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sábado, dezembro 05, 2015

O que não daria eu...

Addiragram

Elegia da Lembrança Impossível

O que não daria eu pela memória 
De uma rua de terra com baixos taipais 
E de um alto ginete enchendo a alba 
(Com o poncho grande e coçado) 
Num dos dias da planície, 
Num dia sem data. 
O que não daria eu pela memória 
Da minha mãe a olhar a manhã 
Na fazenda de Santa Irene, 
Sem saber que o seu nome ia ser Borges. 
O que não daria eu pela memória 
De ter lutado em Cepeda 
E de ter visto Estanislao del Campo 
Saudando a primeira bala 
Com a alegria da coragem. 
O que não daria eu pela memória 
Dos barcos de Hengisto, 
Zarpando do areal da Dinamarca 
Para devastar uma ilha 
Que ainda não era a Inglaterra. 
O que não daria eu pela memória 
(Tive-a e já a perdi) 
De uma tela de ouro de Turner, 
Tão vasta como a música. 
O que não daria eu pela memória 
De ter sido um ouvinte daquele Sócrates 
Que, na tarde da cicuta, 
Examinou serenamente o problema 
Da imortalidade, 
Alternando os mitos e as razões 
Enquanto a morte azul ia subindo 
Dos seus pés já tão frios. 
O que não daria eu pela memória 
De que tu me dissesses que me amavas 
E de não ter dormido até à aurora, 
Dissoluto e feliz. 

Jorge Luis Borges, in "A Moeda de Ferro" 

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