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quinta-feira, julho 23, 2009

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros


(Picasso)

Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
-eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim te procuram.

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
-E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que ás vezes se despenham no meio do tempo
- não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço-

e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave- qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,

que te procuram.

(Herberto Helder- Tríptico II)

3 comentários:

  1. Não saber como dizer e dizer tudo...
    Grande poeta, um dos maiores.

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  2. Eu acho que a única experiência religiosa que tive na vida foi quando conheci a poesia do HH. Foi uma espécie de estrada de Damasco :)

    JR

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  3. Não sabe como dizer e di-lo de uma forma admirável.

    ResponderEliminar

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