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terça-feira, dezembro 04, 2007

Quero apenas ouvir a alegria das crianças...

(Aguarelas de Turner)
As trevas amadas, veneradas, e aplaudidas, como se foram luz, e a luz aborrecida, desestimada, e perseguida, como se fora trevas. Tal é, e tal costuma ser o juízo dos homens, ou seja por ignorância, ou por malícia. Mas que remédio terá a luz para não ser aborrecida de tal gente? Se é aborrecida porque veio ao mundo: Lux venit in mundum: vá-se do mundo e não será aborrecida. Assim o cuidava eu, e assim creio que bastará para com alguns homens, mas não para todos.

Referes-me que o mercado é muito colorido. Flutua um cheiro quente a especiarias e tabaco. Rolo de fumo, dizes-me tu.Faz-se com sobras de tabaco e melaço. Era o tabaco que os escravos fumavam, e era também uma das moedas usadas para a compra de escravos. Três rolos por um homem em bom estado. Uma voz brasileira de mulher, junto de nós, diz que dava até dez rolos para achar um homem, mesmo já usado. Calor humano, dizes tu. Cor local. Não te assustes, aconselhas-me tu. Não me conheces, Sebastião. O calor humano nunca me assustou. Gosto desta sensação de corpos que se acotovelam familiarmente, do bruá das vozes misturadas. Dás-me a provar um cigarro de rolo de fumo. É forte, saboroso. Compro um rolo para fumarmos mais tarde em honra da Bahia. Um cardume de pequenas mãos agarram-me a blusa:
- Tem caneta? Me dá caneta, minina.
Peço-te que me conduzas a uma lojeca onde possa comprar canetas e rebuçados para as crianças. Discordas, dizes que se dou a uns terei de dar a outros e nunca mais paro. Respondo-te que comprarei cinquenta esferográficas e dois sacos grandes de bombons, explico-te que não ficarei mais pobre por causa disso. Vais dizer-me que a caridade não resolve nada. Sebastião? Não respondes. Também não pretendo resolver nada, Sebastião. Quero apenas ouvir a alegria das crianças. Prazer meu, pequenino, egoísta, entendes? Gosto de dar. Gosto dessa palavra proscrita: caridade. Acresce que só no Brasil me tratam por menina. E por madama, Duas coisas que me ficam bem.(...)

(Inês Pedrosa- A Eternidade e o Desejo)

4 comentários:

  1. Uma foto e um texto onde os cheiros e os sons se misturam.

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  2. Inês Pedrosa, uma das minhas preferidas autoras portuquesas.
    Belo texto.



    bjs.

    Ju gioli

    ops: as letras novamente, vou tentar xfhxqwt,

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  3. Há muito que não lia Inês Pedrosa e não conhecia este texto... mas gostei muito do romance Fazes-me falta, a ver se volto a ele um dia destes, tem umas passagens magníficas!

    beijinhos

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  4. Como tinha gostado muito do Fazes-me falta "peguei" este de uma assentada...e acho que o deves ler...

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