Google+ Followers

sexta-feira, janeiro 11, 2008

A vida não é cinzenta nem cor-de-rosa...


(...) O que te disse o doutor Amândio?
- Ouça, nem sei se posso acreditar no que ele me contou. Disse-me...
-Eu sei o que ele te disse...
-Bem, também me disse que não tem com a verdade compromisso nenhum.
- Faz ele muito bem. A verdade é uma velha senhora chata, estúpida e inconveniente. Além de surda, surda como as portas, que as há bastante atentas, e olha que não são poucas, mas como Deus, a quem todos suplicam e que não houve ninguém.
Procuras a verdade tu?
- Acho que sim.
-E de que te serve conhecer a verdade?
- Não é uma questão de serventia. De que me serve a beleza das estrelas, por exemplo? Alegra-me a alma. Acho que a verdade tem alguma coisa a ver com a beleza.
- Não concordo contigo, filha. Há verdades muito feias. Algumas só trazem dor.
- Sim, há verdades que magoam. Mas talvez a dor seja necessária...
- Tu acreditas nisso?
-Tem razão, a dor é inútil. Podemos passar muito bem sem ela.
-Pois podemos!- Riu-se.- As flores não têm dentes.
-A senhora leu Breytenbach?
- Não fazes ideia das coisas que eu li. Supões que pelo facto de não haver uma única boa livraria aqui em Luanda, desde a independência, supões que por isso ficámos todos burros?
- Não, claro que não...
- Não? Pois devias supor, filha, ficámos mesmo. Eu tenho a sorte de ter bons amigos, em Lisboa, no Rio de Janeiro, em Paris, que me enviam livros. Mas voltemos à verdade, e ás suas armadilhas. A verdade é um recurso de quem não tem imaginação. A mentira, pode ser, além disso, de proveito geral. Com o engodo de uma mentira pesca-se uma carpa muito autêntica...
- Shakespeare?
- Certo, o velho Guilherme. Diz-me, gostas de histórias de amor?
- Gosto sim. Gosto muito. Gosto das boas estórias.
-Estou disposta a contar-te uma estória de amor, quero contar-te essa estória, embora não hoje. Hoje sinto-me cansada e a minha estória talvez seja um pouco longa. Fica para outro dia.
- E o que que tem essa história a ver com a verdade?
-Tudo, minha querida. É a vida verdadeira de Faustino Manso.
A demonstração de como há verdades pérfidas e mentiras benévolas. A vida não é cinzenta nem cor-de-rosa. Depende das lentes com que olhamos para ela.

(José Eduardo Agualusa-As Mulheres do meu pai)

2 comentários:

  1. A vida tem todas as cores. A gama escolhida é que faz toda a diferença. Quem julga conhecer o resultado das misturas, pode ter surpresas desagradáveis...
    Beijo.
    António

    ResponderEliminar
  2. Gostei de ler este livro do Agualusa. E o "O vendedor de passados". São ambos muito bons. Levam até nós palavras que ganham vida.

    (:

    ResponderEliminar

Não são permitidos comentários anónimos