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quinta-feira, maio 31, 2007

Reflexos do Olhar XCIV

(Aguarelas de Turner)

PARA TODOS NÓS

quarta-feira, maio 30, 2007

A vida toda em sonho e esperar sempre...

(Aguarelas de Turner)

Alguém tem de aparecer naquela curva
mesmo que se não saiba o que é depois
se estrada larga ou morte ou água turva
se solidão ou um a ser já dois.

A vida toda em sonho e esperar sempre
naquela curva não importa quem
alguém que diga o quê e saia ou entre
ainda que depois não mais ninguém.

Alguém há-de aparecer alguém que aponte
quem sabe se um aquém ou se um além
que nada mais senão o horizonte
daquela curva onde se espera alguém.

(Manuel Alegre- Lisboa, 19/6/2006) in Doze Naus

terça-feira, maio 29, 2007

BILLIE!

segunda-feira, maio 28, 2007

o espelho deformante....




Soneto do Cativo

Se é sem dúvida Amor esta explosão
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias,
tão longe da verdade e da invenção;

o espelho deformante; a profusão
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias
do que os outros dirão ou não dirão;

se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;

não há dúvida, Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso!

(David Mourão Ferreira)

domingo, maio 27, 2007

UM DOMINGO COM CERVANTES E D.QUIXOTE



Cuando don Quijote se vio en la campaña rasa, libre y desembarazado de los requiebros de Altisidora, le pareció que estaba en su centro y que los espíritus se le renovaban para proseguir de nuevo el asumpto de sus caballerías , y volviéndose a Sancho le dijo:

—La libertad, Sancho, es uno de los más preciosos dones que a los hombres dieron los cielos; con ella no pueden igualarse los tesoros que encierra la tierra ni el mar encubre; por la libertad así como por la honra se puede y debe aventurar la vida, y, por el contrario, el cautiverio es el mayor mal que puede venir a los hombres . Digo esto, Sancho, porque bien has visto el regalo, la abundancia que en este castillo que dejamos hemos tenido; pues en mitad de aquellos banquetes sazonados y de aquellas bebidas de nieve me parecía a mí que estaba metido entre las estrechezas de la hambre, porque no lo gozaba con la libertad que lo gozara si fueran míos, que las obligaciones de las recompensas de los beneficios y mercedes recebidas son ataduras que no dejan campear al ánimo libre . ¡Venturoso aquel a quien el cielo dio un pedazo de pan sin que le quede obligación de agradecerlo a otro que al mismo cielo !

—Con todo eso —dijo Sancho— que vuesa merced me ha dicho, no es bien que se quede sin agradecimiento de nuestra parte docientos escudos de oro que en una bolsilla me dio el mayordomo del duque, que como píctima y confortativo la llevo puesta sobre el corazón , para lo que se ofreciere, que no siempre hemos de hallar castillos donde nos regalen, que tal vez toparemos con algunas ventas donde nos apaleen.

En estos y otros razonamientos iban los andantes, caballero y escudero ...

(Cervantes-D.Quijote)

Enviado por Amélia Pais
http://barcosflores.blogspot.com/
http://cristalina.multiply.com/

sábado, maio 26, 2007

Gal Costa - Wave

Cantam a efeméride do instante....

(Aguarelas de Turner)

AS AVES

Afluem às margens, jogam
como se a água lhes pertencesse,
pousam no meio dos arbustos
como se tivessem todo o tempo! No

entanto, sabem que as nuvens
vão encher o céu; e que o norte
irá enviar o vento frio que as
há-de arrastar para sul, deixando
atrás de si o silêncio
nos campos. Mas pouco lhes importa
isso, quando se juntam, e
cantam a efemeridade do
instante.

(NunoJúdice)

sexta-feira, maio 25, 2007

quinta-feira, maio 24, 2007

Ora as sombras existem....



poema

Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas do próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca

Mário Cesariny

quarta-feira, maio 23, 2007

terça-feira, maio 22, 2007

Nem te vejo por entre a gelosia......

(Roque Gameiro)
Sempre

Nem te vejo por entre a gelosia;
Nunca no teu olhar o meu repousa;
Nunca te posso ver, e todavia,
Eu não vejo outra cousa!

(João de Deus)

segunda-feira, maio 21, 2007

A obra...é símbolo.

(Van Gogh)

Se olharmos as obras considerando a sua realidade efectiva intocada e não nos iludirmos a nós próprios a seu respeito, então torna-se manifesto que as obras que estão perante de modo tão natural como qualquer outra coisa. O quadro está pendurado na parede do mesmo modo que uma caçadeira ou um chapéu. Uma pintura, por exemplo, a de Van Gogh que apresenta um par de sapatos de camponês, anda de exposição em exposição. As obras são expedidas como o carvão da bacia de Ruhr ou como os troncos de árvore da Floresta Negra. Durante a campanha, os hinos de Hoderlin estavam enpacotados na mochila do mesmo modo que um utensílio de limpeza. Os quartetos de Beethovan jazem no armazém da editora como batatas numa cave. Todas as obras têm este carácter de coisa(...).O que seriam sem ele?(...)
O carácter de coisa está de modo tão inamovível na obra de arte que até teríamos de dizer antes ao contrário: a obra arquitectónica é em pedra. A obra de talha é em madeira. A pintura é na cor. A obra linguística é na voz. A obra músical é no som. Obviamente-replicar-se-á. É certo que sim. Todavia, o que é, na obra de arte este óbvio carácter de coisa?(...) Na obra de arte, há ainda algo de outro que é posto em conjunto com a coisa confeiçoada. (...) A obra é símbolo.

(Martin Heidegger- Caminhos da Floresta)

domingo, maio 20, 2007

La Donna è Mobile



(Verdi-Rigoletto) para o amigo e cunhado que está a passar um mau bocado

sábado, maio 19, 2007

Le Plat Pays - BREL!

Reflexos do Olhar XCIII

(Aguarelas de Turner) varanda para o sonho

sexta-feira, maio 18, 2007

quinta-feira, maio 17, 2007

"MEME"- um presente de "ALICERCES"(H.F.M.)



(Weingarten)

O fogo é-nos mais caro que o amor ou o alimento,
quente, apressado, mas queimando se lhe tocares.


O que devemos fazer
não é unir o nosso amor ou a nossa boa vontade, ou qualquer
coisa dessas,
pois temos a certeza de introduzir muitas mentiras,
mas sim o nosso fogo, o nosso fogo elementar
de modo a que se erga numa enorme chama como um falo no
espaço vazio
e venha fecundar o zénite e o nadir
enviando milhões de centelhas de novos átomos
e nos queime e incendeie a nossa casa.


D.H.Lawrence ( Os animais evangélicos e outros poemas)(publicado nos primeiros meses do blog)


(UM " MEME" é um"gene cultural" que envolve algum conhecimento que passas a outros contemporâneos ou a teus descendentes.Os memes podem ser ideias ou partes de ideias, línguas, sons, dsenhos, capacidades, valores estéticos e morais,ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida enquanto unidade autónoma"

OPORTUNAMENTE sairá o DESAFIO.

quarta-feira, maio 16, 2007

Pura delícia da língua...




Pêssegos, peras, laranjas,
morangos, cerejas, figos,
maçãs, melão, melancia,
ó música dos meus sentidos,
pura delícia da língua;
deixai-me agora falar
do fruto que mais me fascina,
pelo sabor, pela cor,
pelo aroma da sílabas:
tangerina, tangerina

(Eugénio de Andrade)

terça-feira, maio 15, 2007

Uma esperança nova me impulsionará a seguir em frente...


Tenho reparado - e até agora não contei a ninguém- tenho reparado que de dia para dia, à medida que avanço para a improvável meta, do céu irradia uma luz insólita que nunca antes me aparecera, nem sequer em sonhos; e que as plantas, os montes, os rios que atravessamos parecem feitos de uma essência diferente dos da nossa terra e que o ar transporta presságios que não sei dizer.
Uma esperança nova me impulsionará a seguir em frente amanhã de manhã, na direcção daquelas montanhas inexploradas que as sombras da noite vão ocultando. Uma vez mais levantarei o acampamento, enquanto Domenico desaparecerá no horizonte do lado oposto, para levar à cidade tão longínqua a minha inútil mensagem.


Dino Buzzati (Os sete mensageiros)

segunda-feira, maio 14, 2007

Reflexos do Olhar XCII

(Aguarelas de Turner) a outra face da cerejeira

domingo, maio 13, 2007

AGUARELAS DE TURNER - dois anos

(Turner)
Turner na sua capacidade única de captar a luz da emoção constituiu-se me um dia como condensação do amor pela Vida. A simplicidade e a modernidade das suas Aguarelas ( vistas pela primeira vez em Madrid, e uma segunda, uma terceira e uma quarta em Lisboa...) produziram em mim um tão grande encantamento que, de forma atrevida, me apropriei um pouco delas, tentando colorir o espírito deste lugar com a sua luminosidade .
Ao longo destes dois anos a paleta da vida foi-me dando sentires vários que colori com o pincel da poesia, da prosa, da música , da pintura e dos meus modestos Olhares. O conjunto é desigual, marcado quantas vezes pela escassez do tempo ou pelo encontro acidental com o poeta, com a tela , com a fotografia...Trouxe-me contudo o prazer de interceptar formas diferentes de olhar, deixando-me também abrir aos olhares que outros foram fazendo ao longo do tempo sobre o que aqui brotava. Não mantive, de um modo geral, com os meus comentadores uma troca justa e recíproca, não porque os seus lugares me não tocassem, mas porque, as mais das vezes, o tempo que me restava era para publicar o post do dia, esgravatado em poucos instantes. Assim, queridos Amigos foi-me sempre grato ler o que foram escrevendo e, sobretudo, o que foram acrescentando, não pelo prazer do elogio mas pelo prazer do encontro.
Se o tempo e a disponibilidade assim permitirem gostaria de transformar este lugar numa coisa outra que ainda não tem forma, mas que dança já um desenho meu interior. Veremos se tal acontecerá. Até lá, continuarei a esgravatar sinais de vida nas diferentes formas de dizer daqueles que conseguem transpôr a planura da banalidade.




Reflexos do Olhar XCI

(Aguarelas de Turner) harmonioso equilíbrio

sexta-feira, maio 11, 2007

Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor...




Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.

Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.

Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Ás vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.

Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.


Uma lua confortavelmente instalada em nuvens, se desnuda na prosa

(Cecília Meireles)

quinta-feira, maio 10, 2007

Conhecer os instantes gomo a gomo....



(Rembrandt)

Sabedoria


gostava de saber dizer-te como se vem de longe
num pincel de rembrandt desde os lugares do junco
ou da selva ou da água ou só do norte e da neve

e nos sentamos aqui sob o azul dos plátanos: um
murmúrio incessante do mover das aves

suave é esta a sabedoria
conhecer os instantes gomo a gomo como um fruto
ainda verde a querer despontar iluminar-se e colhê-lo
breve nos nossos dedos inteiro

e sob a nossa voz a nossa boca o nosso olhar
não estar nenhum rumor nenhum silêncio nenhum gesto


de fascínio da monotonia, FAZER, publicações livres, 1982

(Francisco Manuel Viegas)

quarta-feira, maio 09, 2007

BOB DYLAN E JOAN BAEZ

Deve existir uma outra noite...

(Aguarelas de Turner)

deve existir uma outra
noite
onde caibamos todos


inocentemente felizes
a comer laranjas
e a discutir problemas de aromas
de flores


de Pequeno Livro da terra (Francisco Duarte Mangas)

terça-feira, maio 08, 2007

As palavras amendoam o sorriso..


(Fernand Léger)

As palavras amendoam o sorriso, amado, amada

conversam e conversam, deitados lado a lado

depois, e devagar, maciamente
passam à pele absoluta do silêncio


(Isabel Cristina Martins)

in «À Porta de Nárvia», Caminho, Lisboa, 1995

segunda-feira, maio 07, 2007

Anteontem - cadeiras...




Revelação

Hoje só fotografei árvores,
Dez, cem, mil.
Vou revelá-las à noite.
Quando a alma for câmara escura.
Depois vou classificá-las:
Segundo as folhas, os anéis dos troncos,
Segundo as suas sombras.
Ah, como as árvores
Entram facilmente umas nas outras!
Vejam, agora só me resta uma.
É esta que vou fotografar outra vez
E vou observar com assombro
Que se parece comigo.
Ontem só fotografei pedras.
E a pedra afinal
Parecia-se comigo.
Anteontem — cadeiras —
E a que resultou
Parecia-se comigo.

Todas as coisas se parecem terrivelmente
Comigo...

Tenho medo.

Marin Sorescu

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Enviado por Amélia Pais
http://barcosflores.blogspot.com/
http://cristalina.multiply.com/

Reflexos do Olhar XC

(Aguarelas de Turner) paralelos da Natureza

domingo, maio 06, 2007

Uma constelação de pontos púrpura pulsantes...

(Paul Klee)

Não havia mais ninguém neste mundo que ali pudesse estar para reparar, para testemunhar comigo aquele milagre, enquanto o universo parecia contrair-se no canto sinistro de uma velha loja de quinquilharias, e a eternidade se comprimia naquele momento em que varri a crosta da capa daquele livro bizarro. Tal como a pele de um peixe-trombeta bastardo apanhado à noite, a capa do livro transformou-se numa constelação de pontos púrpura pulsantes. Quanto mais limpava mais pontos apareciam, até a maior parte da capa ficar a brilhar. E, tal como o pescador nocturno que apanhou o peixe- trombeteiro bastardo, os pontos fosforescentes espalharam-se do livro para as minhas mãos, até ficarem cobertas de sardas púrpura, a piscar em esplêndida dissonância, tal como as luzes de uma cidade exótica e desconhecida vistas de um avião. Ao colocar as mãos luminosas em frente ao rosto, virando-as lentamente, maravilhado-mãos tão familiares, contudo tão alienígenas- era como se já tivesse começado uma perturbadora metamorfose.

(Richard Flanagan- O Livro dos Peixes de Gould)

O QUE SERÁ?

sábado, maio 05, 2007

Reflexos do Olhar LXXXIX

(Aguarelas de Turner) cerejeira em botão

sexta-feira, maio 04, 2007

Um pingo cai e forma uma rosa...

(Mona Cake)

Deste lado oiço gotejar
sobre as pedras.
Som da cidade ...
Do outro via a chuva no ar.
Perpendicular, fina,
Tomava cor,
distinguia-se
contra o fundo das trepadeiras
do jardim.
No chão, quando caía,
abria círculos
nas pocinhas brilhantes,
já formadas?
Há lá coisa mais linda

que este bater de água
na outra água?
Um pingo cai
E forma uma rosa...
um movimento circular,
que se espraia.
Vem outro pingo
E nasce outra rosa...
e sempre assim!

Os nossos olhos desconsolados,
sem alegria nem tristeza,
tranquilamente
vão vendo formar-se as rosas,
brilhar
e mover-se a água...

(Irene Lisboa)

Reflexos do Olhar LXXXVIII

(Aguarelas de Turner) um dia no Guincho

quarta-feira, maio 02, 2007

Vinha diurna de dentro de si mesma...

(Ingres)

Feliz era a nudez. Vinha diurna
de dentro de si mesma. Porque o dia
ressumbrava recente desde a sua
novidade de pasmo. E de pupila
apta à evidência. E, por isso, arguta,
sem deduzir-se duma argúcia activa.
Onde fossem seus passos a espessura
entregava o seu fervor de enigma
para depois, se recolher. Ter junta
e pronta a ordem de nova epifania.
Era a nudez da inteligência. Abrupta
e, ao mesmo tempo, de precisão tão íntima
que até os recantos justos da penumbra
recrutavam a luz da perspectiva.

(Fernando Echavarria)

Reflexos do Olhar LXXXVII

(Aguarelas de Turner)

terça-feira, maio 01, 2007

A gente é que faz o monstro crescer...



Lição de casa

Você tampa a panela,
dobra o avental,
deixa a lágrima secar no arame do varal.
Fecha a agenda,
adia o problema,
atrasa a encomenda,
guarda insucessos no fundo da gaveta.
A idéia é tirar a tarja preta
e pôr o dedo onde se tem medo.
Você vai perceber
que a gente é que faz o monstro crescer.
Em seguida superar o obstáculo,
pois pode-se estar perdendo
um espetáculo acontecendo do outro lado.
Atravessar o escuro
até conseguir tatear o muro,
que é o limite da claridade.
Se tiver capacidade para conquistá-la,
tente retê-la o mais que puder.
Há que ter habilidade, sem esquecer
que a luz é mulher.
Do inferno assim desmascarado,
é hora de voltar.
Não importa se é caminho complicado,
se a curva é reta,
ou se a reta entorta.
Você buscou seu brilho, voltou completa;
jogou a tranca fora, abriu a porta.


(Flora Figueiredo)

Amor a céu aberto, Editora Nova Fronteira, 1992 - Rio de Janeiro, Brasil

Cecilia Bartoli canta Mozart

Sabíamos do mar dos mapas, da cor azul do mar...


(G.Castello Lopes)

Sabíamos do mar sem o sabermos

Sabíamos do mar sem o sabermos,
do mar dos mapas, da cor azul do mar,
dos naufrágios no mar,
do sol solto no mar.

Sabíamos do mar sem o sentirmos
nos poros dilatados pelo mar,
o verdejante mar escalando as montanhas
tão bruscas como o sal.

Sabíamos do mar em sinuosos sinos
assinalando a noite
com corações arrepiados,
abertos como mãos
sulcadas de cabelos e molhadas
de rugas e escamas.

Sabíamos do mar em signos, símbolos,
tropos e metáforas.
Sabíamos do mar?
Sabíamos o mar.
Sabíamos a mar



António Rebordão Navarro
O Inverno
Poemas (1952 - 1982)
Imprensa Nacional Casa da Moeda