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terça-feira, julho 31, 2007

Sob o Signo das águas: à descoberta do Douro

(Aguarelas de Turner) reflexos

(Aguarelas de Turner) amanhecer na Régua

ANTONIONI e o seu maravilhoso Blow-up



Antonioni também partiu. Relembremos sempre o seu melhor.

JOAQUIM ou uma estória mal contada (IV)


Faltavam já poucos metros para que a pequena casa se abrisse à sua chegada e, de novo, um aroma mais forte invadia-o, deixando todo o seu corpo a vibrar. O que era aquilo interrogava-se. Já havia tantos anos que a mandara calar, que lhe ordenara que lhe obedecesse e agora, mesmo a poucos instantes de pegar na chave, sentia na boca, na alma, o travo daquela tangerina. Como era possível dizer àquela parte de si que recuasse, desaparecesse, se calasse de uma vez por todas(?) Só via uma solução. A única que conhecia. Partir para os campos sem hora e sem tempo e deixar-se por aí ficar, abrindo largos roços na terra, para semear, semear outra vez, semear de novo. Então todo o cheiro da terra o tomaria por inteiro. Deixava-se ficar dias e dias a fio observando o rebentar do faval, os feijoeiros que lançavam os braços pelas canas acima, as alfaces de um verde tão clarinho e luminoso que lhe lembravam os olhos fluorescentes daquele cão do quadro de infância. Esquecia-se de tudo ( dizia de si para si) entretendo-se a contar quantas plantas tinham mesmo ido avante, quantas os caracóis engalfinhados acabariam por devorar. Admirava também a perfeição com que traçara o alinhamento das plantações que, observadas ora do cimo ora do topo, não pareciam ter sofrido qualquer oscilação. E naquele tempo sem tempo julgava ter recriado a existência como se fosse ele mesmo o Fundador.
Quando finalmente reentrava em casa tudo voltara de novo aos seus lugares. A disciplina reinstalara-se e ela, aquela alma desgovernada, obedecera de vez ( julgava) à voz do dono.
A manhã já ia alta. Era hora de dar um salto à loja onde se abastecia das necessidades mais urgentes e encostado ao balcão ouvia as novidades dos que por ali cirandavam. Gostava de se misturar com os da terra, de mergulhar nos modos , trejeitos, recolhendo hábitos, palavras, segredos, como quem faz o levantamento e inventário dos achados. Tudo registava naquele caderno que era parte integrante da sua sacola. O conhecimento feito de uma observação quase laboratorial dava-lhe a sensação de domínio, de segredo só por si descoberto.
Por vezes esquecia-se da hora do almoço deixando-se embalar pela música das estórias que os que entravam iam discorrendo. Maravilhava-se com sonoridades, ângulos ou arestas, formas redondas que descobria em cada palavra. A seguir mergulhava nas estorias ouvidas que lhe permitiam reconhecer-se sem aquela dor. A feroz guerra que se derramara por todas as famílias podia ser olhada, agora, como se não fosse “ sua”. Escondia-se ora nos recantos ora nas pausas dos historiadores locais, capturando sensações, cheiros, paisagens agónicas que registava como fotogramas. O frio ou o calor insanos rodeavam-no então. Saberia dizer donde partiam? (Cont)

Sob o Signo das águas: à descoberta do Douro

(Aguarelas de Turner) margens I

(Aguarelas de Turner) margens II

segunda-feira, julho 30, 2007

RELEMBREMOS TODOS OS SEUS FILMES...




Uma excepção neste período . Bergman deixou-nos.

JOAQUIM ou uma estória mal contada (III)

(Goya)

(continuação) Gostava daquele ritual da preparação das injecções. Todos os da casa o esperavam como se preparassem para assistir a um ofício litúrgico. Traziam-lhe a correr o frasco de álcool e a mesa de pedra estava rigorosamente livre e limpa para os preparativos. Com gestos eficientes e lestos desinfectava as mãos, incendiava o algodão com aquele isqueiro que guardava dos tempos em que acendia cigarros uns nos outros. Batia na ampola com as pontas dos dedos e lá vinha a seguir aquele clic do estalar do vidro. Completamente concentrado aspirava o líquido e perguntava, quase sem olhar, de que lado ia ser hoje. Lá vinham as palmadinhas nas carnes macias e. finalmente, a picada ( não vai doer menina, foram muitas as que tive de dar lá pelas Áfricas e ali sim, as mais das vezes não havia cama, não havia catre, era sempre de pé, sempre a andar e não houve uma que se me tivesse infectado). E lá saía ele, sempre em silêncio, todo orgulhoso da eficiência com que conduzira o ritual, recebendo os parabéns do pai da pequena. Com Joaquim as injecções nunca doíam. Até parecia que a agulha não chegara sequer a pousar. Quando a porta se fechava os da casa ficavam a cavaquear ( onde fora aquele Dr. Joaquim aprender aqueles modos? Que segredos teimava em aferrolhar?) E à volta do braseiro saltavam as mais surpreendentes estórias a propósito daquele homem que tratava por tu os bichos e que em relação às gentes sempre preferia resguardar-se.
A alva envolvera subtilmente todos aqueles lugares e Joaquim encetava o caminho do regresso. Corpo seco e encurvado como o de um vime, parecia dançar quando visto de longe por entre arbustos que mordiam o carreiro. Quase se lhe adivinhava o sorriso, quando ninguém o conseguia verdadeiramente ver. Era ele só, a terra e os seus sonhos. A memória assaltava-o de novo quando laranjas espalhadas pelo chão se lhe colavam à retina. Distraído de si sentia-lhes o cheiro. Divagava aqueles seus dedos pela superfície lisa e lustrosa. Dedos carregados de memórias que desenhavam no espaço húmido contornos e brilhos. Raramente se deixava tomar pelo sonho. Cada dia era desenhado com a precisão do compasso e do esquadro, não resgatando outros tempos para além dos previamente determinados.
Além do cajado que um dia ele mesmo esculpira de um tronco largo, seco e compacto, sustinha-se também nessa rigidez implacável que sempre o acompanhara e que costumava situar nesses tempos de guerra. Mesmo que os contornos das imagens se tornassem cada vez mais fortes, que as saudades o cobrissem todo por dentro, não se dava a si mesmo a esses luxos. Prendia-se àquela dureza como a uma prótese que teria de tolerar, mas que lhe era impossível dispensar. Abrigava-se por detrás desse muro mais espesso e impenetrável que os que dividiam as courelas e nos estratos delineados pelos minérios lia gravadas as memórias tortuosas da sua existência.(cont.)

domingo, julho 29, 2007

Férias- um espaço de descoberta

(Aguarelas de Turner)

sábado, julho 28, 2007

Férias - um espaço de pensamento

(Aguarelas de Turner)

sexta-feira, julho 27, 2007

Férias- um espaço de liberdade interior

(Picasso) mulheres correndo na praia

quinta-feira, julho 26, 2007

JOAQUIM ou uma estória mal contada (II)


(Continuação)

Partia depois em direcção às fruteiras, colhendo alguma maçã tardia, olhando cuidadosmente os ramos já pelados de folhas, imaginando por onde os cortaria na hora da poda.
Nas suas deambulações passava pelos vizinhos do lugar, que sempre ali tinham vivido, e que o olhavam com alguma benevolência e surpresa ( "esta gente das cidades é mesmo esquisita! Então o raio do homem deixou a vida da cidade e todos os seus pertences para aqui se vir enfiar?! Ele há cada um! Nós que só pensamos em deixar esta vida de lesma e o tipo com estudos e tudo, deu-lhe prá agricultura!essa mesma agricultura que os deixara cada vez mais amarrados ao pão de cada dia, trouxera para ali um intruso que teimava em dizer que aquilo do campo era coisa bonita.Bonita qual quê! Não se vê que o gajo não andou por aí descalço, nem sentiu os pés gretados, não cavou à custa de litradas de tinto e de pão duro já tocado pelos bolores...) Mas Joaquim ao escolher aquele lugar ou ao deixar-se escolher por ele, conseguira ser adoptado. Quantas vezes lhe pediam que trouxesse sementes do mercado ou produtos que combatiam as moléstias. Lá se metia então no velho Peugeot, uma espécie de segunda casa, habitado pelas alfaias mais variadas, vindas dos tempos em que se dedicara a escavações mais eruditas. Quase sempre em segunda, dirigia-se ao mercado ou, mais raramente, à cidade que abandonara desde que decidira partir para a reforma.
Os remédios para o míldio da vinha ou para o pedrado das fruteiras diluía-os ele nas exactas proporções. E de moléstias percebia ele. As da alma sempre caminharam a par e par com ele e algumas do corpo também, que aprendera a conhecer nos tempos de miliciano. Quando tinha um garrote para fazer , uma injecção para dar, um abcesso para purgar, deixava-se absorver totalmente naquela luta, pensando que destas vez as feridas ficavam mesmo saradas. Aplicava-se todo, tocando com doçura os corpos que pediam os seus cuidados. Ali na terra, de vez em quando, também o chamavam. E Joaquim acudia sempre, mesmo quando cada acto, cada gesto o transportavam a esse maldito passado de guerras loucas e inexplicáveis. (cont.)

Vai um mergulhinho ?

(Aguarelas de Turner) mar de Sesimbra
(Aguarelas de Turner) mar da ilha deserta

quarta-feira, julho 25, 2007

JOAQUIM ou uma estória mal contada (I)



A réstia de luz despedia-se vale. Joaquim decidira aproveitar os últimos reflexos que lambiam a soleira e sentado no mocho colocado àquela porta há um ror de tempo, pousava os olhos cansados mas brilhantes nos limites da encosta.
Dali até à capital era sempre a direito na estrada do coração.
Os dias perdiam aquele tempo desmedido e agora que o Outono permitia aquela multiplicidade de cores, dos ocres aos dourados, que a beleza verdadeiramente parecia ter vindo para ficar, ele fazia daquelas frestas semicerradas colocadas sobre o perfil da serra, os barcos que o conduziam só ele sabia onde.
Ninguém podia pedir-lhe contas, ninguém lhe podia falar em traição...Ele sentia-se senhor daquele horizonte contínuo que se estendia como um tapete e em que se deixava escorregar, como os garotos nas dunas, até terras que abrigava dentro de si.
O dia fora intenso para aqueles oitenta anos. Acordava agora, rigorosamente, pelas cinco da manhã. Os pesadelos, que o tinham atingido no corpo e na alma, tinham deixado de o visitar. Continuava a sonhar com os bichos, aqueles seus bichinhos mansos, que riam como crianças e lembravam quadros de Chagall.
Ainda a manhã se encontrava guardada do lado de trás do monte e já cirandava pela casa preparando o café de cevada e a costumeira fatia de pão. Como era hábito dizer, o apetite só vinha ao fim de umas boas horas na companhia da velha enxada. Aí sim, ficava estrazanado e a fome era mesmo a valer.
Lá em casa nunca perceberam como conseguia viver assim, sem aquele gosto pelos sabores, pelos cheiros, mais parecendo apenas governado pela máquina biológica.
Saía ainda sem luz, sempre pelo mesmo carreiro que o levava à horta, todos os dias, todos os anos, como se tivesse ganho raízes naquele lugar.
O frio entrara já pelo Outono adentro e era preciso ver se as geadas começavam a crestar as novas sementeiras, se as pragas atingiam aqueles pequenos seres que teimava em fazer nascer.
Diziam-lhe tantas vezes ( o ti Jaquim devia pensar em deixar essas artes; isso está bom prós
mais novos!).As costas, tal engrenagens mal oleadas, estalavam a cada golpe de enxada, mas o que lhe pediam era o impossível. Sachadas as ervas daninhas, era a hora de puxar a água do poço deixando-a entornar nos regueiros. Apoiado na enxada olhava o deslizar brilhante daqueles fios de prata e os olhos rasavam-se-lhe também de água. De novo as memórias que lhe atulhavam os sentidos e que reencontava naquele instante quase religioso de encontro com os elementos. (Continua)

A antítese de férias...


(Boudin) http://fr.wikipedia.org/wiki/Eug%C3%A8ne_Boudin

Já então havia praias assim...Não é disto que eu gosto.

terça-feira, julho 24, 2007

A caminho das férias...

(Aguarelas de Turner)

(Aguarelas de Turner) quem não se lembra de apanhar e coleccionar conchinhas...

segunda-feira, julho 23, 2007

domingo, julho 22, 2007

Reflexos do Olhar CXIV

(Aguarelas de Turner) Mar de Sesimbra visto do Porto de Abrigo

Não muito longe daqui aprendi a nadar com o meu pai...

sábado, julho 21, 2007

sexta-feira, julho 20, 2007

Reflexos do Olhar CXIII

(Aguarelas de Turner) Porto de Abrigo. Sesimbra

As férias estão quase a chegar. Até ao seu começo sairão apenas imagens sugestivas deste tema.

quinta-feira, julho 19, 2007

Música dos Andes

(Ernesto Pomareda' Friends)

O gosto pela liberdade

(Doisneau-Luxembourg gardens)


(Doisneau- Kiss)


Uma rapariga e um rapaz estão enlaçados um no outro. Beijam-se; o mundo apenas existe para eles. A rapariga tem os braços cruzados junto à nuca do rapaz, as mão pendentes, os dedos abertos como uma flor tocada por suave abandono. O rapaz abraça-a pela cintura, acaricia-a nas ancas. A rua parece aureolada de felicidade e as pessoas sorriem. Nem todas: há-as de cara fechada, reprovadoras. Estas aligeiram o passo. Não admitem o recado ditoso que lhes está a ser dado e desaparecem sem avisar para onde vão.
Há anos, não assim tão longínquos, dar um beijo na rua, namorados em enlevo, comprometia a liberdade do casal: detenção na esquadra mais próxima e multa a dinheiro. Era proibido beijar em qualquer estação do ano. Sobretudo, na Primavera. Não se conhecia receita para aquietar o desejo, as raparigas desnudavam os braços, abriam um pouco mais o decote; os rapazes cumpriam rigorosamente os impulsos de ser rapazes e namoravam-nas, tocavam-nas,olhavam-nas com arrojo e cobiça. Os agentes da Polícia apuravam o varejo, nestas épocas de raparigas em flor, e interferiam nos beijos roubados, roubando a felicidade contida nesses indecisos e cintilantes instantes.
Gosta de ver os pares aos beijos, sorri quando os observa, e reconhece, tristemente, ser assolado por insinuoso sentimento de inveja. Envelheceu muito rapidamente, deixou escoar o tempo sem o saber aproveitar. Não é bem isso: na verdade, não teve oportunidade de ser adolescente- foi logo promovido a homem. Apeteceu-lhe dizer ao casal dos beijos que estava muito feliz por eles e que sentia um certo conforto íntimo em estar com eles e contra aqueles que com eles não estavam. Seria uma tolice, porém.
A idade torna-os um pouco tolos, somos versões ligeiramente modificadas de pessoas normais, a tristeza que nos persegue transforma-se em desassossego e insensatez. Nenhuma morte é natural, escreveu Jorge de Sena. Nem a velhice, diz de si para consigo. Abandona-nos o desejo mas não se nos apazigua o afã de desejar. Envergonhamo-nos de contemplar as mulheres que movem o corpo todo, numa harmonia vital: intimidamo-nos com risinhos maliciosos que nos querem pôr à distância das simples coisas da vida.
Beijam-se e estão felizes; tão felizes que a expressão dessa felicidade faz com que os transeuntes, ou curiosos, ou brejeiros, ou entediados, apressem o passo ainda mais. O dia, luminoso, parecia um milagre sem mácula. A rua , extensa e povoada, interrompia-se no rio, e o rio marulhava, claro e ledo, bailando até à foz. Numa esquina, um grupo de índios entoavam belas canções dos Andes e espalhavam pela calçada peça de roupa artesanais que diziam vindas da Grande Cordilheira.(....)

Baptista Bastos ( O Gosto pela Liberdade - Lembranças de um beijo. Revista do Montepio, nº 54)

quarta-feira, julho 18, 2007

BORODINE- Principe Igor

E os olhos....não estão sem ver...

(Bazzile)



Silenciosa Música do Cosmos

As bocas que estão fechadas
não estão caladas

Os braços que estão caídos
não estão imóveis

E os olhos que estão voltados
não estão sem ver

Homem só homem só
tu bem me compreendes quando digo
que não estás só
e bem entendes bem entendes
este longo discurso enchendo o ar
que vem de toda a parte e vai a toda a parte
eternamente
em surdina

(Mário Dionísio)

terça-feira, julho 17, 2007

Compay Segundo - Yo vengo aqui

Reflexos do Olhar CXII

(Aguarelas de Turner) já apetece...



segunda-feira, julho 16, 2007

A liberdade de expressão aí é perfeita...




As vantagens da democracia são
assaz evidentes nas Berlengas
A liberdade de expressão é aí perfeita,
muito embora a conversa das gaivotas
possa parecer um pouco frívola e gutural.
Mas liberalmente mergulham sem entraves
na liberdade similar dos carapaus
Melhor só mesmo o caso das Desertas
onde os lobos-marinhos são poetas
na república do oceano a meditar

Graça Videira Lopes - http://almanaque24.blogspot.com/

http://barcosflores.blogspot.com





Recordando Callas

domingo, julho 15, 2007

UM DOMINGO COM AQUILINO RIBEIRO E...O MEU PRIMEIRO ROMANCE...




Havia três dias e três noites que a Salta-Pocinhas- raposeta matreira, fagueira, lambisqueira- corria os bosques, farejando, batendo mato, sem conseguir deitar unha a outra caça além duns míseros gafanhotos, nem atinar com abrigo em que pudesse dormir um soninho descansado. Desesperada de tão pouca sorte, vinham-lhe tentações de tornar para casa dos pais, onde, embora subterrânea, a cama era mais quente e segura que em castelo do rei, e onde nunca faltava galinha, quando não fosse fresca, de conserva, ou então coelho bravo, acabado de degolar. Mas temia-se da mãe que ao cabo de uma semana de fome, depois do assalto frustrado à capoeira dum lavrador em que vira a morte a dois passos, lhe atormentara o juízo com advertências e bons conselhos:
- Salta- Pocinhas, minha filha, tens de procurar outro ofício. Comer e dormir, dormir e comer também eu queria. Olé! Se ainda o não sabes, fica sabendo: quem não trabuca não manduca. Mal entre a lua nova- e não tarda a hora que chegue às portinhas do céu- está na idade de te conduzir por tua cabeça. Também já te lá cantam desoito meses, e dezoito meses nada ladros, louvado seja o pai dos bichos. É olhar-te para ascnavalhas dos dentes e a boa saia de peluche. Uma beleza!
- Ih, ih, ih! desatara a Salta Pocinhas a choramingar.
- Santa Paciência! Teus irmãos andam ganhando o pão, sabe Deus com que trabalhos! O Pé-Leve saiu um açougue de finura...
- E bom filho! Estava ontem a gineta a fazer-lhe um rasgadíssimo elogio- disse o pai velho, um raposão de rabo pelado, ao tempo que se espreguiçava entesando e voltando a entesar um longo e descarnadíssimo pernil.
- Pudera! Foi ele que bifou ao padre-prior o rico galo galaroz, crista de vermelhão e pernas de retrós. Comemos nós, comeu a gineta e, cem anos que eu viva, não me hei-de esquecer do fartote. Coitado, o Pé-Leve emancipou-se há umas semanas. A ti, Salta-Pocinhas, guardámos-te mais tempo connosco, esperando que servisses de arrimo para o fim dos dias. É negócio arrumado, se tratares de ti, já nos damos por contentes. Pronto, deitaste bom corpo, arranja-te, arranja-te!Para baronesa não nasceste...
- O mundo vai mal! O mundo vai mal! -emitiu o raposão em tom pessimista. -Quem houver de levar a vidinha segundo as regras do amor ao pêlo precisa de lume no olho. Sim, senhora! Hoje em dia assaltar uma capoeira é um problema complexo, muito complexo...
- Estou velha...caduca- tornou a mãe, sem fazer caso da filosofia do raposo.- Não te posso manter, ainda que quisesse. Há coisa de dias um cãozinho bem reles, um destes totós que não prestam para mais nada que para soltar o béu! béu!, deitou a correr atrás de mim e por pouco que não me rasga a fralda. O toirão que o diga. Teu pai, depois que apanhou a chumbada nas pernas, está o que para ali se vê: um entrevadinho, um borralheiro, incapaz de pegar um caçapo a dormir a sesta no covil.


Aquilino Ribeiro ( O Romance da Raposa)

Norah Jones

Reflexos do Olhar CXI

(Aguarelas de Turner) clareira encantada (brincando com a cor...)

sábado, julho 14, 2007

PERGOLESI - Stabat Mater

http://it.wikipedia.org/wiki/Stabat_Mater_(musica)


As relações entre as coisas...são complicadas demais...

(Magritte)
« Há, minha senhora, com respeito ao que sucede neste mundo, três teorias distintas - que tudo é obra do Acaso, que tudo é obra de Deus, e que tudo é obra de várias coisas, combinadas ou entrecruzadas. Pensamos, em geral, em termos da nossa sensibilidade, e por isso tudo se nos volve num problema do bem e do mal; há muito que eu mesmo sofro grandes calúnias por causa dessa interpretação. Parece não ter ainda ocorrido a ninguém que as relações entre as coisas- suponho que haja coisas e relações - são complicadas demais para que algum deus ou diabo as explique. « Sou o mestre lunar de todos os sonhos, o músico solene de todos os silêncios. Lembra-se do que tem pensado quando, sozinha, está ante uma grande paisagem de arvoredos e de luar? Não se lembra, porque pensou em mim, e, devo dizer-lho, verdadeiramente não existo. Se existe qualquer coisa não sei.
« As aspirações vagas, os desejos fúteis, os tédios do vulgar, ainda quando o amamos, os aborrecimentos do que não aborrece- tudo isso é obra minha, nascida de quando, deitado à margem de grandes rios do abismo, penso que também não sei nada. Então o meu pensamento desce, eflúvio vago, às almas dos homens e eles sentem-se diferentes de si mesmos.

Fernando Pessoa ( A Hora do Diabo)

sexta-feira, julho 13, 2007

Cesária Évora - Sodade

Reflexos do Olhar CX

(Aguarelas de Turner) bela aliança

quinta-feira, julho 12, 2007

O BOLERO - Ravel


A força da emoção...

A palavra nasceu...

(Ana de Sousa)

Metamorfoses da Palavra


A palavra nasceu:
nos lábios cintila.

Carícia ou aroma,
mal poisa nos dedos.

De ramo em ramo voa,
na luz se derrama.

A morte não existe:
tudo é canto ou chama.


(Eugénio de Andrade)

quarta-feira, julho 11, 2007

Leo Ferré - Chanson d' Automne

Reflexos do Olhar CIX

(Aguarelas de Turner) "o tempo esse escultor"

terça-feira, julho 10, 2007

Para ser grande, sê inteiro...


Ser Grande

Para ser grande, sê inteiro:

Nada teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa.

Põe quanto és

No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda brilha,

Porque alta vive.

(Fernando Pessoa)




segunda-feira, julho 09, 2007

LEONARD COHEN - Suzanne




Quem se pode esquecer desta canção?

CHOCOLAT- soube-me bem saborear...

Reflexos do Olhar CVIII

(Aguarelas de Turner) o colorido é indispensável...

domingo, julho 08, 2007

UM DOMINGO COM BERTOLT BRECHT



O Regar do Jardim


Ó regar do jardim , para animar a verdura!
Rega das árvores sedentas! Dá mais que o bastante
E não te esqueças dos arbustos, mesmo
Dos das bagas, dos cansados,
Dos avaros. E não me deixes passar
Entre as flores as ervas más que também
Têm sede. Nem regues só
A relva fresca ou a crestada:
Refresca também o chão despido.

Bertolt Brecht ( Poemas e Canções)

SHUMANN e HOROWITZ




Shumann - Traumerei

Barcos, que são formas esquivas...

(Aguarelas de Turner) Ria Formosa


Barcos Brancos


Barcos, que são formas esquivas,
cobrem a ria
oferecendo
à água da enchente a proa fina
São brancos quase todos
no princípio da
tarde a evidência da cal viva

Gastão Cruz (Crateras)

sábado, julho 07, 2007

Paco de Lucia - ARANJUEZ (2º andamento)

Reflexos do Olhar CVII

(Aguarelas de Turner) Ria Formosa

sexta-feira, julho 06, 2007

A tarde trabalhava sem rumor...

(Hopper)

A tarde trabalhava
sem rumor
no âmbito feliz das suas nuvens,
conjugava
cintilações e frémitos,
rimava
as ténues vibrações
do mundo,
quando vi
o poema organizado nas alturas
reflectir-se aqui,
em ritmos, desenhos, estruturas
duma sintaxe que produz
coisas aéreas como o vento e a luz.

(Carlos Oliveira)

Miles Davis e John Coltrane - So What

quinta-feira, julho 05, 2007

Reflexos do Olhar CVI

(Aguarelas de Turner) boas recordações



ROSA de HIROSHIMA - Secos e Molhados

quarta-feira, julho 04, 2007

Ele é nós...

http://www.anadesousa.com/
O Nascimento do Prazer (trecho)

O prazer nascendo dói tanto no peito que se prefere sentir a habituada dor ao insólito prazer. A alegria verdadeira não tem explicação possível, não tem a possibilidade de ser compreendida - e se parece com o início de uma perdição irrecuperável. Esse fundir-se total é insuportavelmente bom - como se a morte fosse o nosso bem maior e final, só que não é a morte, é a vida incomensurável que chega a se parecer com a grandeza da morte. Deve-se deixar inundar pela alegria aos poucos - pois é a vida nascendo. E quem não tiver força, que antes cubra cada nervo com uma película protectora, com uma película de morte para poder tolerar a vida. Essa película pode consistir em qualquer ato formal protector, em qualquer silêncio ou em várias palavras sem sentido. Pois o prazer não é de se brincar com ele. Ele é nós.

(Clarice Lispector)

Beethovan e Wihelm Kempff



Moonlight Sonata -2º andamento

terça-feira, julho 03, 2007

Andrés Segovia


Reflexos do Olhar CV

(Aguarelas de Turner) largueza de horizontes

segunda-feira, julho 02, 2007

Os pêssegos e as maçãs de Cézanne...


(Cézanne)


Enquanto for tempo


Os pêssegos e as maçãs de Cézanne
repousam no cesto do pão. Eu não
os olhei ainda o bastante. Distraído
por nada e por coisa nenhuma,
passo por eles de manhã e à
noite. Mas é como se eles não
existissem. Não aprendi ainda
a lição, a terrível lição: enquanto
for tempo de durar, dura; olha
enquanto for tempo de ver. Se
for tempo de estar, está. Sofre,
se for tempo de sofrer. E odeia
também, se te apetecer e for
preciso. Não descures os
minutos e os segundos, não
desprezes o infinitamente
pequeno, pois se te for concedido
o tempo hás-de arrepender-te.

João Camilo ( O som atinge o cimo das montanhas)

Reflexos do Olhar CIV

(Aguarelas de Turner) interrogações

domingo, julho 01, 2007

UM DOMINGO COM A MINHA CIDADE

(Rua da Graça) um bom passeio pela cidade através deste blog
http://olhareslisboa.blogspot.com/

Radu Lupu e Mozart




(Concerto para piano nº 19 , K 459 - Mozart (3º andamento)

Foi coisa do Senhor Almada, com certeza...

(Almada Negreiros)



Foi então que o Soares apareceu, cedo demais para os seus hábitos, mas desejoso de olhar a acrochagem. Cumprimentou o Teles que lhe respondeu com devida cerimónia, e deu uma volta silenciosa à sala. « Já esperava isto...» disse então, com um brilho mau nos olhos. « Mas não pode ficar assim, não tenho boa luz», acrescentou. A luz era a mesma para todos, comentou o Teles, de má catadura: « Então o Senhor Soares não viu, na altura?» Eu não vim assistir aos trabalhos de accrochage. O Senhor Pacheco tinha-me assegurado...»« Ah, isso não sei- mas agora já nada sai dos lugares!» O Teles era claro na sua decisão. Não faltava mais nada!...
« Foi coisa do Senhor Almada, com certeza», disse o Soares com um sorriso de raiva. O João Franco desviou-se, detestava-o, com os seus ares de superioridade e gorjetas de sovina. « pois, amigo e Senhor Teles, há que fazer umas mudanças...»« Nem pensar nisso, o que está feito, feito está!» respondeu-lhe o patrão, já lhe virando as costas. O café estava aberto e assim havia de ficar; se quisesse, podia queixar-se ao Senhor Pacheco, mas não julgasse que ele ia perder mais horas de trabalho com mudanças! Soares, por seu lado, tinha sido pago e não lhe convinha questões com o Pacheco: a Contemporânea ia recomeçar a saír e ele esperava que lhe pedisse para a capa a reprodução de um dos quadros, o do salão de chá, onde retratara três senhoras da sociedade « Smart». Seria a sua compensação, e podia sempre queixar-se, diante das injustiças que lhe faziam. « Estou a ver, estou a ver...» Olhou com desdém para as duas pinturas do Almada: « Não sabe pintar nem desenhar...» O Barradas estava bem, era o seu estilo, enfim...O Viana não era capaz de dominar a paleta- mas o Almada, francamente...« O Senhor Teles acha isto bem?» Soares dizia« isto» com um desdém muito apoiado, que lhe torcia a boca de maus dentes.« E esta maneira de se pôr em vedeta, e em que companhia...»
O Teles, na verdade, não achava bem os retratos: quem eram aquelas duas fúfias? E o José irritava-o, assim sempre de perfil! Tinham-lhe falado do Orpheu mas nunca tinha visto; chegara, antes, do Brasil e arranjara aquele espaço de uma camisaria no Chiado, para vender o seu café, e ganhara a partida. O sítio tinha fama antiga e convinha-lhe a frequência dos intelectuais, ao lado dos políticos da Havaneza e das damas que vinham à Bénard. Por isso fizera obras e contratara o melhor arquitecto que havia em Lisboa. Os quadros, pois, deixara-se levar na cantiga do Pacheco...Já tivera um conflito com aquele que se matara em Paris, Sá qualquer coisa, um gordo, quando quando aumentara o preço da chávena, e ainda há pouco tinha sido a história do Senhor Gualdino, uns ovos podres...Com a língua que tinha, era melhor não ter questões com ele e os seus amigos. Sabia ele de quem era o retrato que Almada estava a desenhar no seu quadro?, perguntava-lhe o Soares. Pois era o famoso Gualdino Gomes...O Teles hesitou, sem saber o que pensar. Com aquela gente...Enfim, ia-se ver o que os clientes diziam.

José-Augusto França (JOSÉ e os OUTROS. Almada e Pessoa, romance dos anos 20)