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segunda-feira, julho 27, 2009

O indivíduo poroso


A grande armadilha do pensamento é acreditar que o indivíduo é um ser compacto. Se nos fiarmos nas aparências, é um ser vivo que já não se pode dividir, sob pena de o matarmos. O indivíduo dividido já não existe.
Tal como as nossas palavras e os nossos pensamentos têm por função esculpir entidades e fazê-las brotar do real, deduzimos deste conceito que o indivíduo é um objecto coerente, fechado e separado do mundo, o que é falso: « Reivindico esta aptidão que temos todos para sermos conformes a nós mesmos, para não sermos um bloco homogéneo cuja personalidade estaria definitivamente fixada...este possibilidade de sermos atravessados por correntes diversas e de escaparmos ao fanatismo da identidade.»
Se possuímos em nós a loucura de viver, devemos procurar as situações por sermos penetrados pelos elementos físicos, tais como a água, o oxigénio ou os alimentos; pelos elementos sensoriais, tais como o tacto, a vista de um rosto ou a vocalidade das palavras, por elementos sociais, tais como a família, a profissão ou os discursos.
O indivíduo é um objecto ao mesmo tempo indivisível e poroso, suficiente estável para ser o mesmo quando o biotipo varia e suficientemente poroso para se deixar penetrar, a ponto de se tornar ele mesmo um bocado do meio ambiente.(cont.)


(Boris Cyrulnik- Do Sexto Sentido -O Homem e o Encantamento do Mundo)

1 comentário:

  1. Bom texto. E é mesmo assim. A porosidade torna-nos vivos e abertos ao mundo mas a consistência dá-nos a identidade. Que também é, felizmente, porosa.

    JR

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