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quinta-feira, julho 26, 2007

JOAQUIM ou uma estória mal contada (II)


(Continuação)

Partia depois em direcção às fruteiras, colhendo alguma maçã tardia, olhando cuidadosmente os ramos já pelados de folhas, imaginando por onde os cortaria na hora da poda.
Nas suas deambulações passava pelos vizinhos do lugar, que sempre ali tinham vivido, e que o olhavam com alguma benevolência e surpresa ( "esta gente das cidades é mesmo esquisita! Então o raio do homem deixou a vida da cidade e todos os seus pertences para aqui se vir enfiar?! Ele há cada um! Nós que só pensamos em deixar esta vida de lesma e o tipo com estudos e tudo, deu-lhe prá agricultura!essa mesma agricultura que os deixara cada vez mais amarrados ao pão de cada dia, trouxera para ali um intruso que teimava em dizer que aquilo do campo era coisa bonita.Bonita qual quê! Não se vê que o gajo não andou por aí descalço, nem sentiu os pés gretados, não cavou à custa de litradas de tinto e de pão duro já tocado pelos bolores...) Mas Joaquim ao escolher aquele lugar ou ao deixar-se escolher por ele, conseguira ser adoptado. Quantas vezes lhe pediam que trouxesse sementes do mercado ou produtos que combatiam as moléstias. Lá se metia então no velho Peugeot, uma espécie de segunda casa, habitado pelas alfaias mais variadas, vindas dos tempos em que se dedicara a escavações mais eruditas. Quase sempre em segunda, dirigia-se ao mercado ou, mais raramente, à cidade que abandonara desde que decidira partir para a reforma.
Os remédios para o míldio da vinha ou para o pedrado das fruteiras diluía-os ele nas exactas proporções. E de moléstias percebia ele. As da alma sempre caminharam a par e par com ele e algumas do corpo também, que aprendera a conhecer nos tempos de miliciano. Quando tinha um garrote para fazer , uma injecção para dar, um abcesso para purgar, deixava-se absorver totalmente naquela luta, pensando que destas vez as feridas ficavam mesmo saradas. Aplicava-se todo, tocando com doçura os corpos que pediam os seus cuidados. Ali na terra, de vez em quando, também o chamavam. E Joaquim acudia sempre, mesmo quando cada acto, cada gesto o transportavam a esse maldito passado de guerras loucas e inexplicáveis. (cont.)

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