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quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Essa parcela de fogo misterioso...

(Bosch)


Em contrapartida, sempre que uma alma tem qualquer espécie de moral, de religião ou de filosofia, uma cultura burguesa profunda e certo número de ideais no domínio do dever e do belo, ela recebe em recompensa um sistema completo de prescrições, de condições, de regulamentos a que tem de se submeter mesmo antes de lhe ser possível aspirar a tornar-se uma alma superior;e o seu entusiasmo, como o ímpeto ardente de um alto forno, acaba por se canalisar através de belos moldes de areia.No fundo, apenas restam alguns problemas de interpretação lógica, como o de se saber se um acto está ou não de acordo com este ou aquele mandamento; a alma apresenta o carácter serenamente panorâmico de um campo de batalha após o combate; os mortos conservam-se tranquilos, de forma que é possível observar imediatamente onde continua a palpitar um resto de vida, ou um gemido.Eis por que motivo o homem realiza essa transição o mais depressa possível. Quando o atormenta alguma dúvida acerca da sua fé, como por vezes acontece durante a juventude, ele passa imediatamente a perseguir os incrédulos; quando o amor o incomoda, ele transforma-o em casamento; e quando qualquer outro entusiasmo se apodera de si, furta-se à impossibilidade de viver durante muito tempo no íntimo fogo que o consome, principiando a viver para esse mesmo fogo.(...) Apenas os loucos, os tarados, as pessoas com ideias fixas são capazes de se manterem durante muito tempo no fogo da alma em êxtase; o homem são deve contentar-se em explicar que a vida, sem essa parcela de fogo misterioso, se lhe não configuraria digna de ser vivida.

Robert Musil ( O Homem sem Qualidades)

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