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domingo, setembro 23, 2007

NOTAS DE VIAGEM XXXI - presença, sempre presente...

Fernando Pessoa (13 anos)


Quando eu me sento à janela
P'los vidros qu'a neve embaça
Vejo a doce imagem d'elia
Quando passa... passa.... passa...

N'esta escuridão tristonha
Duma travessa sombria
Quando aparece risonha
Brilha mais qu'a luz do dia.

Quando está noite ceifada
E contemplo imagem sua
Que rompe a treva fechada
Como um reflexo da lua,

Penso ver o seu semblante
Com funda melancolia
Qu'o lábio embriagante
Não conheceu a alegria

E vejo curvado à dor
Todo o seu primeiro encanto
Comunica-mo o palor
As faces, aos olhos pranto.

Todos os dias passava
Por aquela estreita rua
E o palor que m'aterrava
Cada vez mais s'acentua

Um dia já não passou
O outro também já não
A sua ausência cavou
Ferida no meu coração

Na manhã do outro dia
Com o olhar amortecido
Fúnebre cortejo via
E o coração dolorido

Lançou-me em pesar profundo
Lançou-me a mágoa seu véu:
Menos um ser n'este mundo
E mais um anjo no céu.

Depois o carro funério
Esse carro d'amargura
Entrou lá no cemitério
Eis ali a sepultura:

Epitáfio.

Cristãos! Aqui jaz no pó da sepultura
Uma jovem filha da melancolia
O seu viver foi repleto d'amargura
Seu rir foi pranto, dor sua alegria.

Quando eu me sento à janela
P'los vidros qu'a neve embaça
Julgo ver imagem dela
Que já não passa... não passa.

Fernando Pessoa, Maio de 1902 (escrito durante a sua visita à família materna à ilha Terceira)


(Aguarelas de Turner)

Ao percorrermos as ruas de Vila Praia da Vitória encontramo-nos com o" Passeio dos Poetas",
que nos revela em cada rua, em cada esquina, um sentir, uma emoção - tudo fica mais "aconchegado"
dentro de nós... Este foi um bonito exemplo que colhi desse" Passeio" e,..também uma
curiosa e agradável coincidência...


(Aguarelas de Turner) busto de V.Nemésio com casa das tias por fundo

Não cantarei a virgem que o cavalo

Com um xairel de sangue arrebatou,

Quebrada pelo bruto, -nem levá-Io

Ao potro vingador de um verso vou.

Não cantarei tal noite aziaga. Falo

Apenas do que tenho, do que sou

Com ela, como o vinho no gargalo

Do frasco em que me bebe e me esgotou.

Nem cantarei a vítima do resto,

Violada na inocência que perdeu

Nas emboscadas de um punício lodo:

Que só meu próprio amor acendo. E atesto

A chama da Victória que me deu

Na margarida branca o mundo todo. (pág. 39).



Vitorino Nemésio, Caderno de Caligraphia e outros poemas a Marga,

OBRAS COMPLETAS, Vol. III, Imprensa Nacional-Casa da Moeda,2003.


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