segunda-feira, junho 29, 2009

era um navio que se balança ali à minha espera...

(Tomasini- 1832-1902-Barcos no Tejo perto de S.Julião da Barra. Museu da Marinha)



Ariane é um navio.
Tem mastros, velas e bandeira à proa,
E chegou num dia branco, frio,
A este rio Tejo de Lisboa.

Carregado de Sonho fundeou
Dentro da claridade destas grades...
Cisne de todos, que se foi, voltou
Só para os olhos de quem tem saudades...

Foram duas fragatas ver quem era
Um tal milagre assim: era um navio
Que se balança ali à minha espera
Entre gaivotas que se dão no rio.

Mas eu é que não pude ainda por meus passos
Sair desta prisão em corpo inteiro,
E levantar a âncora, e cair nos braços
De Ariane, o veleiro.

Lisboa, Cadeia do Aljube, 1 de Janeiro de 1940

(Miguel Torga)

2 comentários:

  1. Como é belo este veleiro de Torga e de Ariane

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  2. Também com versos e homens como estes se construiu o caminho para Abril.

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