Google+ Followers

quarta-feira, setembro 30, 2009

Até Já!


Durante alguns dias não andarei por aqui. Gosto de aproveitar as oportunidades  que se oferecem para captar, com outras lentes, o que me rodeia.
De certo, que não é a viagem sonhada, aquela em  que se está num lugar, como se  pela primeira vez se tratasse, e  ao mesmo tempo, como se ali sempre se tivesse vivido.
Ser turista é também tolerar a imperfeição e a banalidade e procurar fazer do olhar um outro olhar. Sendo o trabalho que me faz partir, não deixo de teimosamente, o tentar "casar" com o prazer de estar.
Veremos se consigo trazer alguma coisa para partilhar convosco.
Até já!

terça-feira, setembro 29, 2009

Basta às vezes uma voz harmoniosa...


                                                             (Turner)

Basta às vezes
Uma voz harmoniosa,
Um sorriso casual que dá agrado
Para aliviar
Muito e tanta
Tortura ou confusão da mente.

Não me fales por enquanto.
Baixa os olhos.
Baixa-os lentos sem deixares
De me ver.

Tudo merece atenção
Até o amor,
Se não for demasiado.


Hoje quero só esquecer.

(Fernando Pessoa)

segunda-feira, setembro 28, 2009

domingo, setembro 27, 2009

O Direito ao Delírio- Eduardo Galeano



sábado, setembro 26, 2009

Fazia lembrar, talvez, o de Proserpina

(Rossetti)
Desci para confortar Emília.
Encontrei-a com o belo e agradável rosto. Fazia lembrar, talvez ,o de Proserpina de Dante Gabriel Rossetti- apoiado numa mão que segurava um lenço lilás; a mesma posição em que a tinha deixado horas antes. A nossa conversa não foi substancial. Declarou-me , isso sim, que o Doutor Cornejo tinha insistido em passar um bocado a sós com a morta.Emilia não tinha consentido.
Voltei ao hall. Cornejo, rigidamente sentado numa cadeira moderna, estudava, com óculos, lápis e papel, um copioso volume. Quando encontro alguém a ler, o meu primeiro impulso é tirar-lhe o livro das mãos. Proponho ao curioso o exame deste sentimento de atracção pelos livros ou impaciência por me ver deslocado do centro das atenções?Resignei-me a perguntar-lhe o que estava a ler.
- Um livro a sério- respondeu.-Um guia dos caminhos de ferro. Tenho estruturado na mente um plano do país ( limitado à rede ferroviária, naturalmente) que aspira a englobar as localidades mais insignificantes, com as suas respectivas distâncias e as horas de viagem...
- O senhor interessa-se pela quarta dimensão. O espaço-tempo- declarei.
Manning observou enigmaticamente:
- A literatura de evasão, diria eu.
Atuel olhava a janela. Chamou-nos. Por entre um lívido ciclone de areia vimos chegar o Rickenbacker. Pela primeira vez no dia, ri-me. Confesso-o: a comicidade da cena que se desenrolou com cinematográfica diligência era aflitiva. Do automóvel desceram uma, duas, três, quatro ...seis pessoas. Acotevelaram-se contra uma das portas traseiras do carro. Laboriosamente retiraram um objecto comprido e escuro. A lutar e esfalfados pelo vento, disformes, devido ao efeito do vidro nos nossos olhares oblíquos, a tactear, como se fosse de noite, tropeçando na areia, vi-os - com os olhos embaciados pelo choro e riso- aproximarem-se do hotel. Traziam o caixão.

(Silvina Ocampo & Adolfo Bioy Casares- Quem ama, odeia)

sexta-feira, setembro 25, 2009

E ele deixou-se estar...


Zoologia: O Melro

Na gaiola, o melro não tem o bico mais amarelo
do que fora dela. Encolhe-se a um canto,
coitado, e parece envergonhado;
-embora esteja ali por culpa de quem lá o meteu
sabendo que um melro não cai do céu.

Há pássaros assim, que qualquer um
mete numa gaiola, apesar do bico ser amarelo.
Não cantam. Não voam. Não falam.
São pássaros cegos
com a mudez dos oráculos e mudos
com a lucidez dos profetas.

Perfeitamente por acaso, abri-lhe
a gaiola. E ele deixou-se estar, sem sair
nem entrar.

(Nuno Júdice- Poemas em voz alta)

quarta-feira, setembro 23, 2009

Encontro assustada a imagem da vida

(Miró)
Sozinha no bosque
com meus pensamentos.
calei as saudades,
fiz trégua aos tormentos.

Olhei para a Lua,
que as sombras rasgava,
nas trémulas águas
seus raios soltava.

Naquela torrente
que vai despedida,
encontro, assustada,
a imagem da vida.

Do peito, em que as dores
já iam cessar,
revoa a tristeza,
e torno a pensar.


(Marquesa de Alorna)

Post dedicado à minha sobrinha Elena que, vivendo mergulhada na língua inglesa, se embrenhou no estudo da Marquesa de Alorna e do Português dos séc. XVII e XVIII. É caso para dizer: que coragem!

terça-feira, setembro 22, 2009

O edifício...pareceu-me...encravado na areia...

(Seurat)
Acordei na penumbra. Não sabia onde estava nem que horas eram. Fiz um esforço, como quem procura orientar-se. Lembrei-me: estava no meu quarto, no Hotel Central. Nessa altura, ouvi o mar.
Acendi a luz. Vi no meu cronógrafo - junto dos volumes de Chiron, de Kent, de Jahr, de Allen e de Hering, sobre a mesinha-de-cabeceira de pinho- que eram cinco da tarde. Pesadamente, comecei a vestir-me. Que descanso ver-me livre da rigorosa indumentária que os convencionalismos da vida urbana nos impõem! Como evadido da roupa, enfarpelei a minha camisa escocesa, umas calças de flanela, o meu casaco de linho cru, o amarrotado panamá, as velhas galochas amarelas e a bengala com punho de cabeça de cão. Baixei os olhos, com disfarçada satisfação examinei no espelho a minha alta testa de pensador, e concordei uma vez mais com tanto observador imparcial: a semelhança entre as minhas feições e as de Goethe é autêntica. Por outro lado, não sou um homem alto; para o dizer com um vocábulo sugestivo, sou baixote- os meus humores, as minhas reacções e os meus pensamentos não se extenuam nem se esgotam ao longo de uma dilatada geografia. Prezo-me de ter uma cabeleira agradável à vista e ao tacto, de possuir umas mãos pequenas e bonitas, de ser breve nos punhos, nos tornozelos, na cintura. Os meus pés, «frívolos viajantes», nem quando durmo descansam. A pele é branca e rosada; o apetite, perfeito.
Apressei-me. Queria aproveitar o primeiro dia de praia.
Como essas recordações de viagens que se apagam da memória e que depois encontramos no álbum de fotografias, no momento de aliviar as correias da minha mala vi-pela primeira vez?-as cenas da minha chegada ao hotel. O edifício branco e moderno, pareceu-me pitorescamente encravado na areia: como um navio no mar, ou um oásis no deserto. A falta de árvores estava compensada por umas manchas verdes caprichosamente distribuídas- dentes-de-leão, que pareciam avançar como um réptil múltiplo, e rumorosas estacas de tamargueira. Ao fundo da paisagem havia duas ou três casas e uma outra cabana.
Já não estava cansado. Senti como que um êxtase de júbilo. Eu, o doutor Humberto Huberman, tinha descoberto o paraíso do homem das letras. Nesta solidão, em dois meses de trabalho, concluiria a minha adaptação de Petrónio. E então..., um coração novo, um homem novo. Teria, finalmente, chegado a hora de procurar outros autores, de renovar o espírito.
Furtivamente avancei por escuros passadiços. (...)

(Silvina OCampo & Adolfo Bioy Casares- Quem ama, odeia)

segunda-feira, setembro 21, 2009

mándales decir cacarajícara...

(Rembrandt)

PROBLEMAS DEL SUBDESARROLLO

Monsieur Dupont te llama inculto,
porque ignoras cuál era el nieto
preferido de Víctor Hugo.

Herr Müller se ha puesto a gritar,
porque no sabes el día
(exacto) en que murió Bismark.

Tu amigo Mr. Smith,
inglés o yanqui, yo no lo sé,
se subleva cuando escribes shell.
(Parece que ahorras una ele,
y que además pronuncias chel.)

Bueno ¿y qué?
Cuando te toque a ti,
mándales decir cacarajícara,
y que donde está el Aconcagua,
y que quién era Sucre,
y que en qué lugar de este planeta
murió Martí.

Un favor:
Que te hablen siempre en español.

domingo, setembro 20, 2009

Estas frágeis criaturas...são também as mais vulneráveis..

(Imogen Cunningun)
Em louvor das crianças


Se há na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simultaneamente sem fronteiras, esse reino é o da infância. A esse país inocente, donde se é expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos privilegiados — a tais regressos se chama, às vezes, poesia. Essa espécie de terra mítica é habitada por seres de uma tão grande formosura que os anjos tiveram neles o seu modelo, e foi às crianças, como todos sabem pelos evangelhos, que foi prometido o Paraíso.
A sedução das crianças provém, antes de mais, da sua proximidade com os animais — a sua relação com o mundo não é a da utilidade, mas a do prazer. Elas não conhecem ainda os dois grandes inimigos da alma, que são, como disse Saint-Exupéry, o dinheiro e a vaidade. Estas frágeis criaturas, as únicas desde a origem destinadas à imortalidade, são também as mais vulneráveis — elas têm o peito aberto às maravilhas do mundo, mas estão sem defesa para a bestialidade humana que, apesar de tanta tecnologia de ponta, não diminui nem se extingue.
O sofrimento de uma criança é de uma ordem tão monstruosa que, frequentemente, é usado como argumento para a negação da bondade divina. Não, não há salvação para quem faça sofrer uma criança, que isto se grave indelevelmente nos vossos espíritos. O simples facto de consentirmos que milhões e milhões de crianças padeçam fome, e reguem com as suas lágrimas a terra onde terão ainda de lutar um dia pela justiça e pela liberdade, prova bem que não somos filhos de Deus.

Eugénio de Andrade, in 'Rosto Precário'

sábado, setembro 19, 2009

sexta-feira, setembro 18, 2009

Papoulas a coroam

(Redon)
Do seu longínquo reino cor-de-rosa,
Voando pela noite silenciosa,
A fada das crianças vem, luzindo.
Papoulas a coroam, e, cobrindo
Seu corpo todo, a tornam misteriosa.



À criança que dorme chega leve,
E, pondo-lhe na fronte a mão de neve,
Os seus cabelos de ouro acaricia –
E sonhos lindos, como ninguém teve,
A sentir a criança principia.



E todos os brinquedos se transformam
Em coisas vivas, e um cortejo formam:
Cavalos e soldados e bonecas,
Ursos e pretos, que vêm, vão e tornam,
E palhaços que tocam em rabecas…



E há figuras pequenas e engraçadas
Que brincam e dão saltos e passadas…
Mas vem o dia, e, leve e graciosa,
Pé ante pé, volta a melhor das fadas
Ao seu longínquo reino cor-de-rosa.


(Fernando Pesssoa) in Vendaval com poesias

Para um menino que precisa muito de todas as histórias

terça-feira, setembro 15, 2009

O mundo é uma instituição estranha...

(Rafael)

Carta de um pintor a seu filho (1)


Meu querido filho,

Escreves-me contando que pintas uma madona e que o que sentes em relação à conclusão desse trabalho te parece tão impuro e carnal que sempre que vais para pegar no pincel gostarias de receber a comunhão para santificar o teu sentimento.Deixa que este teu velho pai te diga que se trata de uma falsa sugestão que te se grudou vinda da escola donde provéns, e que, segundo os ensinamentos dos nossos veneráveis mestres de outro tempo, é inteiramente aceitável o facto de pores na tela os produtos da tua imaginação com um gozo lúdico que pode ser comum, mas quanto ao mais é honrado. O mundo é uma instituição estranha; e os efeitos mais divinos, meu querido filho, nascem das causas mais baixas e modestas. O homem, para te dar um exemplo que salta à vista, é decerto uma criatura sublime; contudo, no instante em que traçamos as suas formas, não é preciso considerar esse princípio com particular santidade. Na verdade, aquele que começasse por comungar e que de seguida se pusesse a trabalhar sem outra coisa que não fosse o propósito de dar corpo sensível ao seu conceito de homem produziria infalívelmente um ente miserável e débil; pelo contrário, aquele que, numa serena noite de Verão, beija uma rapariga, sem outras preocupações, traz ao mundo, sem dúvida, um rapaz que mais tarde trepará vigorosamente entre o céu e a Terra e dará que fazer aos filósofos. E com isto, adeus.

y.

(Heinrich Von Kleist- Sobre o Teatro de Marionetas e outros escritos. Tradução e apresentação José Miranda Justo.Antígona)

(1) No Archiv fur Literatur, Kunst und Politik, de 27 de Junho de 1810, relatava-se uma suposta conversa entre um jovem pintor e Rafael; o jovem pintor pergunta a Rafael como começa o quadro quando quer pintar uma madonnna; a resposta do mestre é a seguinte« Também eu não sei ao certo. Se quero pintar a mãe de Deus, rezo sempre para que ela me apareça, e é assim que ela me aparece». Também é voz corrente que o pintor se recolhia em oração antes de começar a pintar. Kleist desenvolve aqui uma perspectiva nitidamente crítica em relação a essa atitude.

domingo, setembro 13, 2009

A memória é ...um pandemónio...

(Redon)

A memória é deveras um pandemónio, mas está tudo lá dentro, depois de fuçar um pouco o dono é capaz de encontrar todas as coisas. Não pode é alguém de fora se intrometer, como a empregada que remove a papelada para espanar o escritório. Ou como a filha que pretende dispor a minha memória na ordem dela, cronológica, alfabética ou por assunto. Em tempos encontrei certo coronel num corredor sombrio do hospital do Exército. Ele afirmou que estivera comigo quando ainda era terceiro-sargento, mas seu rosto na penumbra não me dizia grande coisa. Nem decerto o meu a ele, que me reconheceu pelo nome. Mas aí a minha lembrança não era recíproca, e nesses casos, para não magoar o próximo, a gente costuma dizer, ah, sim, claro, como vai, e fica por isso mesmo. Porque dá preguiça vasculhar a memória o tempo inteiro, mas ele acreditou que eu me empenhava em recordá-lo, e quis colaborar. E só me atrapalhou mais ainda ao dizer, em francês, que quarenta anos passam voando, não entendi se citava algum poeta. Ia-me despedir quando ele mencionou as provas de artilharia na Marambaia, e não sei porque não o fez desde o início, num instante tudo se iluminou. Seria mesmo inútil revirar arquivos de nomes e rostos, porque minha memória tinha guardado o sargento na paisagem. Era um dia de sol, e do alto da duna, eu contemplava o trecho mais delgado da restinga, uma linha branquíssima de areia que o oceano não tragava por capricho, ou por piedade, ou por desvelo maternal ou por sadismo. As ondas espumavam simultaneamente, à direita e à esquerda da faixa de areia, era como uma praia diante de um espelho. (...)

(Chico Buarque-leite derramado)

sábado, setembro 12, 2009

De Sábado para Domingo um filme - 35 shots de Rum



Vi-o esta tarde. Foi-me extremamente agradável reencontrar uma escrita cinematográfica, assente muito mais na observação psicológica dos personagens do que na narrativa . Toda a história é contada através de curtos apontamentos deixando ao "leitor" do filme espaço para ir preenchendo todos os hiatos. O drama que percorre a vida de cada um deles é narrado, também, através dos silêncios e dos comportamentos. Claire Denis é a realizadora. Correndo o risco de simplificação, direi que uma sensibilidade feminina está bem presente nesta obra. No olhar e na escuta dos silêncios.

quinta-feira, setembro 10, 2009

"Completa a tua vida"...


Certa noite, sem conseguir dormir e precisando de se animar um pouco, foi remexer nos livros da biblioteca. Não encontrou nada na sua área que pudesse, mesmo remotamente, aliviar a situação, nada que dissesse como deveria viver uma pessoa, ou encontrar sentido nos dias de vida que lhe restam. Viu então um exemplar bastante manuseado de Assim falou Zaratrustra, de Nietzsche. Conhecia bem aquele livro: décadas antes, tinha-o estudado muito, quando escrevia um livro sobre a grande, mas não conhecida, influência de Nietzsche sobre Freud. Considerava Zaratrustra um livro corajoso que, mais que qualquer outro, ensina como reverenciar e celebrar a vida. Sim, podia ser a resposta. Ansioso demais para ler com método, percorreu as páginas aleatoriamente e leu algumas linhas que estavam sublinhadas. "Mudar 'foi assim' para 'eu quis assim' é o que chamo redenção".
Entendeu que as palavras de Nietzsche significavam que era preciso escolher a sua vida-tinha de a usufruir em vez de ser "usufruido" por ela. Por outras palavras, tinha de amar o seu destino. E, acima de tudo, havia a pergunta que Zaratrustra fazia sempre- se gostaríamos de repetir a mesma vida eternamente. Uma ideia curiosa e, quanto mais Julius pensava nela, mais seguro se sentia: a mensagem de Nietzsche para nós era viver de forma a querer sempre a mesma vida.
Continuou folheando as páginas e deteve-se em dois trechos sublinhados a tinta cor-de-rosa. "Completa a tua vida". "Morre na altura certa". Isso mesmo. Viver o melhor possível e, só então, morre. Não deixes nada por viver. (...)


(Irvin D. Yalon- A Cura de Schopenhauer)

terça-feira, setembro 08, 2009

Pedro Proença em Óbidos

(Aguarelas de Turner)
(Aguarelas de Turner)
(Aguarelas de Turner)

http://www.cm-obidos.pt/News/newsdetail.aspx?news=85aa723c-7544-45b4-88dd-c48820ac7fb3


No passeio que dei por Óbidos descobri, acidentalmente, esta exposição de Pedro Proença. Nada de premeditado. Olhei e entrei. Há muito tempo que este pintor me encanta pela capacidade de utilização de figuras infantis ou grotescas que transportam uma alegria e uma "inocência" na capacidade, sempre viva, de tocarem e brincarem com quem está do lado de cá. Desta vez estes trabalhos utilizam grafismos tipográficos e um estilo de escrita usada nos romances de cordel para questionar , através do humor, diferentes formas "normopatas" de não-ser. Se passarem por lá não deixem de espreitar. O espaço do museu onde a exposição está instalada também vale bem ser olhado.

segunda-feira, setembro 07, 2009

Ainda Óbidos

(Aguarelas de Turner)
(Aguarelas de Turner)
(Aguarelas de Turner)

sábado, setembro 05, 2009

"Restos" de férias

(Aguarelas de Turner)
(Aguarelas de Turner)
(Aguarelas de Turner)

Este Verão ainda não tinha lá ido. Costumo visitá-la, pelo menos uma vez, já que é a dois passos do meu "abrigo". Uma tarde amena, a de hoje, passeei por lá, de máquina em "riste" ( como qualquer turista...) quase alheia aos enxames de turistas que percorriam todas as ruas e todos os cantos. Com a minha máquina, Óbidos pode ficar, sozinha, no retrato.

quinta-feira, setembro 03, 2009

As dores que me pertencem são fáceis...


Hoje, depois de escrever dez horas seguidas e sentindo-me cansado demais para continuar, levantei-me da mesa e tirei um livro da estante do corredor. Calhou ser Dickens, numa edição barata da Wordsworth.
Tempos Difíceis. Abri-o onde resolveu abrir-se e apareceram quatro linhas mágicas: um filho visita a mãe, velha e muito doente. Pergunta
- Sente dores, mãezinha?
e ela responde
-Tenho ideia que anda uma dor por aí mas não estou certa de me pertencer
e fiquei parvo com isto. Entre parênteses adoro ficar parvo com o que os outros escrevem: só costumo ficar parvo comigo, a interrogar-me de onde é que é que aquilo saiu, porque não foi de mim concerteza, de maneira que penso que a mão de um anjo substituiu a minha. Tenho ideia que anda uma dor por aí mas não estou certa de me pertencer é uma pérola única. Igual à vida: quantas vezes sinto isto, sem ser capaz de o exprimir. As dores que me pertencem são fáceis, as que não estou certo de me pertencerem custam tanto. Viro-as de um lado para o outro, estudo-as contra a luz, experimento-lhes o cheiro, a consistência, a cor e a dúvida perpétua
-Pertence-me?
a perplexidade, a hesitação, enquanto a dor dói e me faz sofrer para burro.
Estamos muito bem na sala e aí anda ela pelos canto, fazendo de conta que não existe e no entanto a arranhar, a arranhar, ou antes a lacerar-nos todos, a gente para a dor
-És tu?
e não responde, finge que se vai embora e fica, que não nos liga e insiste, que não quer saver de nós e não desanima. Até no meio do prazer, até no meio da alegria permanece, alarga-se, entra mais fundo, com um arzinho distraído, não nos deixa em paz. Para quê falar nisto, o que interessam as minhas dores, de resto?
(....)

(António Lobo Antunes-Uma dor por aí in Opinião/Crónica-Visão-3/09/09)

quarta-feira, setembro 02, 2009

nada sabendo da História que levanta edifícios...

(Aguarelas de Turner)


Os gatos,

não vagabundos mas sem ter um dono,

ao sol adormecidos

em ruas sem passeios,

ou esperando uma mão generosa

talvez entre ruínas,

os gatos

imortais de um modo tão humilde,

desafiam o tempo, permanecem

suportando bons e maus momentos,

nada sabendo da História

que levanta edifícios

ou os deixa abismar-se entre pedaços

belos ainda, agora nobres pedestais

dessas figuras: livres.

Olhar fixo de uns olhos muito verdes,

em solidão, em ócio e luz distante.

Olhos semicerrados, olhos quase chineses,

loira a pele em calma iluminada.

Erguido junto a um mármore,

resto sobrevivente de coluna,

alguém feliz e pulcro

alia-se com a pata bem lambida.

gatos. Frente à História,

sensíveis, sérios, sozinhos, inocentes.


(Jorge Guíllen, Gatos de Roma)

terça-feira, setembro 01, 2009

Um blog viciante

"Ponteiros Parados", ou melhor, José Ricardo Costa, incluiu-me numa lista de blogs que visita mais frequentemente. É sempre simpático receber um elogio, sobretudo se a pessoa que o concede, é alguém que se aprecia, e neste caso, pela sua vivacidade intelectual irreverente. "Ponteiros Parados" não é um blog fácil. A sua produção reflexiva é tanta que, por vezes, com o tempo que tenho, vejo-me a saltar posts que gostaria de ter disponibilidade para ler. Comentar este blogger também não é tarefa fácil. A sua cultura filosófica é ampla e profunda e, mais ainda, a sua capacidade reflexiva. Sinto, contudo, um grande estímulo quando o seu pensamento me desafia. Nem sempre concordamos, o que é bom. O que eu gosto mesmo é da sua capacidade para criar um espaço de pensamento que dá lugar a outros pensamentos.
Como os meus amigos sabem raramente me deixo tocar pelas "correntes", embora algumas vezes já tenha "pecado".
Desta vez ao ser-me atribuído este selo tenho de enunciar três objectivos para o blog. Eles aí vão:

1º- que possa continuar a ser um lugar onde me sinto bem;

2º- que possa aproveitar para continuar a encontrar aqui os meus pintores, os meus poetas, os meus escritores, os meus fotógrafos, e que eles me ensinem a dizer o que as minhas palavras apenas esgravatam.

3º- que neste espaço continue a ter o prazer de encontrar pessoas sensíveis, inteligentes, e com gosto por pensar e por trocar saberes.


Quanto à atribuição do selo a outros, quero que não me levem a mal, mas só sei dizer que todos os poucos blogs que visito são para mim "viciantes", porque gosto verdadeiramente de os visitar. Por isso, como são poucos, não vou escolher ninguém. Eles sabem que os considero, mesmo, viciantes.

Um beijo a todos os meus amigos e amigas.