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segunda-feira, junho 15, 2009

Eu porém....não me interessava pelos vivos...

(Barbier)

Quando vou sozinho a conduzir, em viagens mais longas, dou-me conta de que se desenterram da memória coisas que pareciam esquecidas para sempre, submersas sob o aluvião de acontecimentos que nos enche a existência. De facto, eu estava a pensar então em Rosa que tinha conhecido, num distante Verão, estava eu ainda a acabar o meu curso. o que nos levou um até ao outro foi o saber ela que eu gostava de literatura; e embora eu trabalhasse num assunto que nada lhe dizia- a vida de uma obscura fidalga da segunda metade do século dezassete, que quase ninguém conhecia então, e que muitos hoje continuam sem conhecer- fez-me perguntas acerca dela, e do que eu sabia da sua vida.
É verdade que a vida de alguém que viveu há trezentos anos é assunto mais para ratos de biblioteca do que para quem queira viver no presente. Eu, porém, nesse fim de adolescência, que é a altura em que se deveriam descobrir as mais profundas sensações e conhecer os outros na sua parte mais emotiva, não me interessava pelos vivos, preferindo mortos, com quem se convive no silêncio das salas de leitura, mesmo que alguém tenha dito que estas são os lugares eróticos por excelência. Depois mudei de opinião; mas lembro-me de ter defendido, perante a reprovação da Rosa, o meu intolerante princípio. (cont.)

(Nuno Júdice- Os passos da cruz)

2 comentários:

  1. Ás vezes preferimos os mortos porque os vivos são demasiado incómodos.

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