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terça-feira, julho 31, 2007

JOAQUIM ou uma estória mal contada (IV)


Faltavam já poucos metros para que a pequena casa se abrisse à sua chegada e, de novo, um aroma mais forte invadia-o, deixando todo o seu corpo a vibrar. O que era aquilo interrogava-se. Já havia tantos anos que a mandara calar, que lhe ordenara que lhe obedecesse e agora, mesmo a poucos instantes de pegar na chave, sentia na boca, na alma, o travo daquela tangerina. Como era possível dizer àquela parte de si que recuasse, desaparecesse, se calasse de uma vez por todas(?) Só via uma solução. A única que conhecia. Partir para os campos sem hora e sem tempo e deixar-se por aí ficar, abrindo largos roços na terra, para semear, semear outra vez, semear de novo. Então todo o cheiro da terra o tomaria por inteiro. Deixava-se ficar dias e dias a fio observando o rebentar do faval, os feijoeiros que lançavam os braços pelas canas acima, as alfaces de um verde tão clarinho e luminoso que lhe lembravam os olhos fluorescentes daquele cão do quadro de infância. Esquecia-se de tudo ( dizia de si para si) entretendo-se a contar quantas plantas tinham mesmo ido avante, quantas os caracóis engalfinhados acabariam por devorar. Admirava também a perfeição com que traçara o alinhamento das plantações que, observadas ora do cimo ora do topo, não pareciam ter sofrido qualquer oscilação. E naquele tempo sem tempo julgava ter recriado a existência como se fosse ele mesmo o Fundador.
Quando finalmente reentrava em casa tudo voltara de novo aos seus lugares. A disciplina reinstalara-se e ela, aquela alma desgovernada, obedecera de vez ( julgava) à voz do dono.
A manhã já ia alta. Era hora de dar um salto à loja onde se abastecia das necessidades mais urgentes e encostado ao balcão ouvia as novidades dos que por ali cirandavam. Gostava de se misturar com os da terra, de mergulhar nos modos , trejeitos, recolhendo hábitos, palavras, segredos, como quem faz o levantamento e inventário dos achados. Tudo registava naquele caderno que era parte integrante da sua sacola. O conhecimento feito de uma observação quase laboratorial dava-lhe a sensação de domínio, de segredo só por si descoberto.
Por vezes esquecia-se da hora do almoço deixando-se embalar pela música das estórias que os que entravam iam discorrendo. Maravilhava-se com sonoridades, ângulos ou arestas, formas redondas que descobria em cada palavra. A seguir mergulhava nas estorias ouvidas que lhe permitiam reconhecer-se sem aquela dor. A feroz guerra que se derramara por todas as famílias podia ser olhada, agora, como se não fosse “ sua”. Escondia-se ora nos recantos ora nas pausas dos historiadores locais, capturando sensações, cheiros, paisagens agónicas que registava como fotogramas. O frio ou o calor insanos rodeavam-no então. Saberia dizer donde partiam? (Cont)

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