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quinta-feira, janeiro 28, 2010

Que é feito dos verdadeiros piqueniques?



                                 (James Tissot)
Quem me habituou à prática dos piqueniques foi um avô que eu tive, depois substituído, ao longo dos anos por um grande amigo que, por essas alturas, nos meus vinte e poucos, sabia de piqueniques como ninguém e tinha uma companheira fazedora de sanduíches de vários andares e de outras comidas portáteis que eram autênticos pitéus.
Calcorreei muitos caminhos, deitei-me na caruma, sesteei à sombra de olorosas árvores, trepei a rochas das quais se descobriam horizontes de deixar sem ar o mais indiferente à magnificência de certas paisagens, juntei pedras que eram esculturas «encontradas», como eu lhes chamava, carreei para casa plantas, pedras, conchas, enfim, tudo o que podia ajudar a relembrar esses excelentes passeios e aligeirar um pouco estas muralhas de livros que me rodeiam. E tudo isto se fazia- com excepção dos percursos ferroviários sem interesse- a pé!
Outro dia, com uma amiga, quase repeti um piquenique dos tempos que era jovem. Soube-me tão bem! O nosso combustível era a excelente conversa que muitas vezes mantemos. E, como sabeis, não há nada melhor que ar puro, sol, andamento à vontade do corpo e uma boa conversa para levantar a moral. Chegados ao sítio que nos propúnhamos atingir- porque havia, naquele passeio, um sítio a atingir- sentávamo-nos nuns banquinhos de pedra, daqueles em que as pessoas ficam frente a frente, olhámos uns painéis de azulejos que a minha amiga conhecia e eu não, levantámo-nos, contornámos um vasto tanque de pedra e por ali ficámos um pouco, a mirar e remirar a bela construção. Depois, voltámos paulatinamente ao ponto de partida e, com excepção do lixo esparso (plástico, latas de refrigerantes vazias, etc.) que, a um canto ou a outro, sempre aparece, sentimos  que tínhamos ganho a tarde. Claro que exprobámos aos humanos-em-geral o seu desleixo, a sua falta de respeito pelos outros, a sua incivilidade. Abandonar em qualquer lado o lixo? Um piqueniqueiro que se preza jamais o fará. Longe, ao fundo, passavam enlatados por uma estrada. Quando nos aproximámos, vimos as caras das pessoas e foi terrível. Eram como lixo dentro dos contentores, um lixo que pensasse de si próprio que era um luxo.
Então percebemos que a nossa boa disposição - se não tivéssemos inteligência -acabaria logo ali. Olhámos um para o outro e conseguimos salvar o resto da tarde largando duas bem estaladas gargalhadas.
Sim, que é feito dos verdadeiros piqueniques?

(Alexandre O'Neill- Uma coisa em forma de assim)

2 comentários:

  1. Este texto saboroso do Alexandre, trouxe-me à memória os piqueniques das segundas-feiras de Páscoa que se faziam em Évora, no alto de S. João, quando lá vivi, na infância.
    Isso sim, é que eram verdadeiros piqueniques!

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  2. Viva! Sejas benvindo! Que boa surpresa!:)

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