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domingo, julho 01, 2007

Foi coisa do Senhor Almada, com certeza...

(Almada Negreiros)



Foi então que o Soares apareceu, cedo demais para os seus hábitos, mas desejoso de olhar a acrochagem. Cumprimentou o Teles que lhe respondeu com devida cerimónia, e deu uma volta silenciosa à sala. « Já esperava isto...» disse então, com um brilho mau nos olhos. « Mas não pode ficar assim, não tenho boa luz», acrescentou. A luz era a mesma para todos, comentou o Teles, de má catadura: « Então o Senhor Soares não viu, na altura?» Eu não vim assistir aos trabalhos de accrochage. O Senhor Pacheco tinha-me assegurado...»« Ah, isso não sei- mas agora já nada sai dos lugares!» O Teles era claro na sua decisão. Não faltava mais nada!...
« Foi coisa do Senhor Almada, com certeza», disse o Soares com um sorriso de raiva. O João Franco desviou-se, detestava-o, com os seus ares de superioridade e gorjetas de sovina. « pois, amigo e Senhor Teles, há que fazer umas mudanças...»« Nem pensar nisso, o que está feito, feito está!» respondeu-lhe o patrão, já lhe virando as costas. O café estava aberto e assim havia de ficar; se quisesse, podia queixar-se ao Senhor Pacheco, mas não julgasse que ele ia perder mais horas de trabalho com mudanças! Soares, por seu lado, tinha sido pago e não lhe convinha questões com o Pacheco: a Contemporânea ia recomeçar a saír e ele esperava que lhe pedisse para a capa a reprodução de um dos quadros, o do salão de chá, onde retratara três senhoras da sociedade « Smart». Seria a sua compensação, e podia sempre queixar-se, diante das injustiças que lhe faziam. « Estou a ver, estou a ver...» Olhou com desdém para as duas pinturas do Almada: « Não sabe pintar nem desenhar...» O Barradas estava bem, era o seu estilo, enfim...O Viana não era capaz de dominar a paleta- mas o Almada, francamente...« O Senhor Teles acha isto bem?» Soares dizia« isto» com um desdém muito apoiado, que lhe torcia a boca de maus dentes.« E esta maneira de se pôr em vedeta, e em que companhia...»
O Teles, na verdade, não achava bem os retratos: quem eram aquelas duas fúfias? E o José irritava-o, assim sempre de perfil! Tinham-lhe falado do Orpheu mas nunca tinha visto; chegara, antes, do Brasil e arranjara aquele espaço de uma camisaria no Chiado, para vender o seu café, e ganhara a partida. O sítio tinha fama antiga e convinha-lhe a frequência dos intelectuais, ao lado dos políticos da Havaneza e das damas que vinham à Bénard. Por isso fizera obras e contratara o melhor arquitecto que havia em Lisboa. Os quadros, pois, deixara-se levar na cantiga do Pacheco...Já tivera um conflito com aquele que se matara em Paris, Sá qualquer coisa, um gordo, quando quando aumentara o preço da chávena, e ainda há pouco tinha sido a história do Senhor Gualdino, uns ovos podres...Com a língua que tinha, era melhor não ter questões com ele e os seus amigos. Sabia ele de quem era o retrato que Almada estava a desenhar no seu quadro?, perguntava-lhe o Soares. Pois era o famoso Gualdino Gomes...O Teles hesitou, sem saber o que pensar. Com aquela gente...Enfim, ia-se ver o que os clientes diziam.

José-Augusto França (JOSÉ e os OUTROS. Almada e Pessoa, romance dos anos 20)

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