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sábado, outubro 28, 2006

A toda a altura dos meus olhos vives...

(Lucas Cranach)

23.11.71

Chiúme

OS POEMAS DE AMOR DE LUCAS CRANACH,
O VELHO


1.
Que mar, necturna árvore de cabelos
que vastidão de ondas, que soluço
de cimos e raízes, que luminoso fruto,
que lenta manhã nasce nos teus ramos?

No teu tronco terrestre o sangue canta.
A água sobe, a tarde incha, a sombra fala.
Toco-te e acordas-e contigo
o teu perfil de cedro nos espelhos.

A toda a altura dos meus olhos vives.
Estremeces devagar o teu peso de folhas
a ave invertrebada que te prime a garganta,
a secura mineral da tua boca de algas.

E choves lentamente no meu peito
o teu orvalho de pinheiro, árvore,
o teu húmido musco, o licor dos teus dedos,
o salgueiro suspenso por sobre os nossos ombros.

E vens e cresces, mar nocturno, as vagas
que me assaltam e tomam.Sou murmúrio,
sou susurro, cicio, segredo, fonte,
sou a agulha vermelha que pulsa no teu ventre
a cidade desperta e a muralha aonde
os teus braços se quebram num suspiro de areia.


Achas que isto presta? Quer dizer, com o máximo de rigorosa crueldade que está ao nível dos 2 escolhidos? Opinião na volta do correio...E desculpa ter enchido uma carta com esta pobre coisa que nada vale. Muitos beijos para a nossa filha e, para ti, todo o amor do mundo

António

Que saudades eu tenho dos teus braços, do teu corpo, de tu toda!


António Lobo Antunes (D' este viver aqui neste papel descripto-Cartas da guerra)

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