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quinta-feira, junho 29, 2006

No Azul intenso de uma tarde de Verão...



No azul intenso de uma tarde de Verão
é densa a folhagem e parece absorta sob o sol claro.
Tudo está maduro e cheio.Não há ameaça que pese
sobre as coisas. Apesar disso, o meu amor,
distante como o sol e tão próximo,
em si vive e só de si.


Sandro Penna (1906-1977)-No Brando Rumor da Vida

quarta-feira, junho 28, 2006

Qual é a Verdade?

(Dufy)

Qual é a verdade? É o rio
que flui e passa
e onde o barco e o barqueiro
são também ondas de água?
Ou este sonhar de marujo
sempre com margens e âncora?

Antonio Machado, in Poesia do século XX, trad. de Jorge de Sena, ed. ASA.



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Enviado por Amélia Pais
http://barcosflores.blogspot.com/

o que é mais simples...não se encontra no curso previsível da vida...





Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios.

Nuno Júdice

domingo, junho 25, 2006

UM DOMINGO COM PAUL CELAN



CRISTAL

Não procura nos meus lábios tua boca,
não diante da porta o forasteiro,
não no olho a lágrima.

Sete noites acima caminha o vermelho ao vermelho,
sete corações abaixo bate a mão à porta,
sete rosas mais tarde rumoreja a fonte.

( tradução: Claudia Cavalcanti )


Paul Celan

When I'Sixty four...(AOS AMIGOS QUE ESTÃO DE PARABÉNS)

(Lartigue)

WHEN I'M SIXTY FOUR (1967)


When I get older losing my hair
many years from now
will you still be sending me a valentine
birthday greeting, bottle of wine
If I'd been out till quarter to three
would you lock the door
Will you still need me
Will you still feed me
When I'm sixty-four

You'll be older too
And if you say the word
I could stay with you

I could be handy mending a fuse
when your light have gone
You can knit a sweater by the fireside
Sunday mornings, go for a ride
Doing the garden, digging the weeds
Who could ask for more
Will you still need me
Will you still feed me
When I'm sixty-four

Every summer we can rent a cottage on the
Isle of Wight, if it's not too dear
We shall scrimp and save
Grandchildren on your knee
Vera, Chuck, and Dave

Send me a postcard, drop me a line
stating point of view
indicate precisely what you mean to say
yours sincerely wasting away
Give me your answer fill in a form
mine forever more
Will you still need me
Will you still feed me
When I'm sixty-four

Paul MacCartney
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Enviado por Amélia Pais
http://barcosflores.blogspot.com/

quinta-feira, junho 22, 2006

Alto como o silêncio

(Gaugin)


Alto como o silêncio

A ilha te fala
de rosas bravias
com pétalas
de abandono e medo.

No fundo da sombra
bebendo por conchas
de vermelha espuma
que mundos de gentes
por entre cortinas
espessas de dor.

Oh, a tarde clara
deste fim de Inverno!
Só com horas azuis
no fundo do casulo,
e agora a ilha,
a linha bravia das rosas
e a grande baba negra
e mortal das cobras.

Maria Manuela Margarido

quarta-feira, junho 21, 2006

No olhar a alma também...

(Louis Valtat)


Pousa um momento,
Um só momento em mim,
Não só o olhar, também o pensamento.
Que a vida tenha fim
Nesse momento!

No olhar a alma também
Olhando-me, e eu a ver
Tudo quanto de ti teu olhar tem.
A ver até esquecer
Que tu és tu também

Só tua alma! sem tu
Só o teu pensamento
e eu vendo, alma sem eu. Tudo o que sou
Ficou com o momento
E o momento parou.

Fernando Pessoa (Inéditas- 1919-1935)

domingo, junho 18, 2006

UM DOMINGO COM O POETA E A PINTURA

(Goya)

AMOR DE GOYA

A Carlos Nejar


Qual das duas, a nua ou a vestida,
contém a sua alma? Seguramente
ambas percorreu poro a poro,
afundou-se no seu peito, na suave
cratera do ventre, na fenda
gomosa que nenhum filho lhe deu
e no bosquete, no acre perfume das axilas;
beijou em ambas os olhos tremendamente inexplicáveis,
o ponto equidestante dos lábios e sua deliada união,
tocou-lhes na anca, nessa parte
que nem a garupa do mais esbelto dos seus cavalos
excedeu alguma vez
e acariciou-lhes os joelhos,
implorando, sem palavras, morrer entre eles.


Se pudesse trocar de alma, a tua, Goya,
escolheria. Felicidade da pintura:
eis vivo, duplo, evidência cósmica, o que amaste
e tu dentro delas, sangue, carnação, a luz
distante, orgulhosa, dolorida de seus olhos.


António Osório ( O lugar do Amor)

sábado, junho 17, 2006

Amo o Vermelho...e apesar disso a flor que eu amo é branca...



Febre vermelha

Rosas de vinho!abri o cálice avinhado,
Para que em vosso seio o lábio meu se atole:
Beber até cair, beber até o último gole!

Rosas de sangue!abri o vosso peito, abri-o!
Montanhas alagai! deixai-as transbordar!
Às ondas como o Oceano, ou antes como um rio
Levando na corrente Ofélias de luar...

Camélias!entreabi os lábios de Eleonora,
Desabrochai, à lua, a ânsia do vosso cálix!
Dá-me o teu génio, dá! ó túlipa de aurora!
E dá-me o teu veneno,ó rubra digitális!

Papoilas!descerrei essas bocas vermelhas,
Apagai-me esta sede estonteadora e cruel:
Ó favos rubros! os meus lábios são abelhas,
E eu ando a construir meu cortiço de mel.

Rainúnculos!corai minhas faces de terra!
Que seja sangue o leite e rubis as opalas!
Tal se vêem pelo campo, em seguida a uma guerra,
Tintos da mesma cor os corações e as balas!

Chagas de Cristo! abri as pétalas chagadas,
Numa raiva de cor, numa erupção de luz!
Escancarai a boca,às vermelhas risadas,
Cancros de Lázaro!Feridas de Jesus...

Flores em brasa! Orgãos de cor! Tirava
Óperas de oiro, pudesse eu, das vossas teclas.
Vulcões de Maio! ungi minha pele de lava!
Dai-me energia, audácia, ó pequeninos Heclas!

Dai-me do vosso sangue, ó flores! entornai-o
Nas veias do meu corpo estragado e sem cor
Que vida negra! Foi escrito, à luz do raio,
O triste fado que me deu Nosso Senhor.

Cismo já farto de velar minha alma doente,
Não dura um mês sequer, minhas amigas, vede!
Mas, mal vos vejo, então, pulo alegre e contente
A uivar, como os leões quando os ataca a sede!

Corto o estrelado Céu, voo através do Espaço,
Cruzo o Infinito e vou rolar aos pés de Deus,
Como se acaso fosse, em catapultas de aço,
Por um Titâ de bronze atirado a esses céus!

Amo o Vermelho.Amo-te , ó hóstia do sol-posto!
Fascina-me o escarlate, os meus tédios estanca:
E apesar disso, ó cruel histeria do Gosto
Miss Charlotte, a flor que eu amo, é branca...


António Nobre (Leça,1886)

sexta-feira, junho 16, 2006

DAVID SEMPRE!




Penélope

mais do que um sonho: comoção!
sinto-me tonto, enternecido,
quando, de noite, as minhas mãos
são o teu único vestido.

e recompões com essa veste,
que eu, sem saber, tinha tecido,
todo o pudor que desfizeste
como uma teia sem sentido;
todo o pudor que desfizeste
a meu pedido.

mas nesse manto que desfias,
e que depois voltas a pôr,
eu reconheço os melhores dias
do nosso amor.

David Mourão Ferreira

quarta-feira, junho 14, 2006

Hoje porém falo húngaro na perfeição...

( Velsmann)

Devia ser proibido debochar de quem se aventura em língua estrangeira.Certa manhã, ao deixar o metrô por engano numa estação azul igual à dela, com um nome semelhante à estação da casa dela, telefonei da rua e disse: aí estou chegando quase.Desconfiei na mesma hora que tinha falado besteira, porque a professora me pediu para repetir a sentença.Aí estou chegando quase...havia provavelmamente algum problema com a palavra quase.Só que, em vez de apontar o erro,ela me fez repeti-lo, repeti-lo, depois caíu numa gargalhada que me levou a bater o fone. Ao me ver à sua porta teve outro acesso e quanto mais prendia o riso à boca, mais se sacudia de rir com o corpo inteiro.Disse enfim ter entendido que eu chegaria pouco a pouco, primeiro o nariz, depois uma orelha, depois um joelho, e a piada nem tinha essa graça toda. Tanto é verdade que em seguida KrisKa ficou meio triste e, sem saber pedir desculpas, roçou com a ponta dos dedos meus lábios trémulos. Hoje porém posso dizer que falo húngaro com perfeição, ou quase. Quando à noite começo a murmurar sózinho, a suspeita de um ligeiríssimo sotaque aqui e ali muito me aflige. Nos ambientes que frequento, onde discorro em voz alta sobre temas nacionais, emprego verbos raros e corrijo pessoas cultas, um súbito acento estranho seria desastroso. Para tirar a cisma, só posso recorrer a Kriska, que tão pouco é muito confiável; a fim de me segurar ali comendo em sua mão, como talvez deseje, sempre me negará a última migalha. Ainda assim, volta e meia lhe pergunto em segredo: perdi o sotaque? Tinhosa ,ela responde: pouco a pouco, primeiro o nariz, depois uma orelha...E morre de rir, depois se arrepende, passa as mãos no meu pescoço e por aí se vai.

Chico Buarque ( Budapeste)

segunda-feira, junho 12, 2006

Y Uno aprende...

( Laughin)

Y Uno Aprende
Después de un tiempo,
uno aprende la sutil diferencia
entre sostener una mano
y encadenar un alma,
y uno aprende
que el amor no significa acostarse
y una compañía no significa seguridad
y uno empieza a aprender...
Que los besos no son contratos
y los regalos no son promesas
y uno empieza a aceptar sus derrotas
con la cabeza alta y los ojos abiertos
y uno aprende a construir
todos sus caminos en el hoy,
porque el terreno del mañana
es demasiado inseguro para planes...
y los futuros tienen una forma de caerse
en la mitad.
Y después de un tiempo
uno aprende que si es demasiado,
hasta el calorcito del sol quema.
Así que uno planta su propio jardín
y decora su propia alma,
en lugar de esperar a que alguien le traiga flores.
Y uno aprende que realmente puede aguantar,
que uno realmente es fuerte,
que uno realmente vale,
y uno aprende y aprende...
y con cada día uno aprende.

.Copyright ©Jorge Luis Borges

domingo, junho 11, 2006

UM DOMINGO COM RILKE E RODIN

( Rodin)

A renúncia ao amor ou a plenitude do amor, ambas são extraordinárias e sem igual apenas quando a experiência inteira do amor, com todos os seus prazeres quase indestrinçáveis(e que entre si mesmos alternam, de tal modo que a alma já não pode aqui ser separada do corpo), ocupa um lugar central: pois também aqui(no arrebatamento dos amantes ou dos homens santos de todos os tempos e de todas as religiões) a renúncia e a plenitude são já idênticas.Quando o infinito se mostra inteiro ( seja como + ou como - ), cai o sinal, um sinal, ah, tão humano como o caminho que agora percorremos até ao fim- e o que permanece é termos chegado, o que permanece é o ser!- Da carta a Rudolf Bodlander, 23 de Março de 1922

Auguste Rodin Rainer Maria Rilke ( Momentos de Paixão)

sábado, junho 10, 2006

Em que espelho ficou perdida a minha face?

(Modigliani)

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
-Em que espelho ficou perdida
a minha face?


Cecília Meireles (Antologia Poética)

sexta-feira, junho 09, 2006

Receber na nossa casa, ao caír da noite, um convidado...

( Cassat)

Um Mestre de Leitura


Ramin Jahanbegloo- Ontem falámos da sua vida.Hoje gostaríamos que falássemos do seu trabalho. Como o define? É um filólofo, um crítico literário ou um leitor do nosso mundo?

George Steiner- Gostaria de ser recordado - por pouco que perdure nas memórias- como um mestre da leitura, como alguém que passou a vida a ler com os outros. Para conhecermos bem o acto de leitura, devemos servir-nos das análises muito finas de Charles Péguy que deu na sua obra o exemplo de uma definição em filigrana e densa, intensa e cheia daquilo que uma leitura bem feita implica.É uma leitura que implica uma responsabilidade, e neste termo contém-se o de resposta. Trata-se portanto de responder a um texto, à presença e à voz de outrem. E isso tornou-se difícil senão impossível numa cultura onde o ruído é constante, que não tem de reserva uma prata de silêncio ou sequer de paciência. Entendo a paciência na sua acepção do sec XVII, quando a etimologia prevalecia em certas fórmulas, dando a "paciência" ou a "sofrer" um sentido que hoje se desvanece. Ler não é sofrer, mas falando com propriedade, estarmos prontos a receber em nossa casa um convidado, ao caír da noite. A imagem que os grandes poetas sugerem, e também emerge em Heidegger ou nos pensadores pré-socráticos, é a de um acolhimento aberto ao pensamento, ao amor e ao desejo dos outros, através da prática da leitura, da audição da música e do conhecimento da arte. Trata-se de aprender com os outros a escutar melhor. É por isso que o ensino me foi sempre indispensável quando em várias ocasiões teria podido, materialmente falando, abandoná-lo. Mas na organização da minha existência, procurei-o sempre como um meio de reunir leitores à minha volta, para poder conservar a esperança de que depois da minha morte outros continuem a amar os poetas e os filósofos que tanto amei(...)
Trata-se de corrermos o risco de que uma noite, um texto, um quadro, uma sonata, batam á porta da nossa morada- o meu livro Presenças Reais foi todo ele construído em torno desta imagem- quando é possível que o convidado destrua e incendeie a casa inteira. Pode ser também que nos roube e a deixe vazia! Mas temos de aceitar tomar o texto dentro de nós, e não sei como dizer a riqueza dessa experiência que vivi mil vezes, nomeadamente ao ler a Ética , de Espinosa, que é para mim uma referência última. Leio todos os dias Héraclito e certos poetas modernos como Paul Celan, e ainda quando talvez não compreenda bem os textos, aprendo-os de cor para que façam parte integrante do meu ser. A obra de súbito acolhe-me, sem se explicar e eu acedo finalmente ao poema(...).
O meu voto mais querido seria ter passado a minha vida a ler, a ler no sentido mais amplo do termo, como em inglês se pode dizer I read a symphony, incluindo no ler as belas artes e a música. Toda a minha obra assenta na apreensão das vozes que se aproximam de mim. É por isso que escrevo na primeira linha de Tolstoi ou Dostoiewski que toda a verdadeira crítica é um acto de amor. É deste modo que me oponho às disciplinas modernas, sejam críticas, académicas, desconstrucionistas ou semióticas. Aos meus olhos, toda a boa leitura retribui uma dívida de amor.

Ramin Jahanbegloo ( Quatro entrevistas com George Steiner ) Fenda edições

quarta-feira, junho 07, 2006

O Sorriso...

(Decarava)

O sorriso

Creio que foi o sorriso,
sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

Eugénio de Andrade

segunda-feira, junho 05, 2006

E por cima o abraço de um branco céu perfeito...

(Goya)


VOLTO A PENSAR no teu sorriso, e ele é para mim uma água límpida
descoberta por acaso entre os seixos de um leito,
exíguo espelho onde olhas uma hera e os seus corimbos;
e por cima o abraço de um branco céu perfeito.

Esta é a minha recordação; não sei dizer, distância vã,
se no teu rosto se exprime livremente uma alma ingénua,
ou se és um fugitivo que o mal do mundo estenua
levando consigo o sofrimento como um talismã.

Mas isto posso dizer-te,que a tua pensada efígie
submerge os caprichosos desgostos numa onda rasteira,
e que a tua imagem se insinua na minha memória gris
simples como a copa de uma jovem palmeira...

Eugénio Montale

domingo, junho 04, 2006

UM DOMINGO COM FIAMA HASSE DE PAIS BRANDÃO




Canto Diurno


No silêncio bebe a sua taça
e é dor o amor enquanto espera,
imagina o desejo de repente
e lentamente olha o olhar do Outro.
Conhecer é amar, disse o divino
Platão ou outro filósofo antigo.
Porém como traçar na sombra
da persiana de luz o esboço
do teu rosto escasso ausente,
se no diurno amor a memória
o faz mais esquecer-se?

Quando Março me dá a nova flor
que abre sem palavras a corola,
eu comparo-a com o amor que eclode
na pupila do olhar em luz e sombra.
Todo o ventre é bendito, tanto
mais o da primavera do cio
de aves e flores. Também o desejo
imaginou a língua sem palavras,
e que é a do som do Canto e dos poemas.

Este diurno Amor está em corpo,
e num e noutro, como o pão partido
no banquete dos convivas silenciosos
que é o de cada um consigo e os outros.
Nenhuma coisa ausente o partilha,
quando as estações do tempo passam
por nós depois da Primavera e param
na longa mesa posta para o Verão.
Tudo é presença aqui, e o tempo é dia.



© 1994, Fiama Hasse Pais Brandão

sábado, junho 03, 2006

Quanto mais analisava os estratos...

(Evans)


Quanto mais analisava os estratos, apoiando-me com todas as minhas energias no fundamento geológico, escavando a crosta, remexendo no concreto, mais expunha as falhas, as fraquezas, uma falta de consistência, e mais suspeitava que na origem das conquistas, dos Descobrimentos, da expansão marítima, tinha estado este sentimento de incompletude, de inconsistência, de vacuidade, que o meu desejo obessivo de geógrafo se obstinava em querer mascarar. Quanto mais me empenhava em dissimulá-lo, à força de desenrolar mapas, longitudes, latitudes, cumes mais evidenciava que a existência deste país só se tornava tangível se fosse pensado de longe, de outro lugar, de uma outra margem, que era esta mesma inexistência que condenava a geografia a não ser nada ao revelar que, sonhado da outra extremidade do mundo,este país não era apenas pura ficção, não era apenas fruto da imaginação,não era exactamente nada.
Não há um único conto, um único mito, uma só história fantasmagórica específica deste território que não resultem de uma decepção.(...)Contrariamente aos mundos interiores, que são produzidos pela imaginação e pelo desejo insatisfeito, inacessível, de um conhecimento que se aproxima de outro lado; contrariamente aos devaneios sem implicações geográficas, sem consistência, mas a que no entanto o desejo de partir deste mundo dá relevos magníficos, os verdadeiros novos mundos não passam de mundos vulgares,clichés.São praticamente iguais: com indígenas parecidos, montes,lagos,rios, parecidos; vegetação parecida, parecidas as mulheres e as suas mamas, parecidas a negra e Rosa Maria.
Supúnhamos descobertas tão grandes, prevíamos confrontos tão brutais com seres impensáveis; preparámo-nos para isso.Sem prever que o sonho é sempre mais forte do que a realidade, sempre mais consistente do que o apenas real, mais belo, mais louco do que a verdade. Foi por causa desse sonho que me tornei geógrafo.

Brigitte Paulino-Neto ( A Melancolia do Geógrafo)

sexta-feira, junho 02, 2006

quinta-feira, junho 01, 2006

Dobrar na boca o frio da espora...

( Matisse )

Resistir



Dobrar na boca o frio da espora

Calcar o passo sobre lume

Abrir o pão a golpes de machado

Soltar pelo flanco os cavalos do espanto

Fazer do corpo um barco e navegar a pedra

Regressar devagar ao corpo morno

Beber um outro vinho pisado por um astro

Possuir o fogo ruivo sob a própria casa

numa chama de flechas ao redor.


Joaquim Pessoa