que ele nunca desapareça, de que permaneça sempre vivo. É uma promessa muito importante- Para toda a vida-explicou o meu pai. - Hoje é a tua vez. (cont.)

( Carlos Ruiz Zafón- A Sombra do Vento)



sábado, outubro 18, 2008

TRÊS EM UM- Mateso, H. F.M e Eduardo Graça


Foi com um sorriso que recebi estes três Dardos. O sorriso que decorreu da simpatia que qualquer dos amigos:
-MATESO:http://artmus.blogspot.com:
-H.F.M.:http://tcores.blogspot.com/
-ABSORTO:http://absorto.blogspot.com/
me inspira. Eles sabem que sou avessa a prémios, correntes e,... etecétera. Que gosto deste meu cantinho como um espaço de liberdade. Que muito provavelmente não iria dar continuidade à corrente... Mesmo assim, lá incluíram o "Aguarelas" e o seu filhote "Reflexos do Olhar". Assim, eu não poderia deixar passar esta oportunidade de lhes dar daqui um grande abraço. Os três, são mesmo ( na minha forma de sentir) pessoas especiais. Como, por outro lado, também estou em sintonia com os valores enunciados no prémio "Dardos", vejo-me a
reincidir, com prazer.

“Com o Prémio Dardos se reconhecem os valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web. Quem recebe o “Prêmio Dardos” e o aceita deve seguir algumas regras: 1. - Exibir a distinta imagem; 2. - Linkar o blog pelo qual recebeu o prémio; 3. - Escolher quinze (15) outros blogs a que entregar o Prémio Dardos.”

Cabe-me agora indicar os próximos:

"Abencerragem"

"Almocreve das Petas"

"A Lua flutua"

"Ao longe os barcos de flores"

"Codornizes"

"Defender o Quadrado"

"Ofício Diário"

"O Jardim e a Casa"

"O Meu cais"

"Palavras em linha"

"Peciscas"

"Pé de Meia"

"Rua das Pretas"

"Sesimbra"

"Só Poesia e outros items"


e agora, escusado será dizer, a liberdade acima de tudo. Com toda a minha admiração e amizade.

sexta-feira, outubro 17, 2008

E só se ouvia o que não se ouvia...

(Redon)
Naquele dia

Havia dentro das palavras
multidões a correr em cada imagem
praças cheias de versos e versos cheios de
gente. Havia uma rua pela página acima
e folhas e folhas pela rua. Ou talvez letras.
Ou talvez rimas. Havia o teu rosto
na cidade. Ou talvez a cidade no teu rosto.
Havia naquele dia o que
se via e não se via. E só se ouvia
o que não se
ouvia.
Era uma surda obsessiva
litania. Ou talvez
poesia.

Foz do Arelho, Julho de 2001

( Manuel Alegre- Doze Naus )

quinta-feira, outubro 16, 2008

Quem pegará no carvão, num giz, numa faca...?



Os homens fazem grandes esforços para respirar, para falar. Com as suas mãos febris inscrevem marcas no barro, nos bastões de madeira rija, nas folhas dos aloés, nas pedras. O mundo porém não quer os seus vestígios. Apaga-os incessantemente, com calma, com eficácia, como se tivesse limpa pára-brisas. E nada guarda: nem os desenhos dos pneus dos camiões, nem os desenhos das calandras dos automóveis, nem os desenhos dos tecidos de nailon. Prisão indiferente e fria, milhares de quilómetros quadrados de desrto, de floresta, de oceano. Nos teclados das máquinas de escrever e dos teleimpressores as palavras avançam, umas atrás das outras, produzindo as suas pequenas detonações. Todos os homens trabalham encarniçadamente, para se exprimirem, para lançarem as suas fórmulas mágicas, para escreverem as suas mensagens de formigas.
Palavras mágicas, desenhos mágicos, eles eram a energia da vida. Lutavam contra o império da submissão, afastavam as franjas de pêlos depredadores. As letras nasciam, logo se escapavam e juntavam-se de novo à floresta. Nas cidades, homens sem rosto, que se pareciam com os demónios, tinham a si atraído as palavras, as músicas e os desenhos, a fim de subjugarem os outros homens. Do alto das suas torres de controlo em duro plástico transparente, olham o caudal dos homens e dos automóveis que escorre nas ranhuras. Sabem tudo. Possuem, para espiar, grandes quantidades de microfones dissimulados, câmaras de filmar, gravadores de som. Estão ali, estão presentes. Estão nas paredes da prisão, decidiram postar-se por detrás das portas, das fechaduras, das frestas que há por todo o lado no ar, na água e sobre a terra. Já não largam aqueles que capturaram nas suas armadilhas de beleza. Quem irá tentar destruí-los? Quem pegará num carvão, num giz, numa faca, numa caruma, em qualquer coisa, a fim de traçar nos objectos os estranhos sinais cabalísticos, as estranhas palavras insignificantes e ternas que libertam? Quem irá pintar o corpo e o rosto, a fim de manter ainda um pouco as paredes da prisão, a fim de impedir o tecto de descer, para que tudo seja inocente, para que toda a gente de novo fale a toda a gente?

(Índio Branco-J.M.G. Le Clézio)


Este, é o único livro que possuo de Le Clézio. Tive o gosto de convosco o partilhar, e de o reler também. Espero ter conseguido mostrar a originalidade e a coragem deste escritor.

quarta-feira, outubro 15, 2008

Canto de mágicas aves...


Entre o ruído das flautas índias e a linguagem articulada há o canto. Mas para o índio o canto é ainda uma outra forma de silêncio. É uma linguagem desnaturada, tornada incompreencível pela distorsão dos vocábulos, pelo timbre, pela intensidade e pela altura da voz, pela síncope, pelo ritmo, pelo gesto vocal. Da mesma forma que ignora a música harmónica, o índio não conhece a melodia. Não lhe interessa isso para o canto. Não tem para isso gosto. As canções não as quer ele belas, despreza a «ária». É impossível assobiar tais cantos, são todos iguais, não têm memória. Trata-se antes de salmodia, da contínua repetição da mesma frase musical, como se só houvesse um canto possível, uma só música. Para o índio o canto não constitui uma distracção , nem uma decoração. Tal como a linguagem, tal como os signos da pintura, tal como o canto do pássaro serpentário, do guarda-rio, do gavião, do troglodita, o canto do homem é único. É a sua identidade, é a sua palavra-de-ordem, o seu emblema. Para quê variar? Para quê inventar «árias» novas? O Índio é invariavelmente estranho a esta competição, a este comércio. O canto do homem proveio directamente das profundezas do passado, atravessou o tempo sem metamorfose, sem alteração. Chegou como chegam os dons da palavra, da caça, da pintura, da magia curativa, da escultura em madeira, da cestaria. Certos pormenores decerto mudaram, século, após século. Mas é coisa de somenos. Não há senão um canto.
Não há senão uma voz: é isso porventura a parte mais misteriosa do canto índio. Quando o Índio canta, abandona a sua própria voz e serve-se de uma nova voz, estranha. Fá-lo com muita simplicidade, apenas alteando a voz até aos limites do possível, quer dizer, até ao falsetto. O espasmo da garganta que produz este tom sobreagudo, frágil murmúrio mais do que voz, é o próprio sinal do canto. Para além deste limiar já não se está no canto (trianbi), mas sim na palavra (fedda); para além , está-se no grito (biavi). Homens, mulheres e crianças cantam com a mesma voz, sem que seja possível distingui-los. O canto não tem o mesmo veículo que a palavra. Utiliza a voz quebrada, a voz irreconhecível.(...)
O canto índio, tanto a ele, só existe fóra destes limites. dir-se-ia um canto de ultra-sons. Canto de morcegos, de pássaros estridentes, de mágicas aves. O Índio rompeu definitivamente o elo entre a linguagem e o canto.(cont.)

(Índio Branco- J.M.G. Le Clézio)


terça-feira, outubro 14, 2008

segunda-feira, outubro 13, 2008

O silêncio, uma linguagem às avessas...


A grande invenção dos índios é o silêncio. Os Índios sentem-se por ele obsidiados. Não se trata de um silêncio passivo, triste, meditativo, mas sim simplesmente de uma ausência de barulho, em todos os actos da vida quotidiana, uma ausência que ao mesmo tempo é uma defesa e um ataque. Os animais selvagens não fazem barulho. Avançam pela floresta sem fazer estalar as folhas do chão, sem um sopro. Deslizam nas suas patas elásticas. Os próprios pássaros são silenciosos. O que na selva espanta, o que depressa se torna insuportável, é o silêncio espesso, profundo e ameaçador, o silêncio que reina em toda a parte.
O homem índio conhece por instinto esses poderes, os poderes do silêncio. Se suspeita da linguagem, da expressão, é para estar consciente dos perigos que estas comportam. A linguagem falada não é só um meio de comunicar com o mundo; ela pode na realidade ser uma traição, uma exposição de si mesmo. É fechada, a linguagem. Constitui o bem comum da tribo, ou da raça. É um acto não gratuito, que não pode ser inconsciente. Falar é a propriedade dos homens, a afirmação da sua existência. Tal como os principais actos de afirmação da vida, o nascimento, o acasalamento, o parto ou a morte, a linguagem é uma magia. Quer dizer: um pacto que associa o homem e o universo.
A língua índia é mágica. A sua gramática e a sua sintaxe são uma lógica mágica. O silêncio, pelo contrário, é natural. Há em todos os índios esse sentimento, para nós incompreensível mas certamente admirável, da culpabilidade da linguagem. O índio sabe qual é esse terrível privilégio, e receia-o tanto quanto dele se sente orgulhoso. Os animais e as coisas não falam. Outrora falavam. Todos falavam, até as pedras. Mas depois algo rompeu esse equilíbrio, uma catástrofe destruiu a ordem da compreensão. E o homem, desde então, já não compreende os animais, deixou de ouvir a linguagem das pedras.
(...) O silêncio não é mágico. É animal, vegetal, elementar. É terreno. O silêncio desintegra as ameaças, dissolve os malefícios. É a defesa primeira contra as agressões dos outros, dos estranhos, dos não-humanos.
O silêncio é por assim dizer uma linguagem às avessas, como a dos sonhos ou dos êxtases. Uma linguagem que está para além das acusações e das responsabilidades.
Silêncio denso, impenetrável, ao longo dos rios de lama. A poucos metros de um habitat de índios você não terá ainda visto nada, nem ouvido coisa nenhuma. Eles, porém, viram-no a si, ouviram-no. (cont.)

(J.M.G Le Clézio- Índio Branco)

domingo, outubro 12, 2008

Que segredo é o dela? Que inventará?


Beleza da mulher. Beleza que se não entende logo, que desconcerta, que se mostra inquietante. Beleza tão miraculosa e unânime que parece engodo. Como é isso possível? Eis um povo que se não sustenta quase nunca o bastante, que quase continuamente se vê privado dos ingredientes de base da moderna dietética: da carne, de leite, de legumes, de fruta. Dia após dia, ano após ano, só a áspera tanchagem verde. De tempos a tempos, um pouco de carne de veado, ou de pecari, um iguano, um papagaio. Arroz e milho. E pôde isso dar corpos tão harmoniosos, tão robustos, tão capazes? Há nisto como que um desafio à nossa própria raça, aos nossos dispendiosos gostos, às nossas preocupações alimentares. Nós, os comedores de carne, os bebedores de leite, os devoradores de vitaminas. Nós que tanto transbordamos de riquezas que as podemos distribuir pelo mundo, aos povos esfomeados, ás crianças mal nutridas. E estes povos, quanto a eles, vingam-se, simplesmente, sendo belos.
É luminosa a beleza das mulheres índias; é uma beleza que vem não do interior, mas de toda a profundidade do corpo, tal como a beleza da pele de um fruto é iluminada por toda a sua polpa e por toda a carne da árvore que a dá. A beleza índia não se nota; não procura ser notada. Não se trata de um desdém, tão-pouco de provocação. Não se equipara a fealdade nenhuma, não se transfigura, não se idealiza. Está simplesmente presente, triunfal e viva, brilho externo cuja razão de ser é só a sedução sexual e a fecundidade depois. Beleza da nubilidade das mulheres. A cabeleira negra, densa, semelhante a um rio de azeviche, todas as manhãs penteada segundo uma invariável ordem, cabeleira comprida, até aos rins, desembaraçando as orelhas carregadas de pesados brincos de prata, franja recortada na testa, cabeleira em que todos os cabelos foram alinhados, um por um, com cuidados, cabeleira cujo coerente conjunto é também uma linguagem. (...)
E de onde vem a beleza destes rostos de olhos oblíquos, de nariz delicado, de altivas maçãs do rosto? A beleza destes corpos flexíveis, de largas ancas, de robustos ombros, de seios livres?Será a pintura negra que até o rosto as cobre, visível vestimenta inexistente, pele segunda, ligeira, fixa, que não trai nenhuma das formas do corpo?(...) São estas as mulheres mais belas. Não se podem imaginar mais belas mulheres. Parecem elas que consigo trazem, com a beleza, a verdade da raça que é a sua, a sua ordem de sobrevivência, são os sinais da salvação da espécie humana por inteiro.(...) Surgidas não para destruir ou dominar, mas sim para respirar, para comer, beber, para nutrir, para amar e pôr a crescer a vida em seus ventres.
A beleza deixa assim de ser um espectáculo. É uma actividade, um movimento, um desejo. (...). Que segredo é o dela? Que inventará? O seu olhar, os seus pensamentos, os seus instintos são mesclados no desenho exterior, nunca estão à frente nem atrás relativamente ao seu próprio corpo.
Não é milagre, a beleza, nem tão-pouco resulta do acaso. A beleza da mulher índia é o efeito da sua liberdade. Liberdade de ser o que é, sem receio dos interditos da moral ou da religião; liberdade de escolher para o corpo e para o espírito os seus trabalhos, os seus acasalamentos, os seus partos. Liberdade de se afastar do homem que deixou de amar, de procurar um homem que lhe agrade(...).Liberdade do seu corpo, da sua nudez, dos cuidados que ao rosto há-de dar. Liberdade de não ter rival, de não estar em competição com nenhuma outra imagem a não ser a sua. Liberdade dos seus próprios excessos e das suas próprias razões. (cont.)

(Índio Branco-J.M.G. Le Clézio)

sábado, outubro 11, 2008

Le Clézio - prémio Nobel

Eis talvez chegado o tempo das cidades novas...

(Cezanne)
Uma das astúcias das cidades reside em fazer-nos querer que elas são eternas. Querem que pensemos que elas são o fim das civilizações naturais, que as explicam. Mas a realidade é bem diferente. São as civilizações primordiais dos Índios que em si contêm esta ciência, são elas que conhecem as explicações. Só que, como não têm paredes nem fechaduras, elas não armam aos homens ciladas, não os vigiam.
Basta de fechaduras! Basta de paredes e de vidros, basta de ordens inaudíveis dadas por meia dúzia de tiranos lá de cima das suas torres de controlo! As muralhas e as portas despedaçam-se bastante facilmente. As cidadelas , as praças fortes e os campos entrincheirados não resistem muito tempo. Explodem por si mesmos, como se de súbito a mão de um arrebatado pesasse na alavanca do detonador. As barreiras da autonomia estão desfeitas. As velhas e sórdidas barreiras da alma, que protegiam o espírito e a linguagem. As propriedades privadas estão violadas; nada tinham a preservar. As cidades não desaparecem; estendem a sua paisagem de ferro e de cimento, cobrem as planícies de aluvião e as colinas. Vão depressa , de uma ponta a outra da terra, traçam os seus desenhos velhos milenários. Já não se trata porém de vilas isoladas, das aldeias das cidades santas e das cidades proibidas. Tombuctu, Meca, Pequim, para que serve isso? Não, eis talvez chegado o tempo das cidades novas, onde a força da vida de novo domina a linguagem, onde os homens de novo encontram experiência terrestre, onde os pensamentos, os desenhos e as palavras já não são solitários, semelhantes a sujos excrementos secos, mas são agora como sinais dos Índios: uma encantação, uma música, uma dança, ás quais cada qual obedece e que cada qual inventa.(cont.)

(Índio Branco- J.M.G Le Clézio- Ed.Fenda)

sexta-feira, outubro 10, 2008

J. M.G. Le CLÉZIO


http://ler.blogs.sapo.pt/170853.html


O encontro com o mundo índio não é hoje um luxo. Tornou-se uma necessidade para quem quer compreender o que se passa no mundo moderno.Não basta porém compreender; trata-se de tentar ir até ao fim de todas as galerias obscuras, de procurar abrir algumas portas-quer dizer, no fundo, tentar sobreviver. O nosso universo de cimento e de ramificações eléctricas não é simples. Quanto mais se o pretende explicar, mais ele nos escapa. Viver por dentro, hermeticamente fechado, seguindo os impulsos mecânicos, sem procurar trespassar estas muralhas e estes tectos, é mais do que inconsciência; é expormo-nos ao perigo de sermos pervertidos , mortos, tragados. Sabemos hoje que não há verdades; mas há explosões, metamorfoses, dúvidas. Bem entendido, queremos abalar. Mas para onde? Todos os caminhos são parecidos, todos são um regresso ao próprio indivíduo. É pois preciso procurar outras viagens. Que é o tempo, que é o espaço? Em cada segundo descobrimos no espectáculo do nosso presente, daquilo que nos é familiar, os abismos do futuro e da distância. As dúvidas são céleres, mais céleres que as proezas técnicas. Lá no fim da paisagem do futuro, ao cabo destas estradas de cimento, destas pontes suspensas, destes dédalos urbanos, destes desenhos dos fios e dos transistores, há talvez ainda esse mesmíssimo país, desconhecido , este país velho de milhões de anos, sombrio, impregnado de solidão e de mistério, este país mudo e altivo onde a linguagem humana não passa ainda de um quase imperceptível tremor, este país tão terrívelmente vasto e tão vivo que as mais inertes coisas batem como corações e vibram como cérebros, país despovoado, país lendário que nasce, que está a nascer. Um dia, ali, sem que se saiba bem como, fica-se em presença das razões primeiras, e vê-se o que poderia vir. Apreendem-se imediatamente como se estivessem escritos em cada uma das nossas células, os desenhos e as palavras elementares que incessantemente assinalam. (cont.)

(J.M.G. Le Clézio- Índio Branco. Ed Fenda)


quarta-feira, outubro 08, 2008

À beira d'água moro...

(Alma-Tadema)
À beira d'água moro,
à beira d'água,
da água que choro.

Em verdes mares olho,
em verdes mares,
flor que desfolho.

Tudo o que sonho posso,
tudo o que sonho.
E me alvoroço.

Que flor nas águas solto,
e em flor me perco
mas em saudade volto.

(Cacília Meireles-Antologia Poética)

terça-feira, outubro 07, 2008

Maria João Pires e Ricardo Castro- dueto de piano





Franz Schubert - Fantasie in F minor, Op.103, D.940(excerto)

segunda-feira, outubro 06, 2008

Vulto da Primavera em pleno Outono...

(Courbet)

Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?

E o ventre, inconscientemente como o lodo?...
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo...

É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

Vulto da Primavera em pleno Outono...
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!


(David Mourão Ferreira in «Obra Poética - 1948-1988»)

domingo, outubro 05, 2008

Nasço alegre em toda a parte...

(Aguarelas de Turner)
Lírio Roxo



Viajei por toda a Terra
desde o norte até ao sul;
em toda a parte do mundo
vi mar e céu azul

Em toda a parte vi flores
romperem do pó do chão,
universais, como as dores
do mundo
que em toda a parte se dão.

Vi sempre estrelas serenas
e as ondas morrendo em espuma.
Todo o Sol um Sol apenas,
e a Lua sempre só uma.

Diferente de quanto existe
só a dor que me reparte.
Enquanto em mim morro triste,
nasço alegre em toda a parte.

(António Gedeão -Poesias Completas(1956-1967)

sábado, outubro 04, 2008

Amanhã voltarei ao ritmo solar...

(Aguarelas de Turner)


A V I Õ E S

Amanhã voltarei ao ritmo solar
No céu azul os aviões passarão
Quasi devagar

( Sophia de Mello Breyner)

sexta-feira, outubro 03, 2008

O meu pai previu tudo isso...

(Time-1965)
PUREDETOMATES.COM

O meu pai sonhava que um dia as pessoas de todo o mundo estariam ligadas umas às outras através de uma rede de robustos computadores do tamanho de frigoríficos, do género dos que ele tinha ajudado a fabricar na IBM. Visualizava as famílias do futuro juntas à volta de terminais enormes como mamutes a encomendar as compras do supermercado e a pagar os impostos comodamente sentadas nos seus lares. Uma pessoa podia compor música, desenhar uma casota de cão e...algo mais, algo ainda melhor.« Uma pessoa podia...podia...».
Ao prever esta utopia, o meu pai chegava a um ponto em que as palavras lhe faltavam. Os olhos ficavam muito abertos e brilhantes quando pensava nesse inefável algo mais.«Quer dizer...meu Deus!-dizia ele.-Imaginem só».
As minhas irmãs e eu preferíamos não imaginar. Não sei como era com elas, mas eu esperava que as pessoas de todo o mundo pudessem unir-se através de algo mais interessante, como as drogas ou a luta armada contra os mortos-vivos. Infelizmente, foi a equipa do meu pai que ganhou e, portanto, é mesmo computadores. Só tenho pena que tivesse que acontecer enquanto sou vivo.
Lá no fundo das minhas memórias existe uma vaga lembrança de ter ficado uma vez de pé numa fila com um cartão perfurado na mão. Guardo a memória da sensação, um pouco cínica, que tive e que se tratava de coisa sem importância e lembro-me de ter pensado que o computador nunca iria muito para além daquilo. Podem dizer que sou ingénuo, mas acho que subestimei o desejo universal de se estar numa cadeira de plástico rija a olhar para um ecrã até os olhos ficarem vesgos. O meu pai previu tudo isso, mas trata-se de um futuro que me apanhou de surpresa(...) Não me apercebi realmente da presença dos computadores até meados dos anos oitenta. Por qualquer motivo, eu conhecia uma série de desenhadores gráficos em cujas casas havia sempre um agradável cheirete a cola em spray.O chão estava sempre decorado com colagens de bocados soltos de papel e havia fichas de acenar, pedindo socorro, porque tinham ficado presas na superfície pegajosa do tampo do estirador. Semprei contei com estes meus amigos para me emprestarem a minha cola ou fita adesiva preferidas, mas da noite para o dia, a fita adesiva e a cola de borracha desapareceram, substituídas por computadores sem cheiro e tapetes de rato esponjosos .(...)

(David Sedaris- eu falar bonito um dia)

quinta-feira, outubro 02, 2008

Não queria que os ricos desaparecessem....


Quando fui viver para Nova Yorque, partilhava um apartamento de dois quartos e de renda acessível que ficava a meio quarteirão do rio Hudson. Não tinha emprego nessa altura e vivia da piada cruel a que dava o nome de poupanças. Ao final da tarde, à falta de melhor fazer, costumava andar a pé em direcção à zona leste e ficar a olhar especado pelas janelas das moradias de luxo, a imaginar o que acontecia naquelas salas tão bem mobiladas. Como seria ter não só um apartamento próprio, mas um edifício inteiro onde se podia fazer o que muito se quizesse? Via um homem de cabelo branco a tirar o seu colete ortopédico e perguntava-me o que teria ele feito para merecer uma vida tão privilegiada. Se eu pudesse ter trocado de lugar com ele, tê-lo-ia feito imediatamente.
Nunca perdera muito tempo com invejas enquanto vivia em Chicago, mas aí era possível alugar um apartamento de bom tamanho e ter ainda dinheiro suficiente para ir ao cinema ou para comprar uma peça de carne apresentável. Estar nas lonas em Nova Yorque era ter uma constante sensação dolorosa de falhanço, já que era regularmente confrontado com pessoas que não só tinham mais, mas muitíssimo mais. O meu orçamento diário consistia em doze dólares que rapidamente desapareciam, e toda e qualquer extravagância exigia um sacrifício correspondente. Se eu comprasse um cachorro quente na rua, tinha de compensar o gasto comendo apenas ovos ao jantar ou andar cinquenta quarteirões a pé para chegar à biblioteca em vez de ir de metro. O jornal, pescava-o, caderno a caderno, dos caixotes do lixo, e andava sempre a ver se encontrava receitas boas de asas de frango. Do outro lado da cidade, em East Village, os graffiti os ricos fossem comidos, postos na cadeia ou extreminados por meio de aumentos de impostos. Embora às vezes me parecesse uma boa ideia, eu esperava que a revolução não acontecesse enquanto eu fosse vivo. Não queria que os ricos desaparecessem antes de eu ter oportunidade de, pelo menos durante algum tempo, ingressar nas suas fileiras. O dinheiro era tentador. Eu só não sabia era como arranjá-lo.
(cont.)

(David Sedaris -eu falar bonito um dia)

quarta-feira, outubro 01, 2008

Como é que lhe surgiu uma personagem destas?

(A.Durer)

Tratava-se de uma escola de artes e a oficina da escrita era conhecida no geral como sendo a maneira mais fácil de obter os créditos necessários em inglês. Os meus alunos estavam lá porque sabiam pintar ou exculpir admiravelmente, ou então filmar os seus próprios corpos até à exaustão. Então e isso não era suficiente ? Contavam histórias engraçadas e interessantes sobre as suas vidas, mas pegar na caneta e escrever os pormenores era para eles mais uma obrigação do que uma ambição. A meu ver, se os alunos estavam dispostos a fingir que eu era professor, o mínimo que eu podia fazer era retribuir-lhes o favor e fingir que eles eram escritores. Mesmo se alguém usasse o nome verdadeiro e contasse, por exemplo, o que tinha acontecido na última consulta do dentista, eu considerava a história como pura ficção e perguntava:« Então, Dean, como é que lhe surgiu uma personagem destas»?
O aluno podia resmungar e apontar para o pedaço de algodão ensanguentado que lhe comprimia a gengiva inchada, mas eu dizia:« Quando é que dicidiste que a personagem devia procurar tratar o molar inflamado?» Este tipo de questões possibilitava que os autores se sentissem criativos e protegia aqueles que tinham opiniões políticas pouco aceitáveis.
-Ora deixe-me ver se percebo-disse-me um aluno. - O sotôr está-me a dizer que se eu disser uma coisa em voz alta, sou eu a dizer, mas se escrever exactamente a mesma coisa numa folha de papel, já é outra pessoa. É isso?
-É - respondi.- E chamamos a isso ficção.
O aluno sacou do caderno, escreveu qualquer coisa e depois entregou-me um papel em que se lia:« Isso é a coisa mais estúpidamente merdosa que eu ouvi na vida».
Eram miúdos espertos.
(cont.)

(David Sedaris- eu falar bonito um dia)



David Sedaris- http://en.wikipedia.org/wiki/David_Sedaris

http://www.youtube.com/watch?v=YBdymtyXt8Y