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sexta-feira, abril 14, 2006

Apertando o livro...



Ignoro quantas horas permaneci naquele quarto passando em revista as fotografias e as cartas remetidas do Chile.Numa delas , datada de 1949, don Genaro falava do meu nascimento com palavras em que reconheci o tom que utilizava para explicar as suas ideias libertárias, ou para me chamar para a beira da sua oferta inconclusa.«Vem cá, vou falar-te de Pilar Solórzano.»
« Se pudesse vê-lo, Pilar…Um pequeno ser que consegue povoar o universo.Berrador , indefeso, caprichoso, mas capaz de até nos mais rudes fazer despertar o sentimento filial que faz de todos os homens uma grande família.Se pudesse vê-lo, Pilar…» Não quiz continuar a ler. Não consegui. Tinha vergonha de espiar aquela secreta, aquela secretíssima intimidade.(…)
Apertando o livro entrei num bar, e o calor do conhaque encheu-me de perguntas: terá don Genaro conhecido os misterios do amor guiado por aquela mulher? Tê-lo-á seguido até à América central? Terão tentado ser felizes lá nas Caraíbas? Quando se terá interposto entre eles a distância? Terão descoberto de repente que a armadilha dos anos se abria sem misericórdia por sobre as juras de amor, por sobre a febre da felicidade tão rapidamente nublada pela mesquinha razão?…Ou terá sido a guerra civil a causa de tal separação? E, do livro , terão lido juntos, por exemplo,«..de todos os inventos de Blasco de Garay o mais notável é a máquina que fazandar as naves sem remos e sem velas, antes comandadas pela domada vontade da água…»?
As páginas do livro tinham marcas deixadas pela humidade e manchas ocres que ameaçavam invadir os textos.Em don Genaro, a memória de Pilar Solórzano não teve manchas nem sombras.
Quero crer que aquele amor, como o livro, sobreviveu à noite do olvido, que no ocaso da sua vida Pilar Solórzano telefonou à irmã dizendo-lhe: Vem cá, vou falar-te de Genaro Blanco»-e, ao calar-se debruçada sobre o abismo dos anos, o silêncio compartilhado foi uma imaculada linguagem de amantes, mais poderosa que todas as ausências,que todas as dores, e que a força daquele amor se manteve alimentada pela certeza da minha inevitável chegada, prevista por uma inexplicável vontade que me escolheu como testemunha daquele desencontro no outro lado do tempo.

Luís Sepúlveda ( Desencontro do outro lado do tempo)

2 comentários:

  1. Deixemos as cartas dos outros e olhemos os seus exemplos.

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  2. e eu tinha perdido o link pra cá. agora que já pus a leitura em dia, já o coloquei nos favoritos: não perco mais.

    um beijo daqui.

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