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domingo, abril 30, 2006

Possa agitar-me no vento e mostrar a cor ao mundo...




Pra sempre a Barca dos Amantes
Onde o que eu sei deixei de ser
Onde ao que eu vou não ia dantes

Ah, quanto eu queria conseguir
Trazer a Barca à madrugada
E desfraldar o pano branco
Na que for terra mais amada

E que em toda a parte o teu corpo
Seja o meu porta-estandarte
Plantado no céu mais fundo
Possa agitar-me no vento
E mostrar a cor ao mundo

Ah, quanto eu queria navegar
Pra sempre a Barca dos Amantes
Onde o que eu vi me fez vogar
De rumos meus, a cais errantes

Ah, quanto eu queria me espraiar
Fazer a trança à calmaria
Avistar terra e não saber
Se ainda o é quando for dia

E que em toda a parte o teu corpo
Seja o meu porta-estandarte
Plantado no seu mais fundo
Possa agitar-me no vento
E mostrar a cor ao mundo

Ah, quanto eu queria navegar
Pra sempre a Barca dos Amantes
Onde o que eu sei deixei de ser
Onde ao que eu vou não ia dantes

Ah, quanto eu queria me espraiar
Fazer a trança à calmaria
Avistar terra e não saber
Se ainda o é quando for

Sérgio Godinho

UM DOMINGO COM SÉRGIO GODINHO



OS AFECTOS

Ah, quanta mágoa
Ah, quantos sonhos incompletos
Mas oh, quanta palavra tomou vida
na nascente dos afectos
desorganizados alfabetos

Não sabe ler neles quem pensa
nem lhe conhece bem as cores
que por secundários os dispensa
aos afectos medidores
do corpo e da alma e seus sabores

Porque o quadrado da hipotenusa
é igual a já não sei quê dos catetos
a traça do passado é tão confusa
mas tão límpida a lembrança dos afectos
são fartos e temíveis
são as cordas sensíveis
quietos, irrequietos
p'ra sempre
politicamente incorrectos
os afectos, os afectos

Era de uma espécie quase extinta
foi encontrada adormecida
a cara talvez em paz, talvez faminta
esperando a investida
de um só beijo que a devolva à vida

Já que se pede ao amor loucura
não se lhe dê veneno à flecha
nem triste pecado à mordedura
abre o pano até que fecha
o amor busca nos afectos a deixa

Porque o quadrado da hipotenusa
é igual a já não sei quê dos catetos
a traça do passado é tão confusa
mas tão límpida a lembrança dos afectos
são fartos e temíveis
são as cordas sensíveis
quietos, irrequietos
p'ra sempre
politicamente incorrectos
os afectos, os afectos

Sérgio Godinho

sábado, abril 29, 2006

NUM DIA ESPECIAL, para um menino especial ( catorze anos de alegria)



A Paz

A paz é uma pomba que esvoaça livremente
num oceano sm fim
é uma esperança que sorri
a ti e a mim

Para alguns, apenas
uma simples palavra morta
Para outros,
alvo de chacota.

Mas não! É amor, amizade,
respeito, solidariedade...
Tantos conceitos são,
que não os consigo contar na verdade.

Nos tempos em que estamos
paz é um milagre!
Mas porquê? Se ela está
em nós, não é verdade?

Que se passa então?
Caos? Solidão?
Como pode a destruição
dominar sobre a criação?

Como pode o amor
renascer de tanta dor?
Vamos juntos pensar,
que só de nós a paz pode brotar.

Gonçalo O. Costa ( escrito em 5/03/o4)

sexta-feira, abril 28, 2006

De um jasmineiro os galhos encurvados...



Ses longs cheveux épars la couvrent tout entière.
La croix de son collier repose dans sa main,
Comme pour témoigner qu'elle a fait sa prière,
Et qu'elle va la faire en s' éveillant demain.

(A. de Musset)

Uma noite, eu me lembro... Ela dormia
Numa rede encostada molemente...
Quase aberto o roupão... solto o cabelo
E o pé descalço do tapete rente.

Stava aberta a janela. Um cheiro agreste
Exalavam as silvas da campina...
E ao longe, num pedaço do horizonte,
Via-se a noite plácida e divina.

De um jasmineiro os galhos encurvados,
Indiscretos entravam pela sala,
E de leve oscilando ao tom das auras,
Iam na face trêmulos — beijá-la.

Era um quadro celeste!... A cada afago
Mesmo em sonhos a moça estremecia...
Quando ela serenava... a flor beijava-a...
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...

Dir-se-ia que naquele doce instante
Brincavam duas cândidas crianças...
A brisa, que agitava as folhas verdes,
Fazia-lhe ondear as negras tranças!

E o ramo ora chegava ora afastava-se...
Mas quando a via despeitada a meio,
Pra não zangá-la... sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio...

Eu, fitando esta cena, repetia
Naquela noite lânguida e sentida:
"Ó flor! - tu és a virgem das campinas!
"Virgem! - tu és a flor de minha vida!..."

(S. Paulo, novembro de 1868)

Castro Alves

quinta-feira, abril 27, 2006

Certas noites sigo uma luz amarela...




SONHOS

Certas noites sigo uma luz amarela
até uma porta azul, onde se lê: Sonho.
A porta não é aberta por minha mão
nem sou convidado por uma mulher
pra comprar sonhos, e mesmo assim
sempre eles foram pagos por mim.
À noite não fiquei nada a dever.


Pierre Kemp (1886-19679)Uma migalha na Saia do Universo-antologia

quarta-feira, abril 26, 2006

E quebrando a cadeia libertaste os meus tornozelos...



O SEU TRIUNFO

Cumpri a vontade do dragão até que chegaste
Pois imaginara o amor uma improvisação
Casual, ou um jogo estabelecido
Que acontecia se deixava caír o lenço:
Melhores eram os actos que davam asas ao instante
E música celestial se lhe davam engenho;
E então ficaste entre os anéis do dragão.
Trocei, sendo louco, mas tu dominaste-o
E quebrando a cadeia libertaste os meus tornozelos,
São jorge ou talvez um Perseu pagão;
E agora olhamos assombradamente o mar,
E uma estranha ave milagrosa grita por nós.

W.B. Yeats (1845-1939)

terça-feira, abril 25, 2006

País de Abril é o sítio do Poema...



Explicação do País de Abril

País de Abril é o sítio do poema.
Não fica nos terraços da saudade
não fica nas longas terras. Fica exactamente aqui
tão perto que parece longe.

Tem pinheiros e mar tem rios
tem muita gente e muita solidão
dias de festa que são dias tristes às avessas
é rua e sonho é dolorosa intimidade.

Não procurem nos livros que não vem nos livros
País de Abril fica no ventre das manhãs
fica na mágoa de o sabermos tão presente
que nos torna doentes sua ausência.

País de Abril é muito mais que pura geografia
é muito mais que estradas pontes monumentos
viaja-se por dentro e tem caminhos veias
- os carris infinitos dos comboios da vida.

País de Abril é uma saudade de vindima
é terra e sonho e melodia de ser terra e sonho
território de fruta no pomar das veias
onde operários erguem as cidades do poema.

Não procurem na História que não vem na História.
País de Abril fica no sol interior das uvas
fica à distância de um só gesto os ventos dizem
que basta apenas estender a mão.

País de Abril tem gente que não sabe ler
os avisos secretos do poema.
Por isso é que o poema aprende a voz dos ventos
para falar aos homens do País de Abril.

Mais aprende que o mundo é do tamanho
que os homens queiram que o mundo tenha:
o tamanho que os ventos dão aos homens
quando sopram à noite no País de Abril.


Manuel Alegre
Praça da Canção

segunda-feira, abril 24, 2006

25 DE ABRIL




25 DE ABRIL

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo


Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, abril 23, 2006

O círculo é ciclo, é ciência...




O círculo...

O círculo é a forma eleita
É ovo, é zero.
É ciclo, é ciência.
Nele se inclui todo o mistério
E toda a sapiência.
É o que está feito,
Perfeito e determinado,
É o que principia
No que está acabado.
A viagem que o meu ser empreende
Começa em mim,
E fora de mim,
Ainda a mim se prende.
A senda mais perigosa.
Em nós se consumando,
Passando a existência
Mil círculos concêntricos
Desenhando.


Ana Hatherly

UM DOMINGO COM ANA HATHERLY






O que é o espaço?


O que é o espaço

senão o intervalo

por onde

o pensamento desliza

imaginando imagens?

O biombo ritual da invenção

oculta o espaço intermédio

o interstício

onde a percepção se refracta

Pelas imagens

entramos em diálogo

com o indizível



Ana Hatherly

Paisagens complicam-se...



Sítio Absorvido

II

Pelas extensas imediações do corpo
um calor circunvagueia.


Paisagens complicam-se, por minutos.


testes acolchoados diáfanas leis calculadoras,
Várias deusas contabilizam.


Imoderadas máscaras, imoderados risos
ó invasão, fascínio, ciclo!


Uma baía remata cada impiedade nossa.


Luiza Neto Jorge ( 1939-1989)
Poesia

sexta-feira, abril 21, 2006

O importante seria recolher o pouco que ele pudesse filtrar...




Certa manhã, durante um dos seus passeios de herbanário, houve um acontecimento insignificante e quase grotesco que lhe deu que pensar e exerceu sobre ele um efeito comparável ao de uma revelação que a um devoto viesse lançar luz sobre um dos santos mistérios. Tinha ele saído da cidade ao romper do dia, em direcção à orla das dunas, levando consigo uma lupa que, sob indicações suas, lhe fabricara um oculista de Bruges, e de que ele se servia para examinar de perto as radículas e sementes das ervas recolhidas.Por volta do meio-dia, deixou-se dormir, deitado de barriga para baixo numa cova aberta na areia, cabeça apoiada no braço e a lupa, caída da mão, pousada debaixo dele num tufo de ervas secas. Pareceu-lhe,ao despertar,distinguir,
mesmo junto à cara um animal extraordinariamente móvel, insecto ou molusco, que se movia na sombra. Era de forma esférica; a parte central, de um negro brilhante e húmido, era rodeada por uma zona de um branco.rosado ou baço; uns pêlos franjados cresciam em redor, saídos de uma espécie de mole carapaça castanha, toda gretada e empolada de bolhas. Uma vida quase horripilante povoava essa frágil coisa.Em menos de um instante, antes mesmo de formular um pensamento sobre o que se lhe deparava,reconheceu que aquilo que via mais não era de que um dos seus olhos reflectido e aumentado pela lupa, atrás da qual areia e erva formavam uma espécie de placa semelhante à dos espelhos. Pôs-se de pé, meditativo. acabava de se ter visto a ver-se; fugindo á rotina das habituais prespectivas, contemplara de perto o orgão pequeno e enorme, próximo e contudo estranho, vivo mas vulnerável,dotado de um poder imperfeito embora prodigioso, do qual ele dependia para ver o universo. Nada de teórico havia de extrair de uma tal visão que, curiosamente, viera aperfeiçoar o conhecimento de si próprio e, ao mesmo tempo, a noção dos múltiplos objectos de que se decompunha a sua personalidade. Como o olho de Deus em certas estampas, este olho tornava-se um símbolo.O importante seria recolher o pouco que ele pudesse filtrar do mundo antes de tudo escurecer, controlar o que ele testemunhasse e,se possível, corrigir-lhe os erros. Em certo sentido, o olho contrabalançava o abismo.

Marguerite Yourcenar ( A Obra ao Negro)

quarta-feira, abril 19, 2006

És um bosque inerte e vivo...




Na folhagem de um quarto um ovo azul murmura
a aliança da noite com as mãos
nas tuas veias acende-se de uma só vez a seda
és um bosque inerte e vivo no meu abraço
um só perfume de água nos cabelos

Sossego a tua nuca uma haste desliza no tapete
o teu dorso completa-se à volta do teu colo
e eu oiço-te sobre os olhos oiço-te sobre os ombros
a vertente que desce ao silêncio de um lago
a sombra de um barco no último muro da cidade.


António Ramos Rosa ( Respirar a sombra viva )

terça-feira, abril 18, 2006

Ramalha na colina, como rubor, o fogo...



O Regresso do Verbo

No princípio, o Verbo.E nele as águas,
o sol, o guincho dos pássaros, os ventos.


Ramalha na colina, como um rubor, o fogo.

E hoje, de novo, o Princípio. E nele as águas
e nelas a inocência:
o fresco riso de um menino nadador
que rompe no murmúrio das ondas que rompem.

Franciso Brines ( A última Costa)

segunda-feira, abril 17, 2006

Amor é o que se aprende no limite....



Amor e seu tempo

Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.


Carlos Drummond de Andrade

domingo, abril 16, 2006

UM DOMINGO COM CAMILO PESSANHA



VIDA



Choveu; e logo da terra humosa
Irrompe o campo das liliáceas
Foi bem fecunda, a estação pluviosa!
Que vigor no campo das liliáceas!

Calquem, recalquem, não o afogam.
Deixem.Não calquem. Que tudo invadem
Não as extinguem, porque as degradam?
Para que as calcam? Não as afogam.

Olhem o fogo que anda na serra.
É a queimada…Que lumaréu!
Podem calcá-lo, deitar-lhe terra,
Que não apagam o lumaréu.

Deixem! Não calquem! Deixem arder.
Se aqui o pisam, rebenta além.
- E se arde tudo?- Isso que tem!
Deitam-lhe fogo, é para arder…

Camilo Pessanha ( Poesias)

sexta-feira, abril 14, 2006

Apertando o livro...



Ignoro quantas horas permaneci naquele quarto passando em revista as fotografias e as cartas remetidas do Chile.Numa delas , datada de 1949, don Genaro falava do meu nascimento com palavras em que reconheci o tom que utilizava para explicar as suas ideias libertárias, ou para me chamar para a beira da sua oferta inconclusa.«Vem cá, vou falar-te de Pilar Solórzano.»
« Se pudesse vê-lo, Pilar…Um pequeno ser que consegue povoar o universo.Berrador , indefeso, caprichoso, mas capaz de até nos mais rudes fazer despertar o sentimento filial que faz de todos os homens uma grande família.Se pudesse vê-lo, Pilar…» Não quiz continuar a ler. Não consegui. Tinha vergonha de espiar aquela secreta, aquela secretíssima intimidade.(…)
Apertando o livro entrei num bar, e o calor do conhaque encheu-me de perguntas: terá don Genaro conhecido os misterios do amor guiado por aquela mulher? Tê-lo-á seguido até à América central? Terão tentado ser felizes lá nas Caraíbas? Quando se terá interposto entre eles a distância? Terão descoberto de repente que a armadilha dos anos se abria sem misericórdia por sobre as juras de amor, por sobre a febre da felicidade tão rapidamente nublada pela mesquinha razão?…Ou terá sido a guerra civil a causa de tal separação? E, do livro , terão lido juntos, por exemplo,«..de todos os inventos de Blasco de Garay o mais notável é a máquina que fazandar as naves sem remos e sem velas, antes comandadas pela domada vontade da água…»?
As páginas do livro tinham marcas deixadas pela humidade e manchas ocres que ameaçavam invadir os textos.Em don Genaro, a memória de Pilar Solórzano não teve manchas nem sombras.
Quero crer que aquele amor, como o livro, sobreviveu à noite do olvido, que no ocaso da sua vida Pilar Solórzano telefonou à irmã dizendo-lhe: Vem cá, vou falar-te de Genaro Blanco»-e, ao calar-se debruçada sobre o abismo dos anos, o silêncio compartilhado foi uma imaculada linguagem de amantes, mais poderosa que todas as ausências,que todas as dores, e que a força daquele amor se manteve alimentada pela certeza da minha inevitável chegada, prevista por uma inexplicável vontade que me escolheu como testemunha daquele desencontro no outro lado do tempo.

Luís Sepúlveda ( Desencontro do outro lado do tempo)

quinta-feira, abril 13, 2006

O génio de um pintor...é dar a um rosto humano a forma viva...



O génio dum pintor
É dar as cousas como Deus as fez
E como Deus, sonhando, as concebeu,
Bem antes de as criar. É dar o sol
E a sombra original que lhe embrandece
O ímpeto doirado a desfazer-se,
Em luminosa espuma, sobre o mundo.
É dar a um rosto humano a forma viva,
A claridade viva que ele trouxe
Do ventre maternal...
Esta anímica luz de simpatia
Que se exala, no ar, e vem de dentro
Dum coração a arder:
A nossa própria imagem condensando,
Através da aparência transitória,
A eterna aparição.


Teixeira de Pascoais ( Semelhança II )

quarta-feira, abril 12, 2006

A mágica presença das estrelas...




Das Utopias

Se as coisas são inatingíveis... ora!
não é motivo para não querê-las.
Que tristes os caminhos, se não fora
a mágica presença das estrelas!


Mário Quintana

terça-feira, abril 11, 2006

O Som é...



O Som é o espírito da cor.

Teixeira de Pascoais ( Aforismos )

segunda-feira, abril 10, 2006

Tem sempre Ítaca na tua mente...




Quando começares a tua viagem para Ítaca,
reza para que o caminho seja longo,
cheio de aventura e de conhecimento.
Não temas monstros como os Ciclopes ou o zangado Poseidon:
Nunca os encontrarás no teu caminho
enquanto mantiveres o teu espírito elevado,
enquanto uma rara excitação agitar o teu espírito e o teu corpo.
Nunca encontrarás os Ciclopes ou outros monstros
a não ser que os tragas contigo dentro da tua alma,
a não ser que a tua alma os crie em frente a ti.

Deseja que o caminho seja bem longo
para que haja muitas manhãs de verão em que,
com quanto prazer, com tanta alegria,
entres em portos que vês pela primeira vez;
Para que possas parar em postos de comércio fenícios
para comprar coisas finas, madrepérola, coral e âmbar,
e perfumes sensuais de todos os tipos -
tantos quantos puderes encontrar;
e para que possas visitar muitas cidades egípcias
e aprender e continuar sempre a aprender com os seus escolares.

Tem sempre Ítaca na tua mente.
Chegar lá é o teu destino.
Mas não te apresses absolutamente nada na tua viagem.
Será melhor que ela dure muitos anos
para que sejas velho quando chegares à ilha,
rico com tudo o que encontraste no caminho,
sem esperares que Ítaca te traga riquezas.

Ítaca deu-te a tua bela viagem.
Sem ela não terias sequer partido.
Não tem mais nada a dar-te.

E, sábio como te terás tornado,
tão cheio de sabedoria e experiência,
já terás percebido, à chegada, o que significa uma Ítaca.


Konstantinos Kaváfis

domingo, abril 02, 2006

UM DOMINGO COM CLARICE LISPECTOR




Precisão

O que me tranquiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.


Clarice Lispector

sábado, abril 01, 2006

Like the rivers flowing between your eyes...

( AGUARELAS DE TURNER)





Forte de Caxias, Fevereiro de 1952


Tenta ouvir, que é bem divertido…


SONG OF THE MORNING


Like the strange birds born in your mouth
like the rivers flowing between your eyes
like the esmeralds which form the wings of your shoulders
like the long branches of the sleeping tree of your arm
like the immense space where your body rests
lying on your on your own hand
like your shadow identic to the cloud
that meets the sea


Such is the presence I possess of you
in those nights when fire is set burning
in the faraway dazzling mountains
when my footsteps project me


To the highest solitary peaks
when blood sings
through the vibrant steel of my body
leading me along the the path with red flowers
which you planted

Such is my craving to find you
born in my hands
rising like the tower of a lost cathedral
wrapped in my mouth
walking with me
along the road which our feet will open triumphant.


Mário Henrique-Leiria ( Depoimentos escritos-contos,poemas e cartas de amor)