Google+ Followers

sexta-feira, abril 04, 2008

Senti que chegara...

(Aguarelas de Turner) Cnossos. Sala do trono do palácio do rei Minos.

Na manhã seguinte meti-me no autocarro na direcção de Cnossos. Depois de sair do autocarro tive de caminhar mais de kilómetro e meio para chegar às ruínas. Sentia-me tão eufórico que tinha a sensação de caminhar sobre o ar. O meu sonho estava, enfim, prestes a realizar-se. O céu mostrava-se encoberto e chuviscava um pouco, enquanto ia andando. Mais uma vez, como Micenas, tinha a impressão de estar a ser atraído para o lugar. Finalmente, ao contornar uma curva, estaquei de súbito. Sentia que chegara. Olhei em redor à procura de vestígios de ruínas, mas não havia nenhuns á vista. Fiquei vários minutos parado, a olhar com atenção para os contornos dos montes lisos que quase tocavam o céu azul-ferrete. Este deve ser o lugar, disse para comigo, não devo estar enganado. Retrocedi e atalhei pelos campos até ao fundo de uma ravina. De súbito, à minha esquerda, descobri um pavilhão com colunas pintadas de cores cruas e audaciosas: o palácio do rei Minos. Encontrei-me na entrada traseira das ruínas, entre um aglomerado de edifícios que pareciam ser estripados pelo fogo. Contornei o monte para a entrada principal e segui um pequeno grupo de gregos na esteira de um guia que falava uma linguagem bustrofédona que para mim era pelásgico puro.
Houvera muita controvérsia a respeito da estética do trabalho de restauração de Sir Arthur Evans. descobri-me incapaz de chegar a qualquer conclusão a esse respeito; aceitei-o como um facto. Fosse como fosse que Cnossos pudesse ter parecido no passado, fosse como fosse que pudesse parecer no futuro, esse que Evans criou é o único que jamais conhecerei. Estou-lhe grato pelo que fez, grato por me ter tornado possível descer a grande escadaria, sentar-me naquele maravilhoso trono cuja réplica, no Tribunal de Paz de Haia, é agora quase tanto uma relíquia do passado como o original.
Cnossos sugere, em todas as suas manifestações o esplendor, a sanidade e a opulência de um povo poderoso e pacífico. É alegre- alegre, saudável, higiénico, salubre. A gente comum desempenhava um grande papel, isso é evidente.(...) Não tenho a pretensão de saber, mas senti, como raramente me aconteceu perante as ruínas do passado, que reinou aqui, durante longos séculos, uma era de paz. Há qualquer coisa de prático, de sensato, em Cnossos, o tipo de atmosfera evocado quando dizemos chinês ou francês. A nota religiosa parece graciosamente reduzida; as mulheres desempenhavam um papel importante e igual nos assuntos deste povo; ressalta acentuadamente um espírito de divertimento. Em suma, a nota prevalecente é a alegria.
(cont)

Henry Miller ( O Colosso de Maroussi)

3 comentários:

  1. Cada vez a água se adensa mais na minha boca...

    ResponderEliminar
  2. Uma delícia, como gostaria também...
    bj

    ResponderEliminar
  3. É como se revisitasse lugares dos quais gostei muitíssimo. E com algumas histórias bem engraçadas.
    Sabe-me bem "acompanhar" esta viagem. Reaviva-me a boa memória da minha. :)

    ResponderEliminar

Não são permitidos comentários anónimos