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sexta-feira, março 07, 2008

Não sei qual dos dois escreve esta página....

(Magritte)
É ao outro, a Borges, que acontecem as coisas. Eu caminho por Buenos Aires e demoro-me, talvez já mecanicamente, a olhar o arco de um alpendre e o guarda-vento; de Borges tenho notícias pelo correio e vejo o seu nome num grupo de professores ou num dicionário biográfico. Gosto de relógios de areia, dos mapas, da tipografia do sec. XVIII, do sabor do café e da prosa de Stevenson; o outro compartilha dessas preferências, mas de um modo vaidoso, que as converte em atributos de um actor. Seria exagerado afirmar que as nossas relações são hostis; eu vivo, eu deixo-me viver, para que Borges possa tecer a sua literatura, e essa literatura justifica-me. Nada me custa confessar que conseguiu certas páginas válidas, mas essas páginas não me podem salvar, talvez porque o que é bom já não é de ninguém, nem sequer do outro, mas sim da linguagem ou da tradição. Além do mais, estou destinado a perder-me, definitivamente, e apenas algum instante meu poderá sobreviver ao outro. A pouco e pouco vou cedendo-lhe tudo, embora não desconheça o seu perverso costume de falsear e de magnificar. Spinoza entendeu que todas as coisas querem ser preservadas no seu ser; a pedra quer eternamente ser pedra e o tigre tigre. Eu hei-de ficar em Borges, não em mim (se é que sou alguém), mas reconheço-me menos nos seus livros que em muitos outros ou que no laborioso zangarreio de uma viola. Há anos procurei libertar-me dele e passei das mitologias do arrabalde ao jogos com o tempo e com o infinito, mas esses jogos são agora de Borges e terei de idealizar outras coisas, Assim a minha vida é uma fuga e perco tudo e tudo é do esquecimento ou do outro.
Não sei qual dos dois escreve esta página.

(Jorge Luis Borges- Poemas escolhidos)

1 comentário:

  1. nunca somos apenas uma versão. por isso é que, na maior parte das vezes, não sabemos o caminho.

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