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quinta-feira, março 13, 2008

Em Kalami os dias corriam como uma canção...

(Boudin)
Em Kalami os dias corriam como uma canção. De vez em quando, escrevia uma carta ou tentava pintar uma aguarela. Havia muito que ler lá em casa, mas eu não sentia o mínimo desejo de olhar para um livro. Durrell tentou convencer-me a ler os Sonetos de Shakespeare e, após um cerco de aproximadamente uma semana, acabei por ler um, talvez o soneto mais misterioso que o bardo escreveu. (Creio que era «The Phoenix and the Turtle".) Pouco depois recebi pelo correio A Doutrina Secreta e a isso sim, atirei-me com gana. Reli também o Diário de Nijinski. Sei que voltarei a lê-lo mais vezes. Há apenas alguns livros que sou capaz de ler e reler: um é Mysteries e o
outro O Eterno Marido.Talvez devesse acrescentar também Alice no País das Maravilhas. Seja como for, era muito melhor passar os serões a conversar e a cantar, ou parado nos rochedos à beira da água a estudar as estrelas com um telescópio.
Quando a Condessa reapareceu em cena, convenceu-nos a passar alguns dias na sua propriedade noutra parte da ilha. Passámos juntos três dias maravilhosos e depois, no meio da noite, o exército grego foi mobilizado. A guerra ainda não tinha sido declarada, mas o apressado regresso do rei a Atenas foi interpretado por toda a gente como um sinal nefasto. Todos quantos dispunham dos meios necessários pareciam determinados a seguir o exemplo do monarca. A cidade de Corfu estava mergulhada em verdadeiro pânico. Durrell queria alistar-se no Exército grego para prestar serviço na fronteira albanesa; Spiro, que ultrapassara o limite de idade, também desejava oferecer os seus préstimos. Passaram alguns dias assim, cheios de gestos histéricos, e depois, como se tudo tivesse sido organizado por um empresário, encontrámo-nos todos à espera do barco para nos levar a Atenas. O barco deveria chegar às nove da manhã, mas
nós só embarcámos às quatro da manhã seguinte. Nessa altura, o cais estava cheio de uma indescritível confusão de bagagens sobre os quais os febris donos se sentavam ou estiraçavam, esforçando-se para parecerem despreocupados, quando na realidade tremiam de medo. A cena mais vergonhosa verificou-se quando lanchas entraram finalmente em acção. Como de costume, os ricos insistiam em embarcar primeiro. Em virtude de ter uma passagem de primeira classe, dei comigo entre os ricos. Sentia-me completamente enojado e com uma certa vontade de não embarcar, sequer, e regressar calmamente a casa de Durrell, e deixar as coisas seguirem o seu curso. Foi então que descobri que, mercê de qualquer singularidade miraculosa, afinal não embarcaríamos em primeiro lugar, mas sim em último. Toda a bela bagagem começou a ser retirada das lanchas e atirada de novo para o cais. O meu coração animou-se.(cont.)

(Henry Miller- O Colosso de Maroussi)

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