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quinta-feira, maio 19, 2011

Isso é essencial para o destino futuro de meu filho...

Senhora:


Ponte de Lima, 18 de Novembro de 1845


Recebi carta de meu pai, que novamente me recomenda a criação de meu filho, e se me oferece para mandá-lo criar no Pôrto, em companhia da minha família, quando a senhora nisto convenha. espero, pois, a sua resposta para nessa inteligência escrever a meu pai.
Ele me recomenda igualmente-e também o desejo-que no assento de Baptismo se declare ser meu filho, sem todavia se enunciar o nome da mãe. Isso é essencial para o destino futuro de meu filho e para que , no caso de se verificar o meu casamento consigo,- o que talvez haja de acontecer brevemente- não seja precisa em tempo algum justificação de filiação. Espero se ponha ao nosso filho, o meu ou o seu nome, conforme deve ser.
Adeus. Acredite sempre nas minhas sinceras tenções- e agora mais do que nunca- Queiroz.




Esta carta foi escrita cinco dias antes do nascimento  de José Maria. Inexplicavelmente foi classificada por J.Gaspar Simões de "gélida", "falta de sentimento", quando o pai de José Maria insistira, em nome de seu pai e do próprio, para que o seu filho tenha o seu nome e apelido. Como se sabe são muitos os filhos naturuais que não têm indicação da linhagem da raiz materna ou paterna que os originou. É vulgar que o filho natural receba vários pronomes, o primeiro indicando o sexo e talvez mesmo o nome de algum avô ou antepassado. O apelido é substituído em geral por um segundo pronome. Nesta carta o pai, José Maria de Queiroz, procura, por um lado dar o seu nome ao seu primogénito e evitar que ele seja um "filho das ervas" crescendo junto de Ana Joaquina Leal de Barros. A mesma carta prevê para breve o consórcio com Carolina.
Toda esta atitude (embora expressa de maneira seca, visto a carta ser destinada a ser lida por terceiros) está de acorodo com as posturas de aprumo e de pundonor que o juiz Teixeira de Queiroz mostrou na sua vida profissional, sempre exemplar em questões de honra.
Duas atitudes do juiz Teixeira Queiroz não ficaram esquecidas a propósito de duas retumbantes causas do sec. XIX. A primeira dizia respeito ao fabrico e exportação de moeda falsa pelo conde de Bulhão. Havia dúvidas que jamais um magistrado  se atrevesse a pronunciar o Bulhão devido às suas relações com personagens altamente colocados, inclusive com o todo poderoso Marechal Saldanha. Pois o juiz Teixeira de Queiroz levou o caso às últimas consequências e conseguiu pronunciar o célebre titular. Outra causa célebre foi o processo contra Camilo e Ana Plácido, por adultério. Queiroz começa por se dar como suspeito mas como o Supremo não aceita esta posição vai dá-los por impronunciáveis, por falta de provas.
Tudo indica que a rejeição e ilegitimidade de que Eça de Queiroz foi vítima se ficou a dever mais à mãe, carolina, do que a quaisquer outros factores que poderiam ser evocados: fuga do pai à sua responsabilidade, falta de meios de ambos os pais, medo das objecções dos parentes da família do lado da mãe. Ao que parece Carolina ficou raivosa de ter caído numa falta e zangou-se com o namorado-sedutor, recusando-se a casar. Vão neste sentido os testemunhos de pessoas da família de Carolina d' Eça, cujos relatos foram recolhidos por Tomaz d'Eça Leal, Severino Costa, Maria Augusta d' Alpoim. A mãe de Carolina na hora da morte t~e-la-ia feito prometer que casaria com o juíz Teixeira Queiroz. Alguns desses relatos referem que Carolina considerava a sedução de que tinha sido alvo como alguma coisa que jamais perdoaria ao marido. Este não perdão ter-se-ia estendido ao filho do "pecado".


Pedro Luzes- Sob o manto diáfano do realismo. Psicanálise de Eça de Queiroz

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