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domingo, novembro 30, 2008

sábado, novembro 29, 2008

É outra coisa intercalada...

(Aguinaldo Vera Cruz-serra da Estrela)


Deixa-me ouvir o que não ouço...
Não é a brisa, ou o arvoredo;
É outra coisa intercalada...
É qualquer coisa que não posso
Ouvir senão em segredo,
E que talvez não seja nada...

Deixa-me ouvir...Não fales alto!
Um momento!...Depois o amor,
Se quiseres...Agora cala!
Ténue, longínquo sobressalto
Que substitui a dor
Que inquieta e embala...

O quê?Só a brisa entre a folhagem?
Talvez...Só o canto pressentido?

Não sei, mas custa amar depois...
Sim, torna a mim, e a paisagem
E a verdadeira brisa, ruído...
Que pena sermos dois!

Fernando Pessoa- 12-08-1930)

quinta-feira, novembro 27, 2008

...a sua personalidade permaneceu obscura...


Lou Andreas-Salomé


A 5 de Fevereiro deste ano, Frau Lou Andreas-Salomé faleceu pacíficamente em sua casinha de Gottingen, com quase 76 anos de idade. Durante os últimos 25 anos da sua vida, essa notável mulher esteve ligada à psicanálise, à qual contribuiu com trabalhos valiosos e que também praticou. Não estarei dizendo demais se reconhecer que todos nós sentimos como uma honra quando ela se juntou às fileiras de nossos colaboradores e companheiros de armas, e, ao mesmo tempo, como uma nova garantia da verdade das teorias da análise.
Sabia-se que, quando jovem, manteve intensa amizade com Friedrich Nietzsche, baseada em sua profunda compreensão das audazes ideias do filósofo. Esse relacionamento teve um fim abrupto quando ela recusou a proposta de casamento que lhe fez. Era bem sabido, também, que muitos anos depois, ela actuou como Musa e mãe protectora para Rainer Maria Rilke, o grande poeta, que era um pouco desamparado em enfrentar a vida. Além disso, porém a sua personalidade permaneceu obscura. Sua modéstia e discrição eram mais do que comuns. Ela nunca falou das suas próprias obras poéticas e literárias. Claramente sabia onde devem ser procurados os verdadeiros valores da vida. Aqueles que lhe foram mais íntimos tiveram a mais forte impressão da genuinidade e da harmonia da sua natureza, e puderam descobrir com espanto que todas as fraquezas femininas e talvez a maioria das fraquezas humanas lhe eram estranhas ou tinham sido por ela vencidas no decorrer da sua vida.
Foi em Viena que, há muito tempo atrás, o mais comovente episódio do seu destino feminino fora representado. Em 1912, ela retornou a Viena, a fim de ser iniciada na psicanálise.
Minha filha, que foi sua amiga íntima, ouviu-a um dia lamentar não ter conhecido a psicanálise em sua juventude. Mas, afinal, naqueles dias não existia tal coisa.

(Sigmund Freud-Fevereiro de 1937)

Não há um tempo único...

O Tempo e os Tempos

Não há um tempo único:existem muitas fitas
que paralelas deslizam
muitas vezes em sentido contrário e raramente
se cruzam. E quando se revela
a única verdade que, desvelada,
é logo suprimida por quem vigia
as engrenagens e os desvios. E mergulha-se
depois no tempo único. Mas nesse instante
só os poucos viventes se reconheceram
para dizer adeus, e não até à vista.

(Eugenio Montale- poesia)

segunda-feira, novembro 24, 2008

Eu ia-os seguindo em silêncio...


Eu fiquei a atender ao balcão da loja enquanto Fermín, com as suas habituais manobras de equilibrista, se empenhou em encarripitar-se na escada e arrumar a última estante de livros que ficava apenas a um palmo do tecto. Pouco antes de fechar, quando o sol se pusera, a silhueta de Bernarda recortou-se atrás do balcão. Estava vestida de quinta-feira, o seu dia livre, e cumprimentou-me com a mão. Iluminou-se-me a alma só de a ver e fiz-lhe sinal para entrar.
-Ai, que grande que o menino está!-disse ela do umbral.-É que quase nem o conhecia...Já está um homem!
Abraçou-me, soltando umas lagrimazinhas e apalpando-me a cabeça, os ombros e a cara, para ver se eu me teria desfeito na sua ausência.
-Sente-se a sua falta lá em casa, menino-disse, baixando o olhar.
-E eu senti a tua falta, Bernarda. Anda, dá-me um beijo.
Beijou-me timidamente e eu preguei-lhe um par de sonoros beijos em cada face. Riu-se. Vi nos seus olhos que estava à espera de que lhe perguntasse por Clara, mas eu não pensava em fazê-lo.
-Estás hoje muito bonita e muito elegante. Como foi que decidiste a vir-nos visitar?
-Bem, a verdade é que já há tempos que queria vir vê-lo, mas bem sabe como as coisas são, e eu cá ando sempre muito ocupada, que o senhor Barceló, embora seja muito sábio, é como uma criança, e eu cá tenho de fazer das tripas coração. Mas o que me traz é que, já vê,amanhã é dia de aniversário da minha sobrinha, a de San Adrián, e eu gostaria de lhe dar uma prenda. Tinha pensado em oferecer-lhe um livro, com muita letra e poucos bonecos, mas como sou burra e não percebo...
Antes que eu pudesse responder, a loja foi sacudida por um estrondo balístico ao precipitarem-se das alturas umas obras completas de Blasco Ibañez de capa dura. Bernarda e eu erguemos a vista, sobressaltados. Fermín escorregava pelas escadas abaixo como um trapezista, um sorriso florentino estampado no rosto e os olhos impregnados de luxúria e arrebatamento.
- Bernarda, este é...
-Fermín Romero de Torres, assessor bibliográfico de Sempere e filho, aos seus pés, minha senhora-proclamou Fermín, pegando na mão de Bernarda e beijando-a cerimoniosamente.
Em questão de segundos, Bernarda ficou um pimentão.
-Ai, que o senhor está enganado, eu de senhora...
-No mínimo marquesa - atalhou Fermín.-Eu tenho obrigação de saber, que calcorreio o mais fino da Avenida Pearson. Permita-me a honra de a escoltar até esta nossa secção de clássicos juvenis e infantis onde providencialmente observo que temos um compêndio com o melhor de Emilio Salgari e da épica narração de Sandokan.
- Ai, não sei, vidas de santos faz-me espécie, porque o pai da menina era muito CNT, sabe?
- Não se preocupe, porque tenho aqui nada mais, nada menos que A Ilha Misteriosa de Júlio Verne, relato de alta aventura e grande conteúdo educativo, devido aos avanços tecnológicos.
- Se o senhor acha bem...
Eu ia-os seguindo em silêncio, observando como Fermín se babava e como Bernarda se perturbava com as atenções daquele homenzinho com pinta de charutanga e lábia de feirante que a olhava com o ímpeto que reservava para as tabletes de chocolate Nestlé.(cont.)

(Carlos Ruiz Zafón- A Sombra do Vento)


Tudo é repousado: o escuro, o claro...

(Tissot)
Somos pressurosos
Mas o andar do tempo
tende-o por cousa pouca
no que permanece.

Tudo o que se apressa
passará em breve;
pois só o que fica
nos iniciará.

Não lanceis o ânimo,
moços, no que é rápido,
no tentar do voo.

Tudo é repousado:
o escuro, o claro,
a flor e o livro.

Rainer Maria Rilke- Sonetos a Orfeu)

domingo, novembro 23, 2008

sábado, novembro 22, 2008

Meu coração enche-se de água...



(Bouguereau)
A Natalita Jiménez
Trouxeram-me um búzio.

Dentro dele canta
um mar de mapa.
Meu coração
enche-se de água
com peixinhos
de sombra e prata.

Trouxeram-me um búzio.

(Federico García Lorca- trad. José Bento)

sexta-feira, novembro 21, 2008

Isto foi-lhe concedido depois das eleições de 1821...

(Magritte)

Assim é o presidente da Câmara de Verrières, senhor de Rênal. Depois de atravessar a rua com passo grave, entra na Câmara e desaparece da vista do viajante. Porém, se este continua o seu passeio, depara-se-lhe, cem passos acima uma casa de bela aparência e, através de um gradeamento de ferro pertencente à dita casa, uns jardins magníficos. Para além é a linha do horizonte formada pelas colinas de Bolonha e que parece feita de propósito para deliciar os olhos. Aquela vista faz esquecer ao viajante a atmosfera empestada da ganância pelo dinheiro que começa a asfixiá-lo.
Contam-lhe que aquela propriedade pertence ao senhor de Rênal. É aos ganhos que teve na sua grande fábrica de pregos que é presidente deve esta bela residência de pedra talhada, que está agora a ser terminada. Dizem que a sua família é antiga, de origem espanhola, estabelecida no país antes da conquista por Luís XIV.
Desde 1815 envergonha-se de ser industrial: 1815 fê-lo presidente da Câmara de Verrières. Os muros em terraço que sustêm as diversas partes deste magnífico jardim, que, de socalco em socalco, desce até ao Doubs, são também a recompensa do senhor de Rênal como comerciante de ferro.
Não espereis encontrar em França aqueles pitorescos jardins que rodeiam as cidades industriais da Alemanha: Leipzig, Francfort, Nuremberga, etc. No Franco Condado, quanto mais paredes se constroem, quanto mais se eriça a propriedade de pedras, umas sobre as outras, mais direitos adquirem à admiração dos vizinhos. Os jardins do senhor de Rênal, cheios de muros, são também admirados por ele ter comprado a peso de ouro certas parcelas de terreno que ocupam(...)
Quanto ao ribeiro público que movia a serra, o senhor de Rênal, com a influência que tinha em Paris, conseguiu que fosse desviado. isto foi-lhe concedido depois das eleições de 1821.

(Stendhal- O Vermelho e o Negro)

quinta-feira, novembro 20, 2008

quarta-feira, novembro 19, 2008

Reflexos do Olhar-cem fotos

Addiragram

Leves, efémeras, luminosas, as folhas da cerejeira dão-me a alegria de as captar, ora verdes, ora já acastanhadas, ora deixando os ramos todos a descoberto. Suspendem-se, ao sabor do acaso, tantas vezes, pérolas de chuva, ao lado de passaritos que se balançam de ramo em ramo. O vale desce até aos olhos, fazendo a travessia das transparências e inundando a casa com o cheiro da terra, das árvores fruteiras e dos eucaliptos. O acordar aqui é benfasejo e, pela porta semi-aberta entra todo o vale.
Reflexos do Olhar, sem dar por isso, chegou à centésima fotografia. Resolveu festejar iluminando também este lugar com este simples ramo de cerejeira.

terça-feira, novembro 18, 2008

Um Quadro de Brauner

(Brauner)
Brauner põe-se a pintar
a procura o fundo apego
do homem à pele do medo

Desfaz as linhas do corpo
como se linhas da mão
dá ao sexo o lugar
que dá à flor

Brauner pinta com a língua
ou outro orgão de amor
o que o braço não podia

tanto é a cor mais dura
como o peso da sabedoria

Mostrar um pássaro na mão
é o que Brauner consegue
mas tão-sòmente essa mão
pica no pássaro que a fere

Mostrar o orifício oco
da orelha colocada
no lado onde a sentimos
ouvir e morrer calada

sobre o veneno do bico
tentando beijá-lo abri-lo
tentando ouvi-lo escutá-lo

O ser que pode ser
aquilo que Brauner não quer
move-se na tela com medo

de quem perdeu a sombra
num deserto ao meio-dia
uma claustrofobia
do espírito dentro da luz.

(Luíza Neto Jorge- Terra Imóvel)

segunda-feira, novembro 17, 2008

como nos anúncios do elixir para fazer crescer o cabelo na paredes dos eléctricos...

(Bazille)
Com o seu primeiro ordenado, Fermín Romero de Torres comprou um chapéu cinéfilo, uns sapatos de chuva e empenhou-se em oferecer-nos ao meu pai e a mim um prato de rabo de touro, que preparavam às segundas-feiras num restaurante a um par de ruas da Praça Monumental. O meu pai tinha-lhe arranjado um quarto numa pensão da rua Joaquín Costa onde, graças à amizade da nossa vizinha Merceditas com a patroa, se pôde obviar a formalidade de preencher a folha de informações sobre o hóspede para a polícia e assim manter Fermín Romero de Torres longe do olfacto do inspector Fumero e dos seus sequazes. Às vezes vinha-me à memória a imagem das tremendas cicatrizes que lhe cobriam o corpo. Sentia-me tentado a perguntar-lhe por elas, receando talvez que o inspector Fumero tivesse alguma cois a ver com o assunto, mas havia qualquer coisa no olhar do pobre homem que sugeria que era melhor não mencionar o assunto. Ele no-lo contaria um dia, quando lhe parecesse oportuno. Todas as manhãs, às sete em ponto, Fermín esperava-nos à porta da livraria, com um aspecto impecável e sempre com um sorriso nos lábios, disposto a trabalhar uma jornada de doze ou mais horas sem descanso. Tinha descoberto uma paixão pelo chocolate e pelos brazos de gitano que não ficava atrás do seu entusiasmo pelos grandes da tragédia grega, com o que tinha ganho algum peso. Usava um escanhoado de menino bem, penteava o cabelo para trás com brilhantina e andava a deixar crescer o bigode fininho para estar à moda. Trinta dias depois de emergir daquela banheira, o ex-mendigo estava irreconhecível. Porém, apesar da espectacularidade da sua transformação, onde realmente Fermín Romero de Torres nos tinha deixado boquiabertos era no campo de batalha. Os seus instintos detectivescos que eu tinha atribuído a efabulações febris, eram de uma precisão cirúrgica. Nas suas mãos, as encomendas mais estranhas solucionavam-se em dias, quando não em horas. Não havia título que não conhecesse, nem argúcia para o conseguir que não lhe ocorresse para o adquirir a um bom preço. Introduzia-se nas bibliotecas particulares de duquesas da Avenida Pearson e diletantes do círculo equestre a golpe de lábia, assumindo sempre identidades fictícias, e conseguia que lhe oferecessem os livros ou os vendessem por tuta e meia.
A transformação do mendigo em cidadão exemplar parecia milagrosa, uma daquelas histórias que os padres de paróquia se compraziam em contar para ilustrar a infinita misericórdia do Senhor, mas que se afiguravam sempre demasiado perfeitas para serem verdadeiras, como nos anúncios de elixir para fazer crescer o cabelo nas paredes dos eléctricos. (cont.)

(Carlos Ruiz Zafón- A Sombra do Vento)

domingo, novembro 16, 2008

A um passarinho...

( Aguarelas de Turner)

A um passarinho


Para que vieste
Na minha janela
Meter o nariz?
Se foi por um verso
Não sou mais poeta
Ando tão feliz!
Se é para uma prosa
Não sou Anchieta
Nem venho de Assis.


Deixa-te de histórias
Some-te daqui!

(Vinicius de Morais)

sexta-feira, novembro 14, 2008

Porém se nos distraímos no calendário...


Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios.
(Nuno Júdice)

quinta-feira, novembro 13, 2008

quarta-feira, novembro 12, 2008

Não, Tempo não te gabes de que eu mudo...


Não, Tempo, não te gabes de que eu mudo;
pirâmides com nova força erguidas
nem me são novas, nem estranhas, tudo
são coisas antes vistas, guarnecidas.
Nossas datas são breves e no ensejo
de o velho em nós lançares, nos espantes,
que as fazes mais nascer-nos ao desejo
do que nos lembras que as ouvimos antes,
E, enfrento o teu arquivo, onde não temos
nem surpresa presente nem pregressa;
mentem os teus registos e o que vemos,
que aumenta ou diminui em tua pressa.
Faço voto de ser sempre fiel,
mau grado a foice e a sua mão cruel.

(Os Sonetos de Shakespeare-Vasco Graça Moura)

segunda-feira, novembro 10, 2008

Desfiz o cuidadoso envoltório...



-Pregaste-me um susto de morte.
Não havia cólera na sua voz, nem praticamente censura, apenas cansaço.
-Bem sei. E lamento-o-respondi.
-Que foi que fizeste na cara?
-Escorreguei na chuva e caí.
-Essa chuva devia ter uma boa direita. Põe qualquer coisa.
-Não é nada. Nem noto-menti.- Do que preciso é de ir dormir. Não me tenho em pé.
-Pelo menos abre o teu presente antes de ires para a cama-disse o meu pai.
Apontou para o embrulho envolvido em papel celofane que me tinha depositado na noite anterior em cima da mesa da casa de jantar. Hesitei um instante. O meu pai assentiu. Peguei no embrulho e sopesei-o. Estendi-o ao meu pai sem abrir.
- O melhor é que o devolvas. Não mereço nenhum presente.
- Os presentes dão-se pelo prazer de quem oferece, não pelo mérito de quem recebe- disse o meu pai.- Além disso, já não se pode devolver. Abre-o.
Desfiz o cuidadoso envoltório na penumbra do alvorecer. O embrulho continha uma caixa de madeira trabalhada, reluzente, debruada com rebites dourados. Iluminou-se-me o sorriso antes de a abrir. O som do fecho a abrir-se era requintado, de mecanismo de relojoaria. O interior do estojo era forrado de veludo azul-escuro. A famosa caneta Montblanc Meisterstuck de Victor Hugo repousava no centro, deslumbrante. Tomei-a nas mãos e contemplei-a à luz da varanda. Sobre a mola de ouro da tampa estava gravada a inscrição

Daniel Sempere 1953

Olhei o meu pai, boquiaberto.Acho que nunca o vi tão feliz como me pareceu naquele instante. Sem uma palavra, levantou-se da poltrona e abraçou-me com força. Senti que se me apertava a garganta e, à falta de palavras, mordi a voz.

(Carlos Ruiz Zafón- A Sombra do Vento)

domingo, novembro 09, 2008

Ter folhas como vinhas

Aguarelas de Turner

OUTONO

Tarde pintada
Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo,
Eu, simplesmente, digo
Que há tanta fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como vinhas.

Almalaguez, 16 de Outubro de 1966

Miguel Torga

sábado, novembro 08, 2008

sexta-feira, novembro 07, 2008

no côncavo da mão o sol nascia...

(Ingres)
E agora: a tua pele.
Revejo: é manso o mar.
E sei que o vento corre e que por ele
se colam no teu corpo lembranças de luar.

Descanso: os teus cabelos.
Entrego: já é dia.
Os caules são serenos, e ao vê-los
no côncavo da mão o sol nascia.

(Pedro Támen- Primeiro Livro de Lapinova)

quarta-feira, novembro 05, 2008

que a chama no chamar se incendeia...


« Uma chama não chama a mesma chama...»

uma chama não chama a mesma chama
há uma outra chama que se chama
em cada chama que chama pela chama
que a chama no chamar se incendeia.

um nome não nome o mesmo nome
um outro nome nome que nomeia
em cada nome o meio pelo nome
que o nome no nome se incendeia

uma chama um nome a mesma chama
há um outro nome nome que se chama
em cada nome o chama pelo nome
que a chama no nome se incendeia

um nome uma chama o mesmo nome
há uma outra chama que nomeia
em cada chama o nome que se chama
o nome que na chama se incendeia

(E.M. de Melo e Castro- Versus-in-Versus)

terça-feira, novembro 04, 2008

Suster o peso da hora...

(Lucien Freud-auto-retrato)
« Não fugir...»

ao Nuno


Não fugir. Suster o peso da hora
Sem palavras minhas e sem os sonhos,
Fáceis e sem as outras falsidades.
Numa espécie de morte mais terrível
Ser de mim todo despojado, ser
Abandonado aos pés como um vestido.
Sem pressa atravessar a asfixia.
Não vergar. Suster o peso da hora
Até soltar sua canção intacta.

(Cristovam Pavia -35 Poemas)

segunda-feira, novembro 03, 2008

O advogado...sabia que o futuro se lia nas ruas....


Naquela tarde de brumas e chuva míuda, Clara Barceló roubou-me o coração, a respiração e o sono. Ao abrigo da luz enfeitiçada do Ateneo, as suas mãos escreveram na minha pele uma maldição que havia de me perseguir durante anos. Enquanto eu a contemplava arrebatado, a sobrinha do livreiro explicou-me a sua história e como ela tinha tropeçado, também por casualidade, nas páginas de Julián Carax. O seu pai, advogado de prestígio ligado ao gabinete do presidente Companys, tinha tido a clarividência de mandar filha e mulher para casa da irmã do outro lado da fronteira no início da guerra civil. Não faltou quem opinasse que aquilo era um exagero, que em Barcelona não ia acontecer nada e que em Espanha, berço e pináculo da civilização cristã, a barbárie era coisa dos anarquistas, e estes, de bicicleta e com remendos nas peúgas, não podiam ir muito longe. Os povos nunca se vêem ao espelho, dizia sempre o pai de Clara, e muito menos com uma guerra à frente do nariz. O advogado era um bom leitor da história e sabia que o futuro se lia nas ruas, nas fábricas e nos quarteis com mais clareza do que na imprensa da manhã. Durante meses escreveu-lhes todas as semanas. Ao princípio fazia-o do escritório da Rua Diputación, mais tarde sem remetente e, finalmente, ás escondidas, de uma cela no castelo de Montjuic onde, como tantos, ninguém o viu entrar e de onde nunca voltou a sair. (cont.)

(Carlos Ruiz Zafón- A Sombra do Vento)

domingo, novembro 02, 2008

Pegado aos outros como musgo...



Ao Vasco da Costa Marques


Agarro um gesto, uma presença, um duro
olhar de espanto. Aqui, entre as serenas
angústias tristes, é que audaz perduro.
Abro o caminho sem remorso ou pena.

Espaço em branco destes dias, muro
frágil de sonhos, onde encosto apenas
o corpo exausto, donde dependuro
esperanças breves, pobres e pequenas.

Lírica paz, renego-a em sofrimento.
Dobrado vivo para fora, arrasto
as mãos vazias sobre arestas, rugas.

Pegado aos outros, como musgo, tento
crescer à míngua, verme só, de rastos,
entre desejos, lutas, mortes, fugas.

(José Augusto Seabra - A Vida Toda. 1939-2004 )

Conheci pessoalmente, muito tardiamente, José Augusto Seabra. Ouvi-o falar, com paixão, sobre Pessoa e, deixei-me apaixonar pelas suas palavras e por todo o seu vigor. Jantámos depois, mais tarde, e o prazer da sua companhia foi enorme. A noite tornou-se curta, e desejo de continuar a ouvi-lo a discorrer ficou em mim. Estava cá de passagem. No dia seguinte partiria, de novo, rumo a Paris, se não me engano. Foi com uma tristeza imensa que, um ano e tal depois, soube da sua morte fulminante. Só o conheci naquele dia mas soube que era um homem bom.
Fica aqui a minha lembrança.