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segunda-feira, agosto 31, 2009

Ignoro porquê...


Ignoro porquê (o Concerto para a mão esquerda?), interrompo o esforço de ir escurecendo ( em verdade azulando) este caderno. Quando recomeço, volvidos alguns minutos, ponho um sinal na página cento e quinze-lembrar-me-ei assim, ao chegar lá, da minha inquietação, a curiosidade há-de obrigar os meus dedos a voltarem aqui, os meus olhos poderão ler as seguintes palavras (então por completo esquecidas, agora ainda por escrever):

Pouco depois de nos levantarmos e enquanto me barbeava, a Maria dos Remédios disse, através da porta:
- Costumas pensar muitas vezes na Catarina?
Demorei a resposta. Porque diabo lhe teria passado hoje aquela ideia pela cabeça- hoje e não há seis anos? Logo pela manhã, em vez de uma dessas frases iguais a muitas outras ( de paredes sólidas e sem janelas), teria eu deixado escapar algumas palavras transparentes, reveladoras de que a Catarina estava, continua a estar, no mais íntimo dos fundos, no mais íntimo de mim?
Com a máquina de barbear em punho, com o meu rosto bem na minha frente, lancei-me à procura do momento preciso em que acordei, dos minutos simultaneamente longos e apressados que precedem a decisão final de sair da cama, a conversa sobre o Aníbal Soares, a obrigação inadiável de o ir ver ao hospital, o...
Para além da porta fechada, os passos da Maria dos Remédios afastavam-se- aparentemente desinteressara-se de ouvir a resposta, pelo menos desinteressara-se de uma resposta precipitada, preferia conceder-me alguns momentos de reflexão.
Não muitos; os passos regressavam:
Acháva-la bonita?
Ao mesmo tempo fico espantado comigo próprio: vivo contigo; Maria dos Remédios, há tantos anos, e nunca suspeitei desse teu vício ( a aritmética dos sentimentos).
-Ela era muito bonita-digo. Acabada a barba, abrira a porta e, em vez do meu, tinha agora em frente o rosto da Maria dos Remédios. Acrescento, receoso de uma ruga que lhe descia da testa, um pouco acima do nariz: -Não posso dar outra resposta, percebes?
- Sim, poderias dizer: a Catarina era feia.
-Saberias que eu teria mentido.
-E também que tinhas adivinhado o meu desejo de ouvir- adoçou levemente a voz, imitando a voz que me faltara:Tu és mais bonita...
-Desejavas, de facto?
-Não.
Perguntaste«Costumas pensar muitas vezes na Catarina?» E também: «Acháva-la muito bonita?» Vou responder-te agora de outra maneira: «Receia, sim, a concorrência das mulheres que não conheço- as que conhecerei daqui a quatro ou cinco meses. Daqui a quatro ou cinco meses terás envelhecido quatro ou cinco meses, essas mulheres não terão envelhecido um único segundo. Daqui a quatro ou cinco meses terão rigorosamente a idade que tiverem, a idade com que as conhecerei daqui a quatro ou cinco meses, eu que não as terei conhecido quatro ou cinco meses antes».

(Augusto Abelaira- Bolor)


Os livros vivem repartidos entre as duas casas, a da cidade e a do campo. Por vezes imagino que tenho um livro na estante de lá e ao revisitá-la, descubro como a memória me atraiçou. Afinal a estante em que eu o colocara era a estante errada e acabo depois por descobri-lo na casa da infância. Foi no meio destas baralhações de memória que me vi a procurar para o meu filho " Os Miseráveis " de Victor Hugo, acabando por descobrir que a estante em que ele estaria arrumado era a estante da casa dos meus pais. Assim sendo, o rapaz disse-me: "então escolhe-me aí um livro que te tenha marcado, não quero um livro qualquer, um livro que tu tenhas mesmo gostado..."Dedilhei a literatura portuguesa e dei por mim a deter-me nos dois livros do Abelaira que por lá encontrei: A cidade das Flores e o Bolor. Ao certo já não sabia dizer o que me tinha encantado neles.Sabia que tinha gostado. Havia que escolher entre dois. Foi o "Bolor" que se me impôs. Porquê, não me lembrava bem na altura. Vou agora voltar a redescobri-lo, mais de trinta anos depois...

3 comentários:

  1. Quando li o livro -talvez há tantos anos como a amiga. achei que, com A Náusea do Sartre, o título correspondia por completo ao conte+udo...Curioso como estas coisas permanecem connosco, mesmo que aparentemente esquecidas.

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  2. Bom gosto, sem dúvida, mas eu teria escolhido "Florença", quer dizer, "A Cidade das Flores" e regressado aos tempos da melhor juventude.

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  3. É bom quando um filho pede à mãe um livro que a tenha marcado. Significa que quer ser marcado pelas mesmas vivências que marcaram a mãe. É bom, claro, desde que as experiências que marcaram a mãe funcionem como ponto de partida, e não como ponto de chegada, para as experiências que marcam o filho.
    Será, certamente, o que aqui acontece.

    JR

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