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quinta-feira, julho 19, 2007

O gosto pela liberdade

(Doisneau-Luxembourg gardens)


(Doisneau- Kiss)


Uma rapariga e um rapaz estão enlaçados um no outro. Beijam-se; o mundo apenas existe para eles. A rapariga tem os braços cruzados junto à nuca do rapaz, as mão pendentes, os dedos abertos como uma flor tocada por suave abandono. O rapaz abraça-a pela cintura, acaricia-a nas ancas. A rua parece aureolada de felicidade e as pessoas sorriem. Nem todas: há-as de cara fechada, reprovadoras. Estas aligeiram o passo. Não admitem o recado ditoso que lhes está a ser dado e desaparecem sem avisar para onde vão.
Há anos, não assim tão longínquos, dar um beijo na rua, namorados em enlevo, comprometia a liberdade do casal: detenção na esquadra mais próxima e multa a dinheiro. Era proibido beijar em qualquer estação do ano. Sobretudo, na Primavera. Não se conhecia receita para aquietar o desejo, as raparigas desnudavam os braços, abriam um pouco mais o decote; os rapazes cumpriam rigorosamente os impulsos de ser rapazes e namoravam-nas, tocavam-nas,olhavam-nas com arrojo e cobiça. Os agentes da Polícia apuravam o varejo, nestas épocas de raparigas em flor, e interferiam nos beijos roubados, roubando a felicidade contida nesses indecisos e cintilantes instantes.
Gosta de ver os pares aos beijos, sorri quando os observa, e reconhece, tristemente, ser assolado por insinuoso sentimento de inveja. Envelheceu muito rapidamente, deixou escoar o tempo sem o saber aproveitar. Não é bem isso: na verdade, não teve oportunidade de ser adolescente- foi logo promovido a homem. Apeteceu-lhe dizer ao casal dos beijos que estava muito feliz por eles e que sentia um certo conforto íntimo em estar com eles e contra aqueles que com eles não estavam. Seria uma tolice, porém.
A idade torna-os um pouco tolos, somos versões ligeiramente modificadas de pessoas normais, a tristeza que nos persegue transforma-se em desassossego e insensatez. Nenhuma morte é natural, escreveu Jorge de Sena. Nem a velhice, diz de si para consigo. Abandona-nos o desejo mas não se nos apazigua o afã de desejar. Envergonhamo-nos de contemplar as mulheres que movem o corpo todo, numa harmonia vital: intimidamo-nos com risinhos maliciosos que nos querem pôr à distância das simples coisas da vida.
Beijam-se e estão felizes; tão felizes que a expressão dessa felicidade faz com que os transeuntes, ou curiosos, ou brejeiros, ou entediados, apressem o passo ainda mais. O dia, luminoso, parecia um milagre sem mácula. A rua , extensa e povoada, interrompia-se no rio, e o rio marulhava, claro e ledo, bailando até à foz. Numa esquina, um grupo de índios entoavam belas canções dos Andes e espalhavam pela calçada peça de roupa artesanais que diziam vindas da Grande Cordilheira.(....)

Baptista Bastos ( O Gosto pela Liberdade - Lembranças de um beijo. Revista do Montepio, nº 54)

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