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quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Havia tanta coisa a aprender...

                                                      
                                           (Picasso e Lumb)
Era a primeira vez em toda a sua vida que desfrutava da companhia de um animal. Em miúdo, os pais sempre se tinham oposto a que tivesse um animal de estimação. Gatos, tartarugas, periquitos, porquinhos-da-índia, peixinhos dourados-não, nem pensar, na casa dos Gurevitch não entravam bichos. O apartamento era demasiado pequeno, diziam eles; ou: animais em casa só trazem porcaria; ou: os bichos custam dinheiro; ou: Willy não era suficientemente responsável. Por conseguinte, até ao momento em que Mr.Bones entrou na sua vida, Willy nunca tivera a oportunidade de observar de perto o comportamento de um cão, e também nunca se dera ao trabalho de pensar muito no assunto. Para ele, os cães mais não eram do que vagas presenças, figuras imprecisas pairando no limiar da consciência. Evitava aqueles que lhe ladravam, fazia umas festinhas naqueles que o lambiam. Estes eram os limites da ciência canina de Willy. Subitamente, dois meses após o seu trigésimo  oitavo aniversário, tudo isso mudou.
Havia tanta coisa a aprender, tantas informações a assimilar, a decifrar, a entender, que Willy nem sabia por onde começar. A cauda a abanar em oposição à cauda entre as pernas. As orelhas espetadas em oposição às orelhas flácidas. O pôr-se de barriga para o ar, as corridas em círculos, as cheiradelas aos cus dos outros cães, e as rosnadelas,  os saltos género canguru e os rodopios no ar, o rastejar agachado como que à espreita da caça, os dentes arreganhados, a cabeça empinada e mais uma centena de pormenores, cada um deles a expressão de um pensamento, de um sentimento, de um plano, de um anseio. Willy achava que era com aprender a falar uma nova língua, como tropeçar numa tribo de homens primitivos há muito perdida e ter de decifrar os seus usos e costumes.

(Paul Auster- Timbuktu)

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