quarta-feira, junho 09, 2010

« Que suis-je pour elle?»

                               (Monet) 
 (...)
 A mamã suspirou e ficou pensativa. O papá calou-se. Durante a conversa deles, eu sentia-me muito desconfortável.
 Depois do almoço fui para o jardim mas não levei a espingarda. Jurei a mim mesmo que não me aproximaria do « jardim Zassékin», mas uma força irresistível atraía-me para lá- e não era em vão. Mal me aproximei da cerca, vi Zinaída. Dessa vez estava sozinha. Com um livro na mão, andava devagar pela vereda. Não me viu.
Estive quase a deixá-la ir embora, mas caí em mim e tossiquei.
Virou a cabeça mas não parou, sacudiu da cara a larga fita azul-clara que lhe pendia do chapéu de palha redondo, olhou para mim, sorriu ao de leve e mergulhou de novo na leitura.
Tirei o boné e, depois de uns instantes de hesitação, dei meia volta e fui-me embora com a amargura no coração. « Que suis-je pour elle?»,pensei em francês, só Deus sabe porquê.
Nas minhas costas soaram passos familiares; olhei e vi o meu pai a aproximar-se com o seu andar rápido e suave.
- Aquela é que é a jovem princesa?-perguntou-me.
-É.
-Conhece-la?
Vi-a hoje de manhã, em casa delas.
O meu pai parou e, girando bruscamente nos tacões, voltou para trás. Quando chegou perto de Zinaída fez-lhe uma vénia educada. Ela retribui-lhe o cumprimento também com uma vénia e, com um certo espanto, baixou a mão com um livro. Vi como ela o seguia com o olhar. O meu pai vestia-se sempre com muita elegância, de maneira original e simples; mas nunca a sua figura me pareceu tão esbelta como dessa vez, nem o bonito chapéu cinzento lhe ficou tão bem a cobrir-lhe os caracóis quase tão fartos como na juventude.
Dei alguns passos até Zinaída, mas ela nem sequer olhou para mim; ergueu o livro e afastou-se.

(Ivan Turguénev- O Primeiro Amor)

Li da estante do meu pai " O Primeiro Amor" de Ivan Turguénev em anos de adolescência.
Que me terá ficado dessa leitura? Eis o que estou a tentar descobrir, depois de ter sido redespertada para esta obra por via de um blog de primeira qualidade que, desde o princípio, tem tido  o condão de me surpreender, de me maravilhar, e também, de me levar a discordar. Um blog que exerce um "efeito pensante", tendo a imensa qualidade de nunca me deixar indiferente. Um grande obrigada aqui a "Ponteiros Parados"!

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