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sexta-feira, fevereiro 29, 2008

As raparigas ...conversavam muito calmas e alegres...

(Denis)
As suas vozes pareciam chegar de muito longe aos seus ouvidos, numa pulsação aos sacões. A rapariga aprestava-se para se ir embora com as suas companheiras.
A rápida pancada de chuva passara, permanecendo em cachos de diamantes entre os arbustos do tabuleiro de onde se elevava uma exalação de terra enegrecida. As raparigas, sobre os degraus da arcada, faziam ressoar o barulho dos seus bonitos sapatos, conversavam muito calmas e alegres, olhando de vez em quando para as nuvens, erguendo os seus guarda-chuvas em enclinações sensatas contra as últimas pingas de chuva, voltando a fechá-los novamente, segurando as orlas das saias com recato.
E se a tivesse julgado demasiado severamente? Talvez a sua vida não fosse mais que um rosário de horas, uma existência simples e estranha como a de um pássaro, alegre de manhã, activa ao longo do dia, cansada ao pôr do sol? Um coração simples e voluntarioso como um coração de um pássaro?

(James Joyce- Retrato do artista quando jovem)

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

REMAR contra as "correntes"


DEDICATÓRIA: ao http://espumadamente.blogspot.com/


O espaço Blog é para mim um espaço de liberdade. Esse é o sentido de "Aguarelas de Turner"-
Durante esta já looooonga existência tem-me sido grato o conhecimento de diversas pessoas das quais estaria certamente arredada sem esta rede inter-bloggers. Tenho " conhecido " diversas sensibilidades que por esta via, tal como eu, se "revelam". O que mais me tem agradado é a verificação da utilização criativa deste espaço potencial, quer fazendo uso da escrita, da fotografia, do desenho, do humor, da intercepção de formas variadas...Um dia será certamente estudado como este "lugar mágico" contribuiu para o equilíbrio psíquico dos seus autores e dos seus amigos. Como todas as noites (ou quando apetece) cada um de nós vai regando o seu "jardim", vai semeando novas plantas sempre com a mesma a alegria, aquela que resulta da descoberta do prazer que cada surpresa pode proporcionar ao outros.
Contudo os encontros, mesmo os virtuais, raramente acontecem sem tumultos. O nosso território sofre um duplo abalo com as visitas dos nossos visitantes. Falo agora de mim. Se os comentários estimulantes ou sinceros são, via de regra, motor de um desejo de publicar outras coisas, aquelas outras visitas em que somos elogiados, premiados , encorajados a aderir a "correntes", despertam sentimentos contraditórios. Os "prémios "e as" correntes" , embora apresentados de uma forma "inocente" e "generosa" vêm introduzir "entropia " no sistema. Vêm forçar a porta da pretendida liberdade. Claro que é sempre possível não dar continuidade, fazendo "orelhas moucas".Mas esta não é uma opção fácil já que implica ficar com o onus da "má educação"ou da arrogância...E isto é particularmente difícil quando se trata de pessoas com quem simpatizamos , o que é o caso muitas vezes...Há ainda opção de responder mas não perpetuar a "cadeia". Tem sido esta, por vezes, uma escolha minha. Mas esta desperta também fantasias a quem nos lê...tanto mais que o este espaço virtual oferece condições favoráveis a que se imagine isto ou aquilo, já que não permite, na maior parte das vezes, o confronto com a realidade que as relações mais próximas permitem. Assim, a mim basta-me ir conhecendo algumas pessoas através do que publicam e quando os posts me interessam fazer os meus comentários; basta-me também, ir recebendo alguns comentários dos que se sentem tocados positiva ou negativamente pelo que publico. E, por favor, não me metam em mais "correntes". Vamos "falando" na mesma, não é?Tanto mais que :

1- Não gosto que me ponham em "correntes" e me dêem "prémios";
2- gosto muito deste cantinho em que publico o que me dá na "real gana";
3- prezo acima de tudo a minha independência;
4- tenho a mania da sinceridade;
5- não gosto de magoar outras sensibilidades;
6- sou uma arrumada à força e a contragosto e rebelde por natureza.

Despejo no papel o líquido da noite...


Filosofia da composição

Há noites em que a poesia chega
até mim por uma janela da alma - a mais
pequena das janelas da alma,
essa que só deixa passar um fio
de luz e, com ele o fio
do poema.

Então, recolho-a nesse copo
abstracto por onde vejo, à trans-
parência do vidro, a cor mineral
da noite, e toco com os dedos
a superfície límpida
de uma água de palavras
e de lua.

Por fim, despejo no papel
o líquido da noite, com o seu fio
de luz e essa linha de música em
que o poema se inscreve e
ele escorre ao longo dos versos que
ficam húmidos, com os
teus cabelos depois do amor,
quando as janelas da alma se abrem
para deixar entrar a chuva
da vida.

(Nuno Júdice-Geometria variável)

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

O tempo dos parques cisma ...

(Aguarelas de Turner)
O tempo nos parques

O tempo nos parques é íntimo, inadiável, imparticipante, imarcescível.
Medita nas altas frondes, na última palma da palmeira
Na grande pedra intacta, o tempo nos parques.
O tempo nos parques cisma no olhar cego dos lagos
Dorme nas furnas, isola-se nos quiosques
Oculta-se no torso muscular dos ficus, o tempo nos parques.
O tempo nos parques gera o silêncio do piar dos pássaros
Do passar dos passos, da cor que se move ao longe.
É alto, antigo, presciente o tempo nos parques
É incorruptível; o prenúncio de uma aragem
A agonia de uma folha, o abrir-se de uma flor
Deixa um frémito no espaço do tempo nos parques,
O tempo nos parques envolve de redomas invisíveis
Os que se amam; eterniza os anseios, petrifica
Os gestos, anestesia os sonhos, o tempo nos parques.
Nos homens dormentes, nas pontes que fogem, na franja
dos chorões, na cúpula azul o tempo perdura
Nos parques; e a pequenina cutia surpreende
A imobilidade anterior desse tempo no mundo
Porque imóvel, elementar, autêntico, profundo
É o tempo nos parques.

(Vinicius de Moraes)

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Há já demasiados Narcisos....

                                          (Dali)

Há já demasiados Narcisos no mundo, demasiados desses seres tomados de amor por si mesmos. Estão perdidos se encontram complacência nos seus amigos. Persuadidos do seu mérito, repletos de uma ideia que lhes é cara, passam a vida a admirar-se. Que seria necessário para os curar de uma loucura que parece incurável? Bastaria fazer com que se apercebessem do pequeno número dos seus rivais; fazê-los sentir as suas fraquezas; pôr os seus vícios no ponto de vista que é necessário para que sejam vistos; ligarmo-nos a eles contra eles mesmos, falar-lhes com a simplicidade da verdade.(...)

(Montesquieu-Elogio da Sinceridade)

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Reflexos do Olhar XXI II(2ª série) - simples flores

(Aguarelas de Turner)

domingo, fevereiro 24, 2008

Oiçam Comigo- Frank Peter Zimmermann


2007 in Lübeck: Abschlusskonzert des Schleswig-Holstein Musik Festivals - J.S.Bach: Andante aus der Sonate Nr. 2 als Zugabe, gespielt von Frank Peter Zimmermann (nach dem Violinkonzert Opus 61 von Beethoven)

Frank Peter Zimmermann toca num Stradivarius de 1711 que pertenceu a Fritz Kreisler. Interpretou 5ª feira na Gulbenkian, entre outras obras, o Concerto para Violino em Lá menor, BWV 1041 de Johann Sebastian Bach

sábado, fevereiro 23, 2008

Como se o próprio dia as inclinasse...

                               (Sisley)
III

Quando em silêncio passas entre as folhas,
Uma ave renasce da sua morte
e agita as asas de repente;
tremem maduras todas as espigas
como se o próprio dia as inclinasse,
e gravemente, comedidas,
param as fontes a beber-te a face

(Eugénio de Andrade-As Mãos e os Frutos)

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Freud responde a Einstein- V

(Picasso)
Uma queixa que o senhor formulou acerca do abuso de autoridade leva-me a uma sugestão para o combate indirecto à propensão à guerra. Um exemplo da desigualdade inata e irremovível dos homens é a sua tendência a se classificarem em dois tipos, o de líderes e o de seguidores. Uma autoridade que tome decisões por eles e à qual, se devotam uma submissão ilimitada. Isso sugere que se deva dar mais atenção, do que até hoje se tem dado, à educação da camada superior dos homens dotados de mentalidade independente, não passível de intimidação e desejosa de manter-se fiel à verdade, cuja preocupação seja a de dirigir as massas dependentes. É desnecessário dizer que as usurpações cometidas pelo poder executivo do Estado e a proibição estabelecida pela Igreja contra a liberdade de pensamento não são nada favoráveis à formação de uma classe deste tipo.(...)
Eu gostaria, porém, de discutir mais uma questão que o senhor não menciona na sua carta, a qual interessa em especial. Por que o senhor, eu e tantas outras pessoas nos revoltamos tão violentamente contra a guerra? Porque não a aceitamos como mais uma das muitas calamidades da vida? Afinal, parece ser uma coisa muito natural, parece ter uma base biológica e ser dificilmente evitável na prática. Não há motivo para se surpreender com o facto de eu levantar essa questão. Para o propósito de uma investigação como esta, poder-se-ia, talvez, permitir-se usar uma máscara de suposto alheamento, A resposta à minha pergunta será a de que reagimos à guerra dessa maneira, porque toda a pessoa que tem direito à sua própria vida, porque a guerra põe término a vidas plenas de esperanças, porque conduz os homens individualmente a situações humilhantes, porque os compele, contra sua vontade, a matar outros homens e porque destrói objectos materiais preciosos, produzidos pelo trabalho da humanidade. Outras razões mais poderiam ser apresentadas, como a de que, na sua forma actual, a guerra não é mais uma oportunidade de atingir os velhos ideiais de heroísmo, e de que, devido ao aperfeiçoamento dos instrumentos de destruição, uma guerra futura poderia envolver o extermínio de um dos antagonistas ou, quem sabe, de ambos. Tudo isso é verdadeiro, e tão incontestavelmente verdadeiro, que não se pode senão sentir perplexidade ante o facto de a guerra ainda não ter sido
unanimente repudiada. (....) Penso que a principal razão por que nos rebelamos contra a guerra é que não podemos fazer outra coisa. Somos pacifistas porque somos obrigados a sê-lo, por motivos orgânicos básicos. E sendo assim, temos argumentos que justifiquem a nossa atitude.
Sem dúvida, isto exige alguma explicação. Creio que se trata do seguinte. Durante de períodos de tempo incalculáveis, a humanidade tem passado por um processo de evolução cultural ( sei que alguns preferem empregar o termo" civilização"). É a esse processo que devemos o melhor daquilo em que nos tornamos, bem como uma boa parte daquilo de que padecemos. Embora suas causas e seus começos sejam obscuros e incerto o seu resultado, algumas das suas características são de fácil percepção. Talvez esse processo esteja levando à extinção da raça humana, pois em mais de um sentido prejudica a função sexual; povos incultos e camadas atrasadas da população já se multiplicaram mais rapidamente do que as camadas superiormente intruídas.(...)As modificações psíquicas que acompanham o processo de civilização são notórias e inequívocas. Consistem num progressivo deslocamento dos fins instintuais e numa limitação imposta aos impulsos instintuais. Sensações que para os nossos ancestrais eram agradáveis, tornaram-se indiferentes ou até mesmo intoleráveis para nós; há motivos orgânicos para as modificações em nossos ideais éticos e estéticos. Dentre as características psicológicas da civilização, duas apatrecem como as mais importantes: O fortalecimento do intelecto, que está começando a governar a vida instintual , e a internalização dos impulsos agressivos com todas as consequentes vantagens e perigos. Ora a guerra se constitui na mais óbvia oposição à atitude psíquica que nos foi incutida pelo processo de civilização, e por esse motivo não podemos evitar de nos rebelar contra ela; simplesmente não podemos mais nos conformar com ela. Isto não é apenas um repúdio intelectual e emocional; nós, os pacifistas, temos uma intolerância constitucional à guerra, digamos, uma idiossincrasia exacerbada no mais alto grau. Realmente, parece que o rebaixamento dos padrões estéticos na guerra desempenha um papel dificilmente menor em nossa revolta do que as suas crueldades.
E quanto tempo teremos de esperar até que o restante da humanidade também se torne pacifista? Não há como dizê-lo. Mas pode não ser utópico esperar que esses dois factores, a atitude cultural e o justificado medo das consequências de uma guerra futura, venham a resultar, dentro de um tempo previsível, em que se ponha um término à ameaça de guerra. Por quais caminhos ou por que atalhos isto se realizará, não podemos adivinhar. Mas uma coisa podemos dizer: tudo o que estimula o crescimento da civilização trabalha simultâneamente contra a guerra.
Espere que o senhor me perdoe se o que eu disse o desapontou, e com expressão de toda a estima, subscrevo-me,

Cordialmente,

SIGM. FREUD

Nota: A carta de Einstein chegou a Freud no início de Agosto de 1932 e a sua resposta foi concluída um mês depois. A correspondência foi publicada em Paris, pelo Instituto Internacional para a Cooperação Intelectual em Março de 1933, em alemão, francês e inglês, simultâneamente. A sua circulação, contudo foi proibida na Alemanha.

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Freud responde a Einstein -IV

(Blake)
Receio que eu possa estar abusando do seu interesse, que, afinal, se volta para a prevenção da guerra e não para as nossas teorias. Gostaria, não obstante, de deter-me um pouco mais no nosso instinto destrutivo, cuja popularidade não é de modo algum igual à sua importância. Como consequência de um pouco de especulação, pudemos supor que esse instinto está em actividade em toda a criatura viva e procura levá-la ao aniquilamento, reduzir a vida à condição original de matéria inanimada. Portanto, merece, com toda a seriedade, ser denominado instinto de morte, ao passo que os instintos eróticos representam o esforço de viver. O instinto de morte torna-se instinto destrutivo quando, com o auxílio de orgãos especiais, é dirigido para fora, para objectos. O organismo preserva sua própria vida, por assim dizer, destruindo uma vida alheia. Uma parte do instinto de morte , contudo, continua atuante dentro do organismo, e temos procurado atribuir numerosos fenómenos normais e patológicos a essa internalização do instinto de destruição(...) Por outro lado, se essas forças se voltam para a destruição no mundo externo, o organismo se aliviará e o efeito deve ser benéfico. Isto serviria de justificação biológica para todos os impulsos condenáveis e perigosos contra os quais lutamos. Deve-se admitir que eles se situam mais perto da natureza do que a nossa resistência, para a qual também é necessário encontrar uma explicação. Talvez ao senhor possa parecer serem as nossas teorias uma espécie de mitologia e, no presente caso, mitologia nada agradável Todas as ciências, porém, não chegam, afinal, a uma espécie de mitologia como esta? Não se pode dizer o mesmo, actualmente, a respeito da sua física?
Para nosso propósito imediato, portanto, isto é tudo o que resulta daquilo que ficou dito: de nada vale tentar eliminar as inclinações agressivas dos homens. Segundo se nos conta, em determinadas regiões privilegiadas da Terra, onde a natureza provê em abundância tudo o que é necessário ao homem, existem povos cuja vida transcorre em meio (favorável) à tranquilidade, povos que não conhecem nem a coerção nem a agressão. Dificilmente posso acreditar nisso, e agradar-me-ia saber mais a respeito de coisas tão afortunadas. Também os bolchevistas esperam ser capazes de fazer a agressividade humana desaparecer mediante a garantia de satisfação de todas as necessidades materiais e o estabelecimento da igualdade, em outros aspectos, entre todos os membros da comunidade. Isto, na minha opinião, é uma ilusão. Eles próprios, hoje em dia, estão armados da maneira mais cautelosa, e o método não menos importante que empregam para manter juntos os seus adeptos é o ódio contra qualquer pessoa além das suas fronteiras. Em todo o caso, como o senhor mesmo observou, não há maneira de eliminar totalmente os impulsos agressivos do homem; pode-se tentar desviá-los num grau tal que não necessitem de encontrar expressão na guerra.
Nossa teoria mitológica dos instintos facilita-nos encontrar a fórmula para métodos indirectos
de combater a guerra. Se o desejo de aderir à guerra é efeito do instinto destrutivo, a recomendação mais evidente será contrapôr-lhe o seu antagonista Eros. Tudo o que favorece o estreitamento dos vínculos emocionais entre os homens deve actuar contra a guerra. Esses vínculos podem ser de dois tipos. Em primeiro lugar, podem ser relações semelhantes àquelas relativas a um objecto amado, embora não tenham uma finalidade sexual. A psicanálise não tem motivo porque se envergonhar se nesse ponto fala de amor, pois a própria religião emprega as mesmas palavras :"Ama o teu próximo como a ti mesmo". Isto, todavia, é mais facilmente dito do que praticado. O segundo vínculo emocional é o que utiliza a identificação. Tudo o que leva os homens a compartilhar de interesses importantes produz essa comunhão de sentimento, essas identificações. E a estrutura da sociedade humana baseia-se nelas, em grande escala.

(S. Freud) (cont.)

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Freud responde a Einstein III

(Klint)

Passo, agora, a acrescentar algumas observações aos seus comentários. O senhor expressa surpresa ante o facto de ser tão fácil inflamar nos homens o entusiasmo pela guerra, e insere a suspeita de que neles existe em actividade alguma coisa- um instinto de ódio e destruição- que coopera com os esforços dos mercadores da guerra. Também nisto apenas posso exprimir meu inteiro acordo. Acreditamos na existência de um instinto desta natureza, e durante os últimos anos temo-nos ocupado realmente em estudar as suas manifestações. Permita-me que me sirva desta oportunidade para apresentar-lhe uma parte da teoria dos instintos que, depois de muitas tentativas hesitantes e muitas vacilações de opinião, foi formulada pelos que trabalham na área da psicanálise?
De acordo com a nossa hipótese, os instintos humanos são apenas de dois tipos: aqueles que tendem a preservar e a unir- que denominamos "eróticos", exactamente no mesmo sentido em que Platão usa a palavra "Eros" em seu Symposium, ou "sexuais", com uma deliberada ampliação da concepção popular de "sexualidade"-; e aqueles que tendem a destruir e matar, os quais agrupamos como instinto agressivo ou destrutivo. Como o senhor vê, isto não é senão uma formulação teórica da universalmente conhecida oposição entre amor e ódio, que talvez possa ter alguma relação básica com a polaridade entre atracção e repulsão, que desempenha um papel na sua área de conhecimentos. Entretanto, não devemos ser demasiado apressados em introduzir juízos éticos de bem e de mal. Nenhum desses instintos é menos essencial do que o outro; os fenómenos da vida surgem da acção confluente ou mutuamente contrária de ambos.(...)Assim, por exemplo, o instinto de autopreservação certamente é de natureza erótica; não obstante, deve ter à sua disposição a agressividade, para atingir o seu propósito. Dessa forma, também o instinto de amor, quando dirigido a um objecto, necessita de alguma contribuição do instinto de domínio, para que tenha a posse desse objecto. A dificuldade de isolar as duas espécies de instinto em suas manifestações reais é, na verdade, o que até agora nos impedia de reconhecê-los. Se o senhor quiser acompanhar-me um pouco mais, verá que as acções humanas estão sujeitas a uma outra complicação de natureza diferente. Muito raramente uma acção é obra de um impulso instintual
único ( que deve estar composto de Eros e destrutividade). A fim de tornar possível uma acção, há que haver, via de regra, uma combinação desses motivos compostos. Isto, há muito tempo, havia sido percebido por um especialista na sua matéria, o professor G.C.Lichtenberg, que ensinava física em Göttingen, durante o nosso classisismo, embora talvez, ele fosse ainda mais notável como psicólogo do que como físico. Ele inventou uma "bússula de motivos", pois escreveu: "Os motivos que nos levam a fazer algo poderiam ser dispostos à maneira da roda-dos-ventos e receber nomes de uma forma parecida: por exemplo; "pão-pão-fama" ou "fama-fama-pão". de forma que, quando os seres humanos são incitados á guerra, podem ter toda uma gama de motivos para se deixarem levar- uns nobres, outros vis, alguns francamente declarados, outros jamais mencionados. Não há por que enumerá-los todos. Entre eles está certamente o desejo da agressão e destruição: as incontornáveis crueldades que encontramos na história e em nossa vida de todos os dias atestam a sua existência e a sua força. A satisfação desses impulsos destrutivos naturalmente é facilitada por sua mistura com outros motivos de natureza erótica e idealista. Quando lemos sobre as atrocidades do passado, amiúde é como se os motivos idealistas servissem apenas de excusa para os desejos destrutivos; e, às vezes- por exemplo, no caso das crueldades da Inquisição- é como se os motivos idealistas tivessem assomado a um primeiro plano na consciência, enquanto os destrutivos lhes emprestassem um reforço inconsciente. Ambos podem ser verdadeiros.

(S.Freud) (cont.)

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Freud responde a Einstein-II

(Aguarelas de Turner) Delfos
Se nos voltamos para os nossos próprios tempos, chegamos à mesma conclusão a que o senhor chegou por um caminho mais curto. As guerras somente serão evitadas com certeza, se a humanidade se unir para estabelecer uma autoridade central a que será conferido o direito de arbitrar todos os conflitos de interesses. Nisto estão envolvidos dois requisitos distintos: criar uma instância suprema e dotá-la do necessário poder. Uma sem outra seria inútil. A Liga das Nações é destinada a ser uma instância dessa espécie, mas a segunda condição não foi preenchida: a Liga das Nações não possui poder próprio , e só pode adquiri-lo se os membros da nova união , os diferentes estados, se dispuserem a cedê-lo. E, no momento, parecem escassas as perspectivas nesse sentido. (...)Já vimos que uma comunidade se mantém unida por duas coisas: a força coercitiva da violência e os vínculos emocionais (identificações é o nome técnico) entre os seus membros. Se estiver ausente um dos factores, é possível que a comunidade se mantenha unida pelo outro factor. As ideias a que se faz apelo só podem, naturalmente, ter importância se exprimirem afinidades entre os membros, e pode-se perguntar quanta força essas ideias podem exercer. A história ensina-nos que, em certa medida, elas foram eficazes. Por exemplo, a ideia de pan-helenismo, o sentido de ser superior aos bárbaros de além-fronteiras - ideia que foi expressa com tanto vigor no conselho anfictiónico, nos oráculos e nos jogos-, foi forte a ponto de mitigar os costumes guerreiros entre gregos embora, é claro, não suficientemente forte para evitar dissensões bélicas entre diferentes partes da nação grega, ou mesmo impedir uma cidade ou confederação de cidades de se aliar com o inimigo persa, a fim de obter vantagem contra algum rival.A identidade de sentimentos entre os cristãos, embora fosse poderosa, não conseguiu, à época do Renascimento, impedir os Estados Cristãos, tanto os grandes como os pequenos, de buscar o auxílio do sultão em suas guerras de uns contra os outros. (...) Na realidade, é por demais evidente que as ideias nacionais, pelas quais as nações se regem, nos dias de hoje, atuam em sentido oposto.Algumas pessoas tendem a profetizar que não será possível pôr fim à guerra, enquanto a forma comunista de pensar não tenha encontrado aceitação universal. Mas esse objectivo, em todo o caso, está muito remoto, actualmente, e talvez só pudesse ser alcançado após as mais terríveis guerras civis. Assim sendo, presentemente, parece estar condenada ao fracasso a tentativa de substituir a força real pela força das ideias. Estaremos fazendo um cálculo errado se desprezarmos o facto de que a lei, originalmente, era força bruta e que, mesmo hoje, não pode prescindir do apoio da violência.(...)

(S.Freud) (cont.)

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Freud responde a Einstein -I


(Extractos)

Viena, Setembro de 1932

Prezado Professor Einstein,

Quando soube que o senhor tencionava convidar-me para um intercâmbio de pontos de vista sobre um assunto que lhe interessava e que parecia merecer o interesse de outros além do senhor, aceitei prontamente. Esperava que o senhor escolhesse um problema situado nas fronteiras daquilo que é actualmente cognoscível, um problema em relação ao qual cada um de nós, físico e psicólogo, pudesse ter o seu ângulo de abordagem especial e no qual nos pudéssemos encontrar, sobre o mesmo terreno, embora partindo de direcções diferentes. O senhor apanhou-me de surpresa, no entanto, ao perguntar o que pode ser feito para proteger a humanidade da maldição da guerra. Inicialmente assustei-me com o pensamento da minha-quase escrevi "nossa"- incapacidade de lidar com o que parecia ser um problema prático, um assunto para estadistas. Depois, no entanto, percebi que o senhor havia proposto a questão, não na condição de cientista da natureza e físico mas como filantropo: o senhor estava seguindo a sugestão da Liga das Nações, assim como Fridtjof Nansen, o explorador polar,assumiu a tarefa de auxiliar as vítimas famintas e sem tecto da guerra mundial.
(...)

O senhor começou com a relação entre o direito e o poder. Não se pode duvidar de que seja esse o ponto de partida correcto da nossa investigação. mas permita-me substituir a palavra "poder" pela palavra mais nua e crua "violência"? No entanto é fácil mostrar que uma se desenvolveu da outra; e se nos reportarmos às origens primeiras e examinarmos como essas coisas se passaram, resolve-se o problema facilmente.(...)

É pois, um princípio geral que os conflitos de interesses entre os homens são resolvidos pelo uso da violência. É isto o que se passa em todo o reino animal, do qual o homem não tem motivo por que se excluir. No caso do homem, sem dúvida ocorrem também conflitos de opiniãoque podem chegar a
atingir as mais raras nuances de abstracção e que parecem exigir alguma outra técnica
para sua resolução.Esta é, contudo, uma complicação a mais. No início, numa pequena horda humana era a superioridade da força muscular que decidia quem tinha a posse das coisas ou quem fazia prevalecer a sua vontade. A força muscular logo foi sumplantada e substituída pelo uso dos instrumentos: o vencedor era aquele que tinha as melhores armas ou aquele que tinha a maior habilidade no seu manejo. A partir do momento em que as armas foram introduzidas, a superioridade intelectual já começou a substituir a força muscular bruta; mas o objectivo final da luta permanecia o mesmo- uma ou outra facção tinha de ser compelida a abandonar suas pretensões ou suas objecções, por causa do dano que lhe havia infligido e pelo desmantelamento da sua força. Conseguia-se esse objectivo de modo mais completo se a violência do vencedor eliminasse para sempre o adversário, ou seja, o matasse. Isto tinha duas vantagens: o vencido não podia restabelecer a sua oposição e o seu destino dissuadiria outros a seguirem o exemplo. Ademais disso, matar um inimigo satisfazia uma inclinação instintual, que mencionarei posteriormente. (...)

Como sabemos, esse regime foi modificado no transcurso da evolução. Havia um caminho que se estendia da violência ao direito ou à lei. Que caminho era essa? Penso ter sido apenas um: o caminho que levava ao reconhecimento do facto de que à força superior de um único indivíduo podia contrapor a união de diversos indivíduos fracos.L'union fait la force. A violência podia ser derrotada pela união, e o poder daqueles que se uniam representava, agora, a lei, em contrapoção à violência do indivíduo só. Vemos, assim, que a lei é a força de uma comunidade. Ainda é violência, pronta a se voltar contra qualquer indivíduo que se lhe oponha; funciona pelos menos métodos e persegue os mesmos objectivos. A única diferença real reside no facto de que aquilo que prevalece não é mais a violência do indivíduo, mas a violência da comunidade.(...) A união da maioria devia ser estável e duradoura. Se apenas fosse posta em prática com o propósito de combater um indivíduo isolado e dominante, e fosse dissolvida depois da derrota deste, nada se teria realizado. A pessoa, a segui, que se julgasse superior em força, haveria de mais uma vez tentar estabelecer o domínio através da violência e o jogo reperir-se-ia
ad infinitum.(...)

(...) As leis são feitas por e para os membros governantes e deixa pouco espaço para os direitos daqueles que se encontram em estado de sujeição(...) Primeiramente são feitas, por certos detentores do poder, tentativas, no sentido de se colocarem acima das proibições que se aplicam a todos- isto é, procuram escapar do domínio pela lei pelo domínio pela violência. (...)

É impossível estabelecer qualquer julgamento geral das guerras de conquista. Algumas, como as empreendidas pelos mongóis e pelos turcos, não trouxeram senão malefícios. Outras, pelo contrário, contribuíram para a transformação da violência em lei, ao estabelecerem unidades maiores, dentro das quais o uso da violência se tornou impossível e nas quais um novo sistema de leis solucionou os conflitos(...) Por paradoxal que possa parecer, deve-se admitir que a guerra podia ser um meio nada inadequado de estabelecer o reino ansiosamente desejado da paz "perene", pois está em condições de criar as grandes unidades dentro das quais um poderoso governo central torna impossíveis outras guerras.Contudo, ela falha quanto a esse propósito, pois os resultados da conquista são geralmente de curta duração: as unidades recentemente criadas esfacelam-se novamente, no mais das vezes pela violência.(...)

(cont.)

S. Freud

domingo, fevereiro 17, 2008

sábado, fevereiro 16, 2008

Existe alguma forma de livrar a humanidade da ameaça da guerra?

(Goya)
Porquê a Guerra?

Caputh junto a Potstam, 30 de Julho de 1932

Prezado Professor Freud,

A proposta da Liga das Nações e de seu Instituto Internacional para a Cooperação Intelectual, em Paris, de que eu convidasse uma pessoa, de minha própria escolha, para um franco intercâmbio de de pontos de vista sobre algum problema que eu poderia seleccionar, oferece-me excelente oportunidade de conferenciar com o senhor a respeito de uma questão que, da maneira como as coisas estão, parece ser o mais urgente de todos os problemas que a civilização tem de enfrentar.Este é o problema: Existe alguma forma de livrar a humanidade da ameaça de guerra? É do conhecimento geral que, com o progresso da ciência de nossos dias, este tema adquiriu significação de assunto de vida ou de morte para a civilização, tal como a conhecemos; não obstante, apesar de todo o empenho demonstrado, todas as tentativas de solucioná-lo terminaram em lamentável fracasso.(....)
Quanto a mim, o objectivo habitual de meu pensamento não me permite uma compreensão interna das obscuras regiões da vontade e do sentimento humano. (...) Existem determinados obstáculos psicológicos cuja existência um leigo em ciências mentais pode obscuramente entrever, cujas inter-relações e filigranas, ele, contudo, é incompetente para compreender; estou convencido de que o senhor será capaz de sugerir métodos educacionais situados mais ou menos fora dos objectivos da política, os quais eliminarão esses obstáculos.
Como pessoa isenta de preconceitos nacionalistas, pessoalmente vejo uma forma simples de abordar o aspecto superficial (isto é, administrativo) do problema: a instituição, por meio de acordo internacional, de um organismo legislativo e judiciário para arbitrar todo o conflito que surja entre nações. Cada nação submeter-se-ia à obediência às ordens emanadas desse organismo legislativo, a recorrer às suas decisões em todos os litígios, a aceitar irrestritamente suas decisões e a pôr em prática todas as medidas que o tribunal considerasse para a execusão dos seus decretos. Já de início, todavia, defronto-me com uma dificuldade:um tribunal é uma instituição humana que, em relação ao poder que dispõe, é inadequada para fazer cumprir os seus veredictos, está muito sujeito a ver as suas decisões anuladas por pressões extrajudiciais. Este é um facto com que temos de contar; a lei e o poder inevitavelmente andam de mãos dadas, e as decisões jurídicas se aproximam mais da justiça ideal exigida pela comunidade ( em cujo nome e em cujos interesses esses veredictos são pronunciados), na medida em que a comunidade tem efectivamente o poder de impor o respeito ao seu ideal jurídico. (....)
Assim, sou levado ao meu primeiro princípio: a busca de segurança internacional envolve a renúncia incondicional, por todas as nações, em determinada medida, à sua liberdade de acção, ou seja à sua soberania, e é absolutamente evidente que nenhum outro caminho pode conduzir a essa segurança.
O insucesso, malgrado sua evidente sinceridade, de todos os esforços, durante a última década, no sentido de alcançar essa meta, não deixa lugar à dúvida de que estão em jogo factores psicológicos de peso que paralisam tais esforços.Alguns desses factores são fáceis de detectar. O intenso desejo de poder, que caracteriza a classe governante em cada nação, é hostil a qualquer limitação da soberania nacional. Essa fome de poder político está acostumada a medrar nas actividades de um outro grupo, cujas aspirações são se carácter económico, puramente mercenário. Refiro-me especialmente a esse grupo reduzido, porém decidido, existente em cada nação, composto de indivíduos que, indiferentes às condições e aos controles sociais, consideram a guerra, a fabricação e venda de armas simplesmente como uma oportunidade de expandir seus interesses pessoais e ampliar a sua autoridade pessoal.(...) Logo surge uma outra questão: como é possível a essa pequena súcia dobrar a vontade da maioria, que se resigna a perder e a sofrer com uma situação de guerra, a serviço da ambição de poucos?(...) Parece que uma resposta óbvia a essa pergunta seria que a minoria, a classe dominante actual, possui as escolas, a imprensa e, geralmente, também a Igreja, sob o seu poderio. Isso possibilita organizar e dominar as emoções
das massas e torná-las instrumento da mesmma minoria.
Ainda assim, nem sequer essa resposta proporciona uma solução completa. Daí surge uma nova questão: como esses mecanismos conseguem despertar nos homens um entusiasmo extremado, a ponto destes sacrificarem as suas vidas?
Pode haver apenas uma resposta. É porque o homem encerra dentro e si um desejo de ódio e destruição. Em tempos normais, essa paixão existe em estado latente, emerge apenas em circunstâncias anormais; é contudo, relativamente fácil despertá-la e elevá-la à potência de psicose colectiva. Talvez aí esteja o ponto crucial de todo o complexo de factores que estamos considerando, um enigma que só um especialista na ciência dos instintos humanos pode resolver.
Com isso, chegamos à nossa última questão. É possível controlar a evolução da mente do homem, de modo a torná-lo à prova das psicoses do ódio e das destrutividade? Aqui não me estou referindo tão-somente às chamadas massas incultas. A experiência prova que é, antes, a chamada "Intelligentzia" a mais inclinada a ceder a essas desastrosas sugestões colectivas, de vez que o intelectual não tem contacto directo com o lado rude da vida, mas a encontra em sua forma sintética mais fácil-na página impressa.
Para concluir: Até aqui somente falei das guerras entre nações, aquelas que se conhecem como conflitos internacionais. Estou porém, bem consciente de que o instinto agressivo opera sob outras formas e em outras circunstâncias. (Penso nas guerras civis, por exemplo, devidas à intolerância religiosa, em tempos precedentes, hoje em dia, contudo devidas a factores sociais: ademais nas perseguições a minorias raciais.) Foi deliberada a minha insistência naquilo que é a mais típica, mais cruel e extravagante forma de conflito entre homem e homem, pois aqui temos a melhor ocasião de descobrir maneiras e meios de tornar impossível qualquer conflito armado.
Sei que nos escritos do senhor podemos encontrar respostas, explícitas ou implícitas, a todos os aspectos desse problema urgente e absorvente. Mas seria da maior utilidade para nós todos que o senhor apresentasse o problema da paz mundial sob o enfoque das suas mais recentes descobertas, pois uma tal apresentação bem poderia demarcar o caminho para novos e frutíferos métodos de acção.

Muito cordialmente,

A.Einstein


sexta-feira, fevereiro 15, 2008

éramos terra, e chuva, e ouro, e azeviche

(Matisse)
Fiquei com ela a sós, só com ela e o vinho;
e das trevas a asa ia-se então abrindo...
Somente através dela eu a vida sentia.

Que pecado haverá neste anelo de vida?
Eu, ela, o vinho branco, a noite sem limites:
éramos terra, e chuva, e ouro, e azeviche.


(IBN HAZN -994-1064-O Colar da Pomba)

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

é a linguagem que traz ....ao aberto o ente....

(Dedoyard)
A linguagem, na sua representação mais corrente, é tida como um tipo de mediação. Serve para a conversação e para se chegar a acordo- para o entendimento em geral. Mas a linguagem não é apenas, nem primariamente, uma expressão sonora e escrita daquilo que há a comunicar. Não acontece que apenas veicule em palavras ou frases aquilo que é manifesto ou o que está oculto, (que seriam )o que assim se quer dizer; acontece, pelo contrário, que é a linguagem que traz, em primeiro lugar, ao aberto, o ente enquanto ente. Aí onde não está a ser nenhuma língua, como no ser da pedra, da planta ou do animal, não há também nenhuma abertura do ente e, por consequência, também não o há daquilo que não é e do vazio.
Como é a linguagem que nomeia pela primeira vez o ente, só esse nomear faz que o ente venha à palavra e apareça. Esse nomear designa o ente para o seu ser a partir deste. (...)

(Martin Heidegger- Caminhos de Floresta)

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Contar-te o mar ardente.....

(Aguarelas de Turner)

Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.

Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como doi

desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.

(Manuel Alegre)

domingo, fevereiro 10, 2008

De Sábado para Domingo...um filme - Dreyer e a Paixão de Joana D'Arc


Vi-o, pela primeira vez, na Cinemateca e...ficou em mim para sempre.

sábado, fevereiro 09, 2008

Tantos esboços gorados...

(Dali)
O QUE O AMOR exige recíprocamente é força plástica. Por isso há no amor, como na arte, tantos esboços gorados, sem a força suficiente para a execução.

(Hugo Von Hofmannsthal- Livro dos Amigos-trad. e prefácio de José A. Palma Caetano)

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Reflexos do Olhar XXI(2ª série)-Mezinhas para Todos os Males

(Aguarelas de Turner)

A sua profunda voz de barítono...


(Daumier)
Breuer tirou o relógio do bolso, aquele que o pai lhe dera. Estava na hora de voltar ao fiacre, onde Fischmann os aguardava.
Com o vento agora a soprar pelas costas, a caminhada tornou-se mais fácil.
- Pode ser mais honesto do que eu-disse Breuer.- Talvez os julgamentos do meu pai me oprimissem mais do que pensava. Mas na maior parte do tempo, sinto muito a sua falta.
- Sente falta de quê?
Breuer evocou a figura do pai e contemplou as lembranças que desfilaram ante os seus olhos. O velho, de solidéu na cabeça, entoando uma benção antes de provar a sopa de batatas e arenque. O sorriso dele sentado na sinagoga, observando o filho a enrolar os dedos nas borlas do xaile das preces . A sua recusa em deixar o filho voltar atrás num lance de xadrez:« Josef, não me posso permitir ensinar-te maus hábitos». A sua profunda voz de barítono, que preenchia a casa enquanto cantava passagens para os rapazes que preparava para os bar mitzvah.
- Acima de tudo, creio que sinto falta da sua atenção. Foi sempre a minha principal plateia, mesmo no fim da vida, quando sofreu um problema mental e perdeu a memória. Não deixava de lhe contar os meus sucessos, os meus triunfos de diagnóstico, as minhas descobertas nas investigações, até as minhas doações de caridade. Mesmo depois de morrer, continuou a ser a minha plateia. Durante anos, imaginei-o a espiar-me por cima dos meus ombros, observando e aprovando as minhas realizações. Quanto mais a sua imagem se desvanece, mais luto contra o sentimento de que as minhas actividades e os meus sucessos são todos evanescentes, de que não têm significado real.
- Josef, diz que se os seus sucessos pudessem ser registados na mente efémera do seu pai, então teriam significado?(...)

(Irvin D. Yalon - Quando Nietzsche chorou)

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Navegamos de vaga em vaga...


Canto Moço

Somos filhos da madrugada
Pelas praias do mar nos vamos
À procura de quem nos traga
Verde oliva de flor no ramo
Navegamos de vaga em vaga
Não soubemos de dor nem mágoa
Pelas praias do mar nos vamos
À procura da manhã clara
Lá do cimo duma montanha
Acendemos uma fogueira
Para não se apagar a chama
Que dá vida na noite inteira
Mensageira pomba chamada
Companheira da madrugada
Quando a noite vier que venha
Lá do cimo duma montanha
Onde o vento cortou amarras
Largaremos pela noite fora
Onde há sempre uma boa estrela
Noite e dia ao romper da aurora
Vira a proa minha galera
Que a vitória já não espera
Fresca brisa, moira encantada
Vira a proa da minha barca.

(José Afonso)

terça-feira, fevereiro 05, 2008

O REI do BAIÃO e ELBA RAMALHO


Vamos dançar um pouquinho?


segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Eram dele ou eram minhas?

(Brauner)
UM CRUZAMENTO

«Tenho um animal curioso, metade gatinho, metade cordeiro.É uma herança de meu pai. Em meu poder, desenvolveu-se bastante; antes era mais cordeiro que gato. Agora é metade por metade. Do gato tem a cabeça e as unhas, do cordeiro o tamanho e a forma; de ambos os olhos que são insociáveis e reluzentes, a pele ajustada ao corpo, os movimentos ao mesmo tempo saltitantes e furtivos. Deitado ao sol, no parapeito da janela, parece um novelo e ronroneia; no campo corre como um louco e ninguém o apanha. Receia os gatos e quer atacar os cordeiros. Nas noites de luar o seu passeio favorito é o algeroz do telhado. Não sabe miar e abomina os ratos. Passa horas e horas à espreita diante do galinheiro, mas nunca cometeu nenhum crime.
Alimento-o com leite e é o que lhe sabe melhor. Bebe-o em grandes tragos por entre os seus dentes de animal de rapina. Naturalmente é um grande espectáculo para as crianças. A hora da visita é aos domingos pela manhã. Sento-me com o animal sobre os joelhos e rodeiam-me todas as crianças da vizinhança.
Põem-me então as mais extraordinárias perguntas, a que nenhum ser humano pode responder. Porque só existe um animal assim, porque sou eu o dono e não um outro, se antes houve um animal semelhante e que aconteceu depois da sua morte, se ele não se sente sózinho, porque não tem filhos, como se chama, etc. Não me dou ao trabalho de responder e limito-me a exibir a minha propriedade, sem explicações. Por vezes as pessoas trazem gatos e uma altura chegaram a trazer cordeiros. Contra as suas expectativas, não se deram cenas de reconhecimento. Os animais olham-se com mansidão nos seus olhos animalescos e aceitaram-se mutuamente como um facto divino. Nos meus joelhos o animal ignora o medo e o impulso de perseguir. Acocorado contra mim, é como se sente melhor. Apega-se à família que o criou. mas essa fidelidade não é extraordinária, é o natural instinto de um animal, que embora possua na terra inúmeros laços políticos, não possui um só consanguíneo e para quem é sagrado o apoio que encontrou em nós.
Por vezes tenho de me rir quando rodopia à minha volta, se enreda entre as pernas e não se quer afastar de mim. Como se não lhe bastasse ser gato e cordeiro também quer ser cão. Uma vez-isso sucede a qualquer um- eu não via forma de sair de dificuldades económicas, estava já para acabar com tudo. A pensar nisso, afundava-me na poltrona do meu quarto, com o animal sobre os joelhos, e ocorreu-me baixar os olhos e vi lágrimas que gotejavam nos seus grandes bigodes. Eram dele ou eram minhas? Terá este gato com alma de cordeiro o orgulho de um homem? Não herdei muito de meu pai, mas vale a pena cuidar deste legado.
Tem a inquietude dos dois, a do gato e a do cordeiro, embora sejam muito diferentes. Por isso, fica-lhe bonito o pêlo. Por vezes, salta para a poltrona, apoia as patas dianteiras contra o meu ombro e aproxima o focinho do meu ouvido. É como se falasse e de facto move a cabeça e olha-me com atenção para observar o efeito da sua comunicação. Para lhe agradar procedo como se o tivesse entendido e movimento a cabeça. Salta então para o chão e brinca à minha volta.
Talvez a faca do carniceiro fosse a redenção para este animal, mas ele é uma herança e não devo fazer isso. Portanto, deverá esperar até que se lhe acabe o alento, embora por vezes me observe com razoáveis olhos humanos que me instigam a ser razoável.»

(Franz Kafka)

domingo, fevereiro 03, 2008

sábado, fevereiro 02, 2008

MANHÃ de SÁBADO...J.S.Bach - Cantata do Café

Reflexos do Olhar XX (2ª série) -Pontes e Arcos

(Aguarelas de Turner) Pontes sobre o Douro.Peso da Régua
(Aguarelas de Turner)
(Aguarelas de Turner)

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

As imagens transbordam...


As imagens transbordam

 As imagens transbordam fugitivas
E estamos nus em frente às coisas vivas.
Que presença jamais pode cumprir
O impulso que há em nós, interminável,
De tudo ser e em cada flor florir
(Sophia de Mello Breyner )