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domingo, dezembro 31, 2006

sábado, dezembro 30, 2006

Procuram os homens ansiosamente o ramo do louro...

( Rodin)



Guio-me
Por teus olhos abertos
Sobre a trêmula e ardente
Superfície das lágrimas.

De tantas coisas
É feito o Mundo!

Entre escombros, espigas, dias e noites
Procuram os homens ansiosamente
O ramo de louro.

Quando, fatigados,
Próximos estão do limiar, do pórtico,
Os homens deixam, à entrada,
Suas mais queridas coisas.

E ei-los que apenas se incomodam,
E se interrogam,
Sobre o modo mais simples
De se despir e adormecer.


Raúl de Carvalho

Reflexos do Olhar LXX

"Aguarelas de Turner" -Pequenas Surpresas

sexta-feira, dezembro 29, 2006

São restos de tabaco e de ternura rápida...



Para uma amigo tenho sempre um relógio

esquecido em qualquer fundo da algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra,quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

António Ramos Rosa-de Viagem através duma Nebulosa(1960)

Reflexos do Olhar LXIX

lugares que apetecem III

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Reflexos do Olhar LXVIII

lugares que apetecem II

não cante o humano coração....

(Ingres)

Soneto do amor total

Amo-te tanto meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te enfim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

Vinícius de Moraes

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Reflexos do Olhar LXVII

lugares que apetecem

Todos os dias ...olhava para o porto...

(Penélope-Franklin Simmons) )


Todos os dias eu subia ao último andar do palácio e olhava para o porto. Por vezes via navios, mas nunca o navio que ansiava ver.
Corriam boatos trazidos por outros navios.O Ulisses e os seus homens tinham-se embriagado no primeiro porto de escala e os homens tinham-se amotinado, diziam uns; não, diziam outros, tinham comido uma planta mágica que lhes provocara a perda da memória e o Ulisses salvara-os amarrando-os e carregando-os para os navios. O Ulisses andara a lutar com um gigante dum só olho, o Ciclope,diziam uns; não, isso era o dono de uma taberna que era zarolho, diziam outros, e a luta fora só por falta de pagamento da conta. Alguns dos homens haviam sido devorados por canibais, diziam uns; não, fora só uma briga dum género invulgar, diziam outros, com orelhas arrancadas à dentada e narizes a sangrar e punhaladas e eviscerações. O Ulisses era hóspede duma deusa numa ilha encantada, diziam uns; ela transformara-lhe os marinheiros em porcos-ora a grande novidade, pensava eu-,mas voltara a devolvê-los à primeira forma porque se apaixonara pelo Ulisses e estava a alimentá-lo com manjares de que nunca se ouvira falar...

(Margaret Atwood) A Odisseia de Penélope

terça-feira, dezembro 26, 2006

Tienen serpientes en lugar de brazos...

(Reni)

Los amorosos callan.

El amor es el silencio más fino,

el más tembloroso, el más insoportable.

Los amorosos buscan,

los amorosos son los que abandonan,

son los que cambian, los que olvidan.

Su corazón les dice que nunca han de encontrar,

no encuentran, buscan.

Los amorosos andan como locos

porque están solos, solos, solos,

entregándose, dándose a cada rato,

llorando porque no salvan al amor.

Les preocupa el amor. Los amorosos

viven al día, no pueden hacer más, no saben.

Siempre, se están yendo,

siempre, hacia alguna parte.

Esperan,

no esperan nada, pero esperan.

Saben que nunca han de encontrar.

El amor es la prórroga perpetua,

siempre el paso siguiente, el otro, el otro.

Los amorosos son los insaciables,

los que siempre -¡qué bueno!- han de estar solos.

Los amorosos son la hidra del cuento.

Tienen serpientes en lugar de brazos.

Las venas del cuello se les hinchan

también como serpientes para asfixiarlos.

Los amorosos no pueden dormir

porque si se duermen se los comen los gusanos.

En la obscuridad abren los ojos

y les cae en ellos el espanto.

Encuentran alacranes bajo la sábana

y su cama flota como sobre un lago.

Los amorosos son locos, sólo locos,

sin Dios y sin diablo.

Los amorosos salen de sus cuevas

temblorosos, hambrientos,

a cazar fantasmas.

Se ríen de las gentes que lo saben todo,

de las que aman a perpetuidad, verídicamente,

de las que creen en el amor como en una lámpara de

inagotable aceite.

Los amorosos juegan a coger el agua,

a tatuar el humo, a no irse.

Juegan el largo, el triste juego del amor.

Nadie ha de resignarse.

Dicen que nadie ha de resignarse.

Los amorosos se avergüenzan de toda conformación.

Vacíos, pero vacíos de una a otra costilla,

la muerte les fermenta detrás de los ojos,

y ellos caminan, lloran hasta la madrugada

en que trenes y gallos se despiden dolorosamente

Les llega a veces un olor a tierra recién nacida,

a mujeres que duermen con la mano en el sexo,

complacidas, a arroyos de agua tierna y a cocinas.

Los amorosos se ponen a cantar entre labios

una canción no aprendida.

Y se van llorando, llorando

la hermosa vida.

Sabines, Jaime

O Homem que ainda ouve o eco do mundo...





NATAL DE 2006

O homem que ainda ouve um eco do
mundo, que não se limita a olhar para
si próprio, que respira o estrume das
civilizações e o perfume da vida,
não tem tempo para este silêncio. A
sua voz nasce do mais fundo da ira
que aflige os que não sabem de onde
vêm; a sua dor cresce como a planta
que corrompe a alma dos que se
perderam, e não se lembram já para
onde vão. O homem de pé tem
a idade que lhe quiserem dar; os
seus braços erguidos são os de todos
os que os deixaram cair; os seus
olhos vêem o que já não sabemos
ver. Mas este homem precisa da nossa
voz, para que o silêncio não o
afaste de nós. Este homem continua
a hesitar, quando os gritos lhe chegam
de cada lado do horizonte. Este homem
tem no rosto o espanto do que lhe fizemos;
e continua a andar, como se ainda houvesse
um rumo para os seus passos.

25-12-2006 (Nuno Júdice)

segunda-feira, dezembro 25, 2006

Quando ...fui passar as férias do Natal com a minha madrinha....



Hoje, ao nascer do sol, de manhãzinha,
ouvi cantar um galo no quintal
quando eu tinha seis anos e fui passar as férias do Natal
com a minha madrinha.

Na cama improvisada no corredor
sabiamente fingia que dormia
muito embrulhado num cobertor,
enquanto numa luz melada e quase fria,
o mundo, sabiamente,
fingia que nascia.

E então apeteceu-me também nascer,
nascer por mim, por minha expressa vontade,
sem pai nem mãe,
sem preparação de amor,
sem beijos nem carícias de ninguém,
só, só e só por minha livre vontade.

Dobrado em círculo no ventre do meu cobertor,
enrugado como um feto à espera da liberdade
(viva a liberdade!)
cerrava e descerrava as pálpebras, sabiamente,
como se as não movesse,
como se não sentisse nem soubesse,
abrindo-as numa fenda dissimulada e estreita,
insensível às coisas quotidianas,
mas hábil para aquela alvorada puríssima e escorreita
que me inundava o sangue através das pestanas.
Fremiam-se-me as pálpebras sacudindo na luz um pó de borboletas,
um explodir de missangas furta-cores,
bacilos e vapores,
rendas brancas e pretas.

Cada vez mais feto, mais redondo, mais bicho-de-conta,
mais balão, mais planeta, bola pronta
a meter-se no forno,
mais eterno retorno,
mais sem fim nem princípio, sem ponta nem aresta,
excremento de escaravelho aberto numa fresta.

Foi então que o tal galo cantou.
Looooooonge...
Muito looooooonge...
no quintal da vizinha,
lá para o fim do mundo mesmo ao lado da casa da minha madrinha.
Era uma voz redonda, débil, inexperiente,
bruxuleante como a chama
que está mesmo a apagar-se e esperta de repente
e novamente morre e de novo se inflama.
Uma voz sub-reptícia, anódina, irresponsável,
fugaz e insinuante,
um canto sem contornos, aéreo, imponderável.
Tudo isso e muito mais, mas principalmente distante.

Foi assim que a voz do galo na capoeira
do quintal da vizinha
que tinha plantado ao centro uma nespereira
mesmo junto da casa da minha madrinha,
penetrou no ventre macio do meu cobertor.
Era uma frente de onda, compacta e envolvente,
pura já na garganta e agora mais que pura,
filtrada
e destilada
nos poros ávidos da minha cobertura.
Chegou e fulminou o meu ser indigente,
exposto e carecido,
naquele gesto mole e distraído
do Deus omnipotente
da Capela Sistina
quando ergue a mão terrível e fulmina
o coração
de Adão.

E pronto. Eis-me nascido. Cheio de sede e fome.

António é o meu nome.


(António Gedeão)

domingo, dezembro 24, 2006

E era Dezembro e floria...



Natal

Acontecia.No vento. Na chuva. Acontecia.
Era gente a correr pela música acima.
Uma onda uma festa. Palavras a saltar.


Eram carpas nas mãos. Um soluço uma rima.
Gutarras guitarras. Ou talvez mar.
E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.


Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.
No teu ritmo nos teus ritos.
No teu sono nos teus gestos. (Liturgia liturgia).
Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.
E nos siLêncios infinitos. Na tua noite e no teu dia.
No teu sol acontecia.

Era um sopro. Era um salmo. (Nostalgia nostalgia).
Todo o tempo num só tempo:andamento
de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.
Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva
acontecia. E em cada acaso. Como umpouco de água turva

na cidade agitada pelo vento.

Natal Natal (diziam). E acontecia.
Como se fosse na palavra a rosa brava
acontecia. E era Dezembro que floria.
Era um vulcão. E no teu corpo a flor e a lava.
E era na lava a rosa e a palavra.
Todo o tempo num só tempo:nascimento de poesia.

Manuel Alegre

sábado, dezembro 23, 2006

Quantas almas se aquecem fraternamente?

(Paul Peel)


Natal

Um anjo imaginado,
Um anjo diabético, atual,
Ergueu a mão e disse: — É noite de Natal,
Paz à imaginação!
E todo o ritual
Que antecede o milagre habitual
Perdeu a exaltação.

Em vez de excelsos hinos de confiança
No mistério divino,
E de mirra, e de incenso e ouro
Derramados
No presépio vazio,
Duas perguntas brancas, regeladas
Como a neve que cai,
E breve como o vento
Que entra por uma fresta, quizilento,
Redemoinha e sai:

A volta da lareira
Quantas almas se aquecem
Fraternalmente?
Quantas desejam que o Menino venha
Ouvir humanamente
O lancinante crepitar da lenha?

Miguel Torga

quinta-feira, dezembro 21, 2006

A MINHA ÁRVORE DE NATAL



Esta árvore foi encontrada acidentalmente numa missão abandonada e semi-destruida pela guerra e pelo abandono dos homens - MISSÃO DE BOROMA- perto de Tete. Achei-a como quem acha um tesouro. Olhei-a e, ainda hoje a olho, como símbolo da vitória da vida sobre a morte. É esta,pois, a Árvore de Natal que trago para todos.

Se vos apetecer, pendurem nos seus ramos os vossos enfeites. Ela vai gostar de certeza.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Deixo sentir a quem quadra...



Chove. É dia de Natal

Chove. É dia de Natal.

Lá para o Norte é melhor:

Há a neve que faz mal,

E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente

Porque é dia de o ficar.

Chove no Natal presente.

Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse

O Natal da convenção,

Quando o corpo me arrefece

Tenho frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra

E o Natal a quem o fez,

Pois se escrevo ainda outra quadra

Fico gelado dos pés.

Fernando Pessoa, Obra Poética

terça-feira, dezembro 19, 2006

Quando eu nasci ficou tudo como estava...

(Cassat)



Quando eu nasci,

Ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,

Nem o Sol escureceu,

Nem houve Estrelas a mais...

Somente,

Esquecida das dores,

A minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,

Não houve nada de novo

Senão eu.

As nuvens não se espantaram,

Não enlouqueceu ninguém...

P'ra que o dia fosse enorme,

Bastava

Toda a ternura que olhava

Nos olhos de minha Mãe...

Sebastião da Gama, Serra-Mãe

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Para isso fomos feitos...





Poema de Natal


Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Vinicius de Moraes

domingo, dezembro 17, 2006

...fim de domingo


Os convencidos da vida

Todos os dias os encontro. Evito-os. Às vezes sou obrigado a escutá-los, a dialogar com eles. Já não me confrangem. Contam-me vitórias. Querem vencer, querem, convencidos, convencer. Vençam lá, à vontade. Sobretudo, vençam sem me chatear.


Alexandre O'Neill

UM DOMINGO COM JORGE DE SENA



Natal de 1971

Natal de quê? De quem?

Daqueles que o não têm?

Dos que não são cristãos?

Ou de quem traz às costas

As cinzas de milhões?

Natal de paz agora

Nesta terra de sangue?

Natal de liberdade

Num mundo de oprimidos?

Natal de uma justiça

Roubada sempre a todos?

Natal de ser-se igual

Em ser-se concebido,

Em de um ventre nascer-se,

Em por de amor sofrer-se,

Em de morte morrer-se,

E de ser-se esquecido?

Natal de caridade,

Quando a fome ainda mata?

Natal de qual esperança

Num mundo todo bombas?

Natal de honesta fé,

Com gente que é traição,

Vil ódio, mesquinhez,

E até Natal de amor?

Natal de quê? De quem?

Daqueles que o não têm?

Ou dos que olhando ao longe

Sonham de humana vida

Um mundo que não há?

Ou dos que se torturam

E torturados são

Na crença de que os homens

Devem estender-se a mão?

Jorge de Sena, Exorcismos

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Gesto em forma de vagabundo...

(Calder)


Os poetas


Solitários pilares dos céus pesados,
Poetas nus em sangue, ó destroçados
Anunciadores do mundo
Que a presença das coisas devastou.
Gesto de forma em forma vagabundo
Que nunca num destino se acalmou

Sophia de Mello Breyner

quarta-feira, dezembro 13, 2006

A poesia quando chega...

(Giacometti)

SUBVERSIVA

A poesia
Quando chega
Não respeita nada.

Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
De qualquer de seus abismos

Desconhece o Estado e a Sociedade Civil
Infringe o Código de Águas
Relincha

Como puta
Nova
Em frente ao Palácio da Alvorada.

E só depois
Reconsidera: beija
Nos olhos os que ganham mal
Embala no colo
Os que têm sede de felicidade
E de justiça.

E promete incendiar o país.

Ferreira Gullar

terça-feira, dezembro 12, 2006

No nascimento de Munch

(Munch)

segunda-feira, dezembro 11, 2006

É urgente ...


É URGENTE QUE AS PESSOAS SE AMEM


É urgente que as pessoas se amem
sem vergonha e sem tristeza
Que se amem com orgulho
Com a alegria pagã da joie grega


É urgente que as pessoas não se escondam
por detrás das outras pessoas
das idéias das outras pessoas
dos muros espessos do medo


É urgente que as pessoas se amem


É urgente partilhar o pão e o corpo
com a claridade da terra molhada
nas manhãs de sol


É urgente assumir a verdade


Manuela Amaral

domingo, dezembro 10, 2006

...fim de domingo

O género de aborrecimento de que sofre a população das cidades modernas está intimamente ligado à sua separação da vida da Terra..."

"Uma das características essenciais do aborrecimento consiste no contraste entre as circunstâncias presentes e outras mais agradáveis que exercem uma força irresistível sobre a imaginação..."

"O aborrecimento é essencialmente um desejo frustrado de aventuras, não necessáriamente agradáveis, mas pelo menos de incidentes que permitam à vítima do tédio distinguir um dia dos outros dias. O oposto do aborrecimento é, numa palavra, não o prazer, mas sim a agitação."


Bertrand Russell,in "A Conquista da Felicidade"

Reflexos do Olhar LXVII

(Aguarelas de Turner) Voltando a Delfos...

UM DOMINGO COM MARIA TERESA HORTA


MUSA

É a musa a esmeralda
a cintilação absurda
uma pequena bolsa de ar
na lisura do pulso

No perfil do papel
a vagem do poema

A penumbra
a palavra
a rasura da pena

É a musa o marfim
o faim à cintura
o mistério que se adensa
na leveza da bruma

No fio do coração
o voo do sentimento

A queda
a vertigem
uma sombra de agrura

É a musa o diamante
o torvelinho da alma
o secreto segredo onde a estrofe
se esfuma

Na fímbria do retrato
a nau do pensamento

A urgência
de tudo
ou de coisa nenhuma.


Maria Teresa Horta (Inquietude)

sábado, dezembro 09, 2006

La vida que murmura....

( Borisov)

BIOGRAFÍA

La vida que murmura. La vida abierta.
La vida sonriente y siempre inquieta.
La vida que huye volviendo la cabeza,
tentadora o quizá, sólo niña traviesa.
La vida sin más. La vida ciega
que quiere ser vivida sin mayores consecuencias,
sin hacer aspavientos, sin históricas histerias,
sin dolores trascendentes ni alegrías triunfales,
ligera, sólo ligera, sencillamente bella
o lo que así solemos llamar en la tierra.

Gabriel Celaya

sexta-feira, dezembro 08, 2006

E tudo voltasse à pureza da semente...



Coimbra,11 de Abril de 1957

MINIATURA

Pois eu gosto de crianças!
Já fui criança também...
Não me lembro de o ter sido;
Mas só ver reproduzido
O que fui, sabe-me bem.

É como se de repente
A minha imagem mudasse
No cristal duma nascente,
E tudo o que sou voltasse.
À pureza da semente.

Miguel Torga (Antologia poética)

quinta-feira, dezembro 07, 2006

"O Poeta Real e a Fénix renascida"



Príncipe Real (cont)

Portanto estava assente: Mendonça, o Poeta Real, passeava no jardim não um pato ou pata mas a defunta mulher.Isto garantia a porteira com a mão no coração, e que ninguém duvidasse porque assistira ao sofrimento e à morte da senhora, desde que uma doença desconhecida dos doutores lhe começara a dobrar a coluna até a deixar do tamanho de uma criança. Do tamanho dum pato, pouco mais.
Mendonça, que até então não era o Poeta Real que reinava no jardim, quando se viu viúvo e só, ficou de um dia para o outro com o cabelo enbranquecido e deixou a casa onde vivera tantos anos de amor e de felicidade. Esfumou-se.Desapareceu, a porteira nunca soube para onde mas admite que aquilo foi um chamado de Deus para qualquer lugar de recolhimento.
O que é certo é que um belo dia o víuvo tornou a aparecer, direito e todo metido consigo como dantes, mas com um pato negro ao seu lado. "Tate", pensou logo a porteira, "pato ou pata ,aquilo é ela a falecida. Com um brilho tão cuidado e uma serenidade tão altiva, é ela, não pode ser outra coisa. "Mais: o Mendonça já não tinha o cabelo embranquecido mas pintado de um negro tão negro como o das penas do pato.Da pata, queria dizer.
Foi nesta estranha aliança de luto e de silêncio que os dois passaram a visitar todas as tardes o Jardim do Príncipe Real.
Percorriam-no sem se olharem um ao outro, seguros da sua cumplicidade, até que em certo banco, sempre o mesmo, o Poeta Real se sentava a ler o Diário da Tarde.Dois passos à sua frente, num canteiro de rosas damascenas, sentava-se logo o pato e alí ficava, de bico apontado para ele, numa moldura de flores.
Foi assim que o O'Neill os viu da última vez, quando já andava de bengala, a caminho de morrer. "O Poeta Real e a Fénix renascida", disse-me ele; e sorriu um sorriso desencantado que era uma sombra daquele que todos nós lhe conhecíamos. Mas de repente, passados meses, anos talvez, o pato deixou de aparecer. Morreu pensou o dono do quiosque. Ou fugiu-lhe, quem sabe?
Morte ou ingratidão, o certo é que o Poeta Real continuou fiel ao jardim. Ainda há pouco o encontrei no mesmo banco de sempre, direito e solene, a olhar para o canteiro das rosas damascenas, mas já sem jornal, já branco de cabelo,à espera que a noite baixasse sobre ele.

José Cardoso Pires (A Cavalo no Diabo)

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Como se estivessem abertos todos os caminhos do mundo...



A Verdadeira Arte de Viajar

A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,
Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo.
Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali...
Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando!

(Mário Quintana in “A cor do invisível”)

terça-feira, dezembro 05, 2006

A vida nunca foi só Inverno...

(Magritte)

Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão
devagar sobre o peito da terra e sente respirar
no seu seio os nomes das coisas que ali estão a
crescer: o linho e genciana; as ervilhas-de-cheiro
e as campainhas azuis; a menta perfumada para
as infusões do verão e a teia de raízes de um
pequeno loureiro que se organiza como uma rede
de veias na confusão de um corpo. A vida nunca
foi só Inverno, nunca foi só bruma e desamparo.
Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a
tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor
da tempestade que faz ruir os muros: explode no
teu coração um amor-perfeito, será doce o seu
pólen na corola de um beijo, não tenhas medo,
hão-de pedir-to quando chegar a primavera.

Maria do Rosário Pedreira

segunda-feira, dezembro 04, 2006

As Aguarelas

(Turner)




As aquarelas


Não penso azul, nem verde, nem vermelho,
nenhuma cor vejo isoladamente:
quero a vida total, como um espelho
a que não falte flor, folha ou semente.


A natureza, neste abril redondo,
esconde formas, seres, linhas, cores,
aqui e ali bizarramente pondo
manchas involuntárias, multicores.


Recuso-me a adotar bandeira ou marca.
Nada escolho. O mistério natural
me envolve inteiro. Em tuas aquarelas


tudo renasce — como quem da barca
do dilúvio, depois do temporal,
visse de novo a terra das janelas...


Odylo Costa,filho(Publicado: Boca da noite, 1979)

domingo, dezembro 03, 2006

...fim de domingo

A felicidade de um amigo deleita-nos. Enriquece-nos. Não nos tira nada. Caso a amizade sofra com isso, é
porque não existe .

Jean Cocteau

UM DOMINGO COM MARGARET ATWOOD

(Denis)

Divagação sobre a palavra dormir



Gostava de te olhar a dormir

mesmo que isso nunca aconteça.

Gostava de te olhar,

a dormir. Gostava de dormir

contigo, entrar

no teu sono, sentir seu fluxo suave e nebuloso

a deslizar sobre a minha cabeça



e caminhar contigo nessa floresta luminosa

ondulante de folhas fluorescentes

com um sol aquoso e três luas

até à caverna onde terás que descer,

em direcção ao teu pior medo



Gostava de te oferecer o ramal de prata,

a pequenina flor branca, aquela

palavra que te protegerá

da dor a meio

do teu sonho, do desgosto

central. Gostava de te acompanhar

até ao cimo da longa escadaria

mais uma vez e de ser

o barco para te transportar de volta

com cuidado, uma chama

entre duas mãos em concha

onde o teu corpo se deita

ao lado do meu, e tal como nele entras

com a facilidade com que se respira



Gostava de ser o ar

que te habita durante um breve

instante. Gostava de se ser tão imperceptível

e tão necessária.




Margaret Atwood -n.em 1039-Canadá



____________________________
Enviado por Amélia Pais
http://barcosflores.blogspot.com/
http://cristalina.multiply.com/

sábado, dezembro 02, 2006

O Infinito é...uma leve poeira pelo ar...

(Vallotton)


COM UM SÓ FÓSFORO
ILUMINO O INFINITO

Com um só fósforo ilumino o infinito.
E muitas vezes o infinito é algo
muito próximo, um livro, uma chávena
de chá, o teu rosto escondido
na penumbra, o retrato de alguém desconhecido
que de uma praça, acena,
um fio de tabaco, um monograma
num lenço muito branco.
O infinito o mais das vezes é
não mais do que o que toca o coração,
uma leve poeira pelo ar, um ponto fixo
que a mão ousa tocar, esta chama
que de repente amplia a escuridão
e me torna visível a quem passa
e no clarão acende o seu cigarro.


Amadeu Baptista( Revista aguas furtadas 4+5-2003)

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Nasces no deserto das minhas mãos...

(Duchamp)

O NASCIMENTO

Nasces no instante em que tomo
consciência de estar só

Nasces no deserto das minhas mãos
no espaço que separa as coisas
umas das outras nasces renasces
no mar que se visita ó sabor do sol
de olhos abertos

Nasces no instante em que tomo
nas mãos o peso da morte o peso
deste pobre movimento que nos vem
do centro da terra ó vinho ó repouso
infinito

Casimiro de Brito