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segunda-feira, outubro 19, 2009

Uma mulher que olhava o mar



                                          (Dali)

No salão de Primavera de 1946 expus um quadro chamado Maternidade. O seu estilo era semelhante ao dos meus quadros anteriores. Como dizem os críticos no seu dialecto insuportável, era sólido, estava bem arquitectado. Possuía, enfim, os atributos que esses charlatães encontram sempre nas minhas telas, incluindo « alguma coisa profundamente intelectual». Mas na parte superior, do lado esquerdo, através de uma janelita avistava-se uma cena pequena e longínqua: uma praia solitária e uma mulher que olhava o mar. A mulher olhava como se esperasse alguma coisa, talvez um apelo ténue e distante. Na minha opinião, a cena sugeria uma solidão ansiosa e absoluta.
Ninguém lhe prestou atenção. Passavam os olhos por ela como se fosse qualquer coisa de secundário, provavelmente decorativo. Apenas uma pessoa pareceu compreender que era algo de essencial. Foi no dia da inauguração. Uma rapariga desconhecida esteve muito tempo diante do meu quadro sem conceder, aparentemente, importância à grande mulher situada em primeiro plano, a mulher que via o menino a brincar. Em contrapartida, olhou fixamente a cena da janela e, enquanto o fazia, tive a certeza de que estava isolada do mundo e não via nem ouvia as pessoas que passavam ou se detinham diante do meu quadro.
Observei-a todo o tempo com ansiedade. Depois ela desapareceu na multidão, enquanto hesitava entre um medo invencível e um angustiante desejo de a chamar.

(Ernesto Sabato- O Túnel)

2 comentários:

  1. Em boa hora aquela mulher deixou por momentos a lida da casa e foi olhar o mar sereno...

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  2. A visitante imaginou-se como se fosse ela a figurar na tela com o mar (apenas) por companhia.

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