Google+ Followers

sexta-feira, novembro 02, 2007

Conversa à volta de....um Texto

(Aguarelas de Turner) Teixeira de Pascoaes. Amarante.

Fome! Fome! Eis aí uma palavra que enegrece as conversas de café e os artigos dos jornais. E, todavia, entre nós, a fome não existe. Há barrigas que dão horas como um relógio, estômagos vazios, todos os sinais da miséria, mas fome verdadeira não existe. Não existe infelizmente. Fome de pão, fome de Deus, frases débeis entre nós. Sentimos, quanto muito, o apetite, uma fome educada e atenuada, Fome de pão significa apetite de pão. Fome de Deus quer dizer a mesma cousa, a mesma imagem céptica da fome.
Na língua castelhana, é que esta palavra encontra a sua expressão potente e verdadeira: Hambre! Hambre é como a nossa fome negra de outros tempos, esse fantasma de Camões a desenhar o Adamastor.
Hambre! A violência da palavra amarrada ao H, crucificada em duas cruzes, escurece-lhe e afunda-lhe o sentido. Nós precisamos de acrescentar ao substantivo fome o adjectivo negro. Pintamos o trágico vocábulo. Mas a tinta desvaneceu.
O português não sente essa palavra- hambre! Nem os próprios famintos a sentem, na verdade. Morrem com o estômago vazio, mas não de fome. Daí, a sua inércia, aquela mortal indiferença que os mobiliza ante a estiagem que lhe queima as searas, o traficante que lhe rouba o último centavo e o traficante-mor de Lisboa que lhes vai pondo no prego, em benefício próprio, o continente e as colónias.
É certo que, neste século, alguns portugueses sofreram a fome negra: Mouzinho de Albuquerque, João de Freitas...D. Carlos e Sidónio. Sanguinolentas mãos os libertaram da terrível angústia!
E há dois portugueses ainda que sentiram a fome negra de voar. Negra ou azul? E há ainda Correia de Oliveira, esse faminto da terra e céu, esse povo português como Gil Vicente; e Raul Brandão, esse genial faminto russo, como Tolstoi ou Dostoievski. Graças a Deus!
Dum modo geral, o nosso compatriota não sente fome, a pior das misérias! E até os cães têm fome e ladram à lua! É fome, de sol ou de amor, que faz cantar os pássaros. Ruge o tigre com fome de carne viva! Os tigres e os espíritos. Mas, ai, o português é o único animal que não tem fome! E por isso, perdeu a voz que canta e a voz que ruge.
Ficou-lhe apenas aquela tagarelice que se dispersa, em sons articulados e vazios, no ambiente sujo dos cafés e das gazetas.
Ai de nós! Não temos fome! A maldita saciedade mostrando os dentes inofensivos! Que tragédia! Sim. O dente lusitano é uma figura de retórica, um imaginário de marfim para enfeitar sorrisos de donzelas...Não sabemos morder, nem mastigar. Debicamos...Fastio, fastio e só fastio e uma cor parda e, muitas vezes, de pardal, na colecção de fisionomias exposta por essas ruas.
Satisfazemos o pálido apetite, não ingerindo alimentos, mas emitindo palavras, palavras e palavras! A carne, o arroz, o bacalhau aumentam o preço a todo o instante? Que importa? Vingamo-nos falando. Falamos nos botequins e nos jornais. No Princípio era o Verbo e o Verbo se fez Carne. Eis a razão por que não morrem de fome os portugueses. Uma razão transcendente, capaz de quebrar a cabeça a mil filósofos! É pena Bergson e Euken não visitarem Portugal. O Diário Notícias bem poderia cá trazê-los, se a sua acção diplomática se alongasse ao domínio do pensamento.
Nem só de pão vive o homem, diz a Bíblia. E há homens que vivem só de palavras, como nós. Por isso as câmaras resolvem a crise das subsistências, distribuindo discursos à plebe.
O português prefere ser escravo, dizendo-se livre, do que ser livre com nome escravo. A palavra é tudo para ele. Tudo: o Pão, Deus , o Amor.
A palavra bem-educada e bem vestida, sem ideia na cabeça, eis aí a sua deusa, a Vénus destes romanos falsificados pelos Negros da Guiné.

(Teixeira de Pascoaes ) A NOSSA FOME - III (1923)

3 comentários:

  1. Ser português é sinónimo de ser palavroso. Um facto.Tavez, seja, uma simples diversão para o facto da escassez de outros bens. Na palavra ,parece termos encontrado o elixir, do quase bem estar. Os estados de alma superiorizam-se quando a palavra surge ,aqui e, além. O seu som, engrandece-nos ,tirando-nos a trizteza da Hambre do quotidiano parco de bens. Não é o fado, nem o futebol, nem Fátima , é antes ,e somente, a palavra, a nossa terrível seiva de povo. A palavra inunda-nos, de tal forma, que os bons actos ,são esquecidos e, os maus perdoados.É ela, o cordão umbilical ,do nosso ventre português.
    Bjs.

    ResponderEliminar
  2. Estavas inspirada!Caracterizas muito bem a nossa Marca! Mas talvez o corrosivo Teixeira de Pascoaes nos lance neste texto um grito de alerta relativamente a dificuldade que temos
    de extravasar a revolta...quando é caso disso.Um beijo tb.

    ResponderEliminar
  3. Mas minha querida, ao usarmos a palavra, ficamos tão plenos de extravasão, que todo resto é esquecido. Revemo-nos no Verbo, como se fora o princípio e o fim...de tudo.
    Beijo.

    ResponderEliminar

Não são permitidos comentários anónimos