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sexta-feira, maio 19, 2006

É verdade que a verdade que procuro não está nela mas em mim...



Mas no preciso instante em que o gole com migalhas de bolo misturadas me tocou o céu da boca, estremeci, atento ao que de extraordinário estava a passar-se em mim. Fora invadido por um prazer delicioso, um prazer isolado, sem a noção da sua causa.Tornara-me imediatamente indiferentes as vicissitudes da vida, inofencivos os seus desastres, ilusória a sua brevidade, do mesmo modo que o amor opera, enchendo-me de uma essência preciosa: ou, antes, tal essência não estava em mim, era eu mesmo. Deixara de me sentir medíocre, contingente, mortal.Donde poderia ter vindo aquela poderosa alegria? Sentia-a ligada ao gosto do chá e do bolo, mas ultrapassava-o infinitamente, não devia ser da mesma natureza. Donde vinha? Que significava? Onde agarrá-la? Bebo um segundo gole, no qual nada encontro a mais que no primeiro, e um terceiro que me traz um pouco menos que o segundo.É tempo de parar, a virtude da bebida parece estar a diminuir.É verdade que a verdade que procuro não está nela mas em mim.(...) Poiso a xícara e volto-me para o meu espírito. A ele cabe encontrar a verdade. Mas como? Grave incerteza, sempre que o espírito se sente ultrapassado por si mesmo; quando ele, o explorador, é todo ele o país escuro que tem a explorar e onde lhe não servirá de nada toda a sua bagagem. Explorar? Não só:criar.Está diante de algo que não é ainda e que só ele pode tornar real e depois fazer entrar na sua luz.

Marcel Proust (Do lado de Swann)

1 comentário:

  1. É das passagens mais bonitas do "...tempo perdido", recuperado através da memória do gosto. O tempo psicológico, elástico, esticando-nos a memória até aos territórios mais distantes e escondidos...

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